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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Café Royal LVIII

SATA

A história da SATA foi sempre uma aventura. Mas o que começou com a coragem e ousadia de um grupo de visionários empresários, apostados em criar uma centralidade açoriana, entrou, lentamente, numa rota agonizante. Como uma aeronave que se lança cegamente no mais violento dos cumulos nimbus. Nos últimos 40 anos, a companhia transformou-se num imenso tabuleiro de jogos políticos. Ao mesmo tempo, internamente, foi sendo tomada pelos interesses pessoais das suas inúmeras chefias. Encurralada num beco sem saída, literalmente como um avião voando sem combustível, a empresa vê-se hoje lançada ao turbilhão selvagem dos mercados. Em face das alternativas, a escolha é a privatização, abandonando-se o interesse público e abraçando o frio e calculista interesse privado, por mais românticos que venham a ser os cadernos de encargos. Num gesto em tudo semelhante aos muitos que foram tomados pelo anterior governo da república, o mais à direita desde a ditadura, que tudo vendeu, sem dó nem piedade. Infelizmente, essa escolha é tomada por um governo do Partido Socialista. Indesculpavelmente, essa decisão é tomada sem plebiscito, ao arrepio do seu programa eleitoral e de governo, como se a vitória em eleições fosse um cheque em branco que tudo permite. No fim, só isso ficará para a História…

in Açoriano Oriental

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Café Royal LVII

O Circo

A enxurrada de casos jurídicos transformados em notícias de última hora é ofegante e embriaga. Foi a Raríssimas, os bebés da IURD, bilhetes para a bancada VIP do estádio da luz, uma mulher assassinada depois de apresentar queixa por violência doméstica no Ministério Público, pop stars da magistratura suspeitos de vender sentenças, entre tantas outras parangonas da mesma laia num caleidoscópio inebriante e em que se mistura tudo e todos como se todo o país fosse habitado por arguidos. Pelas nossas ilhas é auditorias, comissões de inquérito, Asclépios e Arriscas. Se bem que estes dois são basicamente a mesma coisa. Hoje em dia, seguir as notícias, é mais ou menos como deitar de costas no balcão da tasca e enfiar por um funil pela goela abaixo não sei quantas garrafas de álcoois diferentes. O que vale é que no dia seguinte, contorcemo-nos com dores, mas não nos lembramos de nada. O problema disto tudo não está nas investigações, nem, tão pouco, nas notícias. Está, isso sim, na mistura entre as duas. Essa sangria barata feita de vinho de cheiro e gasosa entre casos de justiça e justiça feita nas televisões é que transforma o país num circo cheio de domadores, palhaços e malabaristas e em que nós, os cidadãos, somos tratados como bestas amestradas.

in Açoriano Oriental

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Café Royal LVI

Pontes

O distanciamento entre Madeira e Açores é tanto geográfico como histórico. Mas, paradoxalmente, os contactos entre os dois arquipélagos foram sempre muitos e variados, começando mesmo no dealbar do seu povoamento. Primeiramente habitada, é na ilha da Madeira que terão origem algumas das primeiras capitanias açorianas, da mesma forma que ao longo dos séculos foram os Açores o celeiro da Madeira. No entanto, a característica fundamental da relação entre os dois arquipélagos é a disputa entre si pela afirmação de cada um aos olhos da metrópole. Podemos até dizer que é esse, ainda hoje, o ponto primeiro do diálogo entre estas duas realidades arquipelágicas. Porém, à luz dos novos tempos, indica-nos a razão ser urgente a construção de pontes sólidas entre estas duas latitudes, há tanto desavindas. Pontes na mobilidade aérea e marítima, na representação europeia, nos domínios comercial, empresarial, turístico, ambiental, etc. São incontáveis os interesses comuns. Mesmo a afirmação da MACARONÉSIA como realidade simbólica e política transnacional, com afirmação europeia, só ocorrerá verdadeiramente quando Açores e Madeira estreitarem essas pontes. Esperemos que seja isso o que brotará dos apertos de mão que, por estes dias, trocaram Vasco Cordeiro e Miguel Albuquerque.
 

