quinta-feira, 7 de junho de 2018

Café Royal LXXV

A doença

O fim era tão inexoravelmente previsível que quando a notícia surge a gordas já não provoca espanto. “SINAGA vai ser arrasada e espaço deverá ser loteado” dizia a manchete. Os Açores sofrem, desde sempre, de uma doença crónica: a “síndrome do desenvolvimento sustentável”. Todos os estudos são unânimes em apontar a diversificação, a especialização e produtos de valor acrescentado como o único caminho a seguir. E estas “guidelines” são válidas para todos os sectores. Seja no Turismo, na Agricultura, na Ciência ou na Cultura. Mas, o que o fim dantesco da saga da SINAGA vem provar é que a Região, como um todo, não é capaz de seguir nenhuma delas. Não soubemos diversificar, não soubemos criar valor acrescentado e vamos arrasar uma indústria histórica para construir uma urbanização incaracterística, num gesto de completo e inadmissível desrespeito pelas pessoas, pela memória e, acima de tudo, pelo Futuro. Citando Joni Mitchell, pavimentaram o paraíso e construíram um parque de estacionamento. Provavelmente até terá uma rua com os nomes dos responsáveis por esta política em que tudo é descartável…
 

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Café Royal LXXIV

Da Dignidade

Nos últimos dias muito se falou de dignidade da pessoa humana, reduzindo-a, estupidamente, à fronteira da morte, como se esta fosse um instante singular no percurso da vida. Legislar sobre a liberdade de escolha pela eutanásia, tal como pelo aborto, não pode ser o mesmo que decretar sobre o valor das assinaturas de arquitectos e engenheiros. Aquilo que os partidos da Geringonça (menos o PCP e mais o Sr. do PAN…) tentaram fazer, numa questão essencial, de liberdade individual do cidadão - decidir sobre a sua própria morte - foi em todos os sentidos indigno porque absolutamente antidemocrático. A pequena golpada de querer fazer passar uma lei fundamental sem aviso, sem escrutínio popular e sem o debate público de um referendo, apenas teve como resultado a morte deste assunto no futuro próximo. As democracias deviam ser lugares de respeito, de dignidade, entre eleitos e eleitores. Querendo decidir sozinhos, sem um debate esclarecido e alargado, os partidos “eutanasiaram” a eutanásia… É pena, porque este assunto merecia ser tratado com a mesma dignidade que se pretendia dar ao terminar da vida.
 

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Café Royal LXXIII

Os Americanos

É uma célebre cena de Zeca Medeiros, a brilhante Maria Bifa, a Gilda do Baixio, cambaleando as vielas de Vila Franca, gritando ao escuro a medo “véim aí os rússes!”. Não deixa de ser irónico que agora não seja já esse sonho feito barco de alcançar a América e sejam os americanos a aterrar ilha dentro. E já se ouvem políticos e empresários a vociferar “véim aí os amaricanes!”. Quais naus das índias carregadas de ouro. Mas o que vem nestes aviões são rabos em cadeiras, como se diz no jargão do turismo. Pessoas, com gostos e vontades, diferentes dos Europeus, habituadas a viajar e que procuram diversidade e qualidade. Será que estamos preparados? Nas redes sociais vendemo-nos com um inglês pior que do tradutor do Google. Não temos formação. A época-alta vai ser passada em obras. E até as praias vão estar sem nadadores salvadores até meados de Junho. Os responsáveis dirão que se fez tudo, que não há dinheiro, e amanhã lá estarão, na porta do aeroporto, a oferecer rosas ao som de folclore. Não há nem dinheiro nem qualificação, mas há bailinhos. Será que isso chega para os americanos?
 

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Café Royal LXXII

Açores?

