quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Café Royal CXII

Da vã censura

Na semana passada, um canal de televisão revelou um alegado caso de favorecimento, na venda do Pavilhão Atlântico, a um conhecido empresário de festivais de música que, dá-se o caso, é, também, genro de Cavaco Silva. Este caso seria amendoins ao pé do fervor vendilhão do governo de Passos Coelho, que até a EDP vendeu aos chineses. Porém, o facto de a Ministra responsável por tal alienação ser Assunção Cristas torna-o relevante à luz da política de hoje, em que a Direita portuguesa se vê a braços com uma luta de poder inédita, pontuada por várias forças políticas, longe dessa hegemonia bicéfala entre PPD e o “partido do táxi”. Confrontada com este caso mediático, que lhe poderia fazer mossa em plenas pré-campanhas eleitorais, Cristas fez uma fuga para a frente e apresentou uma Moção de Censura ao Governo, que foi absolutamente vazia, fútil e irrelevante. Este é apenas mais um triste episódio na já longa novela do descrédito do nosso sistema político-partidário, com partidos cada vez mais autocentrados e preocupados exclusivamente com a sua sobrevivência de curto prazo. Resta saber quando e como é que o eleitorado vai, finalmente, reagir à cupidez dos partidos políticos…
 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Café Royal CXI

Fezada

Enquanto a promoção turística dos Açores vai agonizando, o Governo Regional entretém-se a rever o seu Plano de Ordenamento Turístico. Nas quase 400 páginas do relatório preliminar do POTRAA, como é afectuosamente conhecido, elabora-se, em jargão universitário, sobre o estado actual do turismo, os seus impactos no território e a sua evolução. Desde logo, há uma enorme falha neste documento que é a ausência de uma definição clara sobre o que é a região como Destino. A expressão “matriz identitária” é repetida ao enjoo, mas nunca nos é explicada que matriz é essa. A Natureza, que já foi viva e depois intacta, agora é exuberante e “vivenciada”, mas nunca nos é dito se esta exuberância é a da uva da serra ou do novelão. Insiste-se, à exaustão, na “Qualidade”, mas nunca nos é dito o que isso é, como e quem a define e com base em quê. E o absurdo vai ao ponto de se estabelecerem normas, como é o caso do estapafúrdio AL +, sem que sequer esteja definido o que isso será. Mas, ao menos, este Plano é optimista. Acredita que o Turismo na região vai continuar a crescer, se bem que nunca explique como. É, assim, tipo, uma fezada. Não sabemos é se a Fé também traz turistas…

in Açoriano Oriental







quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Café Royal CX

Até ver…

No Turismo não faltam “treinadores de bancada”. Qualquer pessoa que tenha viajado acha que, por essa razão, tem um conhecimento aprofundado sobre esta Indústria. Este “achismo” não é em si um mal, mas quando decisões políticas e empresariais são tomadas com a mesma falta de saber, então sim é perigoso. Nos Açores, se olharmos para as empresas do sector constatamos que, pegando apenas na hotelaria, a maioria são, na verdade, grupos económicos cujo “core business” é o retalho, os combustíveis, rações e suínos, construção-civil ou, ainda, esse eufemismo moderno para agiotagem chamado Fundos Financeiros. Sabendo disto, o Governo Regional decidiu, sem explicação, desvincular-se da ATA, deixando a promoção turística da Região a ser gerida exclusivamente pelos empresários, não percebendo que estes, fruto, desde logo, de interesses concorrentes entre si, teriam sempre extrema dificuldade em se entender. Aliás, é esse o papel fundamental do Governo nesta área: criar e implementar consensos. A equação é muito simples: sem Promoção não há turismo, sem turistas não há Destino. Entretanto, e até ver, temos a Ryanair…
 

