quinta-feira, 21 de junho de 2018

Café Royal LXXVII

A desumanização

Após a chegada aos campos, transportadas, aos milhares, em vagões de gado, as pessoas eram separadas em duas filas, homens e mulheres. Eram depois inspecionados por médicos. Todos os maiores de 14 anos, considerados aptos para “trabalhar”, eram postos de um lado. Os restantes iam para as câmaras de gás. Em “Sophie’s Choice”, filme de Alan J. Pakula, este drama de separação e morte, de animalesca desumanização do Ser, é individualizado de forma pungente por Meryl Streep, Sophie, uma emigrante polaca na América do pós-guerra, que carrega permanentemente dentro de si a insuperável culpa da sua escolha. Ao chegar a Auschiwtz, Sophie é forçada pelos SS a escolher qual dos seus dois filhos irá morrer e qual irá “viver”. Setenta anos depois, assistimos, com pasmo e pavor, a barcos com migrantes a serem impedidos de atracar em portos europeus, ao recenseamento e expulsão de minorias ciganas, e a crianças a serem separadas dos pais na fronteira dos EUA. Uma reprodução insana e incompreensível da bárbara desumanização a que assistimos no passado e que nos coloca perigosamente próximos desse horror absoluto que creríamos irrepetível.
 

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Café Royal LXXVI

El Dorado

Recentemente, e bem, o Governo dos Açores declarou querer reclamar para si uma mais ampla intervenção na gestão do Mar, ciente certamente do enorme poder que os recursos marinhos representam. Só que, como diz o velho aforismo, “com grande poder vem grande responsabilidade”. De todos os recursos à disposição no oceano, aquele que desperta maior cobiça é a mineração profunda, uma indústria tão futurista que os seus reais impactos, tanto no meio ambiente como na sociedade, são, ainda, em larga medida, uma incógnita. Quando o Governo Regional exclama que quer governar o Mar tem a obrigação de, ao mesmo tempo, dizer claramente como e para quê. Exige-se um debate transparente sobre que intenções existem nesta matéria e uma rigorosa avaliação dos seus impactos. Seja nos ecossistemas. Na migração dos grandes cetáceos. No tipo de infraestruturas de apoio que são necessárias em terra. Ou, quais os seus impactos, por exemplo, no Turismo? Olhar para o azul do mar como uma espécie de El Dorado é correr o risco de nos afogarmos numa nova febre do ouro…
 

sábado, 9 de junho de 2018

Mix Tape 1

Track 1 – Intro

Em criança todos construímos castelos, nem que sejam imaginários. No quarto, com almofadas e cobertores, rearranjando os moveis, construímos fortes para batalhas épicas e palácios com príncipes e princesas. Nos jardins, com ramos e folhas e canas, erguemos cabanas, westerns sonhados de índios e cowboys. Frágeis, mas magníficos, teatros de sonhos. Ao longo da vida, a criação do gosto, é um pouco como esses castelos. Uma arquitectura de memórias. Com o passar dos anos vamos construindo uma enorme Torre de Babel interior de referências, vivências, momentos. Catalogando cada um com uma determinada banda sonora. Como o desenhar de um mapa, traçando as diferentes latitudes e longitudes da vida. Azimutes e esquadrias. São assim os meus castelos, um caleidoscópio de gostos, que se desenham numa argamassa, mais ou menos caótica de géneros, de sul para norte, este para oeste, um planisfério sentimental de lembranças, que vão de Guns N’ Roses a Stone Roses, de Camané a Kronos Quartet. Numa navegação sentimental através do oceano dos sons, imenso corpo de água, pontilhado de ilhas míticas, apenas alcançáveis pela leitura das estrelas. Há vinte anos atrás, naquele que foi um dos dois momentos mais importantes da minha vida até hoje, passei longos meses a viajar sozinho na Califórnia e no México. De mochila e pranchas às costas e com um Discman Sony e um estojo de CD’s. Se fechar os olhos ainda consigo sentir o balançar ritmado dos autocarros, nas longas travessias noturnas entre misteriosas cidades mexicanas e vejo, nitidamente, como estrelas na noite, os cd’s dentro desse estojo: Tarantula dos Ride; o primeiro álbum dos Stone Roses; Grace do JeffBuckley; Sketches of Spain de Miles Davis; Five Tango Sensations de AstorPiazzolla e Kronos Quartet; Chet Baker Sings. E outros, que formam as paredes dessa construção elíptica, espécie de confluência entre as escadas de Escher e a infinita biblioteca de Borges, que é a recordação dessa viagem, ou que é, afinal, a solidificação mental dessa experiência em tudo o que ela teve de concretização e consubstanciação de todo o meu percurso de vida e que fica, para sempre, marcado por essa colecção de sons. Mas a construção do gosto é, também, uma construção de relações humanas, de emoções, de paixões. Gestos puros e iniciais, como a oferta materna dessa viagem, como forma de libertação individual, ou a partilha, entre um pai e um filho, do gosto pela boa música e do que ela representa enquanto experiência verdadeira da natureza do belo e da sua importância basilar na vida.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Café Royal LXXV

