Desde há décadas que se tem
vindo a escrever o obituário da imprensa escrita. Hoje, na ditadura do digital
e em que os nossos estilos de vida assoberbados nos levam a um alheamento da sociedade,
o papel primordial do jornalismo, e dos jornais, como comunicador e, muitas
vezes, mediador da vida em comunidade, foi-se gradualmente perdendo. Esta degradação
da imprensa escrita é mais um sintoma da decadência das nossas democracias. Os
jornais são areópagos da pluralidade e do debate livre de ideias. A sua morte,
ou a sua “adaptação”, como eufemisticamente usam dizer por estes dias os
patrões da imprensa, devia pesar sobre o nosso pensamento, como um alerta sobre
o tipo de mundo que estamos a construir. Na dualidade entre passado e futuro, o
nosso papel, enquanto civilização, é garantir que o que de melhor existiu no
passado possa ser transportado para o futuro. A capitulação do Diário de Notícias ao mundo virtual, à banalidade do dedo que faz apagar para baixo no
ecrã, é apenas mais um passo em direcção a um lugar sem tempo e onde tudo é,
apenas, momentâneo…
quinta-feira, 5 de julho de 2018
quinta-feira, 28 de junho de 2018
Café Royal LXXVIII
Machico
Se nomearmos Machico, freguesia
da costa nordeste da ilha da Madeira, todos, ou quase todos, se lembrarão de
Cristiano Ronaldo. Depois lembrar-se-ão vagamente da injusta fama dessa que é conhecida
como uma das freguesias mais pobres da ilha e do país. Mas, como pode ser pobre
uma terra que deu, que dá, a Portugal dois dos seus maiores expoentes vivos?
Dois? D. José Tolentino de Mendonça, nascido há 53 anos nessa mesma freguesia,
foi nomeado esta semana arquivista do Arquivo Secreto do Vaticano e
bibliotecário da Biblioteca Apostólica. Simplesmente um dos mais importantes e
significativos cargos da Igreja Católica e, mais importante ainda, guardião da
chave para aquele que é certamente o maior e mais completo cofre de segredos, sabedoria,
conhecimento e cultura de toda a Humanidade. A biblioteca do Vaticano,
oficialmente criada em 1450 pelo Papa Nicolau V, guarda no seu interior
milhares de códices e incunábulos, remontando aos primórdios da fé cristã e acompanhando
a História do Saber (ou da Verdade enquanto sentido da Vida…) até aos nossos
dias. Não desmerecendo CR7... mas, parabéns ao poeta Tolentino de Mendonça.
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quinta-feira, 21 de junho de 2018
Café Royal LXXVII
A desumanização
Após a chegada aos
campos, transportadas, aos milhares, em vagões de gado, as pessoas eram
separadas em duas filas, homens e mulheres. Eram depois inspecionados por
médicos. Todos os maiores de 14 anos, considerados aptos para “trabalhar”, eram
postos de um lado. Os restantes iam para as câmaras de gás. Em “Sophie’s Choice”, filme de Alan J.
Pakula, este drama de separação e morte, de animalesca desumanização do Ser, é
individualizado de forma pungente por Meryl Streep, Sophie, uma emigrante
polaca na América do pós-guerra, que carrega permanentemente dentro de si a
insuperável culpa da sua escolha. Ao chegar a Auschiwtz, Sophie é forçada pelos
SS a escolher qual dos seus dois filhos irá morrer e qual irá “viver”. Setenta
anos depois, assistimos, com pasmo e pavor, a barcos com migrantes a serem
impedidos de atracar em portos europeus, ao recenseamento e expulsão de
minorias ciganas, e a crianças a serem separadas dos pais na fronteira dos EUA.
Uma reprodução insana e incompreensível da bárbara desumanização a que
assistimos no passado e que nos coloca perigosamente próximos desse horror
absoluto que creríamos irrepetível.
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quinta-feira, 14 de junho de 2018
Café Royal LXXVI
El Dorado
Recentemente, e bem, o Governo
dos Açores declarou querer reclamar para si uma mais ampla intervenção na
gestão do Mar, ciente certamente do enorme poder que os recursos marinhos representam.