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Café Royal LV

“Centrão”

A vitória de Rui Rio abre um novo ciclo no cenário político português. O ciclo do “Centrão”. Todos conhecemos o carinho que Costa e Rio nutrem um pelo outro, nem os próprios o disfarçam. Costa recebeu o novo líder do PSD com ouro, incenso e mirra. E Rio não parou de apregoar as virtudes do “centrão”. Costa e Rio, dois veneráveis decanos das lides políticas e partidárias desejam, como pão para a boca, com o beneplácito papal de Marcelo, ofertar ao país o mítico El Dorado do Bloco Central, qual fonte da eterna juventude. Mas o problema está em que a única ambição do grande “centrão”, com os seus caciquismos, estratagemas, artimanhas, conluios e essas pútridas máquinas de formatar votos e eleitores, é a sua perpetuação no poder. O esboroar da Esquerda e da Direita, a morte das ideologias, deu nisto: a única inquietação do “centrão” é a sobrevivência dos seus aparelhos, para a qual o país é apenas um instrumento e, nós todos, nada mais do que um meio para esse fim. Coincidência, ou não, a vitória de Rio deu-se no mesmo momento em que na Alemanha Merkel e Schultz apertaram a mão para um novo entendimento ao centro, mas um centro todo ele baloiçado para a Direita. Para onde balanceara o nosso “centrão” nacional?

in Açoriano Oriental

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Café Royal LIV

Os Açores

Ao longo da História, as ilhas foram sempre a sua localização. “A importância internacional dos Açores foi lhe sempre atribuída […], pelo contexto da política internacional. A Horta já foi mais alemã e inglesa, e o porto de Ponta Delgada mais norteamericano do que britânico, ou francês […]; a Terceira, mais britânica e Santa Maria, mais americana, […] e até ainda há pouco tempo as Flores albergavam observadores balísticos franceses.” Explicou Medeiros Ferreira. Não compreender o valor arquipelágico das ilhas é falhar perceber os Açores. Nos últimos meses assistimos, com espanto e pavor, a uma incompreensível e inaceitável diatribe da Terceira contra São Miguel. Por causa do dossier Lajes, têm-se alimentado visões bairristas do arquipélago, sem o mais básico sentido histórico e noção do papel fundamental que cada uma destas nove ilhas, abraçadas de mar, têm para com cada uma das outras… Estar na Horta, com ou sem um copo de gin, pousar o olhar no canal e admirar a montanha que se agiganta acima do mar, desafiando o céu com a sua grandeza de vulcão é, se não toda, parte fundamental, da essência açoriana. Não saber aceitar isto é não saber nada. É não merecer ser Açores, seja no Royal, no Atanásio ou no Internacional…

in Açoriano Oriental

 

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Café Royal LIII

Reinvenção
 
Foi esta a expressão escolhida por Marcelo para marcar a sua mensagem de ano novo. Reinvenção do futuro, é o que o presidente vem pedir ao país, em particular ao atual governo, ungindo-se de um caracter messiânico, qual D. Sebastião soerguendo-se das chamas de um país calcinado. Olhando 2017 há, de facto, uma sensação profundamente amarga de um país bipolar. Por um lado, um Terreiro do Paço capaz das maiores façanhas políticas e financeiras. Por outro, todo um país deserto, envelhecido e carbonizado. A invectiva a uma regeneração que vá para além da mera reconstrução contabilística ou de engenharia civil parece, sem sombra de dúvida, um imperativo nacional. Mas onde S.Exa. o Presidente da República falha é na necessária contrição pública pelo que ficou para trás e nas suas próprias responsabilidades, seja como político, seja como pitonisa televisiva. O sistema politico partidário português, saído de Abril, degenerou numa rede sub-reptícia de aproveitamentos privados, abstraindo-se, totalmente, daquilo que o país é e precisa. Talvez a maior reinvenção que seja preciso fazer hoje, em Portugal, é de políticos e de políticas, regenerando-se algo tão simples como o interesse público. Mas, para isso, não chega tirar selfies e cultivar os afectos…
 

