quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Café Royal XC

Os Areais

Naquele tempo, íamos surfar, às escondidas, para o Monte Verde. A primeira vez que fomos aos Areais foi com o Armindo e o Marco Sousa. Entrando pelo lado onde hoje é o Tuká Tulá, não havia praia. Era um imenso calhau, espécie de despojos da rapina dos apanhadores ilegais de areia. Do outro lado, junto ao morro de Santana, a entrada era feita pela estrada. Seguíamos por um caminho de terra e descíamos o pequeno carreiro na falésia até à praia, ao encontro daquele lugar paradisíaco e incólume, apenas nós e algumas das mais fantásticas ondas da ilha. Hoje, a praia dos Areais de Sta. Barbara é uma das melhores e mais utilizadas zonas balneares da ilha e é, também, um importante cartaz turístico, fruto da projecção global dos campeonatos de Surf. E é com um enorme orgulho que sei que o aproveitamento e qualificação de um valioso pedaço desta ilha se ficou a dever, também, ao empenho e vontade de um pequeno grupo de surfistas. Os Areais são um feliz exemplo de como as boas vontades, se bem orientadas, podem trazer benefícios para todos. Quão bom seria se esse exemplo fosse seguido, por outras pessoas, noutros lugares destas ilhas…

in Açoriano Oriental

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Café Royal LXXXIX

A Escola

Vão recomeçar as aulas. Como se o fim do Verão e as agruras típicas do regresso ao trabalho não fossem, já de si, angustiantes o suficiente, eis que, de supetão, cai sobre pais e filhos, professores e alunos, o tormentoso turbilhão do regresso à escola. Os horários, as actividades extracurriculares, os manuais, os materiais, as mochilas, as roupas, todo um infindável rol de pequenos/grandes problemas que, por estes dias, consomem quase por completo uma grossa fatia da sociedade. Até aos avós hão de chegar as ondas de choque do ano lectivo. As nossas sociedades transformaram a Escola num espaço de contenção das crianças e, até, em certo sentido, dos pais. A padronização e sistematização dos processos e das regras do sistema educativo criaram um ambiente quase que opressor para todos os que, de uma forma ou de outra, lidam com a Escola. Horários rígidos e excessivamente longos. Currículos padronizados, avaliações quantitativas. (Já para não falar nessa instituição arcaica chamada “trabalhos de casa”, que transporta a escola para dentro da vida familiar, desesperando as crianças e infernizando os pais). Valerá a pena perpetuar este sistema?
 

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Café Royal LXXXVIII

Vontade

Depois de uma apresentação mediática, foi ontem tornada pública a Moção de Vasco Cordeiro ao próximo Congresso do PS Açores. O documento aponta 3 grandes áreas de actuação: Afirmação dos Açores no contexto nacional e internacional; Coesão entre as ilhas; Qualificação da Democracia. Dos 3, há um que merece destaque – “Reforçar a Coesão Partindo da Diferença”. Aí é expressa a intenção de olhar para o desenvolvimento económico e social das ilhas, partindo da identificação e valorização das diferenças entre elas e já não da tentativa de as tornar iguais, algo que culminou na efervescência bairrista que os Açores vivem hoje. O que fica por saber é se esta ambição de Vasco Cordeiro, em si válida e extremamente necessária, se resumirá apenas a um mero texto de uso político. Ou, pelo contrário, mais do que uma mera ambição, a sua vontade é levar realmente a cabo, ilha a ilha, este novo paradigma de governação. Se for assim, esse será o seu maior legado à Região e um cortar, definitivo, com as políticas, e os políticos, do passado. Esperemos que sim…
 

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Café Royal LXXXVII

Estagnar

“Na Região Autónoma dos Açores, no mês de junho, as dormidas nos estabelecimentos hoteleiros registaram um decréscimo homólogo de 6,1%.” Começava assim o destaque do SREA sobre o Turismo. Visto assim, e para quem souber ler estes áridos documentos, o que fica é que a evolução do Turismo na Região está a desacelerar, se não mesmo a estagnar, depois dos enormes crescimentos, de mais de 20%, a que assistimos desde a liberalização do espaço aéreo. Esta semana, num esforço pueril de mascarar os números, o SREA agitou-nos a bandeira de que as dormidas em AL tinham crescido 32,5% no primeiro semestre deste ano. Por melhor que isto seja, a dura realidade é que o AL apenas representa cerca de um quarto do total de dormidas da região. E, verdadeiramente preocupante, é o facto de, em Junho, a taxa de ocupação na Hotelaria Tradicional ter sido, apenas, de 62%. Se juntarmos a isto o facto de as dormidas de estrangeiros terem caído quase 10% temos os dados suficientes para estarmos todos muito, mas mesmo muito, preocupados. Oxalá o Governo já tenha pedido a devida auditoria externa…
 

