É um dos mais célebres e
bem conseguidos sketches dos saudosos Gato Fedorento. Ricardo Araújo Pereira a
fazer de Professor Marcelo durante a primeira campanha para a despenalização do
aborto. Sou a favor, mas sou contra. Pode, mas não pode. É, mas não
é…ridicularizando os posicionamentos dúbios de Marcelo, que se esforçava (ainda
hoje) por estar sempre bem com Deus e com o Diabo. Ora, o momento eleitoral
interno do PSD Açores teve, ontem, o seu primeiro episódio Gato Fedorento. José
Manuel Bolieiro, que havia sido apresentado como apoiante de Nascimento Cabral
e futuro coordenador de um dito Conselho Consultivo, veio depois dizer,
atabalhoadamente, que, afinal, é equidistante. Concorda e está disponível, mas
não o faz, nem fará. Espera que todo o processo eleitoral do PSD se paute pela
elevação, mas é o primeiro a dar uma canelada na candidatura de Nascimento
Cabral e não sem deixar implícito que ele próprio é putativo candidato a
candidato, mas só quando a maçã socialista já estiver podre no chão. Para já,
Boli, como é popularmente conhecido, deixa-se estar confortavelmente
refastelado num casulo de seda branca. Marcelo não faria melhor!
quinta-feira, 9 de agosto de 2018
quinta-feira, 2 de agosto de 2018
Café Royal LXXXIII
Silly
De acordo com o Oxford
English Dictionary silly é ter ou
demonstrar falta de senso comum ou de juízo. Um termo relacionado é foolish que em português se pode
traduzir como tolo. A utilização mais notória da expressão silly é a que a associa ao Verão, a célebre “silly season” ou “estação tolinha”. A origem da expressão remonta à
Inglaterra de meios do seculo XIX quando, no Verão, os trabalhos do Parlamento
entravam em pausa, levando a que os jornais tivessem menos matéria noticiosa e
as páginas dos periódicos fossem atafulhadas com coisas tontas. Para os que,
como eu, um pouco masoquistamente, gostam de ler jornais e de seguir as
notícias ao longo do ano, nesta era das “fake
news”, dos memes do Facebook, do Twitter e de todo esse enorme rol de parvoíces
que ocupam as manchetes de todos os dias, não pode deixar de nos açoitar uma
estranha e pesarosa sensação de que, nos dias que correm, a “estação tolinha” já
não é uma maleita só dos meses quentes, mas uma doença crónica, que se estende
pelo ano todo, como se a vida e o espaço público estivessem governados pela estupidez…
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quinta-feira, 26 de julho de 2018
Café Royal LXXXII
Os Ciclos
Uma das mais importantes regras, não escritas, da política regional é a de que os partidos da oposição não ganham eleições, são os partidos do poder que as perdem. Carlos César não ganhou as eleições por ser um grande político, mas porque os eleitores estavam fartos do PSD. A saída astuciosa de Mota Amaral apenas precipitou essa sensação de enfado, de azia, que as pessoas sentiam por um partido que minava a máquina do Estado e corrompia a própria estrutura da governação. Hoje, vivemos tempos perigosamente parecidos. Ao cabo de mais de vinte anos de poder, o PS contaminou, também, o edifício governativo da Região. Os escândalos sucedem-se, a arrogância de alguns políticos é notória, há uma sensação de fim de ciclo no ar. Quase de certeza será o futuro da SATA que ditará a sina do PS. Sentindo isto, o PSD movimenta-se. Duarte Freitas sai, dizendo que por razões pessoais, como se as políticas não existissem. Entram Nascimento Cabral e Gaudêncio. Um por convicção o outro por empurrão. As próximas eleições regionais serão disputadas no terreno da verdade e de um desígnio para os Açores. Vasco Cordeiro tem dois anos para não as perder…
in Açoriano Oriental
Uma das mais importantes regras, não escritas, da política regional é a de que os partidos da oposição não ganham eleições, são os partidos do poder que as perdem. Carlos César não ganhou as eleições por ser um grande político, mas porque os eleitores estavam fartos do PSD. A saída astuciosa de Mota Amaral apenas precipitou essa sensação de enfado, de azia, que as pessoas sentiam por um partido que minava a máquina do Estado e corrompia a própria estrutura da governação. Hoje, vivemos tempos perigosamente parecidos. Ao cabo de mais de vinte anos de poder, o PS contaminou, também, o edifício governativo da Região. Os escândalos sucedem-se, a arrogância de alguns políticos é notória, há uma sensação de fim de ciclo no ar. Quase de certeza será o futuro da SATA que ditará a sina do PS. Sentindo isto, o PSD movimenta-se. Duarte Freitas sai, dizendo que por razões pessoais, como se as políticas não existissem. Entram Nascimento Cabral e Gaudêncio. Um por convicção o outro por empurrão. As próximas eleições regionais serão disputadas no terreno da verdade e de um desígnio para os Açores. Vasco Cordeiro tem dois anos para não as perder…
in Açoriano Oriental
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quinta-feira, 19 de julho de 2018
Café Royal LXXXI
Sociedade
Criar a SATA foi um gesto
de enorme audácia. Um pequeno grupo de empresários, firmes na ideia de uns Açores
centrais no Atlântico, imaginou a companhia como um instrumento ao serviço da
região. A designação Sociedade Açoriana de Transportes Aéreos não foi uma
imposição burocrática, foi uma opção consciente dos seus fundadores, afirmando,
desde logo, o papel fundamental da empresa, que seria mais do que uma mera
companhia de transporte aéreo, mas sim um veículo ao serviço do desenvolvimento
da sociedade açoriana. A politização/partidarização da companhia, desde 1980, e
consequente quebra desse desígnio, levou ao estado moribundo em que esta se
encontra. A SATA é hoje um desastre financeiro, operacional, laboral e político.
