Foram chumbados, no
Conselho de Segurança da ONU, em Nova York, dois pedidos de uma investigação
independente ao, mais que certo, ataque com armas químicas perpetrado pelo
regime sírio de Bashar al-Assad. O chumbo deveu-se aos duplos vetos da Rússia e
dos EUA relativamente às propostas apresentadas pelos próprios, cada um vetou a
do outro num passe típico do jogo diplomático. Como é habitual, foi através do
Twitter que Trump comentou o chumbo. Em 140 caracteres anunciou a chegada de
misseis, adjetivando-os de inteligentes, novos e (pasme-se!) simpáticos, os
misseis! Representantes Russos e Iranianos já responderam que responderão a
qualquer intervenção Ocidental na Síria e, enquanto escrevo, as autoridades
aeronáuticas europeias emitiram um aviso à aviação comercial para as
consequências de eventuais bombardeamentos no mediterrâneo oriental. O conflito
Sírio, que dura já há oito anos, parece transformar-se, assim, de um conflito local
com interesses internacionais num verdadeiro conflito à escala mundial. Numa imprudência
a todos os níveis reprovável, os líderes das maiores potencias mundiais
entretêm-se a decidir sobre os destinos do mundo preocupados apenas com a sua
política interna. É caso para lembrar Sá de Miranda e questionar: “que farei quando tudo arde?”.
quinta-feira, 12 de abril de 2018
quinta-feira, 5 de abril de 2018
Café Royal LXVI
Prioridades
Num rápido olhar pelo site
da Assembleia da República descobrimos que os nossos deputados andam ocupados com
assuntos tão atraentes como: animais de companhia em estabelecimentos comerciais;
limites territoriais das freguesias de Aves e Lordelo; regime jurídico da
conversão de créditos em capital; ou, a já famosa, sétima alteração à Lei n.º 19/2003
de 20 de Junho (vulgo, financiamento dos partidos…). Quanto a petições, deram
entrada na Assembleia, pedidos tão extraordinários como estes: Reconhecimento
das edições do Campeonato de Portugal realizadas entre 1922 e 1938; ou, Criação
de Dia Nacional do Hóquei em Patins. Este pequeno resumo diz-nos muito sobre a
nossa democracia e sobre nós próprios. Um tema como a presunção jurídica da
residência alternada para filhos de pais separados ou divorciados, não mereceu
dos deputados qualquer interesse e uma petição sobre o tema
(igualdadeparental.org/peticao) conta, actualmente, com apenas cerca de 2800
assinaturas, muito abaixo dos 4470 portugueses que querem ver reconhecidas as
edições dos campeonatos de futebol de 1922 a 1938… Por cá, esperamos ainda por notícias das
auditorias externas, anunciadas em Dezembro, a 6 entidades que têm contratos
avultados com o Governo Regional e que deviam ter sido iniciadas até ao final
de Março deste ano…. É tudo uma questão de prioridades…
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sexta-feira, 30 de março de 2018
Café Royal LXV
6’17’’
A imagem é brutal e ficará como uma das imagens do nosso tempo. Uma jovem rapariga, cabelo rapado, em silêncio, em lágrimas, depois de citar os nomes das vitimas um a um, ousando impelir toda uma multidão a pensar o significado de 17 vidas perdidas em seis minutos e dezassete segundos. Perante tal imagem, podemos optar por olhar para a tragédia de Parkland, como apenas mais um lamentável episódio, na já longa série de tiroteios em massa a que os E.U.A. já nos acostumaram. Podemos achar que não nos toca. Alyssa Alhadeff, 14. Scott Beigel, 35. Martin Duque, 14. Peter Wang, 15… estas são apenas 4 das 17 mortes desse massacre. Mas, se olharmos para as mais de 100 pessoas que morreram só em 2017 em consequência dos fogos florestais em Portugal e lhes imaginarmos os nomes e as idades: Pedro, 35. Ana, 4. Maria, 70. Zé, 40; talvez a morte não seja tão distante. Talvez a tragédia seja mais nossa. Nos E.U.A., este triste acontecimento levou à mobilização de uma geração inteira em torno de uma causa civilizacional que, certamente, não deixará a América igual daqui para a frente. Em Portugal, na nossa tragédia, discutimos relatórios mais ou menos técnicos e reduzimos a responsabilidade política a acções de marketing, com políticos de enxada na mão a fingirem que limpam matas…
in Açoriano Oriental