A doença

O fim era tão inexoravelmente previsível que quando a notícia surge a gordas já não provoca espanto. “SINAGA vai ser arrasada e espaço deverá ser loteado” dizia a manchete. Os Açores sofrem, desde sempre, de uma doença crónica: a “síndrome do desenvolvimento sustentável”. Todos os estudos são unânimes em apontar a diversificação, a especialização e produtos de valor acrescentado como o único caminho a seguir. E estas “guidelines” são válidas para todos os sectores. Seja no Turismo, na Agricultura, na Ciência ou na Cultura. Mas, o que o fim dantesco da saga da SINAGA vem provar é que a Região, como um todo, não é capaz de seguir nenhuma delas. Não soubemos diversificar, não soubemos criar valor acrescentado e vamos arrasar uma indústria histórica para construir uma urbanização incaracterística, num gesto de completo e inadmissível desrespeito pelas pessoas, pela memória e, acima de tudo, pelo Futuro. Citando Joni Mitchell, pavimentaram o paraíso e construíram um parque de estacionamento. Provavelmente até terá uma rua com os nomes dos responsáveis por esta política em que tudo é descartável…
 

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Café Royal LXXIV

Da Dignidade

Nos últimos dias muito se falou de dignidade da pessoa humana, reduzindo-a, estupidamente, à fronteira da morte, como se esta fosse um instante singular no percurso da vida. Legislar sobre a liberdade de escolha pela eutanásia, tal como pelo aborto, não pode ser o mesmo que decretar sobre o valor das assinaturas de arquitectos e engenheiros. Aquilo que os partidos da Geringonça (menos o PCP e mais o Sr. do PAN…) tentaram fazer, numa questão essencial, de liberdade individual do cidadão - decidir sobre a sua própria morte - foi em todos os sentidos indigno porque absolutamente antidemocrático. A pequena golpada de querer fazer passar uma lei fundamental sem aviso, sem escrutínio popular e sem o debate público de um referendo, apenas teve como resultado a morte deste assunto no futuro próximo. As democracias deviam ser lugares de respeito, de dignidade, entre eleitos e eleitores. Querendo decidir sozinhos, sem um debate esclarecido e alargado, os partidos “eutanasiaram” a eutanásia… É pena, porque este assunto merecia ser tratado com a mesma dignidade que se pretendia dar ao terminar da vida.
 

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Café Royal LXXIII

Os Americanos

É uma célebre cena de Zeca Medeiros, a brilhante Maria Bifa, a Gilda do Baixio, cambaleando as vielas de Vila Franca, gritando ao escuro a medo “véim aí os rússes!”. Não deixa de ser irónico que agora não seja já esse sonho feito barco de alcançar a América e sejam os americanos a aterrar ilha dentro. E já se ouvem políticos e empresários a vociferar “véim aí os amaricanes!”. Quais naus das índias carregadas de ouro. Mas o que vem nestes aviões são rabos em cadeiras, como se diz no jargão do turismo. Pessoas, com gostos e vontades, diferentes dos Europeus, habituadas a viajar e que procuram diversidade e qualidade. Será que estamos preparados? Nas redes sociais vendemo-nos com um inglês pior que do tradutor do Google. Não temos formação. A época-alta vai ser passada em obras. E até as praias vão estar sem nadadores salvadores até meados de Junho. Os responsáveis dirão que se fez tudo, que não há dinheiro, e amanhã lá estarão, na porta do aeroporto, a oferecer rosas ao som de folclore. Não há nem dinheiro nem qualificação, mas há bailinhos. Será que isso chega para os americanos?
 

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Café Royal LXXII

Açores?

O mais profundo falhanço da autonomia regional mais, até, que a criação de um modelo de desenvolvimento sustentável é o falhanço da ideia arquipelágica. Nenhum governo, nenhum partido político, conseguiu dar Açores às nove ilhas do arquipélago. As ilhas vivem desirmanadas, conflituadas entre si, constantemente em birras e ciúmes. E hoje, mais do que nunca, essa inveja agudiza-se. O Pico quer um avião igual aos de São Miguel. O Faial quer uma pista (que todos sabem ser inviável, mas que cinicamente querem ver construída pelos dinheiros da República, no que seria um dos maiores crimes financeiros e ambientais alguma vez visto na região…) onde não haverá aviões. A Terceira quer portos onde não atracarão barcos. E todos, do Corvo a Santa Maria, querem ser como Ponta Delgada que, coitada, não sabe bem o que quer ser. A tão apregoada Autonomia Regional não é mais do que uma expressão vazia para uso da retórica política, porque a nossa realidade hoje é a de nove calhaus isolados, de costas voltadas uns para os outros, chorando as mágoas e as dores da inveja alheia. Açores? Isso não existe!