quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Café Royal XLII

O Bem Público

Valor supremo num Estado democrático é o bem público. Valor sagrado para a República em que o bem de todos os cidadãos, iguais aos olhos do Estado, é principio e fim da razão de toda a governação. Os que são eleitos são-no com essa responsabilidade, de agir para e zelar pelo bem público. Mandaria, também, a ética que esse fosse, quase como um sacerdócio, o desígnio último de quem ocupe cargos públicos. Infelizmente, essa vocação parece hoje cada vez mais alheada dos nossos políticos. A acusação a José Socrates, escândalo de proporções dantescas de promiscuidade entre o interesse público e privado é, independentemente da culpabilidade dos envolvidos, um caso que mina profundamente a solidez do regime precisamente naquela que deveria ser a base fundamental do mesmo: a confiança depositada pelos cidadãos nos seus eleitos e a responsabilidade destes em cuidar pelo bem de todos. Também, nessa tragédia de proporções bíblicas a que assistimos, outra vez, nos últimos dias, do país em chamas, é a fé das pessoas na governação que se vê, talvez irremediavelmente, destroçada. Por cá, foi desmascarada uma rede de corrupção, naquilo que poderá ser o levantar do véu de uma vasta epidemia de corrosão dos interesses públicos. A obrigação dos nossos eleitos é resgatar de novo para a governação o primado do Bem Público, antes que seja tarde de mais…

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Café Royal XLI

As pessoas

Sobre a “questão” catalã, há dois aspetos que importa destacar. 1.º O papel das “esquerdas” – os ideais progressistas são, iminentemente, universalistas, (veja-se a Internacional Socialista). Balcanizar estes ideais em problemáticas geográficas ou, mais grave ainda, nacionalistas, é uma contradição e provoca uma erosão da sua condição humanista, condenando-os a mero contraponto regional dos imperialismos capitalistas que deviam combater. 2º A União Europeia – ao se agarrar, de forma cega e surda, a uma ideia de estados-nação, inamovíveis e imutáveis, aumenta o fosso que a separa dos cidadãos colocando, ainda mais em dúvida, aos olhos das pessoas, a sua utilidade. A discussão sobre a independência da Catalunha, ao tornar-se numa batalha entre progressistas e conservadores, representa uma sul-americanização do debate político europeu, em que duas ideologias diferentes, sob a bandeira da autodeterminação, lutam não já por um ideário político concreto, mas apenas por um quinhão geográfico de poder. Porém, é aqui, na síntese destes dois dilemas e pela definição de uma nova Europa de cidadãos e de regiões, que poderá nascer uma união com instituições verdadeiramente próximas das pessoas. Isto sim seria um ideal progressista, mas a mera independência não…

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Café Royal XL

Eu acuso!

“Num arquipélago oceânico com uma tradição balnear multissecular, a regulamentação das questões relacionadas com a utilização balnear das suas águas, em especial das águas costeiras, assume uma particular importância na defesa da segurança e saúde das pessoas e na criação de condições de promoção das atividades económicas ligadas ao turismo e ao mar.” Este é o primeiro paragrafo do DLR n.º 16/2011/A, que “estabelece o regime jurídico da gestão das zonas balneares, da qualidade das águas (…) e da prestação de assistência nos locais destinados a banhistas”. Ora, nos últimos dias, dois turistas estrangeiros morreram nas praias da Ribeira Grande. A responsabilidade por estas mortes é da Câmara e do Governo. E é-o porque são estas entidades que têm por obrigação definir as zonas e as épocas balneares, bem como a sua segurança. Mas, por razões meramente financeiras, optaram por um período ridículo, de Junho a Setembro, (algumas câmaras menos ainda!) reduzindo ao mínimo a despesa com segurança e limpeza. Estas opções são criminosas! A verdade é que os Açores não têm uma “tradição balnear multissecular”. Se tivessem, existiria já um corpo permanente de nadadores-salvadores, tutelado pela Proteção Civil, com a responsabilidade de assegurar, o ano todo, que não haja mortes, não pelo turismo, mas pelas pessoas…
in Açoriano Oriental

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Café Royal XXXIX

Qualificação

Subitamente, todos falam em qualificação. Comentando o anúncio do voo da Delta o líder dos empresários locais chamou à atenção para o imperativo de qualificar a oferta turística da região. O que surpreende não é o conteúdo, mas o momento. Os Açores, desde há muito, que deviam ter concentrado todos os esforços no desafio da qualidade! Devíamos, políticos e empresários em conjunto, ter feito apostas claras para a qualificação do Destino, mesmo antes da abertura do espaço aéreo! O que choca é que, saídos da crise e perante o crescimento dos números, a maioria dos empresários foi capaz, apenas, de subir preços, baixar os serviços, aumentar capacidade e salivar com as hordas de ryanairianos que pulularam pelas ilhas nestes três verões. Entretanto, os políticos foram-se gabando dos dois dígitos das estatísticas e deslembraram os seus próprios programas de governo… As últimas notícias obrigam a perceber que o Turismo na região só terá futuro com uma aposta clara na sua qualificação como Destino. Isto é: melhorar hotéis, restaurantes, alojamentos, serviços, mão de obra qualificada, oferta de lazer, cultura, museus e, até, mais nadadores salvadores… enfim… é preciso pensar em quase tudo. Mas, para os empresários basta ter aviões cheios e para os políticos tudo se resolve com uns míseros polícias sinaleiros nas cumeeiras dos vulcões…

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Café Royal XXXVIII

Metáforas

Finalmente vai acabar a campanha autárquica. Apesar de, formalmente, essa campanha só ter tido início há poucos dias, desde Março que os diferentes circos partidários se fazem ouvir pelas ruas, fóruns, salões de baile, arruadas, beijinhos, porta-a-porta, cartazes, caixas de correio e outro tanto rol de itens com que tentam inebriar a amálgama indistinta de cidadãos a que eufemisticamente gostam de chamar “o povo”. É normal, já estamos habituados, mas cansa. Triste, no entanto, é que do que realmente importa pouco se fala. Desenvolvimento sustentado? Políticas ambientais? Qualificação da oferta turística? Da gestão básica das coisas autárquicas: mobilidade, saneamento, resíduos? Sobre tudo isto, nada. As frases são sempre as mesmas. Um anúncio aqui, uma intenção ali. Mais betão acolá, um investimento acolí e assim se vai andando, sorridentemente. Esta campanha autárquica transformou-se mesmo numa verdadeira publicidade à pasta de dentes. Armadilhados de fotógrafos profissionais, os candidatos inundam as redes sociais de fotos suas, numa torrente de vaidade fútil sem precedente. Mas, nessa ânsia da pose e da foto estudada transparece a metáfora do nosso futuro. Um candidato faz-se fotografar com um avião de uma companhia low cost a sobrevoar-lhe a testa, omitindo que já amanhã esse mesmo voo será, provavelmente, cancelado…