O mais profundo falhanço da autonomia regional mais, até, que a criação de um modelo de desenvolvimento sustentável é o falhanço da ideia arquipelágica. Nenhum governo, nenhum partido político, conseguiu dar Açores às nove ilhas do arquipélago. As ilhas vivem desirmanadas, conflituadas entre si, constantemente em birras e ciúmes. E hoje, mais do que nunca, essa inveja agudiza-se. O Pico quer um avião igual aos de São Miguel. O Faial quer uma pista (que todos sabem ser inviável, mas que cinicamente querem ver construída pelos dinheiros da República, no que seria um dos maiores crimes financeiros e ambientais alguma vez visto na região…) onde não haverá aviões. A Terceira quer portos onde não atracarão barcos. E todos, do Corvo a Santa Maria, querem ser como Ponta Delgada que, coitada, não sabe bem o que quer ser. A tão apregoada Autonomia Regional não é mais do que uma expressão vazia para uso da retórica política, porque a nossa realidade hoje é a de nove calhaus isolados, de costas voltadas uns para os outros, chorando as mágoas e as dores da inveja alheia. Açores? Isso não existe!
 

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Café Royal LXXI

Higienizar…

Cortem-lhe a cabeça!” grita a Rainha de Copas ao ver Alice. Esta semana o PS teve o seu momento Rainha de Copas. Pela voz de César, o partido mandou cortar a cabeça a Sócrates. Para além do – porquê agora?, há outro aspecto deste volte-face que importa relevar. Os partidos são feitos por pessoas, mas não se podem confundir com elas. Nem se deve sancionar todo um partido pelas as acções deste ou daquele militante ou dirigente. Mas, as acções dos políticos podem e devem sofrer o nosso julgamento moral e, acima de tudo, a autocrítica dos próprios partidos. Porém, pretender isolar, de forma cínica, a corrupção toda em Sócrates é esconder o sol com a peneira perante aquele que é hoje o maior problema da nossa democracia: a captura de grande parte do sistema político-partidário por interesses corruptos. Os partidos são, ou deveriam ser, esteios ideológicos e éticos da democracia. Cabe, por isso, ao PS, e a todos os outros partidos, expurgarem-se deste mal, reinstituindo valores éticos e ideológicos na sua acção e higienizando a classe política. Não chega cortar, apenas, uma cabeça…   

in Açoriano Oriental

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Café Royal LXX

Accountability

Peço desculpa ao leitor pela utilização, não só de um palavrão, mas de um palavrão em inglês. Mas, a verdade é que não existe, na nossa língua, um termo com a abrangência de significado deste. E esse facto é, em si mesmo, paradigmático da nossa cultura e da nossa postura enquanto sociedade, principalmente nos tempos que correm. Accountability é a obrigação que os indivíduos e as organizações têm de prestar contas de forma transparente e de assumir responsabilidade pelos seus actos perante a comunidade, principalmente em questões que tem a ver com o bem público. Nos últimos vinte, trinta anos a democracia portuguesa foi assaltada por grupos de interesses que espoliaram desavergonhadamente o país. Embora caiba, obviamente, à Justiça o papel, fundamental, de repor a justiça, há uma outra responsabilidade de accountability que, se não for voluntariamente exercida pelos diferentes agentes políticos, económicos, financeiros, etc., deve ser firmemente exigida pelos cidadãos. A falha em perceber isto é o primeiro pingo de ácido sulfúrico que acabará por corroer, por completo, a nossa pueril democracia.
 

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Café Royal LXIX

Sempre!

44 anos depois do 25 de Abril que país somos hoje? Que nação é esta? Olhando a espuma dos dias vemos um país desigual, pobre, desertificado, minado, no seu mais profundo âmago, pela corrupção que tudo contamina e que se metastisa infinitamente, dominado pela ditadura da partidocracia, onde grassa o nepotismo e a falta de vergonha. O sonho de Abril, tirando as conquistas da democracia e da descolonização, falhou em larga medida. E falhou no que era mais importante: na capacidade de construir e desenvolver um país solidário. Dos famosos três D’s desenhados por Medeiros Ferreira é esse o que falta. Nem mesmo a Liberdade é hoje um valor activo numa sociedade cada vez mais subsídio-dependente e com uma democracia imberbe. Urge cumprir, enfim, o terceiro D de Abril – Desenvolver. Mas antes é imperioso moralizar o país. Moralizar o exercício da actividade política, moralizar a justiça, a finança, a economia, a comunicação social, a vida associativa e, até mesmo, o futebol. Só então poderemos celebrar e honrar Abril, sempre!

in Açoriano Oriental