sexta-feira, 5 de março de 2010
Piadas de ocasião
Ao que dizem os jornais, a opinião pública alemã, tendo como porta-voz o Bild e os deputados do liberal FDP, aconselharam o governo Grego a vender algumas das suas ilhas para equilibrar o défice e vencer os problemas financeiros do país. Pondo de lado a óbvia arrogância germânica, fica a impressão de que os próprios alemães não se aperceberam ainda da sua posição na Europa. Basta ir a Creta, ou passear na baixa de Quarteira para compreender que há muito que isto foi vendido ao norte da Europa. Aliás, veremos se quando Portugal chegar ao fundo do fundo, como a Grécia, os nossos amigos escandinavos não quererão comprar os Açores a retalho – o Grupo Oriental aos finlandeses; o Grupo Central aos suecos e dinamarqueses; e o Grupo Ocidental aos noruegueses, que assim como assim também não fazem parte da União Europeia.
quinta-feira, 4 de março de 2010
A liga dos pais extraordinários
Dizem as convenções que as crianças são a melhor coisa do mundo e até já ouvi umas quantas almas dizerem que ser pai/mãe foi a coisa mais fantástica que lhes aconteceu na vida. A cada uma dessas declarações reajo sempre com pasmo e uma ligeira sensação de inveja. É que, devo confessar, não obstante a imensa paixão que nutro pela minha filha, ser pai foi/é a coisa mais difícil que alguma vez tive que fazer na vida. E não falo apenas das grandes questões - as dúvidas sobre o futuro, a completa alteração nos padrões de vida, a obliteração do Eu. Falo apenas das pequenas coisas - das fraldas, as unidoses de soro fisiológico pelo nariz, a tralha toda que se transporta para uma pequeníssima saída de casa, o preço das consultas do pediatra, as mil e uma variações de papas e leites e biberões. Essa imensa constelação de pequenos nadas que transformam a vida de um jovem pai num purgatório. Isto já para nem falar no verdadeiro quinto círculo do inferno chamado privação de sono... mas concentremo-nos nas pequenas coisas: o biberão. (Já agora, deixo aqui a questão se biberão ou biberon?) Encontrar o biberão adequado é uma verdadeira aventura digna de salteadores do biberão perdido. A correcta adequação entre tetina e recipiente, se tetina de silicone ou borracha, o centígrado da temperatura, depois a forma acertada de agitar o biberão para dissolver apropriadamente o pó para que não se formem grumos que entopem a tetina e aborrecem o bebé, e todos os pais sabem que um bebé aborrecido leva a choro que por sua vez leva a uma mãe enfurecida e a um pai no sofá da sala... adiante. Fazer um biberão é uma arte, ao nível dos melhores bartenders dos melhores clubes londrinos. Aquecer a água ou não aquecer, tê-la apenas tépida, por todo o pó de uma vez ou ir misturando lentamente, usar ou não usar uma vareta ou colher (há quem prefira usar um garfo), devidamente esterilizados obviamente, para misturar, agitar para cima e para baixo ou agitar de forma circular entre as palmas das duas mãos, ou ainda agitar de forma pendular com um jeito de pulso, juntar a doze correcta de papa de biberão... enfim, fazer um biberão não é só fazer um biberão é toda uma formação e cansaço... mas para cada pai estafado existe uma mãe preocupada com o casamento e recentemente a minha ofereceu-me este fabuloso instrumento: o Lump-free Blender da Béaba, que rapidamente se tornou no meu melhor amigo. Agora o biberão das cinco da manhã só me obriga a estar acordado até aos 180 ml de água, seis colheres de Aptamil 1 e três de papa de biberon Nutribén, o resto são as pás e as duas pilhas AA do Béaba. Agradeço e recomendo. É um verdadeiro salva-vidas.
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a liga dos pais extraordinários
segunda-feira, 1 de março de 2010
das "notícias" e dos directos...
