Recentemente, um jovem
casal dinamarquês fez-se fotografar, nu, no topo da grande pirâmide de Gizé,
convidando a ira das autoridades egípcias e o espanto das redes sociais. O
gesto, justificado pelos próprios como artístico, insere-se numa tendência que
consiste em tirar fotos onde as pessoas surgem enquadradas por locais
históricos e/ou paisagens, mais ou menos deslumbrantes (sendo que a parte da
nudez é opcional…). O que motiva os praticantes deste desporto não é a descoberta
dos locais e a sua fruição, ou a aprendizagem que essa descoberta obriga, mas
antes a pulsão egocêntrica do registo da presença, a obsessão do tag e do like. Marcel Proust escreveu que a verdadeira viagem de descoberta
consistia não em procurar novas paisagens, mas em encontrar novos olhos. A
ditadura dos hashtags consiste em
esvaziar por completo o acto de viajar de qualquer réstia de engrandecimento
interior, tornando-o um mero acumular de clicks.
Viajamos já não para aprender, mas para estar. Despimos por completo a
magnificência de Gizé e tornamo-nos no centro da paisagem. É como se o mundo
todo fosse apenas e tão só décor para a próxima selfie, com ou sem cuecas…
quinta-feira, 13 de dezembro de 2018
quinta-feira, 6 de dezembro de 2018
Café Royal CI
La Revolution
Não é a mais velha
profissão do mundo, mas é, talvez, aquela cujo impacto na História da
Humanidade tem sido, desde há milénios, bastante mais profundo – o cobrador de
impostos. Desde as tábuas de escrita cuneiforme, da Mesopotâmia, até aos “gilets jaunes”, da Paris de hoje, que o
impacto dos impostos na evolução das sociedades tem sido maior que o de
ideologias ou religiões. A fuga dos hebreus do antigo Egipto; a queda do
império romano; a Magna Carta; a independência dos EUA; o conflito entre
capitalismo e socialismo, são exemplos do papel que a tributação teve e tem no
desenrolar da História. E, importa realçar, que a questão é tanto o valor da
cobrança como a percepção, por parte do cidadão, da racionalidade da sua utilização
pelos Estados. Desde a crise de 2008 que somas totalmente obscenas dos nossos
impostos têm sido gastas a salvar o “sistema financeiro”. Entretanto, 1% da
população detém 45% de toda a riqueza mundial e, por exemplo, em França, o peso
da carga fiscal sobre o rendimento da população é de 40%! Et voilá, c´est lá revolution…
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Café Royal
quinta-feira, 29 de novembro de 2018
Café Royal C
100
Perdoe o leitor o narcisismo da crónica. Mas, completa-se hoje o centésimo destes cafés. O espírito desta coluna, que tenho vindo a publicar ininterruptamente no mais antigo jornal português, é o da tertúlia, da livre partilha e debate franco de ideias. O Café Royal é tanto uma homenagem como um símbolo da importância que os cafés tiveram na construção de um determinado tipo de sociedade, aberta, reflexiva, pensante. Algo que, temo, esteja a acabar. Mas o Royal é, também, um ponto de encontro com a minha história pessoal, desde a primeira adolescência até hoje. Desde as primeiras cervejas e conversas, até aos lentos fins de tarde dedilhando solitariamente as notícias dos jornais nacionais. E sim, não me passa despercebida a ironia de um perigoso socialista reivindicar para si o Café dos independentistas. Mas, é exactamente desse respeito pelas ideias dos outros, mesmo aquelas com as quais descordamos, que deve nascer o progresso de qualquer sociedade. E esse é, enfim, o grande combate do nosso tempo, a luta ao sectarismo e à ditadura do pensamento único. Seja nos jornais, nos partidos ou nos cafés. É isso que continuarei a fazer aqui. Mais uma tulipa, sff…
in Açoriano Oriental
Perdoe o leitor o narcisismo da crónica. Mas, completa-se hoje o centésimo destes cafés. O espírito desta coluna, que tenho vindo a publicar ininterruptamente no mais antigo jornal português, é o da tertúlia, da livre partilha e debate franco de ideias. O Café Royal é tanto uma homenagem como um símbolo da importância que os cafés tiveram na construção de um determinado tipo de sociedade, aberta, reflexiva, pensante. Algo que, temo, esteja a acabar. Mas o Royal é, também, um ponto de encontro com a minha história pessoal, desde a primeira adolescência até hoje. Desde as primeiras cervejas e conversas, até aos lentos fins de tarde dedilhando solitariamente as notícias dos jornais nacionais. E sim, não me passa despercebida a ironia de um perigoso socialista reivindicar para si o Café dos independentistas. Mas, é exactamente desse respeito pelas ideias dos outros, mesmo aquelas com as quais descordamos, que deve nascer o progresso de qualquer sociedade. E esse é, enfim, o grande combate do nosso tempo, a luta ao sectarismo e à ditadura do pensamento único. Seja nos jornais, nos partidos ou nos cafés. É isso que continuarei a fazer aqui. Mais uma tulipa, sff…
in Açoriano Oriental
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Café Royal
quinta-feira, 22 de novembro de 2018
Café Royal XCIX
"Sair da ilha
…é a pior maneira de
ficar nela!” Sentenciou Daniel de Sá em Ilha Grande Fechada. Esta frase lapidar
sobreviverá ao romance e, injustamente, ao Escritor que foi Daniel de Sá.