Só que, como diz o velho aforismo, “com
grande poder vem grande responsabilidade”. De todos os recursos à
disposição no oceano, aquele que desperta maior cobiça é a mineração profunda,
uma indústria tão futurista que os seus reais impactos, tanto no meio ambiente
como na sociedade, são, ainda, em larga medida, uma incógnita. Quando o Governo
Regional exclama que quer governar o Mar tem a obrigação de, ao mesmo tempo,
dizer claramente como e para quê. Exige-se um debate transparente sobre que
intenções existem nesta matéria e uma rigorosa avaliação dos seus impactos. Seja
nos ecossistemas. Na migração dos grandes cetáceos. No tipo de infraestruturas de
apoio que são necessárias em terra. Ou, quais os seus impactos, por exemplo, no
Turismo? Olhar para o azul do mar como uma espécie de El Dorado é correr o
risco de nos afogarmos numa nova febre do ouro…
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Café Royal
sábado, 9 de junho de 2018
Mix Tape 1
Track 1 – Intro
Em criança todos construímos castelos, nem que sejam
imaginários. No quarto, com almofadas e cobertores, rearranjando os moveis,
construímos fortes para batalhas épicas e palácios com príncipes e princesas.
Nos jardins, com ramos e folhas e canas, erguemos cabanas, westerns sonhados de
índios e cowboys. Frágeis, mas magníficos, teatros de sonhos. Ao longo da vida,
a criação do gosto, é um pouco como esses castelos. Uma arquitectura de
memórias. Com o passar dos anos vamos construindo uma enorme Torre de Babel
interior de referências, vivências, momentos. Catalogando cada um com uma
determinada banda sonora. Como o desenhar de um mapa, traçando as diferentes
latitudes e longitudes da vida. Azimutes e esquadrias. São assim os meus
castelos, um caleidoscópio de gostos, que se desenham numa argamassa, mais ou
menos caótica de géneros, de sul para norte, este para oeste, um planisfério
sentimental de lembranças, que vão de Guns N’ Roses a Stone Roses, de Camané a
Kronos Quartet. Numa navegação sentimental através do oceano dos sons, imenso
corpo de água, pontilhado de ilhas míticas, apenas alcançáveis pela leitura das
estrelas. Há vinte anos atrás, naquele que foi um dos dois momentos mais
importantes da minha vida até hoje, passei longos meses a viajar sozinho na
Califórnia e no México. De mochila e pranchas às costas e com um Discman Sony e
um estojo de CD’s. Se fechar os olhos ainda consigo sentir o balançar ritmado
dos autocarros, nas longas travessias noturnas entre misteriosas cidades
mexicanas e vejo, nitidamente, como estrelas na noite, os cd’s dentro desse
estojo: Tarantula dos Ride; o primeiro álbum dos Stone Roses; Grace do JeffBuckley; Sketches of Spain de Miles Davis; Five Tango Sensations de AstorPiazzolla e Kronos Quartet; Chet Baker Sings. E outros, que formam as paredes dessa
construção elíptica, espécie de confluência entre as escadas de Escher e a
infinita biblioteca de Borges, que é a recordação dessa viagem, ou que é,
afinal, a solidificação mental dessa experiência em tudo o que ela teve de
concretização e consubstanciação de todo o meu percurso de vida e que fica,
para sempre, marcado por essa colecção de sons. Mas a construção do gosto é,
também, uma construção de relações humanas, de emoções, de paixões. Gestos
puros e iniciais, como a oferta materna dessa viagem, como forma de libertação
individual, ou a partilha, entre um pai e um filho, do gosto pela boa música e
do que ela representa enquanto experiência verdadeira da natureza do belo e da
sua importância basilar na vida.
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Mix Tape
quinta-feira, 7 de junho de 2018
Café Royal LXXV
A doença
O fim era tão
inexoravelmente previsível que quando a notícia surge a gordas já não provoca
espanto. “SINAGA vai ser arrasada e
espaço deverá ser loteado” dizia a manchete. Os Açores sofrem, desde
sempre, de uma doença crónica: a “síndrome do desenvolvimento sustentável”.
