Peço desculpa ao leitor
pela utilização, não só de um palavrão, mas de um palavrão em inglês. Mas, a
verdade é que não existe, na nossa língua, um termo com a abrangência de
significado deste. E esse facto é, em si mesmo, paradigmático da nossa cultura
e da nossa postura enquanto sociedade, principalmente nos tempos que correm. Accountability é a obrigação que os
indivíduos e as organizações têm de prestar contas de forma transparente e de
assumir responsabilidade pelos seus actos perante a comunidade, principalmente
em questões que tem a ver com o bem público. Nos últimos vinte, trinta anos a
democracia portuguesa foi assaltada por grupos de interesses que espoliaram
desavergonhadamente o país. Embora caiba, obviamente, à Justiça o papel,
fundamental, de repor a justiça, há uma outra responsabilidade de accountability que, se não for
voluntariamente exercida pelos diferentes agentes políticos, económicos,
financeiros, etc., deve ser firmemente exigida pelos cidadãos. A falha em
perceber isto é o primeiro pingo de ácido sulfúrico que acabará por corroer,
por completo, a nossa pueril democracia.
quinta-feira, 3 de maio de 2018
quinta-feira, 26 de abril de 2018
Café Royal LXIX
Sempre!
44 anos depois do 25 de Abril que país somos hoje? Que nação é esta? Olhando a espuma dos dias vemos um país desigual, pobre, desertificado, minado, no seu mais profundo âmago, pela corrupção que tudo contamina e que se metastisa infinitamente, dominado pela ditadura da partidocracia, onde grassa o nepotismo e a falta de vergonha. O sonho de Abril, tirando as conquistas da democracia e da descolonização, falhou em larga medida. E falhou no que era mais importante: na capacidade de construir e desenvolver um país solidário. Dos famosos três D’s desenhados por Medeiros Ferreira é esse o que falta. Nem mesmo a Liberdade é hoje um valor activo numa sociedade cada vez mais subsídio-dependente e com uma democracia imberbe. Urge cumprir, enfim, o terceiro D de Abril – Desenvolver. Mas antes é imperioso moralizar o país. Moralizar o exercício da actividade política, moralizar a justiça, a finança, a economia, a comunicação social, a vida associativa e, até mesmo, o futebol. Só então poderemos celebrar e honrar Abril, sempre!
in Açoriano Oriental
44 anos depois do 25 de Abril que país somos hoje? Que nação é esta? Olhando a espuma dos dias vemos um país desigual, pobre, desertificado, minado, no seu mais profundo âmago, pela corrupção que tudo contamina e que se metastisa infinitamente, dominado pela ditadura da partidocracia, onde grassa o nepotismo e a falta de vergonha. O sonho de Abril, tirando as conquistas da democracia e da descolonização, falhou em larga medida. E falhou no que era mais importante: na capacidade de construir e desenvolver um país solidário. Dos famosos três D’s desenhados por Medeiros Ferreira é esse o que falta. Nem mesmo a Liberdade é hoje um valor activo numa sociedade cada vez mais subsídio-dependente e com uma democracia imberbe. Urge cumprir, enfim, o terceiro D de Abril – Desenvolver. Mas antes é imperioso moralizar o país. Moralizar o exercício da actividade política, moralizar a justiça, a finança, a economia, a comunicação social, a vida associativa e, até mesmo, o futebol. Só então poderemos celebrar e honrar Abril, sempre!
in Açoriano Oriental
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quinta-feira, 19 de abril de 2018
Café Royal LXVIII
€609,00
É o valor do salário
mínimo nos Açores. Fixem o número. Esta semana soubemos que, para além dos seus
salários brutos e ajudas de custo, os nossos deputados eleitos recebem ainda
abonos para deslocações e trabalho político, entre outras regalias do cargo. No
caso das regiões autónomas, o valor pago por viagem semanal às ilhas é de
500,00€ e, não satisfeitos, os 5 deputados açorianos (não acredito que sejam só
os 3 do PS), vão, de cartão de embarque em punho ao guichet dos CTT pedir o seu
reembolsosinho. Bem feitas as contas, cada um leva na carteira mais 1500,00€
limpos por mês, isto no pressuposto que vêm matar saudades uma vez por semana.
