quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Café Royal XCIII

Cântico Negro

Quem olhe o estado do mundo, hoje, mesmo que com “olhos lassos”, não pode deixar de sentir desconforto, uma quase dor de quem sente que vivemos o fim de uma era, o fim de um tempo de utopia e de esperança. Em nosso torno são múltiplos os sinais de que o tempo das democracias liberais terminou. O sonho de um mundo, construído por sociedades onde as liberdades individuais e o princípio da solidariedade entre indivíduos e gerações seriam a base da organização dos estados, sucumbiu à ditadura dos números. Todo o discurso político foi contaminado, como se por um vírus, por défices, taxas, dívidas, índices, juros, ratings e todo um infindável jargão de economices, com que os titereiros da política e do capital manipulam o espaço público. Algures no caminho deixamos que se perdesse o humano e tudo se tornou refém do número. É natural que assim seja quando, por estes dias, o que constatamos à nossa volta são políticos emproados a discutir as décimas do défice e a percentagem do PIB na dívida, sem que, nunca, se considere o simples, mas fundamental, bem-estar dos cidadãos… “Não, não vou por aí!
 

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Café Royal XCII

#EleNao

No domingo, o Brasil vai a votos, naquela que é, certamente, a mais inacreditável campanha eleitoral de sempre para a escolha de um Presidente. Mesmo num país onde um gorila já foi candidato a deputado e um artista de circo ficou célebre pelo seu slogan “Pior do que tá não fica, vote Tiririca”. Mergulhado em escândalos de corrupção, depois do impeachment de Dilma e do mandato do vampiresco Temer, o Brasil está mais dividido do que nunca. De um lado, a Esquerda, órfã de Lula (preso e impedido de concorrer), tenta consolidar Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo, como a face reformista de um PT acossado pelos escândalos de corrupção. Do outro lado, a Direita, aparece tombada para a sua extrema com Jair Bolsonaro, ex-militar na reforma, como o líder das sondagens. Os últimos inquéritos davam a Bolsonaro 31% das intenções de voto. E o que torna estas eleições brasileiras tão inacreditáveis é mesmo Bolsonaro. Escassos 33 anos após o fim de uma Ditadura Militar, que durou 21, os brasileiros parecem acolher com entusiasmo um candidato cuja visão política comporta opiniões como esta – “o erro da ditadura foi torturar e não matar”. #EleNao!
 

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Café Royal XCI

Honrar Antero

A “Questão Coimbrã” foi uma das mais célebres polémicas da história nacional. Choque intelectual entre duas gerações, opôs o jovem Antero de Quental e o velho António Feliciano de Castilho. No cerne da disputa estavam duas concepções distintas do papel da literatura na sociedade. Para Antero e a sua “Geração de 70”, a literatura deveria ser o motor da revolução social, por oposição à visão imobilista e ultrarromântica daquilo a que Antero chamou a “Escola do Elogio Mútuo” e cujo centro era Feliciano de Castilho. Mas, mais do que uma disputa literária, esta foi uma discussão política, marcada pela visão positivista ou, mais ainda, socialista de Antero. Sabendo isto, é com enorme estupefação que vimos um excerto da carta “Bom Senso e Bom Gosto”, de Antero, a epigrafar a Moção de Estratégia de Alexandre Gaudêncio ao Congresso do PSD/Açores. Escolher Antero como figura tutelar só pode significar duas coisas: ou Gaudêncio não sabe quem foi Antero, o que é grave, ou pretende um PSD/A socialista e revolucionário, o que seria surpreendente. Porém, o que as duas mostram é uma enorme e confrangedora falta de cultura política e literária.
 