Todos os estudos são unânimes em apontar a diversificação, a especialização e
produtos de valor acrescentado como o único caminho a seguir. E estas
“guidelines” são válidas para todos os sectores. Seja no Turismo, na
Agricultura, na Ciência ou na Cultura. Mas, o que o fim dantesco da saga da
SINAGA vem provar é que a Região, como um todo, não é capaz de seguir nenhuma
delas. Não soubemos diversificar, não soubemos criar valor acrescentado e vamos
arrasar uma indústria histórica para construir uma urbanização incaracterística,
num gesto de completo e inadmissível desrespeito pelas pessoas, pela memória e,
acima de tudo, pelo Futuro. Citando Joni Mitchell, pavimentaram o paraíso e
construíram um parque de estacionamento. Provavelmente até terá uma rua com os nomes
dos responsáveis por esta política em que tudo é descartável…
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quinta-feira, 31 de maio de 2018
Café Royal LXXIV
Da Dignidade
Nos últimos dias muito se
falou de dignidade da pessoa humana, reduzindo-a, estupidamente, à fronteira da
morte, como se esta fosse um instante singular no percurso da vida. Legislar
sobre a liberdade de escolha pela eutanásia, tal como pelo aborto, não pode ser
o mesmo que decretar sobre o valor das assinaturas de arquitectos e engenheiros.
Aquilo que os partidos da Geringonça (menos o PCP e mais o Sr. do PAN…) tentaram
fazer, numa questão essencial, de liberdade individual do cidadão - decidir
sobre a sua própria morte - foi em todos os sentidos indigno porque
absolutamente antidemocrático. A pequena golpada de querer fazer passar uma lei
fundamental sem aviso, sem escrutínio popular e sem o debate público de um
referendo, apenas teve como resultado a morte deste assunto no futuro próximo. As
democracias deviam ser lugares de respeito, de dignidade, entre eleitos e
eleitores. Querendo decidir sozinhos, sem um debate esclarecido e alargado, os
partidos “eutanasiaram” a eutanásia… É pena, porque este assunto merecia ser
tratado com a mesma dignidade que se pretendia dar ao terminar da vida.
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quinta-feira, 24 de maio de 2018
Café Royal LXXIII
Os Americanos
É uma célebre cena de
Zeca Medeiros, a brilhante Maria Bifa, a Gilda do Baixio, cambaleando as vielas
de Vila Franca, gritando ao escuro a medo “véim
aí os rússes!”. Não deixa de ser irónico que agora não seja já esse sonho
feito barco de alcançar a América e sejam os americanos a aterrar ilha dentro.
E já se ouvem políticos e empresários a vociferar “véim aí os amaricanes!”. Quais naus das índias carregadas de ouro.
Mas o que vem nestes aviões são rabos em cadeiras, como se diz no jargão do
turismo. Pessoas, com gostos e vontades, diferentes dos Europeus, habituadas a
viajar e que procuram diversidade e qualidade. Será que estamos preparados? Nas
redes sociais vendemo-nos com um inglês pior que do tradutor do Google. Não temos
formação. A época-alta vai ser passada em obras. E até as praias vão estar sem
nadadores salvadores até meados de Junho. Os responsáveis dirão que se fez tudo,
que não há dinheiro, e amanhã lá estarão, na porta do aeroporto, a oferecer
rosas ao som de folclore. Não há nem dinheiro nem qualificação, mas há
bailinhos. Será que isso chega para os americanos?
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quinta-feira, 17 de maio de 2018
Café Royal LXXII
Açores?
O mais profundo falhanço
da autonomia regional mais, até, que a criação de um modelo de desenvolvimento
sustentável é o falhanço da ideia arquipelágica. Nenhum governo, nenhum partido
político, conseguiu dar Açores às nove ilhas do arquipélago. As ilhas vivem
desirmanadas, conflituadas entre si, constantemente em birras e ciúmes. E hoje,
mais do que nunca, essa inveja agudiza-se. O Pico quer um avião igual aos de
São Miguel. O Faial quer uma pista (que todos sabem ser inviável, mas que
cinicamente querem ver construída pelos dinheiros da República, no que seria um
dos maiores crimes financeiros e ambientais alguma vez visto na região…) onde
não haverá aviões. A Terceira quer portos onde não atracarão barcos. E todos,
do Corvo a Santa Maria, querem ser como Ponta Delgada que, coitada, não sabe
bem o que quer ser. A tão apregoada Autonomia Regional não é mais do que uma
expressão vazia para uso da retórica política, porque a nossa realidade hoje é
a de nove calhaus isolados, de costas voltadas uns para os outros, chorando as
mágoas e as dores da inveja alheia. Açores? Isso não existe!