A imagem é brutal e ficará como uma das imagens do nosso tempo. Uma jovem rapariga, cabelo rapado, em silêncio, em lágrimas, depois de citar os nomes das vitimas um a um, ousando impelir toda uma multidão a pensar o significado de 17 vidas perdidas em seis minutos e dezassete segundos. Perante tal imagem, podemos optar por olhar para a tragédia de Parkland, como apenas mais um lamentável episódio, na já longa série de tiroteios em massa a que os E.U.A. já nos acostumaram. Podemos achar que não nos toca. Alyssa Alhadeff, 14. Scott Beigel, 35. Martin Duque, 14. Peter Wang, 15… estas são apenas 4 das 17 mortes desse massacre. Mas, se olharmos para as mais de 100 pessoas que morreram só em 2017 em consequência dos fogos florestais em Portugal e lhes imaginarmos os nomes e as idades: Pedro, 35. Ana, 4. Maria, 70. Zé, 40; talvez a morte não seja tão distante. Talvez a tragédia seja mais nossa. Nos E.U.A., este triste acontecimento levou à mobilização de uma geração inteira em torno de uma causa civilizacional que, certamente, não deixará a América igual daqui para a frente. Em Portugal, na nossa tragédia, discutimos relatórios mais ou menos técnicos e reduzimos a responsabilidade política a acções de marketing, com políticos de enxada na mão a fingirem que limpam matas…
in Açoriano Oriental
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quinta-feira, 22 de março de 2018
Café Royal LXIV
Sobre escolhas
A História está atulhada
de casos em que ditadores são eleitos por via democrática. Talvez o mais famoso
de todos seja o da eleição livre que fez do Partido Nazi o mais votado do
Reichtag alemão em 1933 e a subsequente nomeação de Hitler como Chanceler. Este
é, aliás, um caso de estudo sobre como por via do discurso e do contexto as “massas”
são manipuladas pelos políticos, condicionando-lhes as escolhas. A chave para
este problema está na capacidade de cada cidadão compreender e interpretar o
discurso político de forma a fazer escolhas educadas. Quanto mais cultas e
conscientes forem as pessoas, melhores serão as democracias. Após a eleição de
Trump tem sido amplamente debatida a influência da chamada “manipulação Russa”
e o papel das redes sociais no condicionamento emocional dos eleitores. O mais
recente episódio é a revelação de que uma empresa de análise de dados recolheu
e tratou abusivamente os perfis de 50 milhões de subscritores da rede social
Facebook para influenciar o resultado das eleições. O mais surpreendente neste
caso não é a manipulação em si, mas o facto de o ónus estar a ser colocado no
próprio Facebook. Culpar a rede social é o mesmo que culpar a impressora ou o
papel pelo conteúdo do Mein Kampf!
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quinta-feira, 15 de março de 2018
Café Royal LXIII
O Mistério
Talvez o maior mistério de todos, mais até do que o da própria Vida, seja o Mistério da Fé. Essa concepção de algo que transcende a razão, que está para lá de nós, e se consubstancia em Deus podendo apenas por Ele ser revelado. A Fé, ao contrário da Vida, não é mensurável, não tem leis cientificas que a possam provar. A Fé é o dom de Deus, diz-nos a doutrina cristã. Mas é, também, e não paradoxalmente, Palavra, ensinamento. É interpretação, conhecimento e partilha da Palavra. A origem do cristianismo está no exemplo sacrifical de Jesus e construiu-se, ao longo de dois milénios, na sucessiva interpretação e partilha da sua Palavra. Na sua essência, todas as religiões, mas particularmente as religiões, ditas, do Livro, são suportadas por estes dois princípios fundamentais – Crença e Doutrina; Fé e Palavra. E é nas e pelas palavras que se torna palpável, por assim dizer, o Mistério de Deus. Para alguém que, como eu, vive em dialéctica entre um ateísmo moderado e um agnosticismo militante é exactamente nas e pelas palavras que se materializa a imanência do Dom, a revelação do Mistério. Seja nas palavras do Papa Francisco, que nos insta a olhar as pessoas ou nas de Stephen Hawking, que nos obrigou a nunca deixar de olhar as estrelas, porque, em boa verdade, “o que está em cima é como o que está em baixo” …
in Açoriano Oriental
Talvez o maior mistério de todos, mais até do que o da própria Vida, seja o Mistério da Fé. Essa concepção de algo que transcende a razão, que está para lá de nós, e se consubstancia em Deus podendo apenas por Ele ser revelado. A Fé, ao contrário da Vida, não é mensurável, não tem leis cientificas que a possam provar. A Fé é o dom de Deus, diz-nos a doutrina cristã. Mas é, também, e não paradoxalmente, Palavra, ensinamento. É interpretação, conhecimento e partilha da Palavra. A origem do cristianismo está no exemplo sacrifical de Jesus e construiu-se, ao longo de dois milénios, na sucessiva interpretação e partilha da sua Palavra. Na sua essência, todas as religiões, mas particularmente as religiões, ditas, do Livro, são suportadas por estes dois princípios fundamentais – Crença e Doutrina; Fé e Palavra. E é nas e pelas palavras que se torna palpável, por assim dizer, o Mistério de Deus. Para alguém que, como eu, vive em dialéctica entre um ateísmo moderado e um agnosticismo militante é exactamente nas e pelas palavras que se materializa a imanência do Dom, a revelação do Mistério. Seja nas palavras do Papa Francisco, que nos insta a olhar as pessoas ou nas de Stephen Hawking, que nos obrigou a nunca deixar de olhar as estrelas, porque, em boa verdade, “o que está em cima é como o que está em baixo” …
