quinta-feira, 30 de abril de 2020

Café Royal CLXXII


O novo normal

Depois de ter aprisionado a generalidade dos cidadãos e destruído as bases da nossa economia, quem sabe se permanentemente, o Estado prepara-se para seguir caminho neste maravilhoso novo mundo da pandemia global, só que agora com um bocadinho mais de desigualdade. Acoberto do manto da ciência e da opinião dos “especialistas”, em regime de cerca policial e sob o atento olhar electrónico do interior de cada telemóvel, o Governo vai designar, arbitrariamente, é claro, o onde e o como, o quem pode e o quem não pode, do mais básico das nossas vidas. Novos e velhos, doentes e saudáveis, rurais e urbanos, ricos e pobres, poderosos e descamisados, os confinados e os de livre trânsito, cada um para o seu lado desde que todos devidamente mascarados. E a isto, que afinal não passa de ditadura da higienização e de fascismo sanitário, chamam eles o “novo normal”. O que o país precisa não é de mais isolamento, mas de mais solidariedade, não é de confinamento, mas de cuidado. O que precisamos é de proximidade, de afecto, é de humanismo, não é de autoritarismo. O país não precisa de uma sociedade sanitária, mas de uma sociedade sã!


quinta-feira, 23 de abril de 2020

Café Royal CLXXI


O míssil

Já podemos falar de economia? Mais de 75 mil empresas aderiram ao lay-off, um palavrão bonitinho de economês que significa brutal baixa de salário. Um milhão de trabalhadores estão agora neste regime de labuta. Outros 40 mil estão já no fundo do poço, ou seja, o desemprego. São números verdadeiramente aterradores. Mas, o que estes dados não mostram é a realidade escondida e, muitas vezes, silenciosa e envergonhada, da grande multidão de pessoas que segue nesta crise sem salva-vidas. Do milhão e duzentas mil empresas que existem no país, mais de 800 mil são pequenas empresas ou empresários em nome individual. Estes números significam que só 6% das empresas portuguesas conseguiram, quiseram, ou puderam navegar a monstruosa burocracia deste apoio do Estado. As outras foram abandonadas à sua sorte e aos negativos das contas bancárias. Obcecado em achatar a curva do Covid-19, o Governo grita em coro: “Os apoios de hoje são os impostos de amanhã”. Como se não nos recordássemos dos 200 mil milhões que andaram a dar de bandeja à Banca nos últimos anos. E, entretanto, a curva da Crise Económica e Social, sem máscara, ventilador, ou vacina que a cure, disparou, como um míssil balístico, rumo à estratosfera.


quinta-feira, 16 de abril de 2020

Café Royal CLXX


Náufragos

Completa-se hoje um mês de um estado de emergência que se vai prolongar por tempo ainda indeterminado. Na Região, 35 dias de confinamento. Pelos ecrãs assistimos, estupefactos, ao desenrolar caótico da pandemia, a escassez de meios, os cercos sanitários, a tragédia dos lares de idosos, as mortes, o apagar aflitivo de milhares de empresas, milhões de desempregados e o dealbar da maior crise económica e social das nossas vidas. O governo vai tentando gerir o pânico, numa roda viva de especialistas e curvas e promessas vazias. Por cá, a Autoridade de Saúde, curvada sobre o seu pullover fúcsia, vai debitando diariamente números, estatísticas, ordens vãs e a certeza de que ninguém sabe realmente o que fazer. Entretanto, no meio do golpe de marketing político de um avião da SATA ir à China em busca de equipamentos de protecção, esse mesmo governo recusou prestar socorro a um navio com 700 seres humanos a bordo, negou friamente, àqueles náufragos, um porto de abrigo e a mais básica ajuda humanitária, sem hesitação, sem dó, sem compaixão. Sem que se ouvisse sequer um sobressalto cívico, tão ocupados andamos a discutir o uso de máscaras. É nisto que nos estamos a tornar, e isto só agora começou…