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Café Royal XXXVII

Instituições

Não existem muitas instituições que representem, verdadeiramente, os Açores. Mais importante ainda, são poucas as instituições que se identificam, realmente, com o arquipélago e as suas gentes e que dão dimensão a estas nove ilhas dispersas no mar. Se tirarmos as religiosas, então, ainda menos. E, se pensarmos que vivemos um tempo em que as instituições políticas se desconsideram aos olhos do povo, e em que a Universidade se dilui em contas de mercearia, resta quase nada a que todos os açorianos, daqui e de lá, possam dizer, em conjunto, que é seu e de todos. Resta, talvez, a RTP-A e a SATA. Porém, hoje assistimos, com dor, ao progressivo e diário desmoronar das duas. No caso da SATA, que vive um drama que não é de agora, urge iniciar a sua salvação e não é só pela parte financeira ou comercial, mas sim laboral. A forma como foi gerido o quadro de pessoal da empresa, desde a admissão de familiares à promoção e despromoção de quadros, que depois se mantêm na empresa, passando por acordos feitos com fito eleitoral, criou um autêntico pandemónio na gestão, transformando cada funcionário da companhia num verdadeiro “saco de ressentimento”. Sem primeiro haver paz social na companhia nada poderá ser resolvido. E, não creio que ninguém com responsabilidade, política e de gestão, queira ficar na História como o coveiro da SATA e das famílias que dela dependem, sejam seus trabalhadores ou todos nós - açorianos.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Café Royal XXXVI

Balanço

Andam, por aí, as vindimas. Vão regressar as aulas. Não fosse o ditame do calendário e Setembro seria o início do novo ano. Altura de fecho e de recomeço e, também, de balanço. Olhando atrás, para os dias de estio, fica a enchente de turistas, a ilha esgotada. Os dislates autárquicos, dos candidatos embrenhados em promessas, construções, beijos em idosas e tanto outro tipo de disparates. As inenarráveis festas brancas (eu sei, eu fui a uma…). Consta que houve um eclipse e a ameaça, nunca tão assustadoramente real, de aniquilação total pelas mãos da loucura de Trump e Kim… Fica, também, a crise, parece que final, da SATA. Ao longo do Verão muito se falou da companhia, da administração, dos trabalhadores, dos sindicatos, do acionista. Em alegres patuscadas todos fomos especialistas em aviação, gestores, economistas, dirigentes e hospedeiros. Todos soubemos o que fazer com a companhia. Fechar, vender, despedir, remodelar, separar, correr tudo à bofetada… Foi como se dentro de cada um de nós houvesse, nem que por uns instantes de alegre cavaqueira, um José Gomes Ferreira da aviação. Como se Fernando Pinto tivesse baixado em cada um de nós entre dois copos de conversa… Do verão que passou fica, de facto, a necessidade imperiosa de se fazer um balanço sólido daquilo que a Região quer para o seu futuro, para o turismo e para a SATA. Mas isso fica para próximas crónicas…

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Café Royal XXXV

Agosto V

Fecha Agosto. Já há Beladonas pelas bermas das estradas. As lojas fazem montras com os materiais escolares e até guardanapos de papel com motivos natalícios espreitam nas prateleiras das grandes superfícies comerciais nessa agonia capitalista que quer forçar a marcha do calendário numa ganância de lucro constante. Os dias ficam mais curtos. As intermitências do clima mais constantes. A ilha esvazia-se lentamente dos visitantes. Os restaurantes voltam a ter lugares e sorrisos para os clientes habituais. Há vinho doce e uvas de cheiro em cestos de vime nas vendas. E figos de doce carnudo. Os ananases que veranearam na estufa ficam mais doces. As noites cheiram ao pólen das conteiras que invadem os montes. No jardim, as miúdas queimam as últimas fantasias, na saída do mar, passando-se na água doce da mangueira. Cresceram, na folia das férias amadurecem como as frutas ao sol. Em breve regressarão à escola, com roupas novas e sorrisos altivos e bronzeados. Elas não o sabem ainda, mas os verões são caixas de memórias, pequenos guarda-joias, onde protegemos a infância e a sua frágil felicidade. Chegando Setembro faremos o balanço das coisas. Em Outubro haverá eleições, dizem-nos os cartazes gigantes que embrutecem a paisagem e os murais do Facebook inundados de fotografias de candidatos sorridentes, invadindo as soleiras das portas. Mas por agora, fechemos Agosto, olhando mais um pôr-de-sol ao som do mar e ao paladar de mais um copo…

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Café Royal XXXIV

Agosto IV

O meu mar, o mar pelo qual me apaixonei ainda antes dos dez anos de idade, é o mar das ondas. O mar feito de agitação, energia e espuma. Há muitos anos atrás, quase que noutra vida, o nosso tempo era medido no período das ondulações e no ciclo das marés. Observar os ventos e as luas. Ler mapas meteorológicos como se fossem mapas de tesouro. Em busca da melhor ondulação, da melhor onda. Naquele tempo a costa norte da ilha era local proibido, onde morriam pessoas afogadas. Mas, para nós, era o prometido paraíso de praias desertas, baías impolutas e vagas. Intermináveis dias de ondas. De manhã, dizíamos que íamos para o Pópulo, a pé, e apanhávamos boleia às escondidas na estrada da Ribeira Grande antiga para chegar ao Monte Verde e aos Areais, o pico da ganza, Santa Iria e Rabo de Peixe, a direita da piscina. Nada disto existe mais. Nem mesmo nós. Tudo mudou, inclusive nós. Porém, a magia do tempo é também essa, na forma como nos transformamos com o seu passar. O mar de hoje, o mar de Agosto, é calma e serenidade. O mar refrescante e doce de pequenos balanços e de sol radioso. O mar dos fins de tarde longos de verão e das noites passadas em fato de banho. O mar das crianças, rindo e pulando nas mínimas espumas feitas vagalhões aos seus olhos pequeninos. Sentado no balcão, olhando o Garajau que mergulha no espelho das águas, o trânsito de barcos em torno do ilhéu, olho o mar e deixo-me abraçar pelo seu tempo que passa fluindo…

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Café Royal XXXIII

Agosto III

“Estás cá? E, quando é que te vais embora?”. O mais velho e caricato chavão de Agosto. Na euforia das férias, habitantes e veraneantes, cruzando-se nas praias, nos restaurantes, nas ruas, nas infindáveis festas, trocam olhares de alegria ou de enfado. Perdidos no tempo, questionamo-nos mutuamente sobre quando chegamos à ilha para logo de seguida perguntar, de chofre, quando partimos, numa impressionante ânsia de afastamento, como se a verdadeira essência do ilhéu fosse estar sozinho, apartado de tudo e o súbito enxame de pessoas novas fosse aflitivo e desagradável. Lembro-me como esta frase me incomodava quando era jovem e fazia parte dos que visitavam a ilha. Agora, que aqui vivo, vejo-me a repeti-la com a mesma ênfase, nessa surpresa inquietante de ver novas caras nos sítios do costume. Como se só no Inverno a ilha fosse verdadeiramente e em Agosto a ilha fosse o Centro Comercial Colombo… Mas, na verdade, Agosto é a ilha, com a plenitude do mar e as tardes calmas, os mariscos, os amigos, os passeios, as idas de casa em casa rememorando histórias e estreitando laços e amizades, novas ou velhas. Saindo da ilha em Agosto (mesmo que seja para celebrar a imensa alegria de ver a alegria nos outros…) compreendemos, olhando novamente o mar, que Agosto é o tempo do regresso e do recomeço e começar de novo é uma parte essencial da vida. Tal como partir, ou voltar…

 