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Café Royal XC

Os Areais

Naquele tempo, íamos surfar, às escondidas, para o Monte Verde. A primeira vez que fomos aos Areais foi com o Armindo e o Marco Sousa. Entrando pelo lado onde hoje é o Tuká Tulá, não havia praia. Era um imenso calhau, espécie de despojos da rapina dos apanhadores ilegais de areia. Do outro lado, junto ao morro de Santana, a entrada era feita pela estrada. Seguíamos por um caminho de terra e descíamos o pequeno carreiro na falésia até à praia, ao encontro daquele lugar paradisíaco e incólume, apenas nós e algumas das mais fantásticas ondas da ilha. Hoje, a praia dos Areais de Sta. Barbara é uma das melhores e mais utilizadas zonas balneares da ilha e é, também, um importante cartaz turístico, fruto da projecção global dos campeonatos de Surf. E é com um enorme orgulho que sei que o aproveitamento e qualificação de um valioso pedaço desta ilha se ficou a dever, também, ao empenho e vontade de um pequeno grupo de surfistas. Os Areais são um feliz exemplo de como as boas vontades, se bem orientadas, podem trazer benefícios para todos. Quão bom seria se esse exemplo fosse seguido, por outras pessoas, noutros lugares destas ilhas…

in Açoriano Oriental

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Café Royal LXXXIX

A Escola

Vão recomeçar as aulas. Como se o fim do Verão e as agruras típicas do regresso ao trabalho não fossem, já de si, angustiantes o suficiente, eis que, de supetão, cai sobre pais e filhos, professores e alunos, o tormentoso turbilhão do regresso à escola. Os horários, as actividades extracurriculares, os manuais, os materiais, as mochilas, as roupas, todo um infindável rol de pequenos/grandes problemas que, por estes dias, consomem quase por completo uma grossa fatia da sociedade. Até aos avós hão de chegar as ondas de choque do ano lectivo. As nossas sociedades transformaram a Escola num espaço de contenção das crianças e, até, em certo sentido, dos pais. A padronização e sistematização dos processos e das regras do sistema educativo criaram um ambiente quase que opressor para todos os que, de uma forma ou de outra, lidam com a Escola. Horários rígidos e excessivamente longos. Currículos padronizados, avaliações quantitativas. (Já para não falar nessa instituição arcaica chamada “trabalhos de casa”, que transporta a escola para dentro da vida familiar, desesperando as crianças e infernizando os pais). Valerá a pena perpetuar este sistema?
 

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Café Royal LXXXVIII

Vontade

Depois de uma apresentação mediática, foi ontem tornada pública a Moção de Vasco Cordeiro ao próximo Congresso do PS Açores. O documento aponta 3 grandes áreas de actuação: Afirmação dos Açores no contexto nacional e internacional; Coesão entre as ilhas; Qualificação da Democracia. Dos 3, há um que merece destaque – “Reforçar a Coesão Partindo da Diferença”. Aí é expressa a intenção de olhar para o desenvolvimento económico e social das ilhas, partindo da identificação e valorização das diferenças entre elas e já não da tentativa de as tornar iguais, algo que culminou na efervescência bairrista que os Açores vivem hoje. O que fica por saber é se esta ambição de Vasco Cordeiro, em si válida e extremamente necessária, se resumirá apenas a um mero texto de uso político. Ou, pelo contrário, mais do que uma mera ambição, a sua vontade é levar realmente a cabo, ilha a ilha, este novo paradigma de governação. Se for assim, esse será o seu maior legado à Região e um cortar, definitivo, com as políticas, e os políticos, do passado. Esperemos que sim…
 

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Café Royal LXXXVII

Estagnar

“Na Região Autónoma dos Açores, no mês de junho, as dormidas nos estabelecimentos hoteleiros registaram um decréscimo homólogo de 6,1%.” Começava assim o destaque do SREA sobre o Turismo. Visto assim, e para quem souber ler estes áridos documentos, o que fica é que a evolução do Turismo na Região está a desacelerar, se não mesmo a estagnar, depois dos enormes crescimentos, de mais de 20%, a que assistimos desde a liberalização do espaço aéreo. Esta semana, num esforço pueril de mascarar os números, o SREA agitou-nos a bandeira de que as dormidas em AL tinham crescido 32,5% no primeiro semestre deste ano. Por melhor que isto seja, a dura realidade é que o AL apenas representa cerca de um quarto do total de dormidas da região. E, verdadeiramente preocupante, é o facto de, em Junho, a taxa de ocupação na Hotelaria Tradicional ter sido, apenas, de 62%. Se juntarmos a isto o facto de as dormidas de estrangeiros terem caído quase 10% temos os dados suficientes para estarmos todos muito, mas mesmo muito, preocupados. Oxalá o Governo já tenha pedido a devida auditoria externa…