…é a pior maneira de
ficar nela!” Sentenciou Daniel de Sá em Ilha Grande Fechada. Esta frase lapidar
sobreviverá ao romance e, injustamente, ao Escritor que foi Daniel de Sá.
Embora seja esse, enfim, o desígnio dos grandes, serem perpetuados pelas frases
e universais pela eternidade das palavras. O romance é um magistral retrato da
condição açoriana, principalmente na fixação que faz de um certo modo de ser
ilhéu. Logo a abrir, Daniel de Sá assinala: "Uma ilha grande, fechada, que
durante muito tempo só se abriu para deixar sair gente". Este é, talvez, o
mais acertado retrato da “açorianidade”, como lhe chamou Nemésio. Uma persona que assenta na aceitação, quase
monástica, da clausura da ilha. Como se o horizonte, o mar, fossem
aprisionamento em vez de livre navegação. Desde os primórdios do povoamento que
as ilhas se cerraram sobre si próprias. E, mesmo nos curtos períodos de
cosmopolitismo, desde Angra dos Filipes, à Horta dos Clippers, passando pelo
São Miguel de oitocentos, com as suas pequenas elites terratenentes abastadas
de laranja, que o essencial de um certo ser açoriano é a sua recusa em abraçar
o Mundo. E, até, em se deixar abraçar por ele…
quinta-feira, 22 de novembro de 2018
quinta-feira, 15 de novembro de 2018
Café Royal XCVIII
Ilhas
As ilhas foram sempre território de mitos. Platão coloca a Atlântida numa ilha no Atlântico. Erasmus fez crescer a sua sociedade utópica numa ilha. Em A Tempestade, uma das últimas e, também, mais cativantes peças de Shakespeare, o mago Prospero, Duque de Milão, vive numa ilha acompanhado pela sua filha Miranda e os seus livros. As ilhas são eterna fonte de inspiração poética, desde a Ithaca de Ulisses à Ilha do Tesouro de Stevenson. Ou, essa encantatória Ilha dos Amores, com as suas voluptuosas ninfas. Ilhas mágicas e distantes onde, também, Antero se sonhou rei – “Sonho-me às vezes rei, n'alguma ilha, / Muito longe, nos mares do Oriente, / Onde a noite é balsâmica e fulgente / E a lua cheia sobre as águas brilha...”. Certamente que nas academias muitos já se terão debruçado sobre a ontologia das literaturas insulares procurando, quem sabe, um cânone de lavas incandescentes, horizonte e mar. Mas, se há coisa que os escritores das ilhas poderão verdadeiramente dar à Literatura é a sua infinita capacidade de criar pontes, diálogos, de cruzar os oceanos, estreitando as suas margens, numa aproximação que é, no fundo, a essência do ser Escritor.
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quinta-feira, 8 de novembro de 2018
Café Royal XCVII
Ínfimas tiranias
É verdadeiramente
paradoxal que, tendo como força motriz a crítica à globalização, os movimentos “populistas”
estejam, agora, a globalizar-se. Paradigma desta tendência é o nosferatiano
Steve Bannon. O estratega da eleição de Trump, que abandonou a Casa Branca por
achar que este tinha capitulado face aos interesses da alta-finança
internacional, lançou-se numa campanha global, da Europa à América Latina, de
exportação dos seus ideais nacionalistas, protecionistas e xenófobos. Não será
fácil combater estes movimentos, como fica demonstrado pelas eleições
americanas de terça-feira passada, em que os candidatos trumpianos seguraram o
Senado e mesmo a “vitória” dos Democratas para a Câmara dos Representantes foi feita
à custa do que, simplisticamente, podemos chamar de “populismos de esquerda”. Talvez
o primeiro passo seja identificar o que une todos estes grupos, da extrema-esquerda
à extrema-direita. Estou em crer que o que está por detrás destes fenómenos é a
Intolerância! Aqueles que acreditam na Democracia terão que começar por aí:
pela defesa intransigente dos valores da Tolerância e da Liberdade. Sob pena de
o nosso futuro ser de completa e ultrajante subjugação a um incomensurável
número de ínfimas tiranias.
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quinta-feira, 1 de novembro de 2018
Café Royal XCVI
Cuidar
“Não herdamos a Terra dos nossos antepassados, Ela é-nos emprestada
pelos nossos filhos.” Regresso, com frequência, a este velho provérbio das
tribos nativas da América do Norte, pela sua simplicidade e sabedoria. Descobri
esta frase através de um anúncio de uma famosa marca de relógios – “Nunca somos donos de um Patek Philippe,
apenas tomamos conta dele para a próxima geração.” – e, para um
colecionador como eu, a mensagem ressoou intimamente de forma genuína. A
verdade subjacente a esta mensagem é de uma singeleza desarmante. Nós não somos
donos da Terra. Ela é uma dádiva, que nos cumpre proteger e legar às gerações
vindouras. Também as coisas, ou os bens materiais, que ansiosamente buscamos,
não são verdadeiramente nossos. São memórias, afectos, que, um dia, no fim
desta vida tão frágil e curta, deixaremos para aqueles que vierem depois de
nós. Esta consciência da nossa finitude, da nossa absoluta transitoriedade, é,
deveria ser, um princípio fundamental da nossa actuação no dia-a-dia, para connosco,
para com os outros, para com o lugar e o tempo em que vivemos. Cuidar que
cuidamos em vez de destruir. Aplica-se a tudo na vida.
