É verdadeiramente
paradoxal que, tendo como força motriz a crítica à globalização, os movimentos “populistas”
estejam, agora, a globalizar-se. Paradigma desta tendência é o nosferatiano
Steve Bannon. O estratega da eleição de Trump, que abandonou a Casa Branca por
achar que este tinha capitulado face aos interesses da alta-finança
internacional, lançou-se numa campanha global, da Europa à América Latina, de
exportação dos seus ideais nacionalistas, protecionistas e xenófobos. Não será
fácil combater estes movimentos, como fica demonstrado pelas eleições
americanas de terça-feira passada, em que os candidatos trumpianos seguraram o
Senado e mesmo a “vitória” dos Democratas para a Câmara dos Representantes foi feita
à custa do que, simplisticamente, podemos chamar de “populismos de esquerda”. Talvez
o primeiro passo seja identificar o que une todos estes grupos, da extrema-esquerda
à extrema-direita. Estou em crer que o que está por detrás destes fenómenos é a
Intolerância! Aqueles que acreditam na Democracia terão que começar por aí:
pela defesa intransigente dos valores da Tolerância e da Liberdade. Sob pena de
o nosso futuro ser de completa e ultrajante subjugação a um incomensurável
número de ínfimas tiranias.
quinta-feira, 8 de novembro de 2018
quinta-feira, 1 de novembro de 2018
Café Royal XCVI
Cuidar
“Não herdamos a Terra dos nossos antepassados, Ela é-nos emprestada
pelos nossos filhos.” Regresso, com frequência, a este velho provérbio das
tribos nativas da América do Norte, pela sua simplicidade e sabedoria. Descobri
esta frase através de um anúncio de uma famosa marca de relógios – “Nunca somos donos de um Patek Philippe,
apenas tomamos conta dele para a próxima geração.” – e, para um
colecionador como eu, a mensagem ressoou intimamente de forma genuína. A
verdade subjacente a esta mensagem é de uma singeleza desarmante. Nós não somos
donos da Terra. Ela é uma dádiva, que nos cumpre proteger e legar às gerações
vindouras. Também as coisas, ou os bens materiais, que ansiosamente buscamos,
não são verdadeiramente nossos. São memórias, afectos, que, um dia, no fim
desta vida tão frágil e curta, deixaremos para aqueles que vierem depois de
nós. Esta consciência da nossa finitude, da nossa absoluta transitoriedade, é,
deveria ser, um princípio fundamental da nossa actuação no dia-a-dia, para connosco,
para com os outros, para com o lugar e o tempo em que vivemos. Cuidar que
cuidamos em vez de destruir. Aplica-se a tudo na vida.
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quinta-feira, 25 de outubro de 2018
Café Royal XCV
Os Partidos
Perante o absurdo e assustador crescimento dos movimentos ditos populistas, os media, a intelligentia, procuram desesperadamente encontrar uma explicação, um culpado, para o fenómeno. O mais recente arguido neste tribunal mediático são as redes socias e, mais concretamente, as chamadas “fake news”. Pretendem fazer-nos acreditar que a razão para o descalabro das democracias ocidentais e a chegada ao poder, democraticamente diga-se, de nacionalismos, fascismos e outras formas desarreigadas de populismo, está na disseminação artificial de mensagens falsas nas redes sociais e na incapacidade dos indivíduos em as descodificar e contrapor. Como se o mundo todo fosse habitado apenas por idiotas. Por mais apetecível que este argumento seja e, independentemente da sua parcial verdade, há um problema fundamental neste raciocínio. É que, não foram as “fake news” que minaram a confiança dos cidadãos no sistema político-partidário. Foi sim a progressiva e despudorada forma como os partidos políticos se auto-descredibilizaram, cegos pela ganância eleitoral e mergulhados, até aos ossos, em compadrios, amiguismos, nepotismo e escândalos de corrupção.
in Açoriano Oriental
Perante o absurdo e assustador crescimento dos movimentos ditos populistas, os media, a intelligentia, procuram desesperadamente encontrar uma explicação, um culpado, para o fenómeno. O mais recente arguido neste tribunal mediático são as redes socias e, mais concretamente, as chamadas “fake news”. Pretendem fazer-nos acreditar que a razão para o descalabro das democracias ocidentais e a chegada ao poder, democraticamente diga-se, de nacionalismos, fascismos e outras formas desarreigadas de populismo, está na disseminação artificial de mensagens falsas nas redes sociais e na incapacidade dos indivíduos em as descodificar e contrapor. Como se o mundo todo fosse habitado apenas por idiotas. Por mais apetecível que este argumento seja e, independentemente da sua parcial verdade, há um problema fundamental neste raciocínio. É que, não foram as “fake news” que minaram a confiança dos cidadãos no sistema político-partidário. Foi sim a progressiva e despudorada forma como os partidos políticos se auto-descredibilizaram, cegos pela ganância eleitoral e mergulhados, até aos ossos, em compadrios, amiguismos, nepotismo e escândalos de corrupção.
in Açoriano Oriental
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quinta-feira, 18 de outubro de 2018
Café Royal XCIV
Remodelar
As remodelações são
naturais em democracia. Podem nem sempre ser necessárias, mas momentos há em
que são imprescindíveis. No Terreiro do Paço, António Costa, pegou num problema
e tornou-o numa oportunidade fazendo uma remodelação, com rapidez, astúcia e firmeza.