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quinta-feira, 10 de maio de 2018
Café Royal LXXI
Higienizar…
“Cortem-lhe a cabeça!” grita a Rainha de Copas ao ver Alice. Esta semana o PS teve o seu momento Rainha de Copas. Pela voz de César, o partido mandou cortar a cabeça a Sócrates. Para além do – porquê agora?, há outro aspecto deste volte-face que importa relevar. Os partidos são feitos por pessoas, mas não se podem confundir com elas. Nem se deve sancionar todo um partido pelas as acções deste ou daquele militante ou dirigente. Mas, as acções dos políticos podem e devem sofrer o nosso julgamento moral e, acima de tudo, a autocrítica dos próprios partidos. Porém, pretender isolar, de forma cínica, a corrupção toda em Sócrates é esconder o sol com a peneira perante aquele que é hoje o maior problema da nossa democracia: a captura de grande parte do sistema político-partidário por interesses corruptos. Os partidos são, ou deveriam ser, esteios ideológicos e éticos da democracia. Cabe, por isso, ao PS, e a todos os outros partidos, expurgarem-se deste mal, reinstituindo valores éticos e ideológicos na sua acção e higienizando a classe política. Não chega cortar, apenas, uma cabeça…
in Açoriano Oriental
“Cortem-lhe a cabeça!” grita a Rainha de Copas ao ver Alice. Esta semana o PS teve o seu momento Rainha de Copas. Pela voz de César, o partido mandou cortar a cabeça a Sócrates. Para além do – porquê agora?, há outro aspecto deste volte-face que importa relevar. Os partidos são feitos por pessoas, mas não se podem confundir com elas. Nem se deve sancionar todo um partido pelas as acções deste ou daquele militante ou dirigente. Mas, as acções dos políticos podem e devem sofrer o nosso julgamento moral e, acima de tudo, a autocrítica dos próprios partidos. Porém, pretender isolar, de forma cínica, a corrupção toda em Sócrates é esconder o sol com a peneira perante aquele que é hoje o maior problema da nossa democracia: a captura de grande parte do sistema político-partidário por interesses corruptos. Os partidos são, ou deveriam ser, esteios ideológicos e éticos da democracia. Cabe, por isso, ao PS, e a todos os outros partidos, expurgarem-se deste mal, reinstituindo valores éticos e ideológicos na sua acção e higienizando a classe política. Não chega cortar, apenas, uma cabeça…
in Açoriano Oriental
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quinta-feira, 3 de maio de 2018
Café Royal LXX
Accountability
Peço desculpa ao leitor
pela utilização, não só de um palavrão, mas de um palavrão em inglês. Mas, a
verdade é que não existe, na nossa língua, um termo com a abrangência de
significado deste. E esse facto é, em si mesmo, paradigmático da nossa cultura
e da nossa postura enquanto sociedade, principalmente nos tempos que correm. Accountability é a obrigação que os
indivíduos e as organizações têm de prestar contas de forma transparente e de
assumir responsabilidade pelos seus actos perante a comunidade, principalmente
em questões que tem a ver com o bem público. Nos últimos vinte, trinta anos a
democracia portuguesa foi assaltada por grupos de interesses que espoliaram
desavergonhadamente o país. Embora caiba, obviamente, à Justiça o papel,
fundamental, de repor a justiça, há uma outra responsabilidade de accountability que, se não for
voluntariamente exercida pelos diferentes agentes políticos, económicos,
financeiros, etc., deve ser firmemente exigida pelos cidadãos. A falha em
perceber isto é o primeiro pingo de ácido sulfúrico que acabará por corroer,
por completo, a nossa pueril democracia.
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quinta-feira, 26 de abril de 2018
Café Royal LXIX
Sempre!