quinta-feira, 9 de abril de 2020

Café Royal CLXIX


O fim do sonho

Dentro desta tempestade não é fácil imaginar a bonança. No meio da absoluta perplexidade em que vivemos, da ensurdecedora cacofonia dos palpites, os memes, os “especialistas” e todos os outros gurus de internet e os seus definitivos vaticínios, não é fácil adivinhar o futuro. Não há enciclopédia de história que ilumine o “fundo do túnel”, que explique, mesmo que só de rascunho, como será o dia de amanhã, o dia depois do vírus. No entanto, mesmo no centro do caos, algumas coisas são já certas. A busca cega de uma cura para a pandemia vai dizimar a economia tal como a conhecemos. A UE vai-se desintegrar e os países vão-se isolar ainda mais dentro dos seus egoísmos e ganâncias individuais. As estruturas políticas vão desmoronar e a própria Democracia vai ser posta em causa. O Mundo irá tombar do precipício em que se encontra e mergulhar numa profunda, e nunca antes vista, convulsão social. Quando sairmos de casa, o grosso das estatísticas não será das vítimas inocentes do Covid-19, será dos que irão tombar às mãos dessa pestilência maior que dá pelo nome de autoritarismo e isolacionismo, as vítimas da implosão desse sonho antigo chamado solidariedade entre os povos.


in Açoriano Oriental

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Café Royal CLXVIII


Guerra

É a expressão mais utilizada para descrever esta crise. A metáfora é má, mas é simplista o suficiente para uso político. Importa, então, saber que guerra é esta? Quem é o inimigo? Que generais temos, que armas e estratégias usam? E, mais importante de tudo, por que razão lutamos e para defender o quê? Ao Governo, tudo parece claro e a resposta fácil: o inimigo é o vírus, põe-se a vida normal em pausa e a economia em coma (esperando que um milagre as possa reanimar) e assim salvam-se vidas. No entanto, o vírus tem, felizmente, uma taxa de letalidade a rondar o 1% e rapidamente percebemos que a verdadeira batalha é pela sobrevivência do SNS perante um inimigo que há muito havia sido anunciado e, o pior, que os nossos sucessivos governantes escolheram precisamente deixar falir o Estado Social para salvar a Banca e o Capital, tal como estão a fazer agora. As guerras travam-se não apenas para salvar vidas, mas para defender ideais e para lutar por formas e estilos de vida. Ora, foi exactamente o nosso “estilo de vida” o primeiro a morrer nesta guerra. O que vai nascer dos escombros é uma incógnita. A única certeza é que só dependerá de nós e das escolhas, solidárias, que fizermos.


quinta-feira, 26 de março de 2020

Café Royal CLXVII


O Futuro

Sem sobressalto, sem sequer inquietação, abraçámos a quarentena como se fosse um familiar perdido. Isolamento, distanciamento social, estado de emergência, a perda de pequenas liberdades, agora mínimas, mas que um dia serão fundamentais, o próprio confinamento, a tudo anuímos com a naturalidade do medo. O Governo, com o pretexto de combater a morte, matou rapidamente a economia. Milhares de pequenos negócios e empreendedores foram lançados à máquina incineradora do crédito bancário e da prorrogação de prazos. Dizem que estão a salvar vidas, mas omitem que a nossa vida já morreu. As crianças não vão à escola, os adultos não se dirigem ao trabalho, deixamos os cafés, inutilizamos os restaurantes, cancelamos as viagens, as amizades foram encarceradas nos grupos de WhatsApp. Quando tudo isto acabar, na próxima semana ou daqui a um ano (Quem sabe?), nada voltará a ser como antes. Não há regresso. O futuro encarregar-se-á de garantir isso. A nós, a cada um de nós, resta-nos decidir se queremos construir esse futuro, ou se o queremos apenas aceitar, tácita e passivamente, como seguimos fazendo agora com este contagiado presente.


quinta-feira, 19 de março de 2020

Café Royal CLXVI


Depois do vírus

Em silêncio, de forma capciosa, sibilina e quase imperceptível, o vírus foi-se espalhando calmamente, contaminando o mundo com a sua imparável e definitiva virulência. À iminência da morte seguiu-se o pânico e o caos. Vivemos agora debaixo da influência do medo, da ascendência do pavor. Não são só os corpos o que o vírus contamina, é a própria tessitura da sociedade. É a argamassa da comunidade que é corroída e se esboroa, de dia para dia. Estamos em guerra contra um inimigo invisível, dizem-nos solenemente os estadistas do momento e decretam medidas, isolamentos, quarentenas. Fechem as fronteiras, parem o mundo, grita o coro das redes sociais. Tanto ou mais do que uma crise de saúde pública, esta é uma crise de representação política e de modelo económico, é uma crise civilizacional. É todo o mundo que construímos, desde a revolução industrial, que está a desabar sob os múltiplos efeitos da contaminação. O mundo, tal como o conhecíamos, perdeu o sentido. Não há normalidade possível porque a normalidade é, ela própria, uma parte do vírus. A pergunta a que todos teremos de responder é que mundo queremos que nasça desta morte? Que futuro queremos para amanhã, depois do vírus?