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Café Royal LII

No escuro…

É sabido que existe um clima de elevada acrimónia entre políticos e jornalistas, entre os media e governos. E a coisa piora quando o governo é de esquerda e a comunicação social de direita. Mas, muitas das vezes, nem tudo é como é noticiado, nem tudo o que realmente é decido pelos políticos e governantes é como parece. Mas, também, não deixa de ser verdade que são os próprios políticos e governantes que se põem a jeito, levando-nos a todos à beira da suspeição, para não dizer do desespero. O mais recente episódio foi o da lei de financiamento dos partidos, alterada em reuniões à porta fechada, sem atas nem registos. De uma assentada os partidos com acento parlamentar na Assembleia da República, com exceção de PAN e CDS, aprovaram mais um rol de medidas para tornar ainda mais escandalosa a sua vida financeira. Ele é isenções, financiamentos sem limite nem fiscalização e todo um outro conjunto de benesses e prebendas, enquanto que ao cidadão comum a Autoridade Tributária penhora sem dó nem piedade por dívidas de meio tostão. E tudo isto é aprovado em vésperas de consoada, na esperança pútrida de que entre o peru e o bacalhau o eleitor não dê por nada. Talvez os políticos queiram mudar o velho ditado para: “é Natal, ninguém leva a mal…”

in Açoriano Oriental

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Café Royal LI

No Natal

Não se deixem subordinar pelas compras, as prendas, os laços e os embrulhos. Ofereçam sentimentos. Ofereçam-se, em gestos, emoções e comprometimento. Comprem ingredientes, ingredientes que se possam imbuir de amor e partilha e felicidade. Fujam do bacalhau e do peru, escolham borrego, perna de borrego, como se fosse Páscoa (só para chatear o Natal). Rosmaninho, alho e limão e tempo no forno lento com sal e pimenta a gosto. Fujam das batatas que são chatas. Celebrem o arroz, basmati, com pistachios ou pinhões, ou só aromatizado com manjericão ou coentros ou cominhos. Escolham cervejas! Deixem descansar os vinhos, os vinhos estão sempre em todas as mesas em todas as festas. Bebam cervejas, espumantes e champanhes (soltem gazes, mesmo que às escondidas). Inventem licores com álcool e sabores. Façam com que todas as sobremesas sejam gelados, como se fosse verão e o calor estivesse dentro de nós. Convidem os amigos, a verdadeira família são os amigos, dentro ou fora da família… Não sejam cínicos nem hipócritas. Ofereçam meias aos irmãos e livros aos primos afastados. Encham um frasco com uvas e aguardente e comam as uvas na passagem de ano, em vez das passas que são monótonas. Ou então, esqueçam o Natal e existam, realmente…

in Açoriano Oriental

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Café Royal L

A Ética

Não é fácil determinar quando a imoralidade tomou posse da coisa pública. Mas é de cristalino entendimento que foi o dinheiro, na sua escabrosidade, que se apossou e alimenta essa fogueira onde se incendeiam as virtudes. Vivemos na era do consumo, em que o capital é a medida de toda a felicidade. Tão longe estamos de Aristóteles, que apontou a Felicidade como a finalidade suprema da existência e possível de obter apenas pelo caminho da ética. Hoje, a felicidade vem em maços de notas, cartões gold, gadgets, smartphones, automóveis, viagens em executiva, gambas de lojas de luxo e inúmeros outros tipos de quinquilharias topo de gama. É a ética ou, mais correctamente, a falta dela, que explica casos como o da Raríssimas. E é também a falta de ética que explica a miríade de outros casos e comportamentos semelhantes que pululam por todo o tipo de associações ou similares por esse país fora. Mas a culpa não é só individual. Não está nas decisões e atitudes, mais ou menos autoritárias e ignorantes, deste ou daquele(a) presidente. A culpa está no Estado, está nos sucessivos políticos e governantes que criaram, promoveram e se enredaram neste tipo de organizações, permitindo-se, por acção ou omissão e na obscuridade da sua administração, sorver milhões de euros de dinheiros públicos para vícios privados. Basta!
 