44 anos depois do 25 de Abril que país somos hoje? Que nação é esta? Olhando a espuma dos dias vemos um país desigual, pobre, desertificado, minado, no seu mais profundo âmago, pela corrupção que tudo contamina e que se metastisa infinitamente, dominado pela ditadura da partidocracia, onde grassa o nepotismo e a falta de vergonha. O sonho de Abril, tirando as conquistas da democracia e da descolonização, falhou em larga medida. E falhou no que era mais importante: na capacidade de construir e desenvolver um país solidário. Dos famosos três D’s desenhados por Medeiros Ferreira é esse o que falta. Nem mesmo a Liberdade é hoje um valor activo numa sociedade cada vez mais subsídio-dependente e com uma democracia imberbe. Urge cumprir, enfim, o terceiro D de Abril – Desenvolver. Mas antes é imperioso moralizar o país. Moralizar o exercício da actividade política, moralizar a justiça, a finança, a economia, a comunicação social, a vida associativa e, até mesmo, o futebol. Só então poderemos celebrar e honrar Abril, sempre!
in Açoriano Oriental
44 anos depois do 25 de Abril que país somos hoje? Que nação é esta? Olhando a espuma dos dias vemos um país desigual, pobre, desertificado, minado, no seu mais profundo âmago, pela corrupção que tudo contamina e que se metastisa infinitamente, dominado pela ditadura da partidocracia, onde grassa o nepotismo e a falta de vergonha. O sonho de Abril, tirando as conquistas da democracia e da descolonização, falhou em larga medida. E falhou no que era mais importante: na capacidade de construir e desenvolver um país solidário. Dos famosos três D’s desenhados por Medeiros Ferreira é esse o que falta. Nem mesmo a Liberdade é hoje um valor activo numa sociedade cada vez mais subsídio-dependente e com uma democracia imberbe. Urge cumprir, enfim, o terceiro D de Abril – Desenvolver. Mas antes é imperioso moralizar o país. Moralizar o exercício da actividade política, moralizar a justiça, a finança, a economia, a comunicação social, a vida associativa e, até mesmo, o futebol. Só então poderemos celebrar e honrar Abril, sempre!
in Açoriano Oriental
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quinta-feira, 19 de abril de 2018
Café Royal LXVIII
€609,00
É o valor do salário
mínimo nos Açores. Fixem o número. Esta semana soubemos que, para além dos seus
salários brutos e ajudas de custo, os nossos deputados eleitos recebem ainda
abonos para deslocações e trabalho político, entre outras regalias do cargo. No
caso das regiões autónomas, o valor pago por viagem semanal às ilhas é de
500,00€ e, não satisfeitos, os 5 deputados açorianos (não acredito que sejam só
os 3 do PS), vão, de cartão de embarque em punho ao guichet dos CTT pedir o seu
reembolsosinho. Bem feitas as contas, cada um leva na carteira mais 1500,00€
limpos por mês, isto no pressuposto que vêm matar saudades uma vez por semana.
Tudo isto pode ser legal, mas é ética e moralmente inaceitável e é só mais uma
demonstração de como os deputados são uma casta na nossa sociedade. Podem chamar-me
de populista, mas num país onde o salário médio são 864,00€, em que o salário
mínimo é o que é, e onde qualquer trabalhador que viaje em serviço, seja no público
ou no privado, devolve o reembolso à sua entidade patronal, esta maroscasinha
dos nossos 5 eleitos é fétida…
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quinta-feira, 12 de abril de 2018
Café Royal LXVII
Quando tudo arde
Foram chumbados, no
Conselho de Segurança da ONU, em Nova York, dois pedidos de uma investigação
independente ao, mais que certo, ataque com armas químicas perpetrado pelo
regime sírio de Bashar al-Assad. O chumbo deveu-se aos duplos vetos da Rússia e
dos EUA relativamente às propostas apresentadas pelos próprios, cada um vetou a
do outro num passe típico do jogo diplomático. Como é habitual, foi através do
Twitter que Trump comentou o chumbo. Em 140 caracteres anunciou a chegada de
misseis, adjetivando-os de inteligentes, novos e (pasme-se!) simpáticos, os
misseis! Representantes Russos e Iranianos já responderam que responderão a
qualquer intervenção Ocidental na Síria e, enquanto escrevo, as autoridades
aeronáuticas europeias emitiram um aviso à aviação comercial para as
consequências de eventuais bombardeamentos no mediterrâneo oriental. O conflito
Sírio, que dura já há oito anos, parece transformar-se, assim, de um conflito local
com interesses internacionais num verdadeiro conflito à escala mundial. Numa imprudência
a todos os níveis reprovável, os líderes das maiores potencias mundiais
entretêm-se a decidir sobre os destinos do mundo preocupados apenas com a sua
política interna. É caso para lembrar Sá de Miranda e questionar: “que farei quando tudo arde?”.
