quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Café Royal LIV

Os Açores

Ao longo da História, as ilhas foram sempre a sua localização. “A importância internacional dos Açores foi lhe sempre atribuída […], pelo contexto da política internacional. A Horta já foi mais alemã e inglesa, e o porto de Ponta Delgada mais norteamericano do que britânico, ou francês […]; a Terceira, mais britânica e Santa Maria, mais americana, […] e até ainda há pouco tempo as Flores albergavam observadores balísticos franceses.” Explicou Medeiros Ferreira. Não compreender o valor arquipelágico das ilhas é falhar perceber os Açores. Nos últimos meses assistimos, com espanto e pavor, a uma incompreensível e inaceitável diatribe da Terceira contra São Miguel. Por causa do dossier Lajes, têm-se alimentado visões bairristas do arquipélago, sem o mais básico sentido histórico e noção do papel fundamental que cada uma destas nove ilhas, abraçadas de mar, têm para com cada uma das outras… Estar na Horta, com ou sem um copo de gin, pousar o olhar no canal e admirar a montanha que se agiganta acima do mar, desafiando o céu com a sua grandeza de vulcão é, se não toda, parte fundamental, da essência açoriana. Não saber aceitar isto é não saber nada. É não merecer ser Açores, seja no Royal, no Atanásio ou no Internacional…

in Açoriano Oriental

 

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Café Royal LIII

Reinvenção
 
Foi esta a expressão escolhida por Marcelo para marcar a sua mensagem de ano novo. Reinvenção do futuro, é o que o presidente vem pedir ao país, em particular ao atual governo, ungindo-se de um caracter messiânico, qual D. Sebastião soerguendo-se das chamas de um país calcinado. Olhando 2017 há, de facto, uma sensação profundamente amarga de um país bipolar. Por um lado, um Terreiro do Paço capaz das maiores façanhas políticas e financeiras. Por outro, todo um país deserto, envelhecido e carbonizado. A invectiva a uma regeneração que vá para além da mera reconstrução contabilística ou de engenharia civil parece, sem sombra de dúvida, um imperativo nacional. Mas onde S.Exa. o Presidente da República falha é na necessária contrição pública pelo que ficou para trás e nas suas próprias responsabilidades, seja como político, seja como pitonisa televisiva. O sistema politico partidário português, saído de Abril, degenerou numa rede sub-reptícia de aproveitamentos privados, abstraindo-se, totalmente, daquilo que o país é e precisa. Talvez a maior reinvenção que seja preciso fazer hoje, em Portugal, é de políticos e de políticas, regenerando-se algo tão simples como o interesse público. Mas, para isso, não chega tirar selfies e cultivar os afectos…
 

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Café Royal LII

No escuro…

É sabido que existe um clima de elevada acrimónia entre políticos e jornalistas, entre os media e governos. E a coisa piora quando o governo é de esquerda e a comunicação social de direita. Mas, muitas das vezes, nem tudo é como é noticiado, nem tudo o que realmente é decido pelos políticos e governantes é como parece. Mas, também, não deixa de ser verdade que são os próprios políticos e governantes que se põem a jeito, levando-nos a todos à beira da suspeição, para não dizer do desespero. O mais recente episódio foi o da lei de financiamento dos partidos, alterada em reuniões à porta fechada, sem atas nem registos. De uma assentada os partidos com acento parlamentar na Assembleia da República, com exceção de PAN e CDS, aprovaram mais um rol de medidas para tornar ainda mais escandalosa a sua vida financeira. Ele é isenções, financiamentos sem limite nem fiscalização e todo um outro conjunto de benesses e prebendas, enquanto que ao cidadão comum a Autoridade Tributária penhora sem dó nem piedade por dívidas de meio tostão. E tudo isto é aprovado em vésperas de consoada, na esperança pútrida de que entre o peru e o bacalhau o eleitor não dê por nada. Talvez os políticos queiram mudar o velho ditado para: “é Natal, ninguém leva a mal…”

in Açoriano Oriental

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Café Royal LI

No Natal

Não se deixem subordinar pelas compras, as prendas, os laços e os embrulhos. Ofereçam sentimentos. Ofereçam-se, em gestos, emoções e comprometimento. Comprem ingredientes, ingredientes que se possam imbuir de amor e partilha e felicidade. Fujam do bacalhau e do peru, escolham borrego, perna de borrego, como se fosse Páscoa (só para chatear o Natal). Rosmaninho, alho e limão e tempo no forno lento com sal e pimenta a gosto. Fujam das batatas que são chatas. Celebrem o arroz, basmati, com pistachios ou pinhões, ou só aromatizado com manjericão ou coentros ou cominhos. Escolham cervejas! Deixem descansar os vinhos, os vinhos estão sempre em todas as mesas em todas as festas. Bebam cervejas, espumantes e champanhes (soltem gazes, mesmo que às escondidas). Inventem licores com álcool e sabores. Façam com que todas as sobremesas sejam gelados, como se fosse verão e o calor estivesse dentro de nós. Convidem os amigos, a verdadeira família são os amigos, dentro ou fora da família… Não sejam cínicos nem hipócritas. Ofereçam meias aos irmãos e livros aos primos afastados. Encham um frasco com uvas e aguardente e comam as uvas na passagem de ano, em vez das passas que são monótonas. Ou então, esqueçam o Natal e existam, realmente…