É, por isso, obrigação do Governo Regional agir de forma afirmativa e
transparente na resolução destes problemas em prol da salvação da empresa.
Desenhar e cumprir um plano de saneamento financeiro. Dar a gestão operacional
da empresa a verdadeiros especialistas em aviação. Negociar um acordo de
empresa que inclua os trabalhadores na defesa da mesma. Clonar presidentes, ao
sábado de manhã, numa política de mais do mesmo, não é certamente uma solução…
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sábado, 14 de julho de 2018
Mix Tape 2
Track 2 -
The
Summerhouse
As memórias que guardamos da infância são evanescentes, como
sonhos, como bolas de sabão levitando pelo ar. Mas, de todas, talvez as mais
impressivas sejam as dos verões. Os verões de criança feitos invariavelmente de
mar, de areia da praia e dos ramos das árvores do jardim que trepamos. Aqueles
infindáveis verões, meses corridos, de junho a setembro, feitos da mais pura
liberdade, inconsciência e infância. Os verões em que corríamos descalços pelas
pedras, negras, quentes e pontiagudas. Dávamos mergulhos na água fria.
Apanhávamos escaldões e erámos tão absolutamente descomprometidos como o ritmo
da espuma das ondas que se abatia, em sons, nas pedras durante a noite,
entrecortada de quando em vez pelo vôo tonitruante dos cagarros. Talvez a
canção que melhor resume esse sentimento de mágico encantamento das férias de
verão seja The Summerhouse. Oitavo tema do terceiro álbum da banda The DivineComedy. “Do you remember / The way it used to be / June
to September / In a cottage by the sea […] Distant cousins, local kids / We
climbed every tree together / And it never ever rained / 'Til we climbed back
on the train / That would take us so far away / From the village and the bay /
And the summerhouse / Where we found new games to play […] Do you remember /
Sunday lunch on the lawn / Daring escapes at midnight / And costumeless bathes
at dawn. […] You were only nine years old / And I was barely ten / It's kind of
weird to be back here again / Do you remember / The summerhouse...?” Promenade foi lançado pela
editora de culto Setanta, em 1994, tinha eu vinte anos e estava a meio de uma
entediante licenciatura. 94 não era já o ano das guitarras, mais ou menos
alternativas, ou das excessivas rebeldias de um Nevermind dos Nirvana. 94 foi o
ano de Lisboa Capital da Cultura e da sensação de que tudo estava ao nosso
alcance, nada nos podia parar. Pode ser estranho que a melancólica música de
Neil Hannon e Joby Talbot, uma espécie de plágio Pop de Michael Nyman, se
adeque a essa sensação de invencibilidade pós-adolescente. Mas, para mim, nessa
altura, era exactamente esse reconhecimento da perenidade das memórias dessa
infância, mais ou menos etérea que, não só se manifestava naquele disco, como
nos permitia abraçar o futuro, como se de um mergulho nas tranquilas águas dos
verões passados na meninice se tratasse.
Em escuta: The Divine Comedy - Promenade
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quinta-feira, 12 de julho de 2018
Café Royal LXXX
Compaixão
Durante duas semanas o
mundo parou, numa comoção global pelo dramático enredo dos 12 rapazes, mais o
seu treinador de 25 anos e ex-monge budista, encurralados numa gruta na Tailândia.
Assistimos, no nosso remanso, a intermináveis directos televisivos, ouvimos
especialistas em várias ciências e técnicas, desde espeleologistas, a
mergulhadores e psicólogos, observamos cuidadosamente as infografias da gruta
de Tham Luang, escutamos atentamente as conferências de imprensa do governador
da província de Chang Rai, Narongsak Osatanakorn, com o seu boné azul, lenço
amarelo e sorriso desconcertante. E o mundo foi tomado por uma onda de profunda
compaixão por aquele grupo de miúdos. Compaixão é o acto de partilhar ou entender
o sofrimento ou a dor de outra pessoa. Guiados pelas televisões de todo o mundo,
desde a CMTV à CNN, foi esse o sentimento que partilhamos por aquele
desafortunado conjunto de jovens, finalmente salvos para gáudio generalizado do
mundo dito civilizado. Talvez agora as câmaras, e a nossa compaixão, se possam
virar para os milhares de seres humanos que todos os dias encaram a morte,
flutuando à deriva, no mar mediterrâneo…
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quinta-feira, 5 de julho de 2018
Café Royal LXXIX
DN
Desde há décadas que se tem
vindo a escrever o obituário da imprensa escrita. Hoje, na ditadura do digital
e em que os nossos estilos de vida assoberbados nos levam a um alheamento da sociedade,
o papel primordial do jornalismo, e dos jornais, como comunicador e, muitas
vezes, mediador da vida em comunidade, foi-se gradualmente perdendo. Esta degradação
da imprensa escrita é mais um sintoma da decadência das nossas democracias. Os
jornais são areópagos da pluralidade e do debate livre de ideias. A sua morte,
ou a sua “adaptação”, como eufemisticamente usam dizer por estes dias os
patrões da imprensa, devia pesar sobre o nosso pensamento, como um alerta sobre
o tipo de mundo que estamos a construir. Na dualidade entre passado e futuro, o
nosso papel, enquanto civilização, é garantir que o que de melhor existiu no
passado possa ser transportado para o futuro. A capitulação do Diário de Notícias ao mundo virtual, à banalidade do dedo que faz apagar para baixo no
ecrã, é apenas mais um passo em direcção a um lugar sem tempo e onde tudo é,
apenas, momentâneo…
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