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Café Royal XLIX

Liberdade

Sou livre? Mais de quarenta anos depois do 25 de Abril, façamos, a cada um de nós, essa pergunta. Seremos realmente livres? Criamos uma sociedade subjugada ao peso de inúmeras responsabilidades, de infinitas hierarquias, poderes discricionários e dependências. Estamos viciados na inexorabilidade do tempo, de datas fixadas em calendários comerciais e deixamos tudo correr, de dia em dia, de factura em factura, de Natal em Natal. Cabisbaixos, na letargia dos compromissos, vamos executando ordens, submissos à ditadura dos automatismos do sistema. Ditadura das prestações e dos saldos bancários. Ditadura dos filhos e da escola. Do trabalho, dos chefes e patrões. Da desconfiança e da inveja. Da Autoridade Tributária. Dos chicos-espertos, dos aldrabões, dos corruptos, dos desavergonhados e dos que sucumbem ao medo. 40 anos depois de Abril vivemos numa democracia amordaçada pelo dinheiro e pelos que o manipulam. A liberdade é uma inquietude permanente, um esforço diário, uma luta com o mais íntimo de nós e com o que nos rodeia. Um fio de prumo na balança entre o bem e o mal, na dicotomia das nossas escolhas. Reconquistemos a Liberdade, é tempo de resgatar a liberdade! A nossa e a dos outros, para nós e para os outros, antes que seja tarde de mais…
 

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Café Royal XLVIII

$$$ e ???

Nas últimas semanas a agenda noticiosa viu-se tomada pelas discussões do Orçamento. O assunto, já estéril de si, tornou-se ainda mais esdrúxulo com a sua redução ao ping-pong dos cifrões e, pior, à ausência de questões. No atual discurso político e jornalístico, os debates sobre planos e orçamentos tornaram-se numa batalha de milhões para cá, milhões para lá, sem explicação ou contraditório. Investimento, receita, défice e outros tantos jargões de economicês são, hoje, a litania dos tarefeiros da politiquice e dos precários do jornalismo. Os governos anunciam não sei quantos milhões para isto e aquilo, sem indicar como, nem onde, nem, mais importante, porquê e para quem, e os jornalistas, que deviam, obrigatoriamente, fazer a destrinça, engolem e não questionam. É como se as nossas vidas, as pessoas e toda a sociedade, se pudessem reduzir a folhas de Excel, convenientemente formatadas e incontestáveis. São aos pontapés os exemplos de cifrões atirados ao ar pelos gabinetes de comunicação, que depois tem explicação zero… Ou, então, o exemplo do Vice-presidente que anuncia a pretensão de limitar a 12 anos o tempo máximo de desempenho de cargos de chefia na Administração pública e ninguém pergunta como, nem porquê ou, já agora, porque não o mesmo limite para o desempenho do cargo de vice-presidente?

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Café Royal XLVII

Fim da Utopia?