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Café Royal CIX

O fosso

Por estes dias, discute-se se Portugal é, ou não, racista. Com mais ou menos espuma na boca, mais ou menos indignação de rede social, ruminamos sobre a violência policial, a vida num bairro de barracas enfeitado de antenas parabólicas, o Mamadou Ba, a cor da pele do primeiro-ministro e outras tantas vulgaridades mundanas como, por exemplo, a culpa comunista pelos bairros degradados. Agostinho da Silva, um dos mais importantes pensadores portugueses do século XX, hoje infeliz e injustamente esquecido, teorizou sobre a nacionalidade da língua e a possibilidade de uma identidade colectiva que abarcasse os falantes da língua portuguesa fossem eles brancos, pretos, ou outros. Uma nacionalidade lusófona, possível pela existência de uma cultura de tolerância, que teve a sua expressão maior na miscigenação que marcou de forma absolutamente determinante a história de Portugal e dos portugueses no mundo, desde o interior da Amazónia ao extremo de Timor. O mal nacional não é, nunca foi, o racismo. O que corrói o país é outra coisa: é o fosso profundo entre ricos e pobres, entre os remediados do Jamaica e os “chiques” da Quinta da Marinha…
 

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Café Royal CVIII

1.200.000.000

Mil e duzentos milhões de euros, é o que se estima que a CGD terá perdido em empréstimos de risco. A lista dos principais devedores, agora vinda a público, é a confirmação do que já sabíamos existir – uma imensa rede de intimidades entre negócios, política e finança. Num dos lugares de topo dessa lista está Joe Berardo, que, sozinho, terá provocado um rombo de mais de 150 milhões de euros. Berardo é, com Ricardo Salgado, a outra face da mesma moeda. São, de certo modo, a perpetuação de um Portugal que depois de 40 anos de uma ditadura bafienta e 40 de uma democracia débil se fez sempre de compadrios. Salgado, o homem austero, de berço de ouro e lugar no Turf. Berardo, o emigrante espampanante que ambicionou ser o Gulbenkian do século XXI. Ambos, com a mesma falta de escrúpulos e de vergonha na cara, representam bem a ruína do país. Mas o que dá asco é que ao Zé Povinho, a nós todos, a mesma CGD, o banco público, subiu juros, recusou empréstimos, penhorou casas e destruiu vidas, com o mesmo sangue-frio com que arrebentou milhões nos caprichos dos ricos. E não há consequências: nem nós nos revoltamos, nem eles vão presos. Só o Vara.
 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Café Royal CVII

Olhar o futuro

Alexandre Gaudêncio, edil da Ribeira Grande e ungido aspirante a Presidente do Governo, anunciou, com gáudio e estrilho, a construção de 14 novas unidades turísticas, quase 3000 camas, um investimento superior a 80 milhões de euros e a criação de 300 postos de trabalho. Só lhe faltou decretar uma nova rota, de um voo low cost, com aterragem direta no saudoso “aerovacas”. O que Gaudêncio não percebe é que para qualquer cidadão comum, com dois dedos de bom senso, este crescimento desmesurado e desregrado do turismo tresanda a massificação e é tudo o que os Açores não precisam. Dá a sensação que quer matar a galinha antes mesmo de ela começar a pôr os tão cobiçados e reluzentes ovos. Após uma meteórica ascensão, que o levou de pequeno autarca a putativo candidato a líder de toda a Região, Gaudêncio tem titubeado entre a promessa vã, a inveja alheia, o bota-abaixo e uma confrangedora ausência de um verdadeiro projecto político para os Açores. O que precisamos, sofregamente, são políticos que pensem o futuro com os olhos postos no longo prazo e não na pequena miopia da sua próxima eleição…

in Açoriano Oriental

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Café Royal CVI

O telefonema

Algumas notícias mostram bem o retrato do país. O Governo está desagradado com a hipótese de um relatório sobre Portugal, da OCDE, conter um capítulo dedicado à relação entre a Justiça e a actividade económica, com destaque para o drama da corrupção. Na Assembleia da República, a Comissão Eventual para o Reforço da Transparência no desempenho de cargos políticos e públicos, ao fim de 1000 dias de trabalho, tem zero de produção legislativa. Já o ex-ministro Miguel Macedo, no caso dos “Vistos Gold”, foi absolvido, com fortes críticas do Juiz à actuação do MP nessa investigação. Em resumo – o país tem um gigantesco problema de corrupção, que destrói a competitividade da economia e a credibilidade das instituições, algo que só pode ser combatido com o fortalecimento dos meios de investigação e com o aumento da transparência no exercício de cargos públicos e políticos. No entanto, o parlamento não parece ter pressa em legislar sobre o assunto e, o país, está mais interessado em debater o trrim-trrim burlesco do Prof. Marcelo para o programa da Cristina. É este o Portugal de hoje…  

in Açoriano Oriental