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quinta-feira, 25 de outubro de 2018
Café Royal XCV
Os Partidos
Perante o absurdo e assustador crescimento dos movimentos ditos populistas, os media, a intelligentia, procuram desesperadamente encontrar uma explicação, um culpado, para o fenómeno. O mais recente arguido neste tribunal mediático são as redes socias e, mais concretamente, as chamadas “fake news”. Pretendem fazer-nos acreditar que a razão para o descalabro das democracias ocidentais e a chegada ao poder, democraticamente diga-se, de nacionalismos, fascismos e outras formas desarreigadas de populismo, está na disseminação artificial de mensagens falsas nas redes sociais e na incapacidade dos indivíduos em as descodificar e contrapor. Como se o mundo todo fosse habitado apenas por idiotas. Por mais apetecível que este argumento seja e, independentemente da sua parcial verdade, há um problema fundamental neste raciocínio. É que, não foram as “fake news” que minaram a confiança dos cidadãos no sistema político-partidário. Foi sim a progressiva e despudorada forma como os partidos políticos se auto-descredibilizaram, cegos pela ganância eleitoral e mergulhados, até aos ossos, em compadrios, amiguismos, nepotismo e escândalos de corrupção.
in Açoriano Oriental
Perante o absurdo e assustador crescimento dos movimentos ditos populistas, os media, a intelligentia, procuram desesperadamente encontrar uma explicação, um culpado, para o fenómeno. O mais recente arguido neste tribunal mediático são as redes socias e, mais concretamente, as chamadas “fake news”. Pretendem fazer-nos acreditar que a razão para o descalabro das democracias ocidentais e a chegada ao poder, democraticamente diga-se, de nacionalismos, fascismos e outras formas desarreigadas de populismo, está na disseminação artificial de mensagens falsas nas redes sociais e na incapacidade dos indivíduos em as descodificar e contrapor. Como se o mundo todo fosse habitado apenas por idiotas. Por mais apetecível que este argumento seja e, independentemente da sua parcial verdade, há um problema fundamental neste raciocínio. É que, não foram as “fake news” que minaram a confiança dos cidadãos no sistema político-partidário. Foi sim a progressiva e despudorada forma como os partidos políticos se auto-descredibilizaram, cegos pela ganância eleitoral e mergulhados, até aos ossos, em compadrios, amiguismos, nepotismo e escândalos de corrupção.
in Açoriano Oriental
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quinta-feira, 18 de outubro de 2018
Café Royal XCIV
Remodelar
As remodelações são
naturais em democracia. Podem nem sempre ser necessárias, mas momentos há em
que são imprescindíveis. No Terreiro do Paço, António Costa, pegou num problema
e tornou-o numa oportunidade fazendo uma remodelação, com rapidez, astúcia e firmeza.
O novo Governo é de combate e de protecção ao primeiro-ministro, até à almejada
maioria absoluta. Por cá, Vasco Cordeiro, não quis, não soube, ou não a
conseguiu fazer. Começava por devolver aos cidadãos a confiança nos
responsáveis da Saúde e Protecção Civil, totalmente destruída após o horrendo
episódio das evacuações. Podia, também, corrigir o excessivo peso da
Vice-presidência, devolvendo-se autonomia à Economia com uma Secretaria
própria. Ou, por exemplo, colocar a Cultura no Turismo. Acima de tudo, escolher
personalidades fortes, com peso político e, nunca, ter Directores Regionais com
maior “autoridade” do que os Secretários. A verdade é que, seja por manifesta
arrogância e autoritarismo, seja por descrédito, seja por incompetência e
irrelevância dos seus titulares, este Governo Regional precisa com urgência dessa
remodelação, sob pena de se perder a maioria absoluta.
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quinta-feira, 11 de outubro de 2018
Café Royal XCIII
Cântico Negro
Quem olhe o estado do
mundo, hoje, mesmo que com “olhos lassos”,
não pode deixar de sentir desconforto, uma quase dor de quem sente que vivemos
o fim de uma era, o fim de um tempo de utopia e de esperança. Em nosso torno
são múltiplos os sinais de que o tempo das democracias liberais terminou. O
sonho de um mundo, construído por sociedades onde as liberdades individuais e o
princípio da solidariedade entre indivíduos e gerações seriam a base da
organização dos estados, sucumbiu à ditadura dos números. Todo o discurso
político foi contaminado, como se por um vírus, por défices, taxas, dívidas,
índices, juros, ratings e todo um infindável jargão de economices, com que os
titereiros da política e do capital manipulam o espaço público. Algures no
caminho deixamos que se perdesse o humano e tudo se tornou refém do número. É
natural que assim seja quando, por estes dias, o que constatamos à nossa volta
são políticos emproados a discutir as décimas do défice e a percentagem do PIB
na dívida, sem que, nunca, se considere o simples, mas fundamental, bem-estar
dos cidadãos… “Não, não vou por aí!”
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