quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Café Royal XCVIII

Ilhas 

As ilhas foram sempre território de mitos. Platão coloca a Atlântida numa ilha no Atlântico. Erasmus fez crescer a sua sociedade utópica numa ilha. Em A Tempestade, uma das últimas e, também, mais cativantes peças de Shakespeare, o mago Prospero, Duque de Milão, vive numa ilha acompanhado pela sua filha Miranda e os seus livros. As ilhas são eterna fonte de inspiração poética, desde a Ithaca de Ulisses à Ilha do Tesouro de Stevenson. Ou, essa encantatória Ilha dos Amores, com as suas voluptuosas ninfas. Ilhas mágicas e distantes onde, também, Antero se sonhou rei – “Sonho-me às vezes rei, n'alguma ilha, / Muito longe, nos mares do Oriente, / Onde a noite é balsâmica e fulgente / E a lua cheia sobre as águas brilha...”. Certamente que nas academias muitos já se terão debruçado sobre a ontologia das literaturas insulares procurando, quem sabe, um cânone de lavas incandescentes, horizonte e mar. Mas, se há coisa que os escritores das ilhas poderão verdadeiramente dar à Literatura é a sua infinita capacidade de criar pontes, diálogos, de cruzar os oceanos, estreitando as suas margens, numa aproximação que é, no fundo, a essência do ser Escritor. 

In Açoriano Oriental

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Café Royal XCVII

Ínfimas tiranias

É verdadeiramente paradoxal que, tendo como força motriz a crítica à globalização, os movimentos “populistas” estejam, agora, a globalizar-se. Paradigma desta tendência é o nosferatiano Steve Bannon. O estratega da eleição de Trump, que abandonou a Casa Branca por achar que este tinha capitulado face aos interesses da alta-finança internacional, lançou-se numa campanha global, da Europa à América Latina, de exportação dos seus ideais nacionalistas, protecionistas e xenófobos. Não será fácil combater estes movimentos, como fica demonstrado pelas eleições americanas de terça-feira passada, em que os candidatos trumpianos seguraram o Senado e mesmo a “vitória” dos Democratas para a Câmara dos Representantes foi feita à custa do que, simplisticamente, podemos chamar de “populismos de esquerda”. Talvez o primeiro passo seja identificar o que une todos estes grupos, da extrema-esquerda à extrema-direita. Estou em crer que o que está por detrás destes fenómenos é a Intolerância! Aqueles que acreditam na Democracia terão que começar por aí: pela defesa intransigente dos valores da Tolerância e da Liberdade. Sob pena de o nosso futuro ser de completa e ultrajante subjugação a um incomensurável número de ínfimas tiranias.
 

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Café Royal XCVI

Cuidar

Não herdamos a Terra dos nossos antepassados, Ela é-nos emprestada pelos nossos filhos.” Regresso, com frequência, a este velho provérbio das tribos nativas da América do Norte, pela sua simplicidade e sabedoria. Descobri esta frase através de um anúncio de uma famosa marca de relógios – “Nunca somos donos de um Patek Philippe, apenas tomamos conta dele para a próxima geração.” – e, para um colecionador como eu, a mensagem ressoou intimamente de forma genuína. A verdade subjacente a esta mensagem é de uma singeleza desarmante. Nós não somos donos da Terra. Ela é uma dádiva, que nos cumpre proteger e legar às gerações vindouras. Também as coisas, ou os bens materiais, que ansiosamente buscamos, não são verdadeiramente nossos. São memórias, afectos, que, um dia, no fim desta vida tão frágil e curta, deixaremos para aqueles que vierem depois de nós. Esta consciência da nossa finitude, da nossa absoluta transitoriedade, é, deveria ser, um princípio fundamental da nossa actuação no dia-a-dia, para connosco, para com os outros, para com o lugar e o tempo em que vivemos. Cuidar que cuidamos em vez de destruir. Aplica-se a tudo na vida.
 