Não há nada de que os vendedores de jornais gostem mais do que de uma catástrofe. Cada tsunami, aluimento ou tremor de terra contabiliza logo mais não sei quantos milhões de exemplares vendidos ou mais não sei quantos pontos nos índices de audiências. E, isso é tudo o que um CEO de uma empresa que vende "notícias" quer ouvir. Aqui há dias, o Dr. Alberto João Jardim, do alto da sua circunstância e fiel ao seu figurino, lançou à Judite de Sousa, para quem não sabe uma proeminente jornalista do Canal 1, (uma espécie de Miguel Sousa Tavares de saias, blush e eyeliner) a seguinte atoarda – a senhora vai-se calar que eu vou dizer o que quero e vocês jornalistas vão mas é piar fininho! Não foi bem assim, mas é como se fosse. Hoje morreram duas pessoas numa grota no Nordeste. Mais do que o temporal, a chuva, o vento ou o fatídico acidente o que invadiu as rádios e as televisões em cada noticiário, em cada repetido directo, foi a hipótese de sangue, a ânsia de sofrimento, o desejo de dor. O lugar da informação foi ocupado vampirescamente pela voracidade do espectáculo. O decoro, essa arte antiga, que requeria respeito e contenção, foi contemporaneamente derrubado pela alarvice do em-directo-da-rua-que-vai-dar-à-grota-onde-parece-que-morreu-uma-criança-e-o-pai-e-mais-duas-crianças-ficaram-feridas... "Dois pais nossos e três aves marias" por concordar com o Alberto João, mas ao jornalismo o que é jornalismo e à pornografia o que é ...
mas o pior talvez seja que para cada jornalista com fome de sensacionalismo haja logo atrás um político com ganas de populismo...
sic transit gloria mundi
mas o pior talvez seja que para cada jornalista com fome de sensacionalismo haja logo atrás um político com ganas de populismo...
sic transit gloria mundi
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Madeira
Em poucas horas a ilha da Madeira foi acometida pelo Terror. Um dilúvio... bíblico, como se um castigo. Como se aos olhos da Natureza a única medida do homem fosse a impotência e o choro. Perante o que sucedeu na Madeira, impõe a dignidade que saibamos guardar os raciocínios culpabilizadores, que se contenham as sentenças, que se respeite, nem que por poucos momentos, a dor. Na voragem da notícia e no maniqueísmo actual dos certos e dos errados, em plena tragédia surgiram as vozes gritantes da censura dos actos, dos planeamentos, das escolhas, num bombardeamento político absolutamente terrorista. É lancinante constatar que na nossa sociedade existem aqueles que nem perante a natureza e a morte sabem pousar as espadas. Independentemente do que possamos pensar sobre os nossos adversários, ou opositores, nada lhes pode retirar a humanidade sob pena de nós próprios nos tornarmos nos algozes. Por outro lado, há uma imensa arrogância em pensar que a racionalidade humana se pode opor ao poder magnânimo das forças da natureza. Convêm dizê-lo de forma clara – em 1755 a culpa não foi de D. José, ou do Marques, ou da chacina dos Távoras. Em Angra, em 85 80*, não nos preocupou os planos de ordenamento de Mota Amaral. Não é agora, que por ser Alberto João Jardim e o seu séquito, que devemos por a baixa política acima do humano.
* obrigado ao Guilherme pelo olhar atento.
* obrigado ao Guilherme pelo olhar atento.
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portugal
sábado, 20 de fevereiro de 2010
a vida num minuto
É certamente um chavão repetir que a arte imita a vida ou o contrário, mas nestes dias em que o mundo parece padecer da sua própria voracidade e em que os zappings televisivos nos forçam a mergulhar numa letargia deprimida por força da rapidez da sua auto transformação e em que os desígnios da política e da governação nos pretendem fazer crer que tudo se esgota na discussão pueril de escândalo sobre escândalo, nestes dias, conforta constatar que ainda existe algo para lá da espuma. No público de hoje Luís Francisco traz-nos a história por detrás da notícia rocambolesca do avião que se despenhou em Tires na semana passada. Para lá da inverosimilhança, o que só adensa o seu potencial romanesco, fica de facto a emoção de uma trama cinematográfica real e nesse cruzamento entre o real e o literário, o metafórico, há o sublime de uma vida que se prende, e perde, num minuto e de um minuto que marca toda uma vida. Isso é tudo o que precisamos nestes dias, compreender a eternidade de cada minuto em vez de gastarmos tudo na futilidade de poucos minutos.
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coisas realmente importantes
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
coisas do País real
Nem Fernando Nobre, nem PT e Figo e "Face Oculta", nem a arregimentação das hostes socialistas, nem telenovelas parlamentares, nem ETAs, nem putativos líderes do PSD, os assuntos que vão ocupar todas as conversas de hoje são a "ratice" do Porto contra o Arsenal e a táctica do Benfica em Berlim. Coisas do país real...
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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
o retrato do país
Este é talvez o melhor retrato do País. Loucamente folião, alheado da realidade, imaginando-se em trópicos inacessíveis, sofredor silencioso e sorridente… fazendo tudo por meia hora de gargalhada e esquecimento. Assim vamos em Fevereiro de 2010.
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