O novo Governo é de combate e de protecção ao primeiro-ministro, até à almejada
maioria absoluta. Por cá, Vasco Cordeiro, não quis, não soube, ou não a
conseguiu fazer. Começava por devolver aos cidadãos a confiança nos
responsáveis da Saúde e Protecção Civil, totalmente destruída após o horrendo
episódio das evacuações. Podia, também, corrigir o excessivo peso da
Vice-presidência, devolvendo-se autonomia à Economia com uma Secretaria
própria. Ou, por exemplo, colocar a Cultura no Turismo. Acima de tudo, escolher
personalidades fortes, com peso político e, nunca, ter Directores Regionais com
maior “autoridade” do que os Secretários. A verdade é que, seja por manifesta
arrogância e autoritarismo, seja por descrédito, seja por incompetência e
irrelevância dos seus titulares, este Governo Regional precisa com urgência dessa
remodelação, sob pena de se perder a maioria absoluta.
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quinta-feira, 11 de outubro de 2018
Café Royal XCIII
Cântico Negro
Quem olhe o estado do
mundo, hoje, mesmo que com “olhos lassos”,
não pode deixar de sentir desconforto, uma quase dor de quem sente que vivemos
o fim de uma era, o fim de um tempo de utopia e de esperança. Em nosso torno
são múltiplos os sinais de que o tempo das democracias liberais terminou. O
sonho de um mundo, construído por sociedades onde as liberdades individuais e o
princípio da solidariedade entre indivíduos e gerações seriam a base da
organização dos estados, sucumbiu à ditadura dos números. Todo o discurso
político foi contaminado, como se por um vírus, por défices, taxas, dívidas,
índices, juros, ratings e todo um infindável jargão de economices, com que os
titereiros da política e do capital manipulam o espaço público. Algures no
caminho deixamos que se perdesse o humano e tudo se tornou refém do número. É
natural que assim seja quando, por estes dias, o que constatamos à nossa volta
são políticos emproados a discutir as décimas do défice e a percentagem do PIB
na dívida, sem que, nunca, se considere o simples, mas fundamental, bem-estar
dos cidadãos… “Não, não vou por aí!”
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quinta-feira, 4 de outubro de 2018
Café Royal XCII
#EleNao
No domingo, o Brasil vai
a votos, naquela que é, certamente, a mais inacreditável campanha eleitoral de
sempre para a escolha de um Presidente. Mesmo num país onde um gorila já foi
candidato a deputado e um artista de circo ficou célebre pelo seu slogan “Pior do que tá não fica, vote Tiririca”.
Mergulhado em escândalos de corrupção, depois do impeachment de Dilma e do
mandato do vampiresco Temer, o Brasil está mais dividido do que nunca. De um
lado, a Esquerda, órfã de Lula (preso e impedido de concorrer), tenta
consolidar Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo, como a face reformista de
um PT acossado pelos escândalos de corrupção. Do outro lado, a Direita, aparece
tombada para a sua extrema com Jair Bolsonaro, ex-militar na reforma, como o
líder das sondagens. Os últimos inquéritos davam a Bolsonaro 31% das intenções
de voto. E o que torna estas eleições brasileiras tão inacreditáveis é mesmo
Bolsonaro. Escassos 33 anos após o fim de uma Ditadura Militar, que durou 21, os
brasileiros parecem acolher com entusiasmo um candidato cuja visão política
comporta opiniões como esta – “o erro da
ditadura foi torturar e não matar”. #EleNao!
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quinta-feira, 27 de setembro de 2018
Café Royal XCI
Honrar Antero
A “Questão Coimbrã” foi uma
das mais célebres polémicas da história nacional. Choque intelectual entre duas
gerações, opôs o jovem Antero de Quental e o velho António Feliciano de
Castilho. No cerne da disputa estavam duas concepções distintas do papel da
literatura na sociedade. Para Antero e a sua “Geração de 70”, a literatura
deveria ser o motor da revolução social, por oposição à visão imobilista e
ultrarromântica daquilo a que Antero chamou a “Escola do Elogio Mútuo” e cujo
centro era Feliciano de Castilho. Mas, mais do que uma disputa literária, esta
foi uma discussão política, marcada pela visão positivista ou, mais ainda,
socialista de Antero. Sabendo isto, é com enorme estupefação que vimos um
excerto da carta “Bom Senso e Bom Gosto”, de Antero, a epigrafar a Moção de
Estratégia de Alexandre Gaudêncio ao Congresso do PSD/Açores. Escolher Antero
como figura tutelar só pode significar duas coisas: ou Gaudêncio não sabe quem
foi Antero, o que é grave, ou pretende um PSD/A socialista e revolucionário, o
que seria surpreendente. Porém, o que as duas mostram é uma enorme e confrangedora
falta de cultura política e literária.
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