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quinta-feira, 5 de abril de 2018
Café Royal LXVI
Prioridades
Num rápido olhar pelo site
da Assembleia da República descobrimos que os nossos deputados andam ocupados com
assuntos tão atraentes como: animais de companhia em estabelecimentos comerciais;
limites territoriais das freguesias de Aves e Lordelo; regime jurídico da
conversão de créditos em capital; ou, a já famosa, sétima alteração à Lei n.º 19/2003
de 20 de Junho (vulgo, financiamento dos partidos…). Quanto a petições, deram
entrada na Assembleia, pedidos tão extraordinários como estes: Reconhecimento
das edições do Campeonato de Portugal realizadas entre 1922 e 1938; ou, Criação
de Dia Nacional do Hóquei em Patins. Este pequeno resumo diz-nos muito sobre a
nossa democracia e sobre nós próprios. Um tema como a presunção jurídica da
residência alternada para filhos de pais separados ou divorciados, não mereceu
dos deputados qualquer interesse e uma petição sobre o tema
(igualdadeparental.org/peticao) conta, actualmente, com apenas cerca de 2800
assinaturas, muito abaixo dos 4470 portugueses que querem ver reconhecidas as
edições dos campeonatos de futebol de 1922 a 1938… Por cá, esperamos ainda por notícias das
auditorias externas, anunciadas em Dezembro, a 6 entidades que têm contratos
avultados com o Governo Regional e que deviam ter sido iniciadas até ao final
de Março deste ano…. É tudo uma questão de prioridades…
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sexta-feira, 30 de março de 2018
Café Royal LXV
6’17’’
A imagem é brutal e ficará como uma das imagens do nosso tempo. Uma jovem rapariga, cabelo rapado, em silêncio, em lágrimas, depois de citar os nomes das vitimas um a um, ousando impelir toda uma multidão a pensar o significado de 17 vidas perdidas em seis minutos e dezassete segundos. Perante tal imagem, podemos optar por olhar para a tragédia de Parkland, como apenas mais um lamentável episódio, na já longa série de tiroteios em massa a que os E.U.A. já nos acostumaram. Podemos achar que não nos toca. Alyssa Alhadeff, 14. Scott Beigel, 35. Martin Duque, 14. Peter Wang, 15… estas são apenas 4 das 17 mortes desse massacre. Mas, se olharmos para as mais de 100 pessoas que morreram só em 2017 em consequência dos fogos florestais em Portugal e lhes imaginarmos os nomes e as idades: Pedro, 35. Ana, 4. Maria, 70. Zé, 40; talvez a morte não seja tão distante. Talvez a tragédia seja mais nossa. Nos E.U.A., este triste acontecimento levou à mobilização de uma geração inteira em torno de uma causa civilizacional que, certamente, não deixará a América igual daqui para a frente. Em Portugal, na nossa tragédia, discutimos relatórios mais ou menos técnicos e reduzimos a responsabilidade política a acções de marketing, com políticos de enxada na mão a fingirem que limpam matas…
in Açoriano Oriental
A imagem é brutal e ficará como uma das imagens do nosso tempo. Uma jovem rapariga, cabelo rapado, em silêncio, em lágrimas, depois de citar os nomes das vitimas um a um, ousando impelir toda uma multidão a pensar o significado de 17 vidas perdidas em seis minutos e dezassete segundos. Perante tal imagem, podemos optar por olhar para a tragédia de Parkland, como apenas mais um lamentável episódio, na já longa série de tiroteios em massa a que os E.U.A. já nos acostumaram. Podemos achar que não nos toca. Alyssa Alhadeff, 14. Scott Beigel, 35. Martin Duque, 14. Peter Wang, 15… estas são apenas 4 das 17 mortes desse massacre. Mas, se olharmos para as mais de 100 pessoas que morreram só em 2017 em consequência dos fogos florestais em Portugal e lhes imaginarmos os nomes e as idades: Pedro, 35. Ana, 4. Maria, 70. Zé, 40; talvez a morte não seja tão distante. Talvez a tragédia seja mais nossa. Nos E.U.A., este triste acontecimento levou à mobilização de uma geração inteira em torno de uma causa civilizacional que, certamente, não deixará a América igual daqui para a frente. Em Portugal, na nossa tragédia, discutimos relatórios mais ou menos técnicos e reduzimos a responsabilidade política a acções de marketing, com políticos de enxada na mão a fingirem que limpam matas…
in Açoriano Oriental