Café Royal XXXII

Agosto II

Por entre as intermitências do tempo apenas o mar se faz constante. O barulho do mar. O barulho das ondas, que quebram em estrondo nas rochas e invadem a casa de som. De dia, no balcão, sob a sombra do alpendre, no sopro fresco do vento. De noite, entrando sorrateiras, por entre as frinchas das portadas, no escuro do quarto. As intermitências do clima e o barulho do mar, sempre presente. Olhando o Ilhéu pergunto-me se este será constante, ou antes uma permanência, como um ensejo rochoso de perenidade. Quando tudo entre mim e o horizonte é mutável, breve, frágil como a espuma das vagas encapeladas na superfície do mar. Pergunto-me da permanência da garça que pousa todas as tardes no calhau em frente do balcão, que eternidade procurará o bico da garça nas pedras, que imortalidade terá a sua pose elegante para lá da memória impressa no meu olhar… Ou então, serei eu a intermitência? E o tempo, o clima, permanentemente variável, será mais eterno do que o meu olhar sobre ele? Olhando o barco do ilhéu vejo sempre as mesmas pessoas, mesmo sabendo que só barco e mestre são os mesmos. Passam os dias na intermitência de Agosto, entre o calor, a humidade, o sol e a neblina, passam perante a solidez dos muros e das madeiras da casa e a cândida fragilidade do meu olhar e disto tudo sobreviverá apenas o mar, talvez a garça, o ilhéu, o céu e, quem sabe, o horizonte…

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Café Royal XXXI

Agosto

É quente, melado, quase colante. É vagaroso. Líquido, como as águas. Agosto é o mar, de águas tépidas e banhos. Lentos banhos de mar em águas translucidas, marinhas. Os corpos flutuando na linha da maré, a pele salgada de um dia para o outro quando dormimos com as ondas no corpo, o balanço sincopado das ondas embalando os sonhos nas noites cálidas de Agosto. Os dias tépidos, transpirantes, de luz difusa e o sol incandescente brilhando na areia das praias, brilhando nas gotas de água gotejando da pele bronzeada. Os infinitos por-de-sol em horizontes espalhados de cor, cores ardentes de fogo celeste e da atmosfera da terra e do omnipotente sol de Verão. Agosto de vagar, de amigos, de copos, cervejas e mariscos. Garrafas geladas de vinhos brancos do Pico. Peixes frescos grelhados. A beleza do mar nos nossos paladares saciados, deleitados. Agosto de redes baloiçando no balanço da brisa abrigada na sombra do metrosidero e do som das ondas quebrando ritmadamente nas rochas esquecidas. Agosto de regressos e reencontros, de voltas e passeios. Retornos à primeira felicidade da infância, a memória iluminada das férias grandes em que trepávamos árvores gigantes e nos vestíamos em fatos de areia negra quente. Ah! Agosto. Esse querido mês de Agosto. Esse gosto de gostar de Agosto…

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Café Royal XXX

1

Bastava 1. Bastava uma morte. Não eram precisas 64, ou 65, ou qualquer outro número que lhe queiram dar. Bastava 1. Mas, no entanto, desprovidos da mais elementar decência, políticos e jornalistas entretêm-se numa obscena contabilidade da morte. Num sinistro espetáculo que é revelador, acima de tudo, da falência de todo um país. Pedrogão Grande é o marco, esperemos que definitivo, da morte de Portugal inteiro. Em 80 anos, 40 de ditadura e 40 de liberdade, Portugal falhou. O interior é deserto, envelhecido, acabrunhado. O litoral é desordenado, desequilibrado, desvairado… Este é o verdadeiro retrato do país que as chamas devastadoras de Pedrogão revelaram. Porém, na face da tragédia, o que fazemos enquanto comunidade é discutir o número de lápides quando deveríamos debater e agir em nome do futuro. Urge uma política de ordenamento do território, mas os nossos políticos estão entretidos a fazer ultimatos vácuos, passar de culpas e outras tantas declarações que seriam vãs, não fossem tenebrosas as causas que nos colocaram aqui. Urge equilibrar o país, no uso da terra, na criação de riqueza, na invenção de uma comunidade que seja tão solidária como produtiva. No entanto, o que fazemos é divagar tetricamente sobre as sombras dos mortos buscando tirar ganhos políticos e eleitorais da dor profunda que as labaredas criaram. Bastava um, bastava uma morte, porque esse um somos nós todos, essa morte é a nossa morte…

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Café Royal XXIX

Classismo

Quando se pensava que a estação tonta não iria chegar este ano, queimada pelas desgraças que assolaram o país, eis que ela chega pela boca de um tal de Sr. Ventura, de Loures e da CMTV… O Sr. Ventura, para alimentar a sua candidatura autárquica, decidiu lançar umas atoardas sobre os ciganos e pegou fogo sobre si próprio. Do que se tem dito sobre esta pueril polémica há uma coisa de que discordo. O Sr. Ventura não é racista, não é esse o preconceito que o mina. É o de classe. O que incomoda o Sr. Ventura não é a cor da pele ou do cabelo, o idioma, ou o salero. É a ideia da pobreza. O Sr. Ventura não gosta de pobres e para ele os ciganos representam essa classe baixa que lhe incomoda e que ele acredita ter que ser posta na ordem. Em boa verdade o povo português não é, nem nunca foi, racista. A maior dádiva de Portugal ao mundo não foi a pimenta, nem o planisfério. A maior criação da portugalidade foi a mulata. Algo que só um povo intrinsecamente não-racista poderia criar. Mas se há coisa que os portugueses têm de sobra, infelizmente, é o preconceito de classe. Só que o que os portugueses muitas vezes confundem é que os sinais exteriores de riqueza podem ser enganadores. Não é com piscinas e BM’s que se avalia a fortuna. Qualquer povo perseguido sabe que as piscinas não são facilmente transportáveis de um país para o outro. A cultura, como o ouro, são o bem mais precioso de um povo e isso os ciganos têm para dar e vender… quer uma, quer outra…

Café Royal XXVIII

Decoro

Fiquemo-nos pelos 40 anos da nossa púbere democracia. Poderíamos ir mais atrás, talvez tão atrás como o começo da nação e a um país nascido da guerra entre um filho e uma mãe. Mas não, fiquemo-nos pela história da democracia nacional – esse libreto de ópera-bufa. Ao longo destes anos já tivemos anedotas de mau gosto, dedos em corninhos no cenáculo parlamentar, falsificação de licenciatura, suspeitas de corrupção, promessas de bengalada no Chiado no Facebook, tudo razões para ministros se demitirem, ou serem demitidos, e estes são só os que eu em lembro. O que espanta nisto não é tanto as razões pelas quais estas figuras do estado caíram, mas sim todos os outros que, por razões mais graves, se aguentaram nas cadeiras! Olhando as últimas notícias não podemos deixar de nos espantar com a falta de decoro que grassa em muitas das nossas figuras de estado. Secretários de estado apresentam demissão na véspera de se saber que são constituídos arguidos, quando o decoro exige que o tivessem feito mal foi tornado público a suspeita. Dois ministros alapam-se aos lugares quando o decoro exige que tomassem elações políticas das gravíssimas ocorrências havidas durante os seus mandatos. Um secretário-regional suspende funções meses depois de se assumir como candidato à maior autarquia da região, quando o decoro exige que o fizesse no exacto minuto desse anúncio. Mas, no país tudo vai bem. Tudo menos o decoro…