Tudo isto pode ser legal, mas é ética e moralmente inaceitável e é só mais uma
demonstração de como os deputados são uma casta na nossa sociedade. Podem chamar-me
de populista, mas num país onde o salário médio são 864,00€, em que o salário
mínimo é o que é, e onde qualquer trabalhador que viaje em serviço, seja no público
ou no privado, devolve o reembolso à sua entidade patronal, esta maroscasinha
dos nossos 5 eleitos é fétida…
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quinta-feira, 12 de abril de 2018
Café Royal LXVII
Quando tudo arde
Foram chumbados, no
Conselho de Segurança da ONU, em Nova York, dois pedidos de uma investigação
independente ao, mais que certo, ataque com armas químicas perpetrado pelo
regime sírio de Bashar al-Assad. O chumbo deveu-se aos duplos vetos da Rússia e
dos EUA relativamente às propostas apresentadas pelos próprios, cada um vetou a
do outro num passe típico do jogo diplomático. Como é habitual, foi através do
Twitter que Trump comentou o chumbo. Em 140 caracteres anunciou a chegada de
misseis, adjetivando-os de inteligentes, novos e (pasme-se!) simpáticos, os
misseis! Representantes Russos e Iranianos já responderam que responderão a
qualquer intervenção Ocidental na Síria e, enquanto escrevo, as autoridades
aeronáuticas europeias emitiram um aviso à aviação comercial para as
consequências de eventuais bombardeamentos no mediterrâneo oriental. O conflito
Sírio, que dura já há oito anos, parece transformar-se, assim, de um conflito local
com interesses internacionais num verdadeiro conflito à escala mundial. Numa imprudência
a todos os níveis reprovável, os líderes das maiores potencias mundiais
entretêm-se a decidir sobre os destinos do mundo preocupados apenas com a sua
política interna. É caso para lembrar Sá de Miranda e questionar: “que farei quando tudo arde?”.
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quinta-feira, 5 de abril de 2018
Café Royal LXVI
Prioridades
Num rápido olhar pelo site
da Assembleia da República descobrimos que os nossos deputados andam ocupados com
assuntos tão atraentes como: animais de companhia em estabelecimentos comerciais;
limites territoriais das freguesias de Aves e Lordelo; regime jurídico da
conversão de créditos em capital; ou, a já famosa, sétima alteração à Lei n.º 19/2003
de 20 de Junho (vulgo, financiamento dos partidos…). Quanto a petições, deram
entrada na Assembleia, pedidos tão extraordinários como estes: Reconhecimento
das edições do Campeonato de Portugal realizadas entre 1922 e 1938; ou, Criação
de Dia Nacional do Hóquei em Patins. Este pequeno resumo diz-nos muito sobre a
nossa democracia e sobre nós próprios. Um tema como a presunção jurídica da
residência alternada para filhos de pais separados ou divorciados, não mereceu
dos deputados qualquer interesse e uma petição sobre o tema
(igualdadeparental.org/peticao) conta, actualmente, com apenas cerca de 2800
assinaturas, muito abaixo dos 4470 portugueses que querem ver reconhecidas as
edições dos campeonatos de futebol de 1922 a 1938… Por cá, esperamos ainda por notícias das
auditorias externas, anunciadas em Dezembro, a 6 entidades que têm contratos
avultados com o Governo Regional e que deviam ter sido iniciadas até ao final
de Março deste ano…. É tudo uma questão de prioridades…
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sexta-feira, 30 de março de 2018
Café Royal LXV
6’17’’
