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quarta-feira, 10 de junho de 2026

Speakers' Corner 88

Dia de Portugal e das suas Ilhas

Celebra-se hoje, nessa "mui nobre, leal e sempre constante" Angra do Heroísmo, o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. A data que já foi o Dia da Raça e, antes disso, bandeira republicana contra a monarquia pela mão do nosso muito ponta-delgadense Teófilo Braga, chega-nos agora envolta no manto da língua, da diáspora e de uma certa portugalidade consensual, suficientemente despojada de chavões identitários para não incomodar ninguém.

Este ano, as celebrações acontecem em Angra, mais precisamente no Cerrado do Bailão, vindas diretamente do Grão-Ducado do Luxemburgo, onde mais uma vez se homenageou essa diáspora portuguesa feita de sangue, suor e lágrimas, malas de cartão e magnatas da construção. A escolha foi justificada oficialmente pelos cinquenta anos das autonomias regionais. E creio tratar-se de uma escolha feliz. Não apenas pela beleza da cidade ou pela sua relevância histórica, mas porque oferece ao país uma oportunidade rara para refletir coletivamente sobre o que significam, afinal, cinco décadas de autogoverno democrático nas ilhas e sobre aquilo que estas acrescentam ao todo nacional.

Pondo de lado as pequenas polémicas protocolares e as inevitáveis suscetibilidades institucionais, que talvez se resolvessem com uma simples não comparência, tudo isso faz parte do folclore da ocasião e rapidamente será esquecido. Mais interessante será perguntar o que é efetivamente a Autonomia, como nos conduziu até aqui e que contributo trouxe à própria ideia de Portugal.

A Presidência da República justifica que a celebração nos Açores pretende sublinhar a "importância histórica, política e cultural das regiões autónomas na construção de um Portugal mais coeso, plural e solidário". Ora, se assim é, importa reconhecer que a Autonomia acrescentou horizonte e dimensão ao país. Tornou-o mais plural, mais democrático e mais capaz de assumir a sua intrínseca vocação atlântica.

Cinco décadas depois, os Açores já não são uma ameaça à unidade nacional, nem um problema político por resolver. São uma região que se governa democraticamente, administra uma parte significativa dos seus destinos e desenvolveu uma identidade política própria sem deixar de se reconhecer plenamente em Portugal.

As autonomias regionais constituem hoje uma das mais bem-sucedidas experiências, talvez a única verdadeiramente consequente, de descentralização política da democracia portuguesa. E, no entanto, persistem equívocos, de parte a parte, sobre o alcance desse autogoverno.

É precisamente por isso que importa colocar uma questão simples: se a Autonomia faz cinquenta anos e é amplamente reconhecida como uma conquista, porque continua o Estado português a comportar-se como se precisasse de manter um tutor constitucional nas ilhas?

A figura do Representante da República, independentemente de quem lhe envergue o título, permanece como uma relíquia de um tempo em que Lisboa olhava para as autonomias com a cautela e a desconfiança próprias de um vigilante de jardim-escola. Se as autonomias são suficientemente maduras para legislar, governar, administrar recursos públicos, representar os seus cidadãos e participar plenamente na vida democrática nacional, então talvez sejam também suficientemente maduras para dispensar tutelas simbólicas herdadas de uma longa tradição centralista e assumir maiores responsabilidades sobre os espaços que lhes dão razão de ser, nomeadamente o mar.

Celebrar o Dia de Portugal e os cinquenta anos da Autonomia deveria significar precisamente isso: reconhecer que o autogoverno regional fortaleceu a unidade nacional e que são também as ilhas que ampliam Portugal no mundo.

Porque, se é nobre uma nação que se celebra na figura de um poeta, maior ainda poderá ser aquela que se reconhece para além das fronteiras fixas do seu território continental, assume plenamente a sua dimensão atlântica e se abre ao mundo através do horizonte das suas ilhas e do mar que as une.

 

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Speakers' Corner 85

A salto e a sonho

Na segunda-feira passada, um recluso da cadeia de Ponta Delgada, enquanto gozava o seu tempo de pátio, apoiou-se nas paredes do ginásio e, galgando o muro, saltou por entre os buracos da rede mal remediada que envolve o estabelecimento, evadindo-se da prisão que o encarcerava. Resvalando, apressado, pela estrada, alcançou os tetrápodes da avenida e lançou-se precipitadamente ao mar.

Fugido da prisão, logo se fechou a fronteira da ilha, numa metáfora brutal da existência insular. Viver numa ilha é tanto horizonte como limite. E aquilo que não se pode transpor a salto só se consegue alcançar à força de barco e de sonho, como escreveu Manuel Ferreira.

Pondo de lado a realidade concreta desta história, de pobreza, precariedade e desinvestimento crónico numa cadeia que já ultrapassou todos os limites do razoável, até do seu próprio tempo de vida (se bem que, nestes 50 anos de autonomia, talvez estes sejam exatamente os temas de que devêssemos falar), o que esta história caricata nos traz é uma metáfora viva da nossa identidade: um homem que fugiu da prisão para se lançar ao mar e descobrir que, afinal, era a ilha que o aprisionava.

Algures na primeira metade do século passado, numa altura em que esta ilha fervilhava de ambição e empreendedorismo privado, com as forças vivas da cidade de Ponta Delgada, e da ilha no seu todo, fortemente empenhadas no seu desenvolvimento, fosse na eletrificação, no comércio, no turismo ou em planos mais vastos, como a linha de caminho-de-ferro que circundaria a ilha ou, mais tarde, as ligações aéreas que a ligariam ao mundo, um grupo de empresários e beneméritos, aqueles que alguns hoje, presos nos baús do ressabiamento, chamam pejorativamente de terratenentes, pretendeu levar a cabo a construção de um sanatório para tratamento das doenças mentais, tendo para tal desiderato convidado o ilustre cirurgião Egas Moniz a visitar a ilha.

Reza a lenda que, após um jantar oferecido em sua honra no final dessa visita e quando questionado acerca da viabilidade de tal investimento, o famoso médico, não sem alguma ironia, terá respondido que o melhor seria construir um muro à volta da ilha, suprindo assim todas as suas necessidades em matéria de sanidade mental. Ou da falta dela, acrescentaria eu.

Esta história sempre me fez rir e, ainda hoje, olhando o estado da coisa pública, muitas vezes me questiono acerca da sua acutilante perspicácia.

O facto é que os Açores, ou as suas nove ilhas, de dimensões e singularidades distintas, são um território hostil e tantas vezes inclemente com as suas gentes. Há aqui uma rudeza própria, um enclausuramento natural das esperanças que tem tanto de físico como de mental. A vida faz-se aqui da força das suas contrariedades, numa luta constante entre os elementos e a própria natureza das pessoas.

Cinquenta anos depois da instituição da Autonomia consagrada pela Constituição de 1976, os Açores vivem talvez o período mais difícil da sua frágil e curta história arquipelágica. Os bairrismos, ou, se quisermos, a luta fratricida entre São Miguel e Terceira, atingem níveis de estridência como nunca se viu, num agigantar de ressentimento e violência que põe em causa a própria integridade do projeto autonómico, com consequências futuras que temo que os próprios intervenientes, as tão propaladas elites políticas, económicas e culturais de cada burgo, pareçam não querer enxergar convenientemente.

É neste cenário de dupla insularidade que vos convido a participar no Congresso da Autonomia, iniciativa cidadã que terá lugar neste sábado, na Biblioteca Pública de Ponta Delgada, que