Um dia os historiadores dirão que foi a maior Utopia do século. O Estado Social, nascido da devastação da guerra, mas alicerçado na luta liberalismo vs. socialismo, visava garantir a paz e o bem-estar, colocando o Estado, ou a governação, como garante das necessidades elementares da população - Educação, Saúde e Trabalho (ou welfare na aceção anglo-saxónica). Um estado, não necessariamente igualitário, mas, fundamentalmente comunitário, onde, independentemente das diferenças entre as pessoas, o bem-comum é a argamassa que nos une, em sociedade. Estará o Estado Social morto? Olhando os sinais, somos tentados a pensar que sim. Corrupção, desigualdades, insegurança, desemprego, especulação financeira, individualismo, egoísmo, etc. São inúmeros e assoberbantes os ingredientes da sopa cultural em que vivemos e que indiciam o estado moribundo desse ideal. Neste tempo de supremo egocentrismo, a razão de ser de cada um é ele e não o outro. A governação é eleitoral. Os interesses corporativos sobrepõem-se aos comunitários. O capital extingue o humano. Insuflados de nós próprios, deixamos de cuidar da Terra e uns dos outros, esquecendo que, e citando John Donne, “nenhum homem é uma ilha, cada homem é um pedaço do continente, estamos todos envolvidos na humanidade”.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Café Royal XLVI

No Café,

a malta não tem Twitter. Não surfa a rede e emprenha pelas redes sociais. No café, entre duas minis e um pingado, a malta olha os dias entrecortados de chuva e sol e sente a mudança do clima na força do mar que bate nas rochas. Não são precisos vídeos do Youtube para perceber a seca ou a chuva que já não chega na estação certa. No café, o Panteão é o da memória. Das histórias partilhadas que fazem viver os exemplos dos que nos precederam. Das imagens que se guardam e se transmitem pelas gerações. No café não há sarcófagos invioláveis e estátuas sacralizadas, como nas mais inefáveis ditaduras. No café, a malta espreita os rodapés dos noticiários e suspira. Que país este em que se perdem dias e horas a debater o supérfluo. Onde pessoas, na sua desgraça, são selfies para um presidente que fez da vaidade um argumento político. Onde o primeiro-ministro não se sabe dar ao respeito de não mentir e, principalmente, não governar pelo vento do Facebook. Onde se consegue auditar um Orçamento em 48 horas e secretários regionais resumem as nossas vidas a mais ou menos milhões de questionáveis investimentos, como se as nossas vidas se pudessem resumir a meros cifrões feitos lápides no cemitério árido da eleitoralice…

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Café Royal XLV

Do alheamento

De uma chaminé alta e metálica sai vapor. Invisíveis, as bactérias flutuam pelo ar. Pessoas morrem. Numa igreja, familiares choram a morte e indivíduos cumprem, automatizada e absurdamente, a ordem de recolher os corpos em sacos de plástico. Num pavilhão, centenas de seres (supomos que) humanos ouvem embasbacados as palavras de uma máquina quase humana. Num hospital, há mais de trinta seres ainda humanos infetados por um vírus, criado por aparelhos de ar-condicionado que, em ambientes toxicamente climatizados, pretendem defender-nos de sentir a passagem das estações. É esta a crónica do nosso tempo, o tempo do alheamento, da ausência de Humanidade no Humano. Ébrios de tecnologia, perdemos a noção de nós e do outro, dos princípios básicos do que nos faz Seres Humanos, do que nos impede de ser meros animais ou autómatos. Coisas tão simples como respeito, sensibilidade, até mesmo compaixão e amor. As nossas sociedades tornaram-se tão mecânicas que a pessoa responsável por libertar uma verba financeira contamina a pessoa responsável por fazer uma vistoria, que contamina a pessoa que morre, que contamina a pessoa que ordena a interrupção de um velório, esquecendo-se, todas elas, que do outro lado das suas ações estão outras pessoas, numa corrente perpétua de obsceno alheamento…

