quinta-feira, 19 de julho de 2018

Café Royal LXXXI

Sociedade

Criar a SATA foi um gesto de enorme audácia. Um pequeno grupo de empresários, firmes na ideia de uns Açores centrais no Atlântico, imaginou a companhia como um instrumento ao serviço da região. A designação Sociedade Açoriana de Transportes Aéreos não foi uma imposição burocrática, foi uma opção consciente dos seus fundadores, afirmando, desde logo, o papel fundamental da empresa, que seria mais do que uma mera companhia de transporte aéreo, mas sim um veículo ao serviço do desenvolvimento da sociedade açoriana. A politização/partidarização da companhia, desde 1980, e consequente quebra desse desígnio, levou ao estado moribundo em que esta se encontra. A SATA é hoje um desastre financeiro, operacional, laboral e político. É, por isso, obrigação do Governo Regional agir de forma afirmativa e transparente na resolução destes problemas em prol da salvação da empresa. Desenhar e cumprir um plano de saneamento financeiro. Dar a gestão operacional da empresa a verdadeiros especialistas em aviação. Negociar um acordo de empresa que inclua os trabalhadores na defesa da mesma. Clonar presidentes, ao sábado de manhã, numa política de mais do mesmo, não é certamente uma solução…  
 

sábado, 14 de julho de 2018

Mix Tape 2

Track 2 - The Summerhouse

As memórias que guardamos da infância são evanescentes, como sonhos, como bolas de sabão levitando pelo ar. Mas, de todas, talvez as mais impressivas sejam as dos verões. Os verões de criança feitos invariavelmente de mar, de areia da praia e dos ramos das árvores do jardim que trepamos. Aqueles infindáveis verões, meses corridos, de junho a setembro, feitos da mais pura liberdade, inconsciência e infância. Os verões em que corríamos descalços pelas pedras, negras, quentes e pontiagudas. Dávamos mergulhos na água fria. Apanhávamos escaldões e erámos tão absolutamente descomprometidos como o ritmo da espuma das ondas que se abatia, em sons, nas pedras durante a noite, entrecortada de quando em vez pelo vôo tonitruante dos cagarros. Talvez a canção que melhor resume esse sentimento de mágico encantamento das férias de verão seja The Summerhouse. Oitavo tema do terceiro álbum da banda The DivineComedy. “Do you remember / The way it used to be / June to September / In a cottage by the sea […] Distant cousins, local kids / We climbed every tree together / And it never ever rained / 'Til we climbed back on the train / That would take us so far away / From the village and the bay / And the summerhouse / Where we found new games to play […] Do you remember / Sunday lunch on the lawn / Daring escapes at midnight / And costumeless bathes at dawn. […] You were only nine years old / And I was barely ten / It's kind of weird to be back here again / Do you remember / The summerhouse...?” Promenade foi lançado pela editora de culto Setanta, em 1994, tinha eu vinte anos e estava a meio de uma entediante licenciatura. 94 não era já o ano das guitarras, mais ou menos alternativas, ou das excessivas rebeldias de um Nevermind dos Nirvana. 94 foi o ano de Lisboa Capital da Cultura e da sensação de que tudo estava ao nosso alcance, nada nos podia parar. Pode ser estranho que a melancólica música de Neil Hannon e Joby Talbot, uma espécie de plágio Pop de Michael Nyman, se adeque a essa sensação de invencibilidade pós-adolescente. Mas, para mim, nessa altura, era exactamente esse reconhecimento da perenidade das memórias dessa infância, mais ou menos etérea que, não só se manifestava naquele disco, como nos permitia abraçar o futuro, como se de um mergulho nas tranquilas águas dos verões passados na meninice se tratasse.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Café Royal LXXX

Compaixão

Durante duas semanas o mundo parou, numa comoção global pelo dramático enredo dos 12 rapazes, mais o seu treinador de 25 anos e ex-monge budista, encurralados numa gruta na Tailândia. Assistimos, no nosso remanso, a intermináveis directos televisivos, ouvimos especialistas em várias ciências e técnicas, desde espeleologistas, a mergulhadores e psicólogos, observamos cuidadosamente as infografias da gruta de Tham Luang, escutamos atentamente as conferências de imprensa do governador da província de Chang Rai, Narongsak Osatanakorn, com o seu boné azul, lenço amarelo e sorriso desconcertante. E o mundo foi tomado por uma onda de profunda compaixão por aquele grupo de miúdos. Compaixão é o acto de partilhar ou entender o sofrimento ou a dor de outra pessoa. Guiados pelas televisões de todo o mundo, desde a CMTV à CNN, foi esse o sentimento que partilhamos por aquele desafortunado conjunto de jovens, finalmente salvos para gáudio generalizado do mundo dito civilizado. Talvez agora as câmaras, e a nossa compaixão, se possam virar para os milhares de seres humanos que todos os dias encaram a morte, flutuando à deriva, no mar mediterrâneo…
 

