quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Café Royal CIII

Estado falhado

Na sua omnipresença habitual e a propósito do mortal acidente de um helicóptero do INEM, o Professor Marcelo fez saber que o Estado, mais uma vez, falhou. O Estado falhou em administrar o território na tragédia dos incêndios. O Estado falhou em garantir a integridade das Forças Armadas em Tancos. O Estado falhou em Borba e o Estado falhou, também, novamente, na garantia de socorro atempado àqueles que deram a vida “para que outros vivam”. Mas, se é fácil a martirização dos sucessivos governos perante esta ubiquidade da tragédia, era, talvez, mais importante que este tímido “mea culpa” da classe política, encetado pelo Sr. Presidente, fosse bastante mais profundo. O Estado falhou, na crise financeira de 2008, na supervisão do sistema bancário. O Estado falha, todos os dias, no combate à corrupção. O Estado falhou, continua a falhar, na luta contra a pobreza e as desigualdades sociais. O Estado falha na saúde, falha na educação, falha na protecção social. Mas, onde o Estado falha, acima de tudo, é na percepção que todos temos de que os políticos estão é ao serviço de si próprios e não dos cidadãos. Esse sim, é o maior falhanço do Estado!
 

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Café Royal CII

Décor

Recentemente, um jovem casal dinamarquês fez-se fotografar, nu, no topo da grande pirâmide de Gizé, convidando a ira das autoridades egípcias e o espanto das redes sociais. O gesto, justificado pelos próprios como artístico, insere-se numa tendência que consiste em tirar fotos onde as pessoas surgem enquadradas por locais históricos e/ou paisagens, mais ou menos deslumbrantes (sendo que a parte da nudez é opcional…). O que motiva os praticantes deste desporto não é a descoberta dos locais e a sua fruição, ou a aprendizagem que essa descoberta obriga, mas antes a pulsão egocêntrica do registo da presença, a obsessão do tag e do like. Marcel Proust escreveu que a verdadeira viagem de descoberta consistia não em procurar novas paisagens, mas em encontrar novos olhos. A ditadura dos hashtags consiste em esvaziar por completo o acto de viajar de qualquer réstia de engrandecimento interior, tornando-o um mero acumular de clicks. Viajamos já não para aprender, mas para estar. Despimos por completo a magnificência de Gizé e tornamo-nos no centro da paisagem. É como se o mundo todo fosse apenas e tão só décor para a próxima selfie, com ou sem cuecas…
 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Café Royal CI

La Revolution

Não é a mais velha profissão do mundo, mas é, talvez, aquela cujo impacto na História da Humanidade tem sido, desde há milénios, bastante mais profundo – o cobrador de impostos. Desde as tábuas de escrita cuneiforme, da Mesopotâmia, até aos “gilets jaunes”, da Paris de hoje, que o impacto dos impostos na evolução das sociedades tem sido maior que o de ideologias ou religiões. A fuga dos hebreus do antigo Egipto; a queda do império romano; a Magna Carta; a independência dos EUA; o conflito entre capitalismo e socialismo, são exemplos do papel que a tributação teve e tem no desenrolar da História. E, importa realçar, que a questão é tanto o valor da cobrança como a percepção, por parte do cidadão, da racionalidade da sua utilização pelos Estados. Desde a crise de 2008 que somas totalmente obscenas dos nossos impostos têm sido gastas a salvar o “sistema financeiro”. Entretanto, 1% da população detém 45% de toda a riqueza mundial e, por exemplo, em França, o peso da carga fiscal sobre o rendimento da população é de 40%! Et voilá, c´est lá revolution…
 

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Café Royal C

100

Perdoe o leitor o narcisismo da crónica. Mas, completa-se hoje o centésimo destes cafés. O espírito desta coluna, que tenho vindo a publicar ininterruptamente no mais antigo jornal português, é o da tertúlia, da livre partilha e debate franco de ideias. O Café Royal é tanto uma homenagem como um símbolo da importância que os cafés tiveram na construção de um determinado tipo de sociedade, aberta, reflexiva, pensante. Algo que, temo, esteja a acabar. Mas o Royal é, também, um ponto de encontro com a minha história pessoal, desde a primeira adolescência até hoje. Desde as primeiras cervejas e conversas, até aos lentos fins de tarde dedilhando solitariamente as notícias dos jornais nacionais. E sim, não me passa despercebida a ironia de um perigoso socialista reivindicar para si o Café dos independentistas. Mas, é exactamente desse respeito pelas ideias dos outros, mesmo aquelas com as quais descordamos, que deve nascer o progresso de qualquer sociedade. E esse é, enfim, o grande combate do nosso tempo, a luta ao sectarismo e à ditadura do pensamento único. Seja nos jornais, nos partidos ou nos cafés. É isso que continuarei a fazer aqui. Mais uma tulipa, sff…