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quinta-feira, 22 de março de 2018
Café Royal LXIV
Sobre escolhas
A História está atulhada
de casos em que ditadores são eleitos por via democrática. Talvez o mais famoso
de todos seja o da eleição livre que fez do Partido Nazi o mais votado do
Reichtag alemão em 1933 e a subsequente nomeação de Hitler como Chanceler. Este
é, aliás, um caso de estudo sobre como por via do discurso e do contexto as “massas”
são manipuladas pelos políticos, condicionando-lhes as escolhas. A chave para
este problema está na capacidade de cada cidadão compreender e interpretar o
discurso político de forma a fazer escolhas educadas. Quanto mais cultas e
conscientes forem as pessoas, melhores serão as democracias. Após a eleição de
Trump tem sido amplamente debatida a influência da chamada “manipulação Russa”
e o papel das redes sociais no condicionamento emocional dos eleitores. O mais
recente episódio é a revelação de que uma empresa de análise de dados recolheu
e tratou abusivamente os perfis de 50 milhões de subscritores da rede social
Facebook para influenciar o resultado das eleições. O mais surpreendente neste
caso não é a manipulação em si, mas o facto de o ónus estar a ser colocado no
próprio Facebook. Culpar a rede social é o mesmo que culpar a impressora ou o
papel pelo conteúdo do Mein Kampf!
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quinta-feira, 15 de março de 2018
Café Royal LXIII
O Mistério
Talvez o maior mistério de todos, mais até do que o da própria Vida, seja o Mistério da Fé. Essa concepção de algo que transcende a razão, que está para lá de nós, e se consubstancia em Deus podendo apenas por Ele ser revelado. A Fé, ao contrário da Vida, não é mensurável, não tem leis cientificas que a possam provar. A Fé é o dom de Deus, diz-nos a doutrina cristã. Mas é, também, e não paradoxalmente, Palavra, ensinamento. É interpretação, conhecimento e partilha da Palavra. A origem do cristianismo está no exemplo sacrifical de Jesus e construiu-se, ao longo de dois milénios, na sucessiva interpretação e partilha da sua Palavra. Na sua essência, todas as religiões, mas particularmente as religiões, ditas, do Livro, são suportadas por estes dois princípios fundamentais – Crença e Doutrina; Fé e Palavra. E é nas e pelas palavras que se torna palpável, por assim dizer, o Mistério de Deus. Para alguém que, como eu, vive em dialéctica entre um ateísmo moderado e um agnosticismo militante é exactamente nas e pelas palavras que se materializa a imanência do Dom, a revelação do Mistério. Seja nas palavras do Papa Francisco, que nos insta a olhar as pessoas ou nas de Stephen Hawking, que nos obrigou a nunca deixar de olhar as estrelas, porque, em boa verdade, “o que está em cima é como o que está em baixo” …
in Açoriano Oriental
Talvez o maior mistério de todos, mais até do que o da própria Vida, seja o Mistério da Fé. Essa concepção de algo que transcende a razão, que está para lá de nós, e se consubstancia em Deus podendo apenas por Ele ser revelado. A Fé, ao contrário da Vida, não é mensurável, não tem leis cientificas que a possam provar. A Fé é o dom de Deus, diz-nos a doutrina cristã. Mas é, também, e não paradoxalmente, Palavra, ensinamento. É interpretação, conhecimento e partilha da Palavra. A origem do cristianismo está no exemplo sacrifical de Jesus e construiu-se, ao longo de dois milénios, na sucessiva interpretação e partilha da sua Palavra. Na sua essência, todas as religiões, mas particularmente as religiões, ditas, do Livro, são suportadas por estes dois princípios fundamentais – Crença e Doutrina; Fé e Palavra. E é nas e pelas palavras que se torna palpável, por assim dizer, o Mistério de Deus. Para alguém que, como eu, vive em dialéctica entre um ateísmo moderado e um agnosticismo militante é exactamente nas e pelas palavras que se materializa a imanência do Dom, a revelação do Mistério. Seja nas palavras do Papa Francisco, que nos insta a olhar as pessoas ou nas de Stephen Hawking, que nos obrigou a nunca deixar de olhar as estrelas, porque, em boa verdade, “o que está em cima é como o que está em baixo” …
in Açoriano Oriental
