quinta-feira, 18 de julho de 2019

Café Royal CXXXIII


(in)Cultura

Não são usuais as visitas de ministros aos Açores. Ministros da Cultura, então, muito menos, tão poucos que foram na nossa curta democracia. Também por isso, a escapadinha da ministra Graça Fonseca a São Miguel, no passado fim-de-semana, poderia ter sido um momento importante para o reconhecimento da Cultura que se faz nos Açores. Infelizmente, não foi isso que sucedeu. Entrelaçada na teia do Walk & Talk, a visita de Graça Fonseca aos Açores fez-se em circuito fechado, com fugazes desvios ao Arquipélago e ao alto da Torre Sineira da Câmara de Ponta Delgada. Mas o pior foi a ridícula declaração da Ministra ao dizer que já tinha visitado várias galerias e espaços culturais “que não existiam” antes do referido festival. A verdade, Sra. ministra, é que é precisamente o contrário. Por maiores que sejam os méritos do Walk & Talk, e são muitos, a realidade é que o festival só existe por causa da existência e resistência de um sem número de artistas, espaços, galerias, livreiros, etc., etc., que lutam todos os dias e há muitas décadas para fazer, e dar a apreciar, Cultura nos Açores. Mas, já estamos todos habituados às gaffes desta ministra quando sai de Lisboa…


quinta-feira, 11 de julho de 2019

Café Royal CXXXII


Racismo de classe

Portugal não é, nunca foi, racista. A maior prova desse não-racismo nacional é a miscigenação. Ao contrário de outros povos, a disseminação dos portugueses pelo mundo fez-se pela comunhão intelectual, social e sexual entre raças, povos e culturas. Portugal foi o primeiro país a abolir a escravatura. E, como já alguém disse, em tom libidinoso, a maior dádiva de Portugal ao mundo foi a mulata… Vêm isto a propósito da discussão em torno de um texto lastimável de Maria de Fátima Bonifácio, no jornal Público, sobre raças, culturas, civilizações e, pasme-se, “cristandade”. O mal que afecta o espírito nacional não é o racismo, é o classismo. Portugal é, ainda, um país contaminado pelos resquícios do feudalismo e do Estado Novo, que se enoja com a pobreza, mas não a combate e de “senhoras” e criadagem separadas por vestíbulos obscuros. Só que hoje, nos bairros chiques de Lisboa, as criadas são todas negras. Não vale a pena rebater o discurso racista, mas convém lembrar que, como diz o slogan das campanhas contra as alterações climáticas: “Não há Planeta B” e vivemos todos neste planeta, brancos, negros, vermelhos, amarelos, e a Sra. Bonifácio também…


quinta-feira, 4 de julho de 2019

Café Royal CXXXI


7 Mortes

Um amigo meu, intelectualmente socialista, dizia em tom jocoso, referindo-se a Alexandre Gaudêncio, logo após o episódio Mota Amaral, que o jovem líder do PPD Açores e Presidente de Câmara da Ribeira Grande não tinha sequer chegado à “recta dos Fenais”, tinha-se estatelado na rotunda de Rabo de Peixe. De facto, a tentativa de Gaudêncio se afirmar como líder do principal partido da oposição e candidato a alternativa a Vasco Cordeiro ficará na história como a mais trágica e inábil de todos os líderes do PSD-A, e já lá vão muitos. Tudo ia a correr mal a Alexandre Gaudêncio até que, já com o carro todo empenado e desgovernado, se despistou, finalmente, na berma da estrada. Diz-se que os gatos têm sete vidas, pela sua capacidade de cair sempre de pé. Gaudêncio é o político das 7 mortes, que nunca conseguiu sequer chegar a levantar-se. Mas, o pior disto tudo nem é o mau gosto musical, é o legado de destruição urbanística e turística do litoral da Ribeira Grande que Gaudêncio vilipendiou, entregando-o, de mão beijada, à selvagem especulação imobiliária e à mais perniciosa massificação turística, como, aliás, a operação “Nortada” deixa perceber. Gaudêncio acabou e se não sair o PSD-A poderá acabar também…