A imagem é brutal e ficará como uma das imagens do nosso tempo. Uma jovem rapariga, cabelo rapado, em silêncio, em lágrimas, depois de citar os nomes das vitimas um a um, ousando impelir toda uma multidão a pensar o significado de 17 vidas perdidas em seis minutos e dezassete segundos. Perante tal imagem, podemos optar por olhar para a tragédia de Parkland, como apenas mais um lamentável episódio, na já longa série de tiroteios em massa a que os E.U.A. já nos acostumaram. Podemos achar que não nos toca. Alyssa Alhadeff, 14. Scott Beigel, 35. Martin Duque, 14. Peter Wang, 15… estas são apenas 4 das 17 mortes desse massacre. Mas, se olharmos para as mais de 100 pessoas que morreram só em 2017 em consequência dos fogos florestais em Portugal e lhes imaginarmos os nomes e as idades: Pedro, 35. Ana, 4. Maria, 70. Zé, 40; talvez a morte não seja tão distante. Talvez a tragédia seja mais nossa. Nos E.U.A., este triste acontecimento levou à mobilização de uma geração inteira em torno de uma causa civilizacional que, certamente, não deixará a América igual daqui para a frente. Em Portugal, na nossa tragédia, discutimos relatórios mais ou menos técnicos e reduzimos a responsabilidade política a acções de marketing, com políticos de enxada na mão a fingirem que limpam matas…
in Açoriano Oriental
A imagem é brutal e ficará como uma das imagens do nosso tempo. Uma jovem rapariga, cabelo rapado, em silêncio, em lágrimas, depois de citar os nomes das vitimas um a um, ousando impelir toda uma multidão a pensar o significado de 17 vidas perdidas em seis minutos e dezassete segundos. Perante tal imagem, podemos optar por olhar para a tragédia de Parkland, como apenas mais um lamentável episódio, na já longa série de tiroteios em massa a que os E.U.A. já nos acostumaram. Podemos achar que não nos toca. Alyssa Alhadeff, 14. Scott Beigel, 35. Martin Duque, 14. Peter Wang, 15… estas são apenas 4 das 17 mortes desse massacre. Mas, se olharmos para as mais de 100 pessoas que morreram só em 2017 em consequência dos fogos florestais em Portugal e lhes imaginarmos os nomes e as idades: Pedro, 35. Ana, 4. Maria, 70. Zé, 40; talvez a morte não seja tão distante. Talvez a tragédia seja mais nossa. Nos E.U.A., este triste acontecimento levou à mobilização de uma geração inteira em torno de uma causa civilizacional que, certamente, não deixará a América igual daqui para a frente. Em Portugal, na nossa tragédia, discutimos relatórios mais ou menos técnicos e reduzimos a responsabilidade política a acções de marketing, com políticos de enxada na mão a fingirem que limpam matas…
in Açoriano Oriental
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quinta-feira, 22 de março de 2018
Café Royal LXIV
Sobre escolhas
A História está atulhada
de casos em que ditadores são eleitos por via democrática. Talvez o mais famoso
de todos seja o da eleição livre que fez do Partido Nazi o mais votado do
Reichtag alemão em 1933 e a subsequente nomeação de Hitler como Chanceler. Este
é, aliás, um caso de estudo sobre como por via do discurso e do contexto as “massas”
são manipuladas pelos políticos, condicionando-lhes as escolhas. A chave para
este problema está na capacidade de cada cidadão compreender e interpretar o
discurso político de forma a fazer escolhas educadas. Quanto mais cultas e
conscientes forem as pessoas, melhores serão as democracias. Após a eleição de
Trump tem sido amplamente debatida a influência da chamada “manipulação Russa”
e o papel das redes sociais no condicionamento emocional dos eleitores. O mais
recente episódio é a revelação de que uma empresa de análise de dados recolheu
e tratou abusivamente os perfis de 50 milhões de subscritores da rede social
Facebook para influenciar o resultado das eleições. O mais surpreendente neste
caso não é a manipulação em si, mas o facto de o ónus estar a ser colocado no
próprio Facebook. Culpar a rede social é o mesmo que culpar a impressora ou o
papel pelo conteúdo do Mein Kampf!
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