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Café Royal XCV

Os Partidos

Perante o absurdo e assustador crescimento dos movimentos ditos populistas, os media, a intelligentia, procuram desesperadamente encontrar uma explicação, um culpado, para o fenómeno. O mais recente arguido neste tribunal mediático são as redes socias e, mais concretamente, as chamadas “fake news”. Pretendem fazer-nos acreditar que a razão para o descalabro das democracias ocidentais e a chegada ao poder, democraticamente diga-se, de nacionalismos, fascismos e outras formas desarreigadas de populismo, está na disseminação artificial de mensagens falsas nas redes sociais e na incapacidade dos indivíduos em as descodificar e contrapor. Como se o mundo todo fosse habitado apenas por idiotas. Por mais apetecível que este argumento seja e, independentemente da sua parcial verdade, há um problema fundamental neste raciocínio. É que, não foram as “fake news” que minaram a confiança dos cidadãos no sistema político-partidário. Foi sim a progressiva e despudorada forma como os partidos políticos se auto-descredibilizaram, cegos pela ganância eleitoral e mergulhados, até aos ossos, em compadrios, amiguismos, nepotismo e escândalos de corrupção.

in Açoriano Oriental

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Café Royal XCIV

Remodelar

As remodelações são naturais em democracia. Podem nem sempre ser necessárias, mas momentos há em que são imprescindíveis. No Terreiro do Paço, António Costa, pegou num problema e tornou-o numa oportunidade fazendo uma remodelação, com rapidez, astúcia e firmeza. O novo Governo é de combate e de protecção ao primeiro-ministro, até à almejada maioria absoluta. Por cá, Vasco Cordeiro, não quis, não soube, ou não a conseguiu fazer. Começava por devolver aos cidadãos a confiança nos responsáveis da Saúde e Protecção Civil, totalmente destruída após o horrendo episódio das evacuações. Podia, também, corrigir o excessivo peso da Vice-presidência, devolvendo-se autonomia à Economia com uma Secretaria própria. Ou, por exemplo, colocar a Cultura no Turismo. Acima de tudo, escolher personalidades fortes, com peso político e, nunca, ter Directores Regionais com maior “autoridade” do que os Secretários. A verdade é que, seja por manifesta arrogância e autoritarismo, seja por descrédito, seja por incompetência e irrelevância dos seus titulares, este Governo Regional precisa com urgência dessa remodelação, sob pena de se perder a maioria absoluta.
 

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Café Royal XCIII

Cântico Negro

Quem olhe o estado do mundo, hoje, mesmo que com “olhos lassos”, não pode deixar de sentir desconforto, uma quase dor de quem sente que vivemos o fim de uma era, o fim de um tempo de utopia e de esperança. Em nosso torno são múltiplos os sinais de que o tempo das democracias liberais terminou. O sonho de um mundo, construído por sociedades onde as liberdades individuais e o princípio da solidariedade entre indivíduos e gerações seriam a base da organização dos estados, sucumbiu à ditadura dos números. Todo o discurso político foi contaminado, como se por um vírus, por défices, taxas, dívidas, índices, juros, ratings e todo um infindável jargão de economices, com que os titereiros da política e do capital manipulam o espaço público. Algures no caminho deixamos que se perdesse o humano e tudo se tornou refém do número. É natural que assim seja quando, por estes dias, o que constatamos à nossa volta são políticos emproados a discutir as décimas do défice e a percentagem do PIB na dívida, sem que, nunca, se considere o simples, mas fundamental, bem-estar dos cidadãos… “Não, não vou por aí!
 

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Café Royal XCII

#EleNao

No domingo, o Brasil vai a votos, naquela que é, certamente, a mais inacreditável campanha eleitoral de sempre para a escolha de um Presidente. Mesmo num país onde um gorila já foi candidato a deputado e um artista de circo ficou célebre pelo seu slogan “Pior do que tá não fica, vote Tiririca”. Mergulhado em escândalos de corrupção, depois do impeachment de Dilma e do mandato do vampiresco Temer, o Brasil está mais dividido do que nunca. De um lado, a Esquerda, órfã de Lula (preso e impedido de concorrer), tenta consolidar Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo, como a face reformista de um PT acossado pelos escândalos de corrupção. Do outro lado, a Direita, aparece tombada para a sua extrema com Jair Bolsonaro, ex-militar na reforma, como o líder das sondagens. Os últimos inquéritos davam a Bolsonaro 31% das intenções de voto. E o que torna estas eleições brasileiras tão inacreditáveis é mesmo Bolsonaro. Escassos 33 anos após o fim de uma Ditadura Militar, que durou 21, os brasileiros parecem acolher com entusiasmo um candidato cuja visão política comporta opiniões como esta – “o erro da ditadura foi torturar e não matar”. #EleNao!