in Açoriano Oriental

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Café Royal XXVII

A não-crónica

Imitando rituais antigos, o Café veio a banhos para Vila Franca do Campo, passar a época estival. Sentado à varanda, seguindo o barulho do mar, observando o ilhéu imponente e, para lá, o horizonte, o cronista pondera, melancómico (abraço Nuno…), os temas da atualidade, os assuntos da semana, a espuma dos dias e suspira. Podia escrever sobre o roubo de armas em Tancos fazendo lembrar um filme ou, afinal, a triste realidade de um país a saque. Podia escrever sobre o grito de alma de Juncker dando nome à afronta de um Parlamento Europeu que não se dá ao respeito. Podia escrever sobre as férias do Primeiro-ministro, as dores da geringonça, a tragédia da oposição ou a falta dela. Podia, talvez, escrever sobre a euforia do Turismo, que acometeu a ilha como uma epidemia que ninguém sabe muito bem como tratar. Podia escrever sobre a Ibizificação de Ponta Delgada, onde barcos-discoteca poluem as marinas e magnos planos camarários nos misturam com tudo ofuscando a nossa identidade. Podia escrever sobre a agonia da SATA, que cambaleia se os aviões pudessem cambalear. Podia, enfim, escrever sobre o Verão, os cálidos banhos de mar, a dança das ondas e o bailado dos Garajaus-rosados sobre o penedo. Mas, pensando bem, talvez o melhor seja não escrever sobre nada e apenas, bebericando uma transpirante cerveja, viver o calor, o sol, o anseio das águas e a tranquilidade do amor…

in Açoriano Oriental

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Café Royal XXVI

O Limite.

Na política não há verdade. Bismarck, com ironia, colocou a questão de forma brilhante ao afirmar que nunca se deve acreditar em nada na política até ter sido oficialmente desmentido. Hoje em dia, até à pós-verdade nos fomos, indulgentemente, habituando. Com o passar do tempo, também, a narrativa política e partidária transformou-se num monstro autofágico, alimentando-se de si própria numa torrente infindável de mentira. Nada tem valor perante essa roldana trituradora, nem mesmo as pessoas, que são descartadas, para lá do seu bom nome, nas suas próprias vidas. E já nem a decência é limite para a voracidade dos políticos e dos seus (maus) conselheiros. Um político inventa suicídios para tirar ganho político e nós olhamos para o lado com descrença e asco. Quando nos munimos da tragédia e quando, inacreditavelmente, inventamos a tragédia para tirar ganhos no debate político descemos a um novo e dantesco patamar do inferno. Sem verdade e sem ética as nossas sociedades tornaram-se num fétido lamaçal, onde já nem a vida tem valor. Como comunidade, temos a obrigação de traçar aqui, nesta simbólica tragédia de Pedrogão Grande, o limite. O limite do que é aceitável no discurso político, não permitindo que o horror da morte seja utilizado como joguete. E, mais importante, o limite do que é tolerável na acção política e partidária que no seu jogo sujo e desavergonhado colocou o país neste estado. Basta!

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Café Royal XXV

Armad(ilha)dos…

No calor da tragédia disseram-nos que “tudo tinha sido feito”. Mas, esse “tudo” foi exatamente o que potenciou mais esta calamidade e todas as que se repetem, ano após ano. Em 40 anos, Portugal foi um país incapaz de se desenvolver de forma estruturalmente equilibrada. Emigração, deslocalização, desertificação, envelhecimento, abandono, avareza, corrupção… Estes são apenas alguns dos mecanismos da bomba-relógio em que se transformou o país. E a culpa é de todos nós! Cidadãos, porque nos alheamos progressivamente da responsabilidade que temos para com a terra e a comunidade. E políticos, porque, conscientemente, abdicam do futuro em prol da próxima eleição… Lá é o fogo, nas ilhas é a água. Chuva e mar, são os agentes recorrentes das tragédias que fustigam a região. E a atividade sísmica e vulcânica, mas que, elas próprias, podem, hoje em dia, com alguma segurança, ser monitorizadas. Porém, também nos Açores se fechou criminosamente os olhos aos riscos sinalizados e calculáveis. Esbanjámos dinheiro em obras faraónicas e festas fúteis, em vez de o usar em políticas corajosas de ordenamento do território, colocando, com isso, as nossas comunidades à mercê duma verdadeira armadilha, em contagem decrescente até à próxima tragédia. Nesse dia, algum político dirá que “tudo foi feito”, sabendo ele que, numa gaveta qualquer, jaz, escondido, um relatório técnico que avisava para o perigo…

in Açoriano Oriental

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Café Royal XXIV

Roaming

Uma conquista civilizacional da globalização é a mobilidade. A possibilidade, a custos cada vez mais reduzidos, dos cidadãos se deslocarem entre países e conhecerem o mundo. Nos últimos 150 anos viajar transformou-se de um privilégio quase aristocrático numa opção individual. O ganho civilizacional que advém do contacto com outras culturas, outras línguas, outras sociedades é incomensurável, mas têm uma tradução imediata – a capacidade de nos entendermos, como seres humanos, independentemente da cor da pele, da religião ou da raça. Eu serei Pedro quer aperte a mão a um Pierre ou a um Peter e vice-versa… Esta abolição de fronteiras, de barreiras, foi e é um dos pilares fundamentais da construção europeia e é, também, nas questões práticas que se alicerça o seu simbolismo. Fez esta semana 30 anos que foi instituído o programa Erasmus, um dos mais importantes instrumentos de intercambio estudantil do mundo e uma das pedras fundamentais da solidez do projeto europeu. É nestes gestos, como por exemplo, na abolição das taxas de roaming, que se sustenta a ideia de uma Europa unida e interdependente feita não de estatísticas, mas de pessoas. Existem ainda restrições, na maioria financeiras, a esta democratização, mas todos os passos que dermos em defesa das liberdades individuais, para lá da fronteira das nações, será mais um passo na afirmação de uma globalização de pessoas e de um mundo melhor.

in Açoriano Oriental

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Café Royal XXIII

Das coisas

Na volta do tempo regressa o Verão. Regressam os dias cálidos, banhados de sol e mar e do riso das crianças. Volta o Verão e a vontade de sal e de mergulhos infantis na fluidez das águas. No último fim-de-semana regressámos ao mar, demos mergulhos, as crianças correram pela areia e esbracejaram em translúcidas piscinas, com a intuição própria da infância. Na ilha, onde não há primavera, onde o inverno se desfaz subitamente na incidência do calor, é o corpo que acode à mudança. É a pele que acolhe em cor a força da luz. Longe vai o tempo em que o mar, a cadência das ondas, era para mim uma constante permanente. Sem o calendário das estações, sem a voracidade das obrigações do dia-a-dia, das pequenas coisas estupidamente transformadas em grandes, esquecidos, pela força imposta do quotidiano da vida, que é nos momentos puros que chegamos à razão de Ser, à razão do Ser. Fui levado, ou deixei-me ir, nessa enxurrada cega das preocupações diárias, das contas para pagar, dos horários fixos, das obrigações fúteis? Em que momento perdi de vista o prazer das coisas límpidas e verdadeiramente importantes? Não procuro morrer para voltar ao mar como disse Sophia. Regresso ao mar, pela mão do amor e das crianças, para resgatar antes a vida dessa quase morte das pequenas coisas quotidianas.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Café Royal XXII

