quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Café Royal LXXXVI

Comunhão

Imagine o leitor que não havia hortênsias, azáleas, beladonas, na berma da estrada. Extinguiam-se as longas e perfumadas escarpas de conteiras. As misteriosas matas de criptoméria. Imagine que não havia muros de pedra seca tecendo as montanhas com laboriosas esquadrias. Que se evaporavam as vacas. Desapareciam os portos, os portinhos, as poças e piscinas e todos os caminhos abertos até ao oceano, onde hoje tomamos lentos e uterinos banhos de mar. Imagine os Açores de novo ilhas selvagens cobertas de espessa floresta Laurissilva, explodindo em erupções vulcânicas. É difícil, hoje, imaginar os Açores sem a mão humana. Imaginar as ilhas sem quinhentos anos de esforço, ambição, engenho e necessidade do Homem, na construção de uma possível comunhão com a Terra e o Mar. Claro que houve erros, atropelos e exageros. Mas, quando hoje todos falam de turismo e de preservação, poucos parecem querer aceitar que o nosso maior, e mais valioso, Património é o dessa História de construção com e na Natureza, que fazem dos Açores aquilo que hoje verdadeiramente são. E é o legado dessa História que temos a obrigação de preservar…

in Açoriano Oriental

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Café Royal LXXXV

Vulnerabilidade

Steve Bannon, espécie de Maquiavel de Donald Trump, criou um movimento pan-europeu de apoio aos partidos populistas, tendo na mira as eleições para o Parlamento Europeu. O objectivo é ter deputados suficientes para, como um “cavalo de Troia” político, destruir por dentro o ideal europeu – uma comunidade de estados e nações unidos, em prosperidade económica, no respeito fundamental pelos direitos humanos e pelos valores da liberdade. A maior vulnerabilidade da Democracia está, precisamente, na defesa da Liberdade face aos ataques dos demagogos, que se alimentam da ignorância e do desespero dos cidadãos, como um incêndio de gasolina. O organizador da afamada Web Summit convidou Marine Le Pen para oradora e defende o seu convite com a “liberdade de expressão”. Hoje, mais de 100 diferentes jornais americanos, numa iniciativa organizada pelo BostonGlobe, publicam editoriais e artigos de opinião defendendo a imprensa livre e acusando Trump de, ativamente, tentar destruir a credibilidade da imprensa e com ela o pluralismo democrático. Não há Democracia sem Liberdade, mas a Liberdade não pode (nunca!) ser posta ao serviço dos seus piores inimigos!

in Açoriano Oriental

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Café Royal LXXXIV

Boli

É um dos mais célebres e bem conseguidos sketches dos saudosos Gato Fedorento. Ricardo Araújo Pereira a fazer de Professor Marcelo durante a primeira campanha para a despenalização do aborto. Sou a favor, mas sou contra. Pode, mas não pode. É, mas não é…ridicularizando os posicionamentos dúbios de Marcelo, que se esforçava (ainda hoje) por estar sempre bem com Deus e com o Diabo. Ora, o momento eleitoral interno do PSD Açores teve, ontem, o seu primeiro episódio Gato Fedorento. José Manuel Bolieiro, que havia sido apresentado como apoiante de Nascimento Cabral e futuro coordenador de um dito Conselho Consultivo, veio depois dizer, atabalhoadamente, que, afinal, é equidistante. Concorda e está disponível, mas não o faz, nem fará. Espera que todo o processo eleitoral do PSD se paute pela elevação, mas é o primeiro a dar uma canelada na candidatura de Nascimento Cabral e não sem deixar implícito que ele próprio é putativo candidato a candidato, mas só quando a maçã socialista já estiver podre no chão. Para já, Boli, como é popularmente conhecido, deixa-se estar confortavelmente refastelado num casulo de seda branca. Marcelo não faria melhor!
 

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Café Royal LXXXIII

Silly

De acordo com o Oxford English Dictionary silly é ter ou demonstrar falta de senso comum ou de juízo. Um termo relacionado é foolish que em português se pode traduzir como tolo. A utilização mais notória da expressão silly é a que a associa ao Verão, a célebre “silly season” ou “estação tolinha”. A origem da expressão remonta à Inglaterra de meios do seculo XIX quando, no Verão, os trabalhos do Parlamento entravam em pausa, levando a que os jornais tivessem menos matéria noticiosa e as páginas dos periódicos fossem atafulhadas com coisas tontas. Para os que, como eu, um pouco masoquistamente, gostam de ler jornais e de seguir as notícias ao longo do ano, nesta era das “fake news”, dos memes do Facebook, do Twitter e de todo esse enorme rol de parvoíces que ocupam as manchetes de todos os dias, não pode deixar de nos açoitar uma estranha e pesarosa sensação de que, nos dias que correm, a “estação tolinha” já não é uma maleita só dos meses quentes, mas uma doença crónica, que se estende pelo ano todo, como se a vida e o espaço público estivessem governados pela estupidez…
 