Embora seja esse, enfim, o desígnio dos grandes, serem perpetuados pelas frases
e universais pela eternidade das palavras. O romance é um magistral retrato da
condição açoriana, principalmente na fixação que faz de um certo modo de ser
ilhéu. Logo a abrir, Daniel de Sá assinala: "Uma ilha grande, fechada, que
durante muito tempo só se abriu para deixar sair gente". Este é, talvez, o
mais acertado retrato da “açorianidade”, como lhe chamou Nemésio. Uma persona que assenta na aceitação, quase
monástica, da clausura da ilha. Como se o horizonte, o mar, fossem
aprisionamento em vez de livre navegação. Desde os primórdios do povoamento que
as ilhas se cerraram sobre si próprias. E, mesmo nos curtos períodos de
cosmopolitismo, desde Angra dos Filipes, à Horta dos Clippers, passando pelo
São Miguel de oitocentos, com as suas pequenas elites terratenentes abastadas
de laranja, que o essencial de um certo ser açoriano é a sua recusa em abraçar
o Mundo. E, até, em se deixar abraçar por ele…
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quinta-feira, 15 de novembro de 2018
Café Royal XCVIII
Ilhas
As ilhas foram sempre território de mitos. Platão coloca a Atlântida numa ilha no Atlântico. Erasmus fez crescer a sua sociedade utópica numa ilha. Em A Tempestade, uma das últimas e, também, mais cativantes peças de Shakespeare, o mago Prospero, Duque de Milão, vive numa ilha acompanhado pela sua filha Miranda e os seus livros. As ilhas são eterna fonte de inspiração poética, desde a Ithaca de Ulisses à Ilha do Tesouro de Stevenson. Ou, essa encantatória Ilha dos Amores, com as suas voluptuosas ninfas. Ilhas mágicas e distantes onde, também, Antero se sonhou rei – “Sonho-me às vezes rei, n'alguma ilha, / Muito longe, nos mares do Oriente, / Onde a noite é balsâmica e fulgente / E a lua cheia sobre as águas brilha...”. Certamente que nas academias muitos já se terão debruçado sobre a ontologia das literaturas insulares procurando, quem sabe, um cânone de lavas incandescentes, horizonte e mar. Mas, se há coisa que os escritores das ilhas poderão verdadeiramente dar à Literatura é a sua infinita capacidade de criar pontes, diálogos, de cruzar os oceanos, estreitando as suas margens, numa aproximação que é, no fundo, a essência do ser Escritor.
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quinta-feira, 8 de novembro de 2018
Café Royal XCVII
Ínfimas tiranias
É verdadeiramente
paradoxal que, tendo como força motriz a crítica à globalização, os movimentos “populistas”
estejam, agora, a globalizar-se. Paradigma desta tendência é o nosferatiano
Steve Bannon. O estratega da eleição de Trump, que abandonou a Casa Branca por
achar que este tinha capitulado face aos interesses da alta-finança
internacional, lançou-se numa campanha global, da Europa à América Latina, de
exportação dos seus ideais nacionalistas, protecionistas e xenófobos. Não será
fácil combater estes movimentos, como fica demonstrado pelas eleições
americanas de terça-feira passada, em que os candidatos trumpianos seguraram o
Senado e mesmo a “vitória” dos Democratas para a Câmara dos Representantes foi feita
à custa do que, simplisticamente, podemos chamar de “populismos de esquerda”. Talvez
o primeiro passo seja identificar o que une todos estes grupos, da extrema-esquerda
à extrema-direita. Estou em crer que o que está por detrás destes fenómenos é a
Intolerância! Aqueles que acreditam na Democracia terão que começar por aí:
pela defesa intransigente dos valores da Tolerância e da Liberdade. Sob pena de
o nosso futuro ser de completa e ultrajante subjugação a um incomensurável
número de ínfimas tiranias.
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quinta-feira, 1 de novembro de 2018
Café Royal XCVI
Cuidar
“Não herdamos a Terra dos nossos antepassados, Ela é-nos emprestada
pelos nossos filhos.” Regresso, com frequência, a este velho provérbio das
tribos nativas da América do Norte, pela sua simplicidade e sabedoria. Descobri
esta frase através de um anúncio de uma famosa marca de relógios – “Nunca somos donos de um Patek Philippe,
apenas tomamos conta dele para a próxima geração.” – e, para um
colecionador como eu, a mensagem ressoou intimamente de forma genuína. A
verdade subjacente a esta mensagem é de uma singeleza desarmante. Nós não somos
donos da Terra. Ela é uma dádiva, que nos cumpre proteger e legar às gerações
vindouras. Também as coisas, ou os bens materiais, que ansiosamente buscamos,
não são verdadeiramente nossos. São memórias, afectos, que, um dia, no fim
desta vida tão frágil e curta, deixaremos para aqueles que vierem depois de
nós. Esta consciência da nossa finitude, da nossa absoluta transitoriedade, é,
deveria ser, um princípio fundamental da nossa actuação no dia-a-dia, para connosco,
para com os outros, para com o lugar e o tempo em que vivemos. Cuidar que
cuidamos em vez de destruir. Aplica-se a tudo na vida.
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