in Açoriano Oriental

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Café Royal XCIX

"Sair da ilha

…é a pior maneira de ficar nela!” Sentenciou Daniel de Sá em Ilha Grande Fechada. Esta frase lapidar sobreviverá ao romance e, injustamente, ao Escritor que foi Daniel de Sá. Embora seja esse, enfim, o desígnio dos grandes, serem perpetuados pelas frases e universais pela eternidade das palavras. O romance é um magistral retrato da condição açoriana, principalmente na fixação que faz de um certo modo de ser ilhéu. Logo a abrir, Daniel de Sá assinala: "Uma ilha grande, fechada, que durante muito tempo só se abriu para deixar sair gente". Este é, talvez, o mais acertado retrato da “açorianidade”, como lhe chamou Nemésio. Uma persona que assenta na aceitação, quase monástica, da clausura da ilha. Como se o horizonte, o mar, fossem aprisionamento em vez de livre navegação. Desde os primórdios do povoamento que as ilhas se cerraram sobre si próprias. E, mesmo nos curtos períodos de cosmopolitismo, desde Angra dos Filipes, à Horta dos Clippers, passando pelo São Miguel de oitocentos, com as suas pequenas elites terratenentes abastadas de laranja, que o essencial de um certo ser açoriano é a sua recusa em abraçar o Mundo. E, até, em se deixar abraçar por ele…
 

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Café Royal XCVIII

Ilhas 

As ilhas foram sempre território de mitos. Platão coloca a Atlântida numa ilha no Atlântico. Erasmus fez crescer a sua sociedade utópica numa ilha. Em A Tempestade, uma das últimas e, também, mais cativantes peças de Shakespeare, o mago Prospero, Duque de Milão, vive numa ilha acompanhado pela sua filha Miranda e os seus livros. As ilhas são eterna fonte de inspiração poética, desde a Ithaca de Ulisses à Ilha do Tesouro de Stevenson. Ou, essa encantatória Ilha dos Amores, com as suas voluptuosas ninfas. Ilhas mágicas e distantes onde, também, Antero se sonhou rei – “Sonho-me às vezes rei, n'alguma ilha, / Muito longe, nos mares do Oriente, / Onde a noite é balsâmica e fulgente / E a lua cheia sobre as águas brilha...”. Certamente que nas academias muitos já se terão debruçado sobre a ontologia das literaturas insulares procurando, quem sabe, um cânone de lavas incandescentes, horizonte e mar. Mas, se há coisa que os escritores das ilhas poderão verdadeiramente dar à Literatura é a sua infinita capacidade de criar pontes, diálogos, de cruzar os oceanos, estreitando as suas margens, numa aproximação que é, no fundo, a essência do ser Escritor. 

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Café Royal XCVII

Ínfimas tiranias

É verdadeiramente paradoxal que, tendo como força motriz a crítica à globalização, os movimentos “populistas” estejam, agora, a globalizar-se. Paradigma desta tendência é o nosferatiano Steve Bannon. O estratega da eleição de Trump, que abandonou a Casa Branca por achar que este tinha capitulado face aos interesses da alta-finança internacional, lançou-se numa campanha global, da Europa à América Latina, de exportação dos seus ideais nacionalistas, protecionistas e xenófobos. Não será fácil combater estes movimentos, como fica demonstrado pelas eleições americanas de terça-feira passada, em que os candidatos trumpianos seguraram o Senado e mesmo a “vitória” dos Democratas para a Câmara dos Representantes foi feita à custa do que, simplisticamente, podemos chamar de “populismos de esquerda”. Talvez o primeiro passo seja identificar o que une todos estes grupos, da extrema-esquerda à extrema-direita. Estou em crer que o que está por detrás destes fenómenos é a Intolerância! Aqueles que acreditam na Democracia terão que começar por aí: pela defesa intransigente dos valores da Tolerância e da Liberdade. Sob pena de o nosso futuro ser de completa e ultrajante subjugação a um incomensurável número de ínfimas tiranias.