O lago

Surpreendentemente, foi Angela Merkel quem fez o mais límpido resumo do autêntico circo voador que foi a tour internacional de Trump. A Europa está por sua conta - anunciou, desalentada, a chanceler. Frase pesarosa, com tanto de augúrio como de sentença: por um lado a constatação da inadiável necessidade de a Europa aprofundar a sua união é um auspício importante, mas fazê-lo por oposição ao seu mais pródigo filho é uma triste condenação. Só por ignorância se pode querer ostracizar a América daquilo que são os mais profundos interesses europeus. Também, só por cinismo se pode querer confundir a América com o Sr. Trump, por mais que discordemos dele. Cabe à Europa fazer ver à América o papel fulcral que esta desempenha nos vários equilíbrios globais, naturais ou políticos. Não o fazer é condenar a própria Europa ao vácuo internacional. Nunca esqueçamos, enquanto europeus, que as nossas liberdades são fruto da independência americana e façamos também por lembrar aos americanos que a sua posição no mundo é filha da sua atlântica união connosco. E, para nós, portugueses insulares, navegando neste meio do atlântico, esta é uma questão de vital importância. Uma Europa que desista da sua parceria atlântica com os E.U.A. coloca os Açores à mercê da nação, mais ou menos oriental, que tome para si os destinos da Terra.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Café Royal XXI

Coisas menores

Folheando os periódicos locais, no rotineiro café matinal na Tabacaria, reparo com desgosto na tendência actual dos opinadores, digamos parlamentarmente no activo, para escreverem sobre si próprios. É como se as suas colunas nos jornais se tivessem transformado em cenas dos próximos capítulos dos apartes parlamentares. Recentemente, esta propensão assumiu novos limiares no submundo da internet. Numa série de posts e comentários vários protagonistas efabularam sobre si próprios, o seu estatuto, a sua verdade, o ângulo e a visão, mais ou menos destorcida, da sua própria narrativa política. É como se todo o espaço político se reduzisse à mera existência dos seus protagonistas. O que dizem, o que fazem, como se relacionam e se destratam uns aos outros. Como se o relevante fossem os políticos em vez das políticas. São os próprios actores do teatro político que se menorizam a este papel e quando pretendem parecer que pensam o futuro da região fazem-no em fúteis comissões eventuais sobre a reforma da autonomia. O papel dos políticos é escutar e ajudar os outros e não fecharem-se sobre si mesmos. Razão tem Álvaro Monjardino quando alerta que o importante não é mexer nas instituições, mas sim um modelo de desenvolvimento económico sustentável para a autonomia. E isso, creio eu, não se encontra no Facebook…

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Café Royal XX

Da vã euforia

Já não falta cumprir-se Portugal! O 13 de Maio foi de glória, santificado por Sua Santidade O Papa e tudo. Fátima, Benfica, Eurovisão, pela 1ª vez na história todos os lares portugueses rejubilaram, os homens com o Glorioso, as senhoras com o Salvador. Mas a chama do país não esmoreceu Domingo. Segunda-feira acordamos com a boa nova dos 2,8%. A economia acelera, dizem-nos os inquéritos das estatísticas. Aleluia! Habemus crescimento! O otimismo transbordou do eixo São Bento/Belém e inundou as folhas de Excel. Só que, no mesmo dia, a mesma estatística revelou, impiedosamente, que um quarto dos portugueses vive, ou está prestes a viver, no limiar da pobreza. Incongruência? Não. O facto é que o esforço produtivo do país continua afundado no pântano burocrático e fiscal e não cria riqueza. Não há uma base produtiva sólida, tudo é etéreo e vago e prestes a desmoronar ao mínimo abalo. É que não se trata da reposição, justa, de rendimentos, nem do crescimento da produção interna alicerçada num tecido económico sólido e em bens transacionáveis de valor acrescentado, o incremento agora anunciado é obra do investimento externo e, abjetamente, dos baixos salários. A económica portuguesa é, ainda, inimiga do seu próprio fortalecimento e é vã toda esta euforia quando vivemos num país em que empreendedor rima com dor.

in Açoriano Oriental

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Café Royal XIX

O Fantasma

No Porto, após 4 anos de idílica comunhão de bens, Rui Moreira e o PS acordaram um divórcio amigável. Depois de, pela voz da sua secretária-geral-adjunta, o PS ter vindo a público dizer que quem usava as calças lá em casa era o seu partido, Rui Moreira, bem, não se ficou e pontapeou os socialistas para fora da cama. Até aqui nada de anormal, é política, mas, Rui Moreira não ficou por aqui. O autarca puxou da culatra da ameaça centralista para justificar a separação, acusando o PS de estar a “condicionar a partir de Lisboa”. Ora, é exactamente aqui que a coisa se torna séria. Quando dá jeito, reclama-se da capital o investimento e a intervenção, mas, quando não, agita-se com pujança o estandarte do regionalismo e a “questão centralista”. A verdade é que esta só existe porque as regiões o permitem e, em certa medida, o exigem. Sempre que reivindicam que o centro pague o custo da sua existência, as periferias estão a legitimar que este abuse do seu poder. Essa é que é a verdadeira “questão centralista”. Porque quanto mais autónomas e independentes forem as regiões, seja a que nível for, económico, cultural, político, etc. menor será a sua vertigem centralista e muito menos frequentes serão as sinistras aparições desse fantasma chamado centralismo que tão enraizado está no coração deste país.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Café Royal XVIII

Vidas

Turismo e Mar são palavrões em voga sempre que alguém, especialmente políticos e académicos, se quer referir ao futuro do país. A expansão da ZEE e o crescimento do RevPar são novos desígnios nacionais. A mineração profunda e os charters de chineses são as especiarias do século XXI. Em Portugal, como sempre, tudo é quimera e pouco efeito. Quando nos perdemos a mirar o horizonte esquecemos de ver a onda que morre em espuma nos nossos pés. No último fim-de-semana fomos flagelados pela notícia de 4 mortos em praias portuguesas. No ano anterior foram 11 no mesmo período. Ano após ano esta tragédia repete-se. Vivemos num país que se diz de turismo e de praia. A Califórnia da Europa, disseram os publicitários (os Açores o Hawai, dissemos nós…)! Mas, como se pode afirmar isso quando a mais básica segurança na orla marítima é ainda uma miragem ou, no melhor dos casos, uma sorte, a sorte de ter um surfista por perto numa praia não vigiada? A aposta num futuro que se sustente no turismo e no mar terá que passar impreterivelmente pela garantia de segurança nas praias. Tal só será possível com um corpo permanente e profissional de Nadadores Salvadores, e nem sequer é preciso ter visto o Baywatch para o perceber, mas, em Portugal, como sempre, todos assobiam para o lado, Governo, Marinha e Autarquias, sacudindo o sal dos capotes, uns por receio, outros por altivez e os últimos por avareza. Entretanto, é um país que se atrasa e são vidas que se perdem…

