Sobre a “questão” catalã, há dois aspetos que importa destacar. 1.º O
papel das “esquerdas” – os ideais progressistas são, iminentemente, universalistas,
(veja-se a Internacional Socialista). Balcanizar estes ideais em problemáticas geográficas
ou, mais grave ainda, nacionalistas, é uma contradição e provoca uma erosão da
sua condição humanista, condenando-os a mero contraponto regional dos imperialismos
capitalistas que deviam combater. 2º A União Europeia – ao se agarrar, de forma
cega e surda, a uma ideia de estados-nação, inamovíveis e imutáveis, aumenta o
fosso que a separa dos cidadãos colocando, ainda mais em dúvida, aos olhos das
pessoas, a sua utilidade. A discussão sobre a independência da Catalunha, ao
tornar-se numa batalha entre progressistas e conservadores, representa uma
sul-americanização do debate político europeu, em que duas ideologias
diferentes, sob a bandeira da autodeterminação, lutam não já por um ideário político
concreto, mas apenas por um quinhão geográfico de poder. Porém, é aqui, na síntese
destes dois dilemas e pela definição de uma nova Europa de cidadãos e de regiões,
que poderá nascer uma união com instituições verdadeiramente próximas das
pessoas. Isto sim seria um ideal progressista, mas a mera independência não…
quinta-feira, 12 de outubro de 2017
quinta-feira, 5 de outubro de 2017
Café Royal XL
Eu acuso!
“Num arquipélago
oceânico com uma tradição balnear multissecular, a regulamentação das questões
relacionadas com a utilização balnear das suas águas, em especial das águas
costeiras, assume uma particular importância na defesa da segurança e saúde das
pessoas e na criação de condições de promoção das atividades económicas ligadas
ao turismo e ao mar.” Este é o primeiro paragrafo do DLR n.º 16/2011/A, que “estabelece
o regime jurídico da gestão das zonas balneares, da qualidade das águas (…) e da
prestação de assistência nos locais destinados a banhistas”. Ora, nos últimos
dias, dois turistas estrangeiros morreram nas praias da Ribeira Grande. A
responsabilidade por estas mortes é da Câmara e do Governo. E é-o porque são
estas entidades que têm por obrigação definir as zonas e as épocas balneares,
bem como a sua segurança. Mas, por razões meramente financeiras, optaram por um
período ridículo, de Junho a Setembro, (algumas câmaras menos ainda!) reduzindo
ao mínimo a despesa com segurança e limpeza. Estas opções são criminosas! A
verdade é que os Açores não têm uma “tradição balnear multissecular”. Se tivessem,
existiria já um corpo permanente de nadadores-salvadores, tutelado pela
Proteção Civil, com a responsabilidade de assegurar, o ano todo, que não haja
mortes, não pelo turismo, mas pelas pessoas…
in Açoriano Oriental
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quinta-feira, 28 de setembro de 2017
Café Royal XXXIX
Qualificação
Subitamente,
todos falam em qualificação. Comentando o anúncio do voo da Delta o líder dos
empresários locais chamou à atenção para o imperativo de qualificar a oferta turística da
região. O que surpreende não é o conteúdo, mas o momento. Os Açores, desde há
muito, que deviam ter concentrado todos os esforços no desafio da qualidade! Devíamos,
políticos e empresários em conjunto, ter feito apostas claras para a qualificação do Destino, mesmo
antes da abertura do espaço aéreo! O que choca é que, saídos da crise e perante
o crescimento dos números, a maioria dos empresários foi capaz, apenas, de subir
preços, baixar os serviços, aumentar capacidade e salivar com as hordas de
ryanairianos que pulularam pelas ilhas nestes três verões. Entretanto, os
políticos foram-se gabando dos dois dígitos das estatísticas e deslembraram os
seus próprios programas de governo… As últimas notícias obrigam a perceber que o
Turismo na região só terá futuro com uma aposta clara na sua qualificação como
Destino. Isto é: melhorar hotéis, restaurantes, alojamentos, serviços, mão de
obra qualificada, oferta de lazer, cultura, museus e, até, mais nadadores
salvadores… enfim… é preciso pensar em quase tudo. Mas, para os empresários
basta ter aviões cheios e para os políticos tudo se resolve com uns míseros
polícias sinaleiros nas cumeeiras dos vulcões…
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quinta-feira, 21 de setembro de 2017
Café Royal XXXVIII
Metáforas
Finalmente vai
acabar a campanha autárquica. Apesar de, formalmente, essa campanha só
ter tido início há poucos
dias, desde Março que os diferentes circos partidários se fazem ouvir pelas
ruas, fóruns, salões de baile, arruadas, beijinhos, porta-a-porta, cartazes,
caixas de correio e outro tanto rol de itens com que tentam inebriar a amálgama
indistinta de cidadãos a que eufemisticamente gostam de chamar “o povo”. É normal,
já estamos habituados, mas cansa. Triste, no entanto, é que do que realmente importa pouco se
fala. Desenvolvimento sustentado? Políticas ambientais? Qualificação da oferta
turística? Da gestão básica
das coisas autárquicas: mobilidade, saneamento, resíduos? Sobre tudo isto,
nada. As frases são sempre as mesmas. Um anúncio aqui, uma intenção ali. Mais
betão acolá, um investimento acolí e assim se vai andando, sorridentemente.