quinta-feira, 27 de junho de 2019

Café Royal CXXX


Superávit

Benjamin Franklin dizia que “para não seres esquecido depois da morte, escreve algo que mereça ser lido ou faz algo que mereça ser escrito.” Actualmente, poucos são os que se importam com o legado que deixam das suas vidas. Perpassa-nos a impressão de que tudo está gravado na pedra-pomes das redes sociais e que essa vaga e electrónica impressão digital se eternizará na nuvem do algoritmo. Pode parecer inadequado misturar os pequenos políticos de hoje em dia com esta ideia maior de um devir histórico universal, tão emaranhados eles estão nas fugazes manchetes e nas politiquices do dia-à-dia. Porém, a política não devia ser outra coisa que não fosse a permanente ambição de uma sociedade melhor, mais próspera e mais justa. E esse deveria ser o legado dos grandes políticos. A História, aquela que se constrói para lá dos idióticos mestrados e doutoramentos tirados com minudencias estatísticas, faz-se dos feitos dos homens e das suas grandes acções, que tornam a Humanidade, e o nosso Mundo, em algo maior. E não com o Superávit ou outras artimanhas contabilísticas. O único ministro das finanças que ficou para a História foi Salazar e não foi pelas melhores razões…


quinta-feira, 20 de junho de 2019

Café Royal CXXIX


O bodo

Quando se fala em Orçamento de Estado é frequente ouvir falar em “mesa” e “bolo”. Como se o Orçamento fosse uma espécie de banquete. Só que, quem se anda a lambuzar com o repasto não são os cidadãos comuns, pagadores de impostos, a quem o Estado devia garantir meia dúzia de coisas básicas. Desde logo, diz a Constituição, o direito à Saúde, “através de um serviço nacional de saúde universal e, (…) tendencialmente gratuito.” Ora, se imaginarmos que à cabeça da “mesa” do Orçamento se senta o Governo, manda o protocolo que à direita se sente a Educação e à Esquerda a Saúde e deviam ser esses, os “convidados de honra”, a receber a maior fatia do “bolo”. Mas, neste país, nos últimos anos, nessa verdadeira última ceia em que se transformou o Orçamento de Estado, quem se anda a empanturrar, são os Judas da Dívida, os agiotas da Banca e outros Berardos do género. Portugal investe na Saúde cerca de 1600€ por cada cidadão. Resgatar os Bancos custou a cada um de nós 1800€! É como aquelas galas, servidas a lagosta e champanhe, em que os abastados juntam uns cêntimos para oferecerem aos pobres uns míseros pacotes de macarrão…


quinta-feira, 13 de junho de 2019

Café Royal CXXVIII


O peso da data

Por mágica conjugação de calendário, calhou este ano, o 10 de Junho e o “dia da pombinha” serem na mesma data. Esta segunda-feira, Portalegre e a Calheta de São Jorge tornaram-se o centro simbólico da portugalidade e da Autonomia. Ao contrário de outras nações, que assinalam os seus dias em datas importantes da sua história (a Tomada da Bastilha, o dia da Independência ou o grito do Ipiranga) e que, por isso, estão profundamente enraizados na cultura do seu povo, Portugal e os Açores, celebram-se em datas que foram escolhidas a dedo, em gabinetes fechados, procurando incutir artificialmente num caso, e usurpar ao povo noutro, uma sensação de verdadeira pertença à comunidade. O facto é que, 45 anos depois, o 10 de Junho nunca se conseguiu libertar do dia da raça salazarento que sempre foi, por mais discursos de Facebook que se façam. E, a estatização da mais popular das festas açorianas, o Espírito Santo, significa um desvirtuar e uma politização incompreensível do que de mais genuíno tem o povo destas ilhas. Ora, é precisamente este artificialismo que afastará sempre o cidadão comum destas celebrações. Ao povo o que é do povo, e ao Estado o que dele tiver de ser…


quinta-feira, 6 de junho de 2019

Café Royal CXXVII


O Rei Sol

Numa frase em inglês, no seu melhor estilo de pitonisa mediática, como quem prevê o futuro, mais do que analisa o passado, Marcelo Rebelo de Sousa, prognosticou, para os próximos anos, uma debacle na Direita em Portugal. O comentário do professor diz mais sobre a sua personalidade do que propriamente sobre a crise de PSD e CDS, ou, se quisermos, sobre o estado do regime, como logo se apressou a tentar corrigir Rui Rio. Marcelo construiu, neste seu primeiro mandato como Presidente da República, a imagem do presidente próximo das pessoas, constantemente presente, uma espécie de Conversas em Família, do seu famigerado homónimo, em formato selfie-stick, ultrapassando, muitas vezes, o limite da exaustão. Num regime em que os poderes presidenciais são reduzidos, essa forma omnipresente de desempenhar o cargo transforma-o num interveniente activo do teatro político e Marcelo fá-lo propositadamente. A opinião presidencial torna-se, ela própria, condicionante da luta político-partidária. Ao vaticinar uma crise na Direita, Marcelo mais não faz do que afirmar – a Direita sou eu! – qual Luís XIV, ambicionando tornar-se no Rei Sol da República e, en passant, transformando-nos, a todos, em bananas.