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Café Royal LXXIX

DN

Desde há décadas que se tem vindo a escrever o obituário da imprensa escrita. Hoje, na ditadura do digital e em que os nossos estilos de vida assoberbados nos levam a um alheamento da sociedade, o papel primordial do jornalismo, e dos jornais, como comunicador e, muitas vezes, mediador da vida em comunidade, foi-se gradualmente perdendo. Esta degradação da imprensa escrita é mais um sintoma da decadência das nossas democracias. Os jornais são areópagos da pluralidade e do debate livre de ideias. A sua morte, ou a sua “adaptação”, como eufemisticamente usam dizer por estes dias os patrões da imprensa, devia pesar sobre o nosso pensamento, como um alerta sobre o tipo de mundo que estamos a construir. Na dualidade entre passado e futuro, o nosso papel, enquanto civilização, é garantir que o que de melhor existiu no passado possa ser transportado para o futuro. A capitulação do Diário de Notícias ao mundo virtual, à banalidade do dedo que faz apagar para baixo no ecrã, é apenas mais um passo em direcção a um lugar sem tempo e onde tudo é, apenas, momentâneo…  
 

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Café Royal LXXVIII

Machico

Se nomearmos Machico, freguesia da costa nordeste da ilha da Madeira, todos, ou quase todos, se lembrarão de Cristiano Ronaldo. Depois lembrar-se-ão vagamente da injusta fama dessa que é conhecida como uma das freguesias mais pobres da ilha e do país. Mas, como pode ser pobre uma terra que deu, que dá, a Portugal dois dos seus maiores expoentes vivos? Dois? D. José Tolentino de Mendonça, nascido há 53 anos nessa mesma freguesia, foi nomeado esta semana arquivista do Arquivo Secreto do Vaticano e bibliotecário da Biblioteca Apostólica. Simplesmente um dos mais importantes e significativos cargos da Igreja Católica e, mais importante ainda, guardião da chave para aquele que é certamente o maior e mais completo cofre de segredos, sabedoria, conhecimento e cultura de toda a Humanidade. A biblioteca do Vaticano, oficialmente criada em 1450 pelo Papa Nicolau V, guarda no seu interior milhares de códices e incunábulos, remontando aos primórdios da fé cristã e acompanhando a História do Saber (ou da Verdade enquanto sentido da Vida…) até aos nossos dias. Não desmerecendo CR7... mas, parabéns ao poeta Tolentino de Mendonça.
 

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Café Royal LXXVII

A desumanização

Após a chegada aos campos, transportadas, aos milhares, em vagões de gado, as pessoas eram separadas em duas filas, homens e mulheres. Eram depois inspecionados por médicos. Todos os maiores de 14 anos, considerados aptos para “trabalhar”, eram postos de um lado. Os restantes iam para as câmaras de gás. Em “Sophie’s Choice”, filme de Alan J. Pakula, este drama de separação e morte, de animalesca desumanização do Ser, é individualizado de forma pungente por Meryl Streep, Sophie, uma emigrante polaca na América do pós-guerra, que carrega permanentemente dentro de si a insuperável culpa da sua escolha. Ao chegar a Auschiwtz, Sophie é forçada pelos SS a escolher qual dos seus dois filhos irá morrer e qual irá “viver”. Setenta anos depois, assistimos, com pasmo e pavor, a barcos com migrantes a serem impedidos de atracar em portos europeus, ao recenseamento e expulsão de minorias ciganas, e a crianças a serem separadas dos pais na fronteira dos EUA. Uma reprodução insana e incompreensível da bárbara desumanização a que assistimos no passado e que nos coloca perigosamente próximos desse horror absoluto que creríamos irrepetível.
 

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Café Royal LXXVI

El Dorado

Recentemente, e bem, o Governo dos Açores declarou querer reclamar para si uma mais ampla intervenção na gestão do Mar, ciente certamente do enorme poder que os recursos marinhos representam. Só que, como diz o velho aforismo, “com grande poder vem grande responsabilidade”. De todos os recursos à disposição no oceano, aquele que desperta maior cobiça é a mineração profunda, uma indústria tão futurista que os seus reais impactos, tanto no meio ambiente como na sociedade, são, ainda, em larga medida, uma incógnita. Quando o Governo Regional exclama que quer governar o Mar tem a obrigação de, ao mesmo tempo, dizer claramente como e para quê. Exige-se um debate transparente sobre que intenções existem nesta matéria e uma rigorosa avaliação dos seus impactos. Seja nos ecossistemas. Na migração dos grandes cetáceos. No tipo de infraestruturas de apoio que são necessárias em terra. Ou, quais os seus impactos, por exemplo, no Turismo? Olhar para o azul do mar como uma espécie de El Dorado é correr o risco de nos afogarmos numa nova febre do ouro…