in Açoriano Oriental
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quinta-feira, 8 de março de 2018
Café Royal LXII
O Retrocesso
O discurso político é demasiadas vezes contaminado por índices, métricas, estatísticas e outro tipo de indicadores mais ou menos incompreensíveis. Esta infecção pelos números leva a que os políticos se esqueçam das ideias e, pior, das pessoas. Nos últimos tempos, os políticos açorianos, ocupados na discussão dos índices económicos, dos indicadores de pobreza ou na excitação das taxas de crescimento turístico, parecem ter esquecido o fundamental – as próprias ilhas. Se há questão imprescindível hoje para o desenvolvimento social e económico dos Açores é a afirmação de um ideário arquipelágico. Uma concepção das ilhas que as promova como um todo. Mas não como uma soma de 9 partes iguais, antes como um conjunto de 9 realidades distintas que, na sua coesão, geram um todo maior e mais completo. Um deputado em greve de fome por causa de uma cantina ou o forró de municípios na BTL são apenas alguns dos sinais desse grande retrocesso na política açoriana que é o fomentar de bairrismos, divisões e todo o tipo de sectarismos e reivindicações individuais, que por estes tempos crescem, como cogumelos, pelas ilhas. Urge reencontrar uma ideia de arquipélago, em que Angra é a cidade mais bonita, o Poço da Alagoinha ou a Lagoa do Fogo as imagens mais marcantes e a visão do Pico desde a baía da Horta a sua mais profunda experiência…
in Açoriano Oriental
O discurso político é demasiadas vezes contaminado por índices, métricas, estatísticas e outro tipo de indicadores mais ou menos incompreensíveis. Esta infecção pelos números leva a que os políticos se esqueçam das ideias e, pior, das pessoas. Nos últimos tempos, os políticos açorianos, ocupados na discussão dos índices económicos, dos indicadores de pobreza ou na excitação das taxas de crescimento turístico, parecem ter esquecido o fundamental – as próprias ilhas. Se há questão imprescindível hoje para o desenvolvimento social e económico dos Açores é a afirmação de um ideário arquipelágico. Uma concepção das ilhas que as promova como um todo. Mas não como uma soma de 9 partes iguais, antes como um conjunto de 9 realidades distintas que, na sua coesão, geram um todo maior e mais completo. Um deputado em greve de fome por causa de uma cantina ou o forró de municípios na BTL são apenas alguns dos sinais desse grande retrocesso na política açoriana que é o fomentar de bairrismos, divisões e todo o tipo de sectarismos e reivindicações individuais, que por estes tempos crescem, como cogumelos, pelas ilhas. Urge reencontrar uma ideia de arquipélago, em que Angra é a cidade mais bonita, o Poço da Alagoinha ou a Lagoa do Fogo as imagens mais marcantes e a visão do Pico desde a baía da Horta a sua mais profunda experiência…
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quinta-feira, 1 de março de 2018
Café Royal LXI
Do eufemismo
O eufemismo é uma figura
de estilo utilizada para mascarar uma determinada ideia com outra mais suave. “Ir
para o céu” é, obviamente, um eufemismo para dissimular o facto de morrermos e sermos
enterrados. Na política, o eufemismo é uma forma de arte. Em conferência de
imprensa, o Presidente e Vice-presidente do governo anunciaram uma reforma do
sector público empresarial da região sob a forma de alienação, extinção e
desvinculação. Reforma é, claramente, um eufemismo. Mas, o que é importante
questionar é porque razão é o Partido Socialista que privatiza e extingue, sem
critérios claros, uma parte das empresas públicas da região, para, por um lado
engordar a mão do estado e, por outro, ofertar os anéis aos mercados? E, ainda
por cima, sem aviso prévio ou mandato, porque a verdade é que em nenhuma página
do seu programa eleitoral e de governo surgem as palavras alienar; internalizar
ou desvincular. Aliás, as palavras vender e extinguir apenas surgem na pág. 51
– “vender” melhor o peixe – e pág. 1
– “extinguir” o Ministro da República.
Mais, na pág. 16, o que o governo se propõe fazer é: “valorizar o exercício da função de acionista/proprietário da Região
através da melhoria dos mecanismos de controlo[…]”.
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