quinta-feira, 18 de maio de 2017

Café Royal XX

Da vã euforia

Já não falta cumprir-se Portugal! O 13 de Maio foi de glória, santificado por Sua Santidade O Papa e tudo. Fátima, Benfica, Eurovisão, pela 1ª vez na história todos os lares portugueses rejubilaram, os homens com o Glorioso, as senhoras com o Salvador. Mas a chama do país não esmoreceu Domingo. Segunda-feira acordamos com a boa nova dos 2,8%. A economia acelera, dizem-nos os inquéritos das estatísticas. Aleluia! Habemus crescimento! O otimismo transbordou do eixo São Bento/Belém e inundou as folhas de Excel. Só que, no mesmo dia, a mesma estatística revelou, impiedosamente, que um quarto dos portugueses vive, ou está prestes a viver, no limiar da pobreza. Incongruência? Não. O facto é que o esforço produtivo do país continua afundado no pântano burocrático e fiscal e não cria riqueza. Não há uma base produtiva sólida, tudo é etéreo e vago e prestes a desmoronar ao mínimo abalo. É que não se trata da reposição, justa, de rendimentos, nem do crescimento da produção interna alicerçada num tecido económico sólido e em bens transacionáveis de valor acrescentado, o incremento agora anunciado é obra do investimento externo e, abjetamente, dos baixos salários. A económica portuguesa é, ainda, inimiga do seu próprio fortalecimento e é vã toda esta euforia quando vivemos num país em que empreendedor rima com dor.

in Açoriano Oriental

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Café Royal XIX

O Fantasma

No Porto, após 4 anos de idílica comunhão de bens, Rui Moreira e o PS acordaram um divórcio amigável. Depois de, pela voz da sua secretária-geral-adjunta, o PS ter vindo a público dizer que quem usava as calças lá em casa era o seu partido, Rui Moreira, bem, não se ficou e pontapeou os socialistas para fora da cama. Até aqui nada de anormal, é política, mas, Rui Moreira não ficou por aqui. O autarca puxou da culatra da ameaça centralista para justificar a separação, acusando o PS de estar a “condicionar a partir de Lisboa”. Ora, é exactamente aqui que a coisa se torna séria. Quando dá jeito, reclama-se da capital o investimento e a intervenção, mas, quando não, agita-se com pujança o estandarte do regionalismo e a “questão centralista”. A verdade é que esta só existe porque as regiões o permitem e, em certa medida, o exigem. Sempre que reivindicam que o centro pague o custo da sua existência, as periferias estão a legitimar que este abuse do seu poder. Essa é que é a verdadeira “questão centralista”. Porque quanto mais autónomas e independentes forem as regiões, seja a que nível for, económico, cultural, político, etc. menor será a sua vertigem centralista e muito menos frequentes serão as sinistras aparições desse fantasma chamado centralismo que tão enraizado está no coração deste país.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Café Royal XVIII

Vidas

Turismo e Mar são palavrões em voga sempre que alguém, especialmente políticos e académicos, se quer referir ao futuro do país. A expansão da ZEE e o crescimento do RevPar são novos desígnios nacionais. A mineração profunda e os charters de chineses são as especiarias do século XXI. Em Portugal, como sempre, tudo é quimera e pouco efeito. Quando nos perdemos a mirar o horizonte esquecemos de ver a onda que morre em espuma nos nossos pés. No último fim-de-semana fomos flagelados pela notícia de 4 mortos em praias portuguesas. No ano anterior foram 11 no mesmo período. Ano após ano esta tragédia repete-se. Vivemos num país que se diz de turismo e de praia. A Califórnia da Europa, disseram os publicitários (os Açores o Hawai, dissemos nós…)! Mas, como se pode afirmar isso quando a mais básica segurança na orla marítima é ainda uma miragem ou, no melhor dos casos, uma sorte, a sorte de ter um surfista por perto numa praia não vigiada? A aposta num futuro que se sustente no turismo e no mar terá que passar impreterivelmente pela garantia de segurança nas praias. Tal só será possível com um corpo permanente e profissional de Nadadores Salvadores, e nem sequer é preciso ter visto o Baywatch para o perceber, mas, em Portugal, como sempre, todos assobiam para o lado, Governo, Marinha e Autarquias, sacudindo o sal dos capotes, uns por receio, outros por altivez e os últimos por avareza. Entretanto, é um país que se atrasa e são vidas que se perdem…