in Açoriano Oriental

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Café Royal L

A Ética

Não é fácil determinar quando a imoralidade tomou posse da coisa pública. Mas é de cristalino entendimento que foi o dinheiro, na sua escabrosidade, que se apossou e alimenta essa fogueira onde se incendeiam as virtudes. Vivemos na era do consumo, em que o capital é a medida de toda a felicidade. Tão longe estamos de Aristóteles, que apontou a Felicidade como a finalidade suprema da existência e possível de obter apenas pelo caminho da ética. Hoje, a felicidade vem em maços de notas, cartões gold, gadgets, smartphones, automóveis, viagens em executiva, gambas de lojas de luxo e inúmeros outros tipos de quinquilharias topo de gama. É a ética ou, mais correctamente, a falta dela, que explica casos como o da Raríssimas. E é também a falta de ética que explica a miríade de outros casos e comportamentos semelhantes que pululam por todo o tipo de associações ou similares por esse país fora. Mas a culpa não é só individual. Não está nas decisões e atitudes, mais ou menos autoritárias e ignorantes, deste ou daquele(a) presidente. A culpa está no Estado, está nos sucessivos políticos e governantes que criaram, promoveram e se enredaram neste tipo de organizações, permitindo-se, por acção ou omissão e na obscuridade da sua administração, sorver milhões de euros de dinheiros públicos para vícios privados. Basta!
 

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Café Royal XLIX

Liberdade

Sou livre? Mais de quarenta anos depois do 25 de Abril, façamos, a cada um de nós, essa pergunta. Seremos realmente livres? Criamos uma sociedade subjugada ao peso de inúmeras responsabilidades, de infinitas hierarquias, poderes discricionários e dependências. Estamos viciados na inexorabilidade do tempo, de datas fixadas em calendários comerciais e deixamos tudo correr, de dia em dia, de factura em factura, de Natal em Natal. Cabisbaixos, na letargia dos compromissos, vamos executando ordens, submissos à ditadura dos automatismos do sistema. Ditadura das prestações e dos saldos bancários. Ditadura dos filhos e da escola. Do trabalho, dos chefes e patrões. Da desconfiança e da inveja. Da Autoridade Tributária. Dos chicos-espertos, dos aldrabões, dos corruptos, dos desavergonhados e dos que sucumbem ao medo. 40 anos depois de Abril vivemos numa democracia amordaçada pelo dinheiro e pelos que o manipulam. A liberdade é uma inquietude permanente, um esforço diário, uma luta com o mais íntimo de nós e com o que nos rodeia. Um fio de prumo na balança entre o bem e o mal, na dicotomia das nossas escolhas. Reconquistemos a Liberdade, é tempo de resgatar a liberdade! A nossa e a dos outros, para nós e para os outros, antes que seja tarde de mais…
 

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Café Royal XLVIII

$$$ e ???

Nas últimas semanas a agenda noticiosa viu-se tomada pelas discussões do Orçamento. O assunto, já estéril de si, tornou-se ainda mais esdrúxulo com a sua redução ao ping-pong dos cifrões e, pior, à ausência de questões. No atual discurso político e jornalístico, os debates sobre planos e orçamentos tornaram-se numa batalha de milhões para cá, milhões para lá, sem explicação ou contraditório. Investimento, receita, défice e outros tantos jargões de economicês são, hoje, a litania dos tarefeiros da politiquice e dos precários do jornalismo. Os governos anunciam não sei quantos milhões para isto e aquilo, sem indicar como, nem onde, nem, mais importante, porquê e para quem, e os jornalistas, que deviam, obrigatoriamente, fazer a destrinça, engolem e não questionam. É como se as nossas vidas, as pessoas e toda a sociedade, se pudessem reduzir a folhas de Excel, convenientemente formatadas e incontestáveis. São aos pontapés os exemplos de cifrões atirados ao ar pelos gabinetes de comunicação, que depois tem explicação zero… Ou, então, o exemplo do Vice-presidente que anuncia a pretensão de limitar a 12 anos o tempo máximo de desempenho de cargos de chefia na Administração pública e ninguém pergunta como, nem porquê ou, já agora, porque não o mesmo limite para o desempenho do cargo de vice-presidente?