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quinta-feira, 8 de março de 2018
Café Royal LXII
O Retrocesso
O discurso político é demasiadas vezes contaminado por índices, métricas, estatísticas e outro tipo de indicadores mais ou menos incompreensíveis. Esta infecção pelos números leva a que os políticos se esqueçam das ideias e, pior, das pessoas. Nos últimos tempos, os políticos açorianos, ocupados na discussão dos índices económicos, dos indicadores de pobreza ou na excitação das taxas de crescimento turístico, parecem ter esquecido o fundamental – as próprias ilhas. Se há questão imprescindível hoje para o desenvolvimento social e económico dos Açores é a afirmação de um ideário arquipelágico. Uma concepção das ilhas que as promova como um todo. Mas não como uma soma de 9 partes iguais, antes como um conjunto de 9 realidades distintas que, na sua coesão, geram um todo maior e mais completo. Um deputado em greve de fome por causa de uma cantina ou o forró de municípios na BTL são apenas alguns dos sinais desse grande retrocesso na política açoriana que é o fomentar de bairrismos, divisões e todo o tipo de sectarismos e reivindicações individuais, que por estes tempos crescem, como cogumelos, pelas ilhas. Urge reencontrar uma ideia de arquipélago, em que Angra é a cidade mais bonita, o Poço da Alagoinha ou a Lagoa do Fogo as imagens mais marcantes e a visão do Pico desde a baía da Horta a sua mais profunda experiência…
in Açoriano Oriental
O discurso político é demasiadas vezes contaminado por índices, métricas, estatísticas e outro tipo de indicadores mais ou menos incompreensíveis. Esta infecção pelos números leva a que os políticos se esqueçam das ideias e, pior, das pessoas. Nos últimos tempos, os políticos açorianos, ocupados na discussão dos índices económicos, dos indicadores de pobreza ou na excitação das taxas de crescimento turístico, parecem ter esquecido o fundamental – as próprias ilhas. Se há questão imprescindível hoje para o desenvolvimento social e económico dos Açores é a afirmação de um ideário arquipelágico. Uma concepção das ilhas que as promova como um todo. Mas não como uma soma de 9 partes iguais, antes como um conjunto de 9 realidades distintas que, na sua coesão, geram um todo maior e mais completo. Um deputado em greve de fome por causa de uma cantina ou o forró de municípios na BTL são apenas alguns dos sinais desse grande retrocesso na política açoriana que é o fomentar de bairrismos, divisões e todo o tipo de sectarismos e reivindicações individuais, que por estes tempos crescem, como cogumelos, pelas ilhas. Urge reencontrar uma ideia de arquipélago, em que Angra é a cidade mais bonita, o Poço da Alagoinha ou a Lagoa do Fogo as imagens mais marcantes e a visão do Pico desde a baía da Horta a sua mais profunda experiência…
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quinta-feira, 1 de março de 2018
Café Royal LXI
Do eufemismo
O eufemismo é uma figura
de estilo utilizada para mascarar uma determinada ideia com outra mais suave. “Ir
para o céu” é, obviamente, um eufemismo para dissimular o facto de morrermos e sermos
enterrados. Na política, o eufemismo é uma forma de arte. Em conferência de
imprensa, o Presidente e Vice-presidente do governo anunciaram uma reforma do
sector público empresarial da região sob a forma de alienação, extinção e
desvinculação. Reforma é, claramente, um eufemismo. Mas, o que é importante
questionar é porque razão é o Partido Socialista que privatiza e extingue, sem
critérios claros, uma parte das empresas públicas da região, para, por um lado
engordar a mão do estado e, por outro, ofertar os anéis aos mercados? E, ainda
por cima, sem aviso prévio ou mandato, porque a verdade é que em nenhuma página
do seu programa eleitoral e de governo surgem as palavras alienar; internalizar
ou desvincular. Aliás, as palavras vender e extinguir apenas surgem na pág. 51
– “vender” melhor o peixe – e pág. 1
– “extinguir” o Ministro da República.
Mais, na pág. 16, o que o governo se propõe fazer é: “valorizar o exercício da função de acionista/proprietário da Região
através da melhoria dos mecanismos de controlo[…]”.
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