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Café Royal XVII

Cidades

Todas as grandes cidades são fruto do seu sítio e da sua história. Lisboa tem tanto de Tejo como de luz e cronologia. Fenícios, romanos, árabes, cruzados, navegadores, marqueses, poetas, fadistas, carbonários, marialvas, espiões, varinas cantando sardinhas, amoladores chilreando gaitas-de-beiços em passo lento, elétricos ritmando mecanicamente entre a Graça e os Prazeres… Lisboa foi feita pelo tempo e pelas suas gentes. Lisboa, cidade de luzes, de sombras que se perdem por entre as colinas, de céus azuis rendilhando janelas e varandas, de casario ondulado sobre as ruas. Mistura de gentes e de lugar. Olhando Lisboa hoje, mais de vinte anos depois de ter escolhido os Açores como o lugar da minha vida, sinto, como nunca, essa condição mutável da cidade. A Lisboa em que nasci era uma cidade dispersa, dividida entre bairros e vivências díspares. A Lisboa que deixei no final do século passado era, ainda, uma cidade atónita, em busca de si mesma, resistindo entre a consciência do passado e a euforia do futuro. Hoje, Lisboa é uma cidade plena, aberta, vibrante, feita dos seus lugares e das suas gentes, tanto as que a habitam como as que a visitam, feita, enfim, de todos os que a vivem. Numa palavra – cosmopolita. Saiba Ponta Delgada abrir-se, também, assim - com inteligência…

in Açoriano Oriental

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Café Royal XVI

Antero

Abril será sempre o mês “inicial inteiro e limpo” e, para mim, o mês cintilante, impregnado pela dádiva de uma filha e de um pai. Mas Abril é, também, o mês de Antero. 18 de abril foi o dia do 175º aniversário de Antero de Quental. Antero é o mais eterno de todos os açorianos. Nenhum outro filho destas lávicas rochas, desta húmida leiva, deste intemperado clima, deixou tão profundo legado. O homem de polémica, de política, filósofo, anarquista, ensaísta, pedagogo, homem frágil e doente, mas, ao mesmo tempo, firme e altivo. Poeta. Antero superlativamente humano, génio e santo. Porém, poucos são os que hoje nas ilhas o recordam. Vivendo num tempo de efemérides bacocas, em que qualquer epifenómeno virtual se transforma numa data, uma verdadeira celebração, os 175 anos do nascimento de Antero de Quental, é incompreensível e inaceitavelmente obliterada do calendário. Honra, no entanto, seja feita à Associação dos Antigos Alunos do Liceu, à livraria e editora Artes e Letras e à Câmara Municipal de Ponta Delgada, que com uma original edição de As Fadas assinalaram o dia, ao contrário de, imperdoavelmente, todas as instituições governamentais e legislativas da região, que por completo o esqueceram e, para maior vergonha minha, do próprio PS, que o usa quando precisa, mas não o honra quando deve.

in Açoriano Oriental

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Café Royal XV

Que futuro?

O fundamento mais profundo de toda a cultura é o exemplo dos que viveram antes de nós. Exemplo prático, exemplo cultural, exemplo vivo. Somos o que vivemos, mas somos tanto ou mais o que lemos, vemos e aprendemos. Em livros, quadros, filmes, na educação, em formas múltiplas de leitura e de interpretação dos legados da história, da arte, da literatura, da vida, do exemplo prático. Vivemos hoje um tempo inquietante e imprevisível em que a ignorância, com a sua arrogância própria, assumiu o poder. Olhando apenas as horas tudo parece seguir o seu caminho. Mas, se olharmos as décadas, o tempo vagaroso, denso, dos gestos e das suas consequências, o que vemos são os variados e colossais perigos da história humana feita impulso em vez de pensamento, feita grito no lugar da cadência. Vivemos o tempo da pulsão, cega e repetitiva. Perdemos não só o distanciamento inerente à erudição como, infelizmente, a tranquilidade do saber, próprio ou transmitido. A ironia é essa mesmo. Numa época da História em que mais precisamos de conhecimento somos governados pelo sucesso vácuo da ignorância. Não são já as notícias que são falsas, é toda a realidade. Quando o porta-voz da Casa Branca afirma que Hitler não usou armas químicas é o nosso próprio futuro que se perde.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Café Royal XIV

A vã glória…

Porque homenageamos pessoas? Porque exaltamos, de entre todos, alguns de nós? E de que forma o fazemos e com que intuito? O gesto honorífico, assuma ele a forma que tiver, é, ou deveria ser, uma valorização dos indivíduos que por mérito se superaram e cujo exemplo queremos recordar. Nas mais diversas áreas, das mais diversas formas, da arte à ciência, da bravura à abnegação, contribuindo assim para o engrandecimento de todos nós. Desde tempos imemoriais que só as figuras cimeiras se destacavam. O guerreiro, o feiticeiro, a mãe, e não necessariamente por esta ordem, foram os primeiros merecedores de exaltação, destacando-se assim nas hierarquias sociais. Mas, nesta era do efémero, já nada se sobreleva e tudo ou qualquer um pode ser homenageado. Damos comendas a arguidos de corrupção, nomes de ruas a pessoas vivas, multiplicamos pequenas honrarias em que nem escapa o cão. Numa sociedade supostamente republicana, obrigaria a ética que as prebendas fossem parcimoniosa e prudentemente ofertadas. Celebrarmos os nossos maiores é um gesto de civilização. Despender excitadamente honras, como quem faz likes no Facebook, é vulgarizar esse gesto e ridicularizar os próprios sujeitos da homenagem seja ela o batismo de um aeroporto ou o pífio branding de um avião.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Café Royal XIII

29.03.17

Fixemos a data. O dia em que a mais antiga democracia do mundo pediu, formalmente, a saída do mais abrangente projecto de paz e concórdia da História. O abandono do Reino Unido da União Europeia deixa a Europa num cruzamento onde apenas dois caminhos se lhe apresentam: o seu fim ou a integração plena das instituições europeias. Mas, qualquer avanço neste processo terá que, primeiro, atacar um dos, talvez o mais grave de todos, cancros que corroem o interior do ideal europeu – a distância profunda que hoje separa os cidadãos europeus da realidade política da União. Acreditar numa verdadeira democracia europeia e na reforma das suas instituições terá que começar aí. A escolha por um modelo de governação que tenha como princípio base a proximidade entre eleitos e eleitores, partindo, necessariamente, do plano regional. Uma Europa de regiões, mais do que de estados, pode, no imediato, ser a única forma de salvar o sonho de uma comunidade de paz, solidariedade, desenvolvimento económico e respeito pelos povos. Uma federação de regiões poderá ser a única salvação para o ideal europeu. E nessa nova Europa os Açores, pelo simbolismo da sua história e relevância do seu posicionamento geoestratégico, terão necessariamente um papel fundamental a desempenhar.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Café Royal XII

A Mecanização

Escola primária. Não fez oito anos ainda. Às sete e meia, oito, levantar, arranjar, vestir, pequeno-almoço, lavar os dentes, sair de casa. Na mochila pastas com papéis, quatro livros de estudo e quatro livros de fichas, mais quatro cadernos, dois estojos, muda de roupa, o ocasional brinquedo. Um pes(adel)o. Nas semanas dos testes vai e vem tudo da escola para casa, de casa para a escola. Na mão, a lancheira. Escola antes das nove. Português, matemática, estudo do meio, inglês, ginástica, sala de estudo, pelo meio lanche da manhã, almoço, lanche da tarde. Pelas três e meia, quatro, violino (duas vezes por semana), ballet (duas vezes por semana) e os cavalos à quarta ou ao sábado. Seis e meia, às vezes sete(!), chegar a casa, trabalhos de casa, banho, pijama, jantar, dentes, xixi, cama… Aos fins-de-semana, mais trabalhos de casa e mais tantas outras falsas obrigações. Depois, começa tudo de novo. Automatizamos as crianças, encarreiradas, cumpridoras, competitivas. Entretanto, nas notícias, os concursos dos professores, os rácios, os ratings, os índices, as taxas e tantas outras estéreis quezílias de adultos, esquecendo-nos que, nessa coisa chamada “sistema educativo”, o que realmente interessa são as crianças e o único indicador que nos deve preocupar é o seu grau de felicidade.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Café Royal XI

