quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Café Royal VII

O nosso Mar

Somos ilhas, nascidas do mar, ancoradas no meio do oceano. Porém, ao longo de quinhentos anos, viramos sempre as costas a esse mar. Somos povo arreigado à solidez da terra e, salvo honrosas excepções, receoso da inconstante agitação das águas. Do mar vinham piratas e invasores, dominadores e cobradores de impostos. O mar era caminho para exportação de bens e de jovens, via para escoar os produtos da abundância da terra e as nossas melhores esperanças. O mar foi tempestades, perigos e outros horrores. Até as nossas igrejas foram erguidas de costas voltadas para o mar. Hoje, essa infinidade de riquezas é cobiçada por todos e o que para outras nações é ouro é para nós uma envergonhada prebenda. A orla marítima, as ondas, os recursos marinhos, a história, todo o imenso mar dos Açores é uma enorme mina, literalmente. E nós, acabrunhados em cima desse maná, deixamo-nos usurpar desse colossal activo. Inquieta pensar o que será mais obsceno, se a nossa incapacidade de tomar o leme a esse processo de aproveitamento das potencialidades do nosso mar ou o facto dessa prospeção estar a ser feita em burocrático e duvidoso segredo no mercado livre dos gabinetes governamentais.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Café Royal VI

O Sistema

Na Roménia a corrupção é despenalizada, no Brasil estatizada. A Europa vive anestesiada, a América Latina bloqueada. África engatilha e o Ártico descongela. Putin manda, Trump tweeta. A Inglaterra Brexita, a Alemanha hesita. O país eutanasia e a ilha incinera. Imaginar o futuro é como olhar pelo cano de um caleidoscópio… mas, se olharmos para trás talvez consigamos ver a origem deste tempo. Recuemos, por exemplo, à queda do Muro. Essa simbólica debacle do modelo maniqueísta de dois blocos, duas ideologias, duas perfeitamente claras e irredutíveis visões da condição humana e da organização social. O fim, à marretada, dessa “pax” fria arremessou-nos, inadvertidamente, para o caos da superficialidade política. Por todo o mundo, jovens políticos, vazios de projecto e enfeitiçados pela ideia da imortalidade das democracias (ou talvez deles próprios), imaginaram várias terceiras vias com o único fito de conquistar o poder e perpetuá-lo em curtos ciclos de quatro anos. Mais de 30 anos passados não há uma ideologia, um valor ético, que sobreviva. Tudo vale, desde que se garanta a reeleição e se perpetue o sistema. Hoje, pressente-se no ar que é esse próprio sistema que vulcanicamente se prepara para desmoronar…

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Café Royal V

Amassar o pão

Portugal é um país esquizofrénico e a política portuguesa, então, é um autêntico manicómio. O mais recente delírio foi a novela da TSU. Não querendo remoer muito mais sobre o tema, duas notas marcantes importam registar. 1º - o que de simbólico, na incapacidade de entendimento entre as forças políticas, o episódio revela. E, se da direita não se esperaria outra posição, da parte do PS e dos que habitam à sua esquerda chegam sinais iguais ou piores. Negociar a política salarial tendo como moeda de troca o sistema de prestações sociais é um erro de palmatória, mas a incapacidade da esquerda dialogar sobre os problemas crónicos do nosso sistema económico não augura nada de bom para o futuro da governabilidade, com ou sem geringonça. 2º - Portugal é um país pouco produtivo, essencialmente pobre, e onde os salários médios nos deviam envergonhar a todos, mas é igualmente verdade que o país, em particular políticos e patrões, é incapaz de gerar condições efectivas para o desenvolvimento da economia e a criação de riqueza que possa ser verdadeiramente distributiva. Nunca foi tão apropriado o chavão de que “em casa onde não há pão, todos brigam e ninguém tem razão.” Assim vamos indo na hilariante padaria portuguesa.

