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quarta-feira, 2 de abril de 2025

Speakers' Corner 26

Réquiem por um Ilhéu

Se tivéssemos de elaborar uma checklist de meia dúzia de postais turísticos dos Açores, certamente o Ilhéu de Vila Franca seria um deles. Preso, como uma lua, à gravidade da ilha, o Ilhéu da Vila completa a paisagem e o horizonte da costa sul de São Miguel, encantando-nos com a sua majestade vulcânica.

E se, para quem nos visita, o Ilhéu é fonte de atração e curiosidade, para quem aqui vive ou cresceu, o Ilhéu é memória e parte intrínseca de uma identidade. Os banhos, as viagens no Cruzeiro do Ilhéu, o velho mestre Mané Cafua, os dias inteiros passados em bronzeada placidez, encontrando a melhor curva da rocha para nos deitarmos, os saltos das pedras para os mais afoitos, os caminhos, os picnics, as melancias, explorar as golas, passar debaixo do pontão na maré vazia, a viagem em torno do Ilhéu no último barco do dia na luz cálida do entardecer. O Ilhéu é, para locais e visitantes, uma parte fundamental da experiência micaelense, tal como o pôr-do-sol dos Mosteiros ou as águas quentes das Furnas.

Um verão sem Ilhéu é como a Terceira sem Angra, o Faial sem o Pico, São Jorge sem Fajãs, ou as Flores sem o Poço da Ribeira do Ferreiro, como tão mediaticamente se discutiu nos últimos tempos. É por isso que a notícia da interdição de banhos no Ilhéu na próxima época balnear merecia um verdadeiro sobressalto cívico da população micaelense e açoriana, tanto pelo que o Ilhéu representa para a vivência da ilha, como pelo que significa para a imagem do arquipélago, tão hipocritamente enlaçado no embrulho falso da sustentabilidadezinha, mas, acima de tudo, pelo que demonstra de incúria, inépcia e irresponsabilidade das políticas públicas e dos seus executores.

O problema está identificado, a Lei é do conhecimento de todos, tiveram anos para estudar e atacar a situação, juntos, autarquia e governo, porém, deixaram-no chegar a este ponto, privando-nos de um património público, jogando agora ao passa culpas costumeiro da responsabilidade do outro e da interpretação legal, num cinismo sem-vergonha e que envergonha. Desde 2016 que o Ilhéu recebeu as primeiras notas negativas sobre a qualidade da água, de novo em 2018, com classificação de Aceitável, o penúltimo numa escala de 4 níveis entre o Mau e o Excelente, e sucessivamente desde 2020, incluído 24, a classificação do Ilhéu foi, sempre, Má. Com a singular nota de ridículo, por parte dos responsáveis, de culpar as gaivotas pelo acumular de níveis perigosos de E. Coli. no interior das águas da piscina natural do Ilhéu.

É sabido que as obras invisíveis são aquelas que os políticos mais detestam, então se feitas debaixo do chão são ainda mais odiosas. Não há nada como uma boa rotunda, um pavilhão multiusos que ninguém use, ou um bom metro cúbico de betão na orla marítima para fazer a alegria de um autarca ou de um governante. O bom e útil saneamento básico é coisa para ingénuos. Não dá votos, dizem eles, quando agora, perante os impactos negativos, a crítica legítima e o poder a fugir-lhes pelas palmas das mãos, se contorcem em desculpas esfarrapadas e cambalhotas legais. Tiveram anos para construir uma ETAR e, pelo menos 5 anos, para resolver o problema do emissário submarino, impedindo este desfecho. Construíram restaurantes, fizeram festivais e betonaram praias pitorescas com obras monumentais. Por seu lado, o governo, entretido a comprar certificados e selos ambientais, fez comissões que assistiram, impávidas e serenas, sem fiscalizar, multar, ou até apoiar financeiramente a solução do problema. Citando Joni Mitchell, pavimentaram o paraíso para construir um parque de estacionamento. Aqui foi pior, transformaram o paraíso numa fossa a céu aberto. Agora todos sacodem a água do capote, quando na verdade estavam a ver se o mar levava o que não souberam, ou não quiseram, resolver. Mas, numa terra onde tudo vai parar à ribeira e da ribeira para o mar, o mar, na sua sabedoria, tudo devolve, para os desmascarar.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Speakers' Corner 11