Da História…

Após o sonho adolescente de querer ser cineasta dei por mim a frequentar os bancos de um curso de História. Devo confessar que o meu zelo académico era reduzido, passei mais horas nas mesas da Tasca d’O Lagarto do que nas cadeiras da faculdade, mas o gosto intrínseco pelos livros tornou-me a licenciatura relativamente fácil. Estudar História é um bom fundamento para olhar o mundo. Perceber as entrelinhas dos atos dos homens permite olhar para lá da mera manchete dos acontecimentos. Quem olhe em seu redor procurando compreender o seu tempo, o seu mundo, mesmo não ligando à sucessão e encadeamento dos eventos, não pode deixar de compreender o quão iminentemente frágil é o nosso momento na História. A instabilidade política global, o descrédito das instituições, o alheamento dos cidadãos, a emergência dos populismos, a clivagem religiosa, a desagregação geoestratégica, um pouco por todo o lado se pressente a ruína do tempo histórico. Marx postulou que a História se repetia, primeiro como tragédia, depois como farsa. Quem siga os vários telejornais do dia, com o olhar assente nas lições do passado, não pode deixar de sorrir ao constatar que vivemos de facto na iminência da tragicomédia. Como se usa dizer – é rir para não chorar.

domingo, 12 de março de 2017

Café Royal X

“Mar vivo”

Na semana passada a anormalmente rápida evolução de uma baixa pressão deu origem a ondas de 13 metros que derramaram destruição no litoral da Madalena do Pico. Edifícios públicos foram arrasados, investimentos privados foram arruinados, tudo isto independentemente do número de likes que tinham no Facebook. Séculos de sedentarização tornaram-nos analfabetos da natureza. Já não lhe reconhecemos os sinais. E, aqui no meio do atlântico, à mercê dos elementos, nem a tecnologia nos salva da sua força. Furacões raspam-nos a costa, tempestades inundam-nos as terras, que em torrente se esvaem no mar, ondas gigantes assaltam-nos a vida. É como se todo o planeta irrompesse numa febre de que somos nós o vírus causador. Hoje, é tão indesmentível a realidade do aquecimento global como é impossível escapar-lhe ou detê-lo. Serão necessárias gerações para sequer esperançarmos que o planeta nos acolha de novo de forma benigna. Mas, se não começarmos já esse caminho de regresso ao respeito pela natureza nunca conseguiremos esse desígnio de comunhão com o futuro. Que sentido podemos encontrar nas nossas vidas quando é o próprio planeta que morre diante dos nossos olhos hipnotizados pelos ecrãs dos telemóveis?

quinta-feira, 2 de março de 2017

Café Royal IX

Intolerável!

Quando pensamos que já vimos tudo, que já nada nos surpreende, que somos imunes aos disparates da governação, eis que ela, despudoradamente, restaura a sua capacidade de nos abismar. Soube-se recentemente que entre 2011 e 2014, cerca de 10 mil milhões de euros emigraram, sub-repticiamente, do país, sem que a nossa sempre atenta Autoridade Tributária lhes verificasse o passaporte. Vou repetir, com zeros, para que se perceba a extensão, €10.000.000.000,00 foram surfar para vários offshore enquanto, ao mesmo tempo, o fisco se entretinha, selvaticamente, a penhorar casas e ordenados por dívidas de meia dúzia de euros. 10 biliões de euros VIP foram passear para paraísos fiscais enquanto o governo de então se vangloriava de aumentar enormemente os impostos. Podem dizer o que quiserem sobre este assunto, mas a mais básica, primária e pura das verdades é que não é tolerável a existência de um Estado com dois pesos e duas medidas! Um, que protege os afortunados que, a coberto dos decisores políticos, fazem mover capitais em roda livre. Outro, que lança mão aos descamisados que, por duas colheres de mel coado, encontram a sua vida impiedosamente arruinada pela roda dentada do serviço de finanças.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Café Royal VIII

Cavaco

Sento-me para escrever sobre ele e a mera ideia de o fazer deixa-me perplexo. O que dizer? Como? Para quê?... e vem-me à memória a figura do Onzeneiro, esse arquétipo do usurário, agiota, imaginado da pena de Gil Vicente, feito para representar a ambição e a ganância no Auto da Barca do Inferno. Pode parecer contraditório, Cavaco quis ser tudo menos ambicioso ou culpado de ganância. Homem frugal, de parcas posses, embrenhado na mitomania da sua própria abnegação. Mas Cavaco é, sempre, o seu pior inimigo. Tal como o Onzeneiro. Na tentativa, vã, de ludibriar os outros acaba por revelar dolorosamente a condição plena da sua miséria. O homem que se reclamava de não ser politico fez política durante 40 anos. O funcionário financeiro, burocrático e cumpridor é, afinal, um intriguista e conspirador pérfido. O exemplo de estadista é, sabemo-lo agora, pela sua própria mão, apenas, um mero fofoqueiro rancoroso e deseducado. Todos os políticos, tal como nós, são humanos, prenhes de atributos e cravejados de imperfeições, mas o que se espera dos que elegemos é que cumpram o desígnio de sobrelevar as qualidades e minimizar os defeitos. São muitos os que o ensejam, poucos o conseguem. No fim, resta-nos uma certeza, todos temos, como o Onzeneiro, um lugar na barca.

in Açoriano Oriental

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Café Royal VII

O nosso Mar

Somos ilhas, nascidas do mar, ancoradas no meio do oceano. Porém, ao longo de quinhentos anos, viramos sempre as costas a esse mar. Somos povo arreigado à solidez da terra e, salvo honrosas excepções, receoso da inconstante agitação das águas. Do mar vinham piratas e invasores, dominadores e cobradores de impostos. O mar era caminho para exportação de bens e de jovens, via para escoar os produtos da abundância da terra e as nossas melhores esperanças. O mar foi tempestades, perigos e outros horrores. Até as nossas igrejas foram erguidas de costas voltadas para o mar. Hoje, essa infinidade de riquezas é cobiçada por todos e o que para outras nações é ouro é para nós uma envergonhada prebenda. A orla marítima, as ondas, os recursos marinhos, a história, todo o imenso mar dos Açores é uma enorme mina, literalmente. E nós, acabrunhados em cima desse maná, deixamo-nos usurpar desse colossal activo. Inquieta pensar o que será mais obsceno, se a nossa incapacidade de tomar o leme a esse processo de aproveitamento das potencialidades do nosso mar ou o facto dessa prospeção estar a ser feita em burocrático e duvidoso segredo no mercado livre dos gabinetes governamentais.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Café Royal VI