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Café Royal LXXXVI

Comunhão

Imagine o leitor que não havia hortênsias, azáleas, beladonas, na berma da estrada. Extinguiam-se as longas e perfumadas escarpas de conteiras. As misteriosas matas de criptoméria. Imagine que não havia muros de pedra seca tecendo as montanhas com laboriosas esquadrias. Que se evaporavam as vacas. Desapareciam os portos, os portinhos, as poças e piscinas e todos os caminhos abertos até ao oceano, onde hoje tomamos lentos e uterinos banhos de mar. Imagine os Açores de novo ilhas selvagens cobertas de espessa floresta Laurissilva, explodindo em erupções vulcânicas. É difícil, hoje, imaginar os Açores sem a mão humana. Imaginar as ilhas sem quinhentos anos de esforço, ambição, engenho e necessidade do Homem, na construção de uma possível comunhão com a Terra e o Mar. Claro que houve erros, atropelos e exageros. Mas, quando hoje todos falam de turismo e de preservação, poucos parecem querer aceitar que o nosso maior, e mais valioso, Património é o dessa História de construção com e na Natureza, que fazem dos Açores aquilo que hoje verdadeiramente são. E é o legado dessa História que temos a obrigação de preservar…

in Açoriano Oriental

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Café Royal LXXXV

Vulnerabilidade

Steve Bannon, espécie de Maquiavel de Donald Trump, criou um movimento pan-europeu de apoio aos partidos populistas, tendo na mira as eleições para o Parlamento Europeu. O objectivo é ter deputados suficientes para, como um “cavalo de Troia” político, destruir por dentro o ideal europeu – uma comunidade de estados e nações unidos, em prosperidade económica, no respeito fundamental pelos direitos humanos e pelos valores da liberdade. A maior vulnerabilidade da Democracia está, precisamente, na defesa da Liberdade face aos ataques dos demagogos, que se alimentam da ignorância e do desespero dos cidadãos, como um incêndio de gasolina. O organizador da afamada Web Summit convidou Marine Le Pen para oradora e defende o seu convite com a “liberdade de expressão”. Hoje, mais de 100 diferentes jornais americanos, numa iniciativa organizada pelo BostonGlobe, publicam editoriais e artigos de opinião defendendo a imprensa livre e acusando Trump de, ativamente, tentar destruir a credibilidade da imprensa e com ela o pluralismo democrático. Não há Democracia sem Liberdade, mas a Liberdade não pode (nunca!) ser posta ao serviço dos seus piores inimigos!

in Açoriano Oriental

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Café Royal LXXXIV

Boli

É um dos mais célebres e bem conseguidos sketches dos saudosos Gato Fedorento. Ricardo Araújo Pereira a fazer de Professor Marcelo durante a primeira campanha para a despenalização do aborto. Sou a favor, mas sou contra. Pode, mas não pode. É, mas não é…ridicularizando os posicionamentos dúbios de Marcelo, que se esforçava (ainda hoje) por estar sempre bem com Deus e com o Diabo. Ora, o momento eleitoral interno do PSD Açores teve, ontem, o seu primeiro episódio Gato Fedorento. José Manuel Bolieiro, que havia sido apresentado como apoiante de Nascimento Cabral e futuro coordenador de um dito Conselho Consultivo, veio depois dizer, atabalhoadamente, que, afinal, é equidistante. Concorda e está disponível, mas não o faz, nem fará. Espera que todo o processo eleitoral do PSD se paute pela elevação, mas é o primeiro a dar uma canelada na candidatura de Nascimento Cabral e não sem deixar implícito que ele próprio é putativo candidato a candidato, mas só quando a maçã socialista já estiver podre no chão. Para já, Boli, como é popularmente conhecido, deixa-se estar confortavelmente refastelado num casulo de seda branca. Marcelo não faria melhor!