Glifosato mental

Na semana passada foi amplamente noticiado o diploma do CHEGA! repondo a autorização do uso do glifosato na região. Banido, ou de uso limitado, em países como França, Bélgica, Holanda e Alemanha, e com milhares de processos em tribunal nos EUA por alegadamente “poder” causar cancro, o herbicida da Monsanto, que estava proibido nos Açores desde 2020, por proposta do BE com voto favorável da então maioria PS, volta agora a ver autorizada a sua utilização, “em circunstâncias especiais” (o que quer que isso seja), por proposta do partido de André Ventura, com os votos favoráveis da coligação CDS/PPM/PPD e do deputado da IL.

Desenvolvido nos anos 70 e comercializado com o nome RoundUp, o glifosato, cujo principal composto químico é o fosfonometil, foi usado como herbicida de largo espectro para queimar as ervas daninhas em culturas intensivas de grande dimensão como o milho, o algodão e a soja. A ação do glifosato dá-se através das folhas de plantas em crescimento, secando-as e impedindo o seu desenvolvimento, não prevenindo ou controlando o seu aparecimento, o que obriga a uma utilização regular e intensiva do produto. A utilização em larga escala de glifosato levou mesmo a Monsanto a desenvolver sementes geneticamente modificadas de culturas como soja e milho capazes de resistir ao glifosato, naquilo a que chamava de RoundUp Ready, numa clara e lucrativa estratégia de capitalismo circular, desenvolvendo em simultâneo a doença e a cura no mesmo recibo e fatura. A acessibilidade do herbicida levou depois a que o glifosato se disseminasse em usos domésticos, em pequenos jardins, e de forma exponencial em espaços públicos, por autarquias e governos, no “controlo” de ervas daninhas e outras invasoras, um pouco por todo o mundo.

A partir de final dos anos 90, a Monsanto tornou-se alvo de milhares de ações judiciais, tanto por publicidade enganosa, o produto era comercializado como sendo seguro e biodegradável, como por responsabilidade civil, em alegações  de que o RoundUp era na verdade cancerígeno. Inclusive, em 2015, um relatório da Organização Mundial de Saúde referia, embora envergonhadamente, que o glifosato era “provavelmente cancerígeno em humanos”. Em Agosto de 2018, menos de um mês após ser adquirida pela Bayer, um dos mais mediáticos casos contra a Monsanto, envolvendo o RoundUp, teve a sua sentença revelada num tribunal de São Francisco, tendo um júri condenado a empresa a pagar uma indemnização de 289 Milhões de dólares a Dwayne Johnson, um jardineiro de uma escola pública da cidade, acometido com um terminal linfoma. Um dos advogados nesse célebre e mediático caso foi nem mais nem menos do que Robert Kennedy Jr., tido então como um herói das causas ambientais e hoje visto por alguns media e parte da esquerda sanitária como um perigosíssimo “chalupa”.

O que sabemos hoje é que o glifosato é um produto arcaico e ultrapassado, e apesar da Monsanto e da Bayer, com os seus poderosos lobbys, continuarem a negar as alegações, o uso sistémico do glifosato, até pela sua ineficácia na prevenção, nomeadamente em espaços públicos, contem riscos consideráveis e suficientes para que seja previdente a sua não utilização, ademais em zonas públicas. Os Açores têm problemas sérios com espécies infestantes e, pela sua dimensão e particularidade insular, precisam de abordagens corajosas e determinadas para a proteção e gestão da sua paisagem e dos seus espaços públicos. A reintrodução do glifosato, num destino que não se cansa de dizer sustentável, é apenas preguiça (ou será lobby?) e revela uma espécie de arcaísmo mental e facilitismo, de quem é incapaz de compreender como o mundo hoje requer soluções inteligentes e consensualizadas, mesmo quando sejam mais difíceis ou dispendiosas. Aprovar ou revogar leis é mais ou menos fácil. Há por ai até uma petição a correr que se pode assinar. Mais difícil é revogar os glifosatos mentais de alguns dos ocupantes do nosso parlamento.