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Café Royal LXXXII

Os Ciclos

Uma das mais importantes regras, não escritas, da política regional é a de que os partidos da oposição não ganham eleições, são os partidos do poder que as perdem. Carlos César não ganhou as eleições por ser um grande político, mas porque os eleitores estavam fartos do PSD. A saída astuciosa de Mota Amaral apenas precipitou essa sensação de enfado, de azia, que as pessoas sentiam por um partido que minava a máquina do Estado e corrompia a própria estrutura da governação. Hoje, vivemos tempos perigosamente parecidos. Ao cabo de mais de vinte anos de poder, o PS contaminou, também, o edifício governativo da Região. Os escândalos sucedem-se, a arrogância de alguns políticos é notória, há uma sensação de fim de ciclo no ar. Quase de certeza será o futuro da SATA que ditará a sina do PS. Sentindo isto, o PSD movimenta-se. Duarte Freitas sai, dizendo que por razões pessoais, como se as políticas não existissem. Entram Nascimento Cabral e Gaudêncio. Um por convicção o outro por empurrão. As próximas eleições regionais serão disputadas no terreno da verdade e de um desígnio para os Açores. Vasco Cordeiro tem dois anos para não as perder…

in Açoriano Oriental

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Café Royal LXXXI

Sociedade

Criar a SATA foi um gesto de enorme audácia. Um pequeno grupo de empresários, firmes na ideia de uns Açores centrais no Atlântico, imaginou a companhia como um instrumento ao serviço da região. A designação Sociedade Açoriana de Transportes Aéreos não foi uma imposição burocrática, foi uma opção consciente dos seus fundadores, afirmando, desde logo, o papel fundamental da empresa, que seria mais do que uma mera companhia de transporte aéreo, mas sim um veículo ao serviço do desenvolvimento da sociedade açoriana. A politização/partidarização da companhia, desde 1980, e consequente quebra desse desígnio, levou ao estado moribundo em que esta se encontra. A SATA é hoje um desastre financeiro, operacional, laboral e político. É, por isso, obrigação do Governo Regional agir de forma afirmativa e transparente na resolução destes problemas em prol da salvação da empresa. Desenhar e cumprir um plano de saneamento financeiro. Dar a gestão operacional da empresa a verdadeiros especialistas em aviação. Negociar um acordo de empresa que inclua os trabalhadores na defesa da mesma. Clonar presidentes, ao sábado de manhã, numa política de mais do mesmo, não é certamente uma solução…  
 

sábado, 14 de julho de 2018

Mix Tape 2

Track 2 - The Summerhouse

As memórias que guardamos da infância são evanescentes, como sonhos, como bolas de sabão levitando pelo ar. Mas, de todas, talvez as mais impressivas sejam as dos verões. Os verões de criança feitos invariavelmente de mar, de areia da praia e dos ramos das árvores do jardim que trepamos. Aqueles infindáveis verões, meses corridos, de junho a setembro, feitos da mais pura liberdade, inconsciência e infância. Os verões em que corríamos descalços pelas pedras, negras, quentes e pontiagudas. Dávamos mergulhos na água fria. Apanhávamos escaldões e erámos tão absolutamente descomprometidos como o ritmo da espuma das ondas que se abatia, em sons, nas pedras durante a noite, entrecortada de quando em vez pelo vôo tonitruante dos cagarros. Talvez a canção que melhor resume esse sentimento de mágico encantamento das férias de verão seja The Summerhouse. Oitavo tema do terceiro álbum da banda The DivineComedy. “Do you remember / The way it used to be / June to September / In a cottage by the sea […] Distant cousins, local kids / We climbed every tree together / And it never ever rained / 'Til we climbed back on the train / That would take us so far away / From the village and the bay / And the summerhouse / Where we found new games to play […] Do you remember / Sunday lunch on the lawn / Daring escapes at midnight / And costumeless bathes at dawn. […] You were only nine years old / And I was barely ten / It's kind of weird to be back here again / Do you remember / The summerhouse...?” Promenade foi lançado pela editora de culto Setanta, em 1994, tinha eu vinte anos e estava a meio de uma entediante licenciatura. 94 não era já o ano das guitarras, mais ou menos alternativas, ou das excessivas rebeldias de um Nevermind dos Nirvana. 94 foi o ano de Lisboa Capital da Cultura e da sensação de que tudo estava ao nosso alcance, nada nos podia parar. Pode ser estranho que a melancólica música de Neil Hannon e Joby Talbot, uma espécie de plágio Pop de Michael Nyman, se adeque a essa sensação de invencibilidade pós-adolescente. Mas, para mim, nessa altura, era exactamente esse reconhecimento da perenidade das memórias dessa infância, mais ou menos etérea que, não só se manifestava naquele disco, como nos permitia abraçar o futuro, como se de um mergulho nas tranquilas águas dos verões passados na meninice se tratasse.