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Café Royal XVII

Cidades

Todas as grandes cidades são fruto do seu sítio e da sua história. Lisboa tem tanto de Tejo como de luz e cronologia. Fenícios, romanos, árabes, cruzados, navegadores, marqueses, poetas, fadistas, carbonários, marialvas, espiões, varinas cantando sardinhas, amoladores chilreando gaitas-de-beiços em passo lento, elétricos ritmando mecanicamente entre a Graça e os Prazeres… Lisboa foi feita pelo tempo e pelas suas gentes. Lisboa, cidade de luzes, de sombras que se perdem por entre as colinas, de céus azuis rendilhando janelas e varandas, de casario ondulado sobre as ruas. Mistura de gentes e de lugar. Olhando Lisboa hoje, mais de vinte anos depois de ter escolhido os Açores como o lugar da minha vida, sinto, como nunca, essa condição mutável da cidade. A Lisboa em que nasci era uma cidade dispersa, dividida entre bairros e vivências díspares. A Lisboa que deixei no final do século passado era, ainda, uma cidade atónita, em busca de si mesma, resistindo entre a consciência do passado e a euforia do futuro. Hoje, Lisboa é uma cidade plena, aberta, vibrante, feita dos seus lugares e das suas gentes, tanto as que a habitam como as que a visitam, feita, enfim, de todos os que a vivem. Numa palavra – cosmopolita. Saiba Ponta Delgada abrir-se, também, assim - com inteligência…

in Açoriano Oriental

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Café Royal XVI

Antero

Abril será sempre o mês “inicial inteiro e limpo” e, para mim, o mês cintilante, impregnado pela dádiva de uma filha e de um pai. Mas Abril é, também, o mês de Antero. 18 de abril foi o dia do 175º aniversário de Antero de Quental. Antero é o mais eterno de todos os açorianos. Nenhum outro filho destas lávicas rochas, desta húmida leiva, deste intemperado clima, deixou tão profundo legado. O homem de polémica, de política, filósofo, anarquista, ensaísta, pedagogo, homem frágil e doente, mas, ao mesmo tempo, firme e altivo. Poeta. Antero superlativamente humano, génio e santo. Porém, poucos são os que hoje nas ilhas o recordam. Vivendo num tempo de efemérides bacocas, em que qualquer epifenómeno virtual se transforma numa data, uma verdadeira celebração, os 175 anos do nascimento de Antero de Quental, é incompreensível e inaceitavelmente obliterada do calendário. Honra, no entanto, seja feita à Associação dos Antigos Alunos do Liceu, à livraria e editora Artes e Letras e à Câmara Municipal de Ponta Delgada, que com uma original edição de As Fadas assinalaram o dia, ao contrário de, imperdoavelmente, todas as instituições governamentais e legislativas da região, que por completo o esqueceram e, para maior vergonha minha, do próprio PS, que o usa quando precisa, mas não o honra quando deve.

in Açoriano Oriental

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Café Royal XV

Que futuro?

O fundamento mais profundo de toda a cultura é o exemplo dos que viveram antes de nós. Exemplo prático, exemplo cultural, exemplo vivo. Somos o que vivemos, mas somos tanto ou mais o que lemos, vemos e aprendemos. Em livros, quadros, filmes, na educação, em formas múltiplas de leitura e de interpretação dos legados da história, da arte, da literatura, da vida, do exemplo prático. Vivemos hoje um tempo inquietante e imprevisível em que a ignorância, com a sua arrogância própria, assumiu o poder. Olhando apenas as horas tudo parece seguir o seu caminho. Mas, se olharmos as décadas, o tempo vagaroso, denso, dos gestos e das suas consequências, o que vemos são os variados e colossais perigos da história humana feita impulso em vez de pensamento, feita grito no lugar da cadência. Vivemos o tempo da pulsão, cega e repetitiva. Perdemos não só o distanciamento inerente à erudição como, infelizmente, a tranquilidade do saber, próprio ou transmitido. A ironia é essa mesmo. Numa época da História em que mais precisamos de conhecimento somos governados pelo sucesso vácuo da ignorância. Não são já as notícias que são falsas, é toda a realidade. Quando o porta-voz da Casa Branca afirma que Hitler não usou armas químicas é o nosso próprio futuro que se perde.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Café Royal XIV

A vã glória…

Porque homenageamos pessoas? Porque exaltamos, de entre todos, alguns de nós? E de que forma o fazemos e com que intuito? O gesto honorífico, assuma ele a forma que tiver, é, ou deveria ser, uma valorização dos indivíduos que por mérito se superaram e cujo exemplo queremos recordar. Nas mais diversas áreas, das mais diversas formas, da arte à ciência, da bravura à abnegação, contribuindo assim para o engrandecimento de todos nós. Desde tempos imemoriais que só as figuras cimeiras se destacavam. O guerreiro, o feiticeiro, a mãe, e não necessariamente por esta ordem, foram os primeiros merecedores de exaltação, destacando-se assim nas hierarquias sociais. Mas, nesta era do efémero, já nada se sobreleva e tudo ou qualquer um pode ser homenageado. Damos comendas a arguidos de corrupção, nomes de ruas a pessoas vivas, multiplicamos pequenas honrarias em que nem escapa o cão. Numa sociedade supostamente republicana, obrigaria a ética que as prebendas fossem parcimoniosa e prudentemente ofertadas. Celebrarmos os nossos maiores é um gesto de civilização. Despender excitadamente honras, como quem faz likes no Facebook, é vulgarizar esse gesto e ridicularizar os próprios sujeitos da homenagem seja ela o batismo de um aeroporto ou o pífio branding de um avião.