O Sistema

Na Roménia a corrupção é despenalizada, no Brasil estatizada. A Europa vive anestesiada, a América Latina bloqueada. África engatilha e o Ártico descongela. Putin manda, Trump tweeta. A Inglaterra Brexita, a Alemanha hesita. O país eutanasia e a ilha incinera. Imaginar o futuro é como olhar pelo cano de um caleidoscópio… mas, se olharmos para trás talvez consigamos ver a origem deste tempo. Recuemos, por exemplo, à queda do Muro. Essa simbólica debacle do modelo maniqueísta de dois blocos, duas ideologias, duas perfeitamente claras e irredutíveis visões da condição humana e da organização social. O fim, à marretada, dessa “pax” fria arremessou-nos, inadvertidamente, para o caos da superficialidade política. Por todo o mundo, jovens políticos, vazios de projecto e enfeitiçados pela ideia da imortalidade das democracias (ou talvez deles próprios), imaginaram várias terceiras vias com o único fito de conquistar o poder e perpetuá-lo em curtos ciclos de quatro anos. Mais de 30 anos passados não há uma ideologia, um valor ético, que sobreviva. Tudo vale, desde que se garanta a reeleição e se perpetue o sistema. Hoje, pressente-se no ar que é esse próprio sistema que vulcanicamente se prepara para desmoronar…

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Café Royal V

Amassar o pão

Portugal é um país esquizofrénico e a política portuguesa, então, é um autêntico manicómio. O mais recente delírio foi a novela da TSU. Não querendo remoer muito mais sobre o tema, duas notas marcantes importam registar. 1º - o que de simbólico, na incapacidade de entendimento entre as forças políticas, o episódio revela. E, se da direita não se esperaria outra posição, da parte do PS e dos que habitam à sua esquerda chegam sinais iguais ou piores. Negociar a política salarial tendo como moeda de troca o sistema de prestações sociais é um erro de palmatória, mas a incapacidade da esquerda dialogar sobre os problemas crónicos do nosso sistema económico não augura nada de bom para o futuro da governabilidade, com ou sem geringonça. 2º - Portugal é um país pouco produtivo, essencialmente pobre, e onde os salários médios nos deviam envergonhar a todos, mas é igualmente verdade que o país, em particular políticos e patrões, é incapaz de gerar condições efectivas para o desenvolvimento da economia e a criação de riqueza que possa ser verdadeiramente distributiva. Nunca foi tão apropriado o chavão de que “em casa onde não há pão, todos brigam e ninguém tem razão.” Assim vamos indo na hilariante padaria portuguesa.

in Açoriano Oriental

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Café Royal IV

Incineremos

Passeando nas cumeeiras, olhando o mar e a ilha, berço de cores, horizonte e sonho, recordo uma citação sábia: “não herdamos a terra dos nossos pais, apenas a pedimos emprestada aos nossos filhos.” Esta frase nativa é uma pérola de erudição e sensatez. E recordo-a pelo que transporta de aviso, de responsabilidade, pela preservação do sítio em que nascemos, que outros antes de nós amaram e que temos a obrigação de manter para os que vierem depois. Aqui, na ilha, encapsulados de verde e oceano, embriagados pela fertilidade da terra, somos muitas vezes levados a pensar que nada há, para além das mais poderosas forças da natureza, que a possam destruir. Olhando a ilha, em toda a sua magnânima e esplendorosa dimensão, esquecemos, muitas vezes, que somos nós próprios, por acção ou omissão, os principais agentes da sua destruição. Nesta terra que um slogan governamental diz ser “certificada pela natureza” somos nós, colectivamente, quem mais trabalha para o seu fim. O mais recente absurdo é a intenção de construir uma incineradora.  Absurdo ambiental, económico, turístico, de saúde pública, político e geracional. No futuro, o tempo e a terra julgarão, olhando para trás, esse legado. Pelos nossos filhos, se já não por nós, incineremos a incineradora!

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Café Royal III

Trump®

É amanhã a inauguração de Donald Trump, 45º Presidente dos E.U.A. Para lá do homem, da sua espampanante personalidade e dos muitos paralelismos feitos com outras épocas da História, em que figuras igualmente bizarras e polémicas chegaram, por vias mais ou menos democráticas, ao comando de nações, há um aspecto, totalmente novo, que convém salientar: Trump como marca e a sua aliança com as redes sociais para a autopromoção. Os demagogos do passado construíram-se pela retórica pública, em grandiloquentes discursos perante plateias embevecidas. Mas, para eles, a ideologia e o conteúdo da mensagem eram tão importantes como o cenário. Hoje, Trump apresenta-se em 140 caracteres, via Twitter, como uma espécie de caixa de ressonância de frases bombásticas, mas vazias de sentido. O triunfo de Trump é o triunfo da sua marca. É a ascensão, ao mais alto cargo, da mentalidade da venda e do lucro, em que o importante não é mais o conteúdo, mas a embalagem, o rótulo, o slogan… Trump é (e só) marca, uma espécie de “Coca-Cola” política, capitalisticamente obcecada em dominar o mundo, ao melhor preço. Bem-vindos ao tempo em que até as nações são mero produto, em saldo no mundo digital.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Café Royal II

Obrigado

Sou filho da revolução, nunca vivi a ditadura. Não sofri o autoritarismo, a censura, a PIDE, a tortura, o exílio… nestes quarenta e dois anos a minha vida foi feita com liberdade e em democracia. Devo-o, para além dos militares de Abril e dos muitos outros homens e mulheres que ajudaram a fazer nascer o Portugal democrático, a um homem que se destacou dos demais. Pela sua enorme coragem e frontalidade, pela sua sagacidade e inteligência política. Pela rara capacidade de perceber o tempo, o momento político, e saber estar no lado certo da História. Pela permanente luta pelos valores fundacionais do socialismo e pelo que de mais essencial há na visão humanista da vida – as liberdades e a defesa, permanente, intransigente e perseverante, da igualdade e da fraternidade. Esses valores antigos, mas ao tempo tão esquecidos, foram tornados contemporâneos, no Portugal amordaçado de então, pela sua visão e acção política. Devo-lhe, devemos-lhe todos, essa dádiva frágil, principio de quase tudo, chamada: Liberdade. Do ponto de vista pessoal a sua presença foi sempre uma constante na minha vida.
Pela Liberdade, pela Democracia, pelo exemplo humano, obrigado Mário Soares.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Café Royal

Nota de Abertura

Em “A Ideia de Europa” George Steiner exalta a importância que os cafés, e a cultura a eles subjacente, tiveram na construção de um ideário europeu. De Lisboa a Budapeste, os cafés foram um ambiente privilegiado para o debate de ideias, a liberdade de expressão, a transmissão de conhecimento, funcionando como uma espécie de elo identitário daquilo que viria a ser uma ideia de Europa. Uma Europa fundamentalmente humanista e liberal. Agora que assistimos, em ecrãs tácteis, em formato meme, ao baptismo do séc. XXI, em que o debate de ideias é subjugado pela ditadura do algoritmo, pela reemergência de todo o tipo de radicalismos, populismos e conformismos, torna-se cada vez mais importante relembrar esses valores e essa forma de ver a própria Europa. Mesmo aqui, neste Café Royal, lembremos que não estamos isolados do mundo, que importa não abdicar de fazer ouvir a nossa voz, defendendo as liberdades individuais, pensemos a forma como nos posicionamos na vida, procurando o bem e combatendo as inúmeras corrupções que hoje destroem os verdadeiros valores europeus. Citando George Santayana, “aqueles que não se conseguirem lembrar do passado estão condenados a repeti-lo.” E nunca estivemos tão perto de repetir dolorosamente o passado como hoje.

texto da primeira crónica no Açoriano Oriental