in Açoriano Oriental

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Café Royal IV

Incineremos

Passeando nas cumeeiras, olhando o mar e a ilha, berço de cores, horizonte e sonho, recordo uma citação sábia: “não herdamos a terra dos nossos pais, apenas a pedimos emprestada aos nossos filhos.” Esta frase nativa é uma pérola de erudição e sensatez. E recordo-a pelo que transporta de aviso, de responsabilidade, pela preservação do sítio em que nascemos, que outros antes de nós amaram e que temos a obrigação de manter para os que vierem depois. Aqui, na ilha, encapsulados de verde e oceano, embriagados pela fertilidade da terra, somos muitas vezes levados a pensar que nada há, para além das mais poderosas forças da natureza, que a possam destruir. Olhando a ilha, em toda a sua magnânima e esplendorosa dimensão, esquecemos, muitas vezes, que somos nós próprios, por acção ou omissão, os principais agentes da sua destruição. Nesta terra que um slogan governamental diz ser “certificada pela natureza” somos nós, colectivamente, quem mais trabalha para o seu fim. O mais recente absurdo é a intenção de construir uma incineradora.  Absurdo ambiental, económico, turístico, de saúde pública, político e geracional. No futuro, o tempo e a terra julgarão, olhando para trás, esse legado. Pelos nossos filhos, se já não por nós, incineremos a incineradora!

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Café Royal III

Trump®

É amanhã a inauguração de Donald Trump, 45º Presidente dos E.U.A. Para lá do homem, da sua espampanante personalidade e dos muitos paralelismos feitos com outras épocas da História, em que figuras igualmente bizarras e polémicas chegaram, por vias mais ou menos democráticas, ao comando de nações, há um aspecto, totalmente novo, que convém salientar: Trump como marca e a sua aliança com as redes sociais para a autopromoção. Os demagogos do passado construíram-se pela retórica pública, em grandiloquentes discursos perante plateias embevecidas. Mas, para eles, a ideologia e o conteúdo da mensagem eram tão importantes como o cenário. Hoje, Trump apresenta-se em 140 caracteres, via Twitter, como uma espécie de caixa de ressonância de frases bombásticas, mas vazias de sentido. O triunfo de Trump é o triunfo da sua marca. É a ascensão, ao mais alto cargo, da mentalidade da venda e do lucro, em que o importante não é mais o conteúdo, mas a embalagem, o rótulo, o slogan… Trump é (e só) marca, uma espécie de “Coca-Cola” política, capitalisticamente obcecada em dominar o mundo, ao melhor preço. Bem-vindos ao tempo em que até as nações são mero produto, em saldo no mundo digital.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Café Royal II

Obrigado

Sou filho da revolução, nunca vivi a ditadura. Não sofri o autoritarismo, a censura, a PIDE, a tortura, o exílio… nestes quarenta e dois anos a minha vida foi feita com liberdade e em democracia. Devo-o, para além dos militares de Abril e dos muitos outros homens e mulheres que ajudaram a fazer nascer o Portugal democrático, a um homem que se destacou dos demais. Pela sua enorme coragem e frontalidade, pela sua sagacidade e inteligência política. Pela rara capacidade de perceber o tempo, o momento político, e saber estar no lado certo da História. Pela permanente luta pelos valores fundacionais do socialismo e pelo que de mais essencial há na visão humanista da vida – as liberdades e a defesa, permanente, intransigente e perseverante, da igualdade e da fraternidade. Esses valores antigos, mas ao tempo tão esquecidos, foram tornados contemporâneos, no Portugal amordaçado de então, pela sua visão e acção política. Devo-lhe, devemos-lhe todos, essa dádiva frágil, principio de quase tudo, chamada: Liberdade. Do ponto de vista pessoal a sua presença foi sempre uma constante na minha vida.
Pela Liberdade, pela Democracia, pelo exemplo humano, obrigado Mário Soares.