Esta campanha autárquica transformou-se mesmo numa verdadeira publicidade à pasta de dentes. Armadilhados de fotógrafos
profissionais, os candidatos inundam as redes sociais de fotos suas, numa
torrente de vaidade fútil sem precedente. Mas, nessa ânsia da pose e da foto
estudada transparece a metáfora do nosso futuro. Um candidato faz-se fotografar
com um avião de uma companhia low cost a sobrevoar-lhe a testa, omitindo que já
amanhã esse mesmo voo será, provavelmente, cancelado…
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quinta-feira, 14 de setembro de 2017
Café Royal XXXVII
Instituições
Não existem
muitas instituições que representem, verdadeiramente, os Açores. Mais
importante ainda, são poucas as instituições que se identificam, realmente, com
o arquipélago e as suas gentes e que dão dimensão a estas nove ilhas dispersas
no mar. Se tirarmos as religiosas, então, ainda menos. E, se pensarmos que
vivemos um tempo em que as instituições políticas se desconsideram aos olhos do
povo, e em que a Universidade se dilui em contas de mercearia, resta quase nada
a que todos os açorianos, daqui e de lá, possam dizer, em conjunto, que é seu e
de todos. Resta, talvez, a RTP-A e a SATA. Porém, hoje assistimos, com dor, ao
progressivo e diário desmoronar das duas. No caso da SATA, que vive um drama
que não é de agora, urge iniciar a sua salvação e não é só pela parte
financeira ou comercial, mas sim laboral. A forma como foi gerido o quadro de
pessoal da empresa, desde a admissão de familiares à promoção e despromoção de
quadros, que depois se mantêm na empresa, passando por acordos feitos com fito
eleitoral, criou um autêntico pandemónio na gestão, transformando cada
funcionário da companhia num verdadeiro “saco de ressentimento”. Sem primeiro
haver paz social na companhia nada poderá ser resolvido. E, não creio que
ninguém com responsabilidade, política e de gestão, queira ficar na História
como o coveiro da SATA e das famílias que dela dependem, sejam seus
trabalhadores ou todos nós - açorianos.
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quinta-feira, 7 de setembro de 2017
Café Royal XXXVI
Balanço
Andam, por
aí, as vindimas. Vão regressar as aulas. Não fosse o ditame do calendário e
Setembro seria o início do novo ano. Altura de fecho e de recomeço e, também,
de balanço. Olhando atrás, para os dias de estio, fica a enchente de turistas,
a ilha esgotada. Os dislates autárquicos, dos candidatos embrenhados em
promessas, construções, beijos em idosas e tanto outro tipo de disparates. As
inenarráveis festas brancas (eu sei, eu fui a uma…). Consta que houve um eclipse
e a ameaça, nunca tão assustadoramente real, de aniquilação total pelas mãos da
loucura de Trump e Kim… Fica, também, a crise, parece que final, da SATA. Ao longo
do Verão muito se falou da companhia, da administração, dos trabalhadores, dos
sindicatos, do acionista. Em alegres patuscadas todos fomos especialistas em
aviação, gestores, economistas, dirigentes e hospedeiros. Todos soubemos o que
fazer com a companhia. Fechar, vender, despedir, remodelar, separar, correr
tudo à bofetada… Foi como se dentro de cada um de nós houvesse, nem que por uns
instantes de alegre cavaqueira, um José Gomes Ferreira da aviação. Como se
Fernando Pinto tivesse baixado em cada um de nós entre dois copos de conversa… Do
verão que passou fica, de facto, a necessidade imperiosa de se fazer um balanço
sólido daquilo que a Região quer para o seu futuro, para o turismo e para a
SATA. Mas isso fica para próximas crónicas…
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quinta-feira, 31 de agosto de 2017
Café Royal XXXV
Agosto V
Fecha Agosto.
Já há Beladonas pelas bermas das estradas. As lojas fazem montras com os
materiais escolares e até guardanapos de papel com motivos natalícios espreitam
nas prateleiras das grandes superfícies comerciais nessa agonia capitalista que
quer forçar a marcha do calendário numa ganância de lucro constante. Os dias
ficam mais curtos. As intermitências do clima mais constantes. A ilha
esvazia-se lentamente dos visitantes. Os restaurantes voltam a ter lugares e
sorrisos para os clientes habituais. Há vinho doce e uvas de cheiro em cestos
de vime nas vendas. E figos de doce carnudo. Os ananases que veranearam na
estufa ficam mais doces. As noites cheiram ao pólen das conteiras que invadem
os montes. No jardim, as miúdas queimam as últimas fantasias, na saída do mar,
passando-se na água doce da mangueira. Cresceram, na folia das férias
amadurecem como as frutas ao sol. Em breve regressarão à escola, com roupas
novas e sorrisos altivos e bronzeados. Elas não o sabem ainda, mas os verões
são caixas de memórias, pequenos guarda-joias, onde protegemos a infância e a
sua frágil felicidade. Chegando Setembro faremos o balanço das coisas. Em
Outubro haverá eleições, dizem-nos os cartazes gigantes que embrutecem a
paisagem e os murais do Facebook inundados de fotografias de candidatos sorridentes,
invadindo as soleiras das portas. Mas por agora, fechemos Agosto, olhando mais
um pôr-de-sol ao som do mar e ao paladar de mais um copo…
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