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Café Royal XLIV

Liderança

“Liderem-me, sigam-me, ou saiam-me da frente!” é uma frase atribuída ao General Patton, uma das grandes figuras da II Grande Guerra. Patton destingiu-se pela forma destemida como comandou os exércitos americanos em diferentes campos de batalha, no norte de África, no Mediterrâneo e na Normandia. Mas a sua imagem ficou também marcada pela forma como se dirigia às tropas em discursos pouco ortodoxos, mas altamente motivacionais: “as guerras ganham-se fazendo com que os outros cabrões morram pela sua pátria e não nós!”. Esta evocação do famoso general vem a propósito não de Marcelo ou Costa (ou Rio e Santana…) ou de outros pequenos lideres que pululam pelo país (e pelos verdes pastos das ilhas), mas sim do Sr. Puigdemont da Catalunha. Aquilo a que temos assistido é à demonstração paradigmática de como não há revoluções sem líderes e de que não é líder quem quer, mas quem o traz dentro de si. A forma acanhada e cambaleante como o Sr. Puigdemont tem tentado liderar a questão catalã é penosamente reveladora de como o tacticismo político, por melhor que sirva na gestão de assuntos palacianos, é a antítese da bravura e da intuição que se exigem aos grandes lideres nos grandes momentos. Olhando em volta, cá e lá, vemos enormes desafios, mas pequenos lideres. Que a sorte nos acompanhe…

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Café Royal XLIII

Excelentíssimo

Senhor Presidente da República, Professor Marcelo Rebelo de Sousa. Seja S.Exa. bem-vindo à ilha de São Miguel. É com agrado que esta ilha o recebe, confiando que desta convivência possa S.Exa. levar consigo um mais aprofundado conhecimento da realidade destas terras que são parte indelével daquilo que faz de Portugal grande aos olhos do mundo. É precisamente por isso que não posso deixar de me dirigir a S.Exa. para lamentar profundamente o momento da sua visita. Certamente S.Exa. saberá que decorre nestes mesmos dias, na Guiana Francesa, a XXII Conferência de Presidentes das Regiões Ultraperiféricas da União Europeia. Este relevante fórum europeu é de fulcral importância para os Açores, por maioria de razão para Portugal, e ocorre num momento de particular pertinência para a Europa, comprovado pela presença do Presidente da Comissão e do Presidente Francês nesta reunião. Cumpre louvar a boa educação do Presidente do Governo Regional em abdicar de estar presente na CRUP para o receber. Mas cumpre, também, censurar a falta de respeito de uma presidência que, não só, divide os Açores ao meio, como não sabe ver que é mais importante para estas ilhas a CRUP do que S.Exa. vir dar aulas e comer queijadas, por mais saborosas que sejam as nossas maravilhosas Queijadas da Vila. Atenciosamente

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Café Royal XLII

O Bem Público

Valor supremo num Estado democrático é o bem público. Valor sagrado para a República em que o bem de todos os cidadãos, iguais aos olhos do Estado, é principio e fim da razão de toda a governação. Os que são eleitos são-no com essa responsabilidade, de agir para e zelar pelo bem público. Mandaria, também, a ética que esse fosse, quase como um sacerdócio, o desígnio último de quem ocupe cargos públicos. Infelizmente, essa vocação parece hoje cada vez mais alheada dos nossos políticos. A acusação a José Socrates, escândalo de proporções dantescas de promiscuidade entre o interesse público e privado é, independentemente da culpabilidade dos envolvidos, um caso que mina profundamente a solidez do regime precisamente naquela que deveria ser a base fundamental do mesmo: a confiança depositada pelos cidadãos nos seus eleitos e a responsabilidade destes em cuidar pelo bem de todos. Também, nessa tragédia de proporções bíblicas a que assistimos, outra vez, nos últimos dias, do país em chamas, é a fé das pessoas na governação que se vê, talvez irremediavelmente, destroçada. Por cá, foi desmascarada uma rede de corrupção, naquilo que poderá ser o levantar do véu de uma vasta epidemia de corrosão dos interesses públicos. A obrigação dos nossos eleitos é resgatar de novo para a governação o primado do Bem Público, antes que seja tarde de mais…

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Café Royal XLI

As pessoas

Sobre a “questão” catalã, há dois aspetos que importa destacar. 1.º O papel das “esquerdas” – os ideais progressistas são, iminentemente, universalistas, (veja-se a Internacional Socialista). Balcanizar estes ideais em problemáticas geográficas ou, mais grave ainda, nacionalistas, é uma contradição e provoca uma erosão da sua condição humanista, condenando-os a mero contraponto regional dos imperialismos capitalistas que deviam combater. 2º A União Europeia – ao se agarrar, de forma cega e surda, a uma ideia de estados-nação, inamovíveis e imutáveis, aumenta o fosso que a separa dos cidadãos colocando, ainda mais em dúvida, aos olhos das pessoas, a sua utilidade. A discussão sobre a independência da Catalunha, ao tornar-se numa batalha entre progressistas e conservadores, representa uma sul-americanização do debate político europeu, em que duas ideologias diferentes, sob a bandeira da autodeterminação, lutam não já por um ideário político concreto, mas apenas por um quinhão geográfico de poder. Porém, é aqui, na síntese destes dois dilemas e pela definição de uma nova Europa de cidadãos e de regiões, que poderá nascer uma união com instituições verdadeiramente próximas das pessoas. Isto sim seria um ideal progressista, mas a mera independência não…

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Café Royal XL

Eu acuso!

“Num arquipélago oceânico com uma tradição balnear multissecular, a regulamentação das questões relacionadas com a utilização balnear das suas águas, em especial das águas costeiras, assume uma particular importância na defesa da segurança e saúde das pessoas e na criação de condições de promoção das atividades económicas ligadas ao turismo e ao mar.” Este é o primeiro paragrafo do DLR n.º 16/2011/A, que “estabelece o regime jurídico da gestão das zonas balneares, da qualidade das águas (…) e da prestação de assistência nos locais destinados a banhistas”. Ora, nos últimos dias, dois turistas estrangeiros morreram nas praias da Ribeira Grande. A responsabilidade por estas mortes é da Câmara e do Governo. E é-o porque são estas entidades que têm por obrigação definir as zonas e as épocas balneares, bem como a sua segurança. Mas, por razões meramente financeiras, optaram por um período ridículo, de Junho a Setembro, (algumas câmaras menos ainda!) reduzindo ao mínimo a despesa com segurança e limpeza. Estas opções são criminosas! A verdade é que os Açores não têm uma “tradição balnear multissecular”. Se tivessem, existiria já um corpo permanente de nadadores-salvadores, tutelado pela Proteção Civil, com a responsabilidade de assegurar, o ano todo, que não haja mortes, não pelo turismo, mas pelas pessoas…
in Açoriano Oriental

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Café Royal XXXIX

Qualificação

Subitamente, todos falam em qualificação. Comentando o anúncio do voo da Delta o líder dos empresários locais chamou à atenção para o imperativo de qualificar a oferta turística da região. O que surpreende não é o conteúdo, mas o momento. Os Açores, desde há muito, que deviam ter concentrado todos os esforços no desafio da qualidade! Devíamos, políticos e empresários em conjunto, ter feito apostas claras para a qualificação do Destino, mesmo antes da abertura do espaço aéreo! O que choca é que, saídos da crise e perante o crescimento dos números, a maioria dos empresários foi capaz, apenas, de subir preços, baixar os serviços, aumentar capacidade e salivar com as hordas de ryanairianos que pulularam pelas ilhas nestes três verões. Entretanto, os políticos foram-se gabando dos dois dígitos das estatísticas e deslembraram os seus próprios programas de governo… As últimas notícias obrigam a perceber que o Turismo na região só terá futuro com uma aposta clara na sua qualificação como Destino. Isto é: melhorar hotéis, restaurantes, alojamentos, serviços, mão de obra qualificada, oferta de lazer, cultura, museus e, até, mais nadadores salvadores… enfim… é preciso pensar em quase tudo. Mas, para os empresários basta ter aviões cheios e para os políticos tudo se resolve com uns míseros polícias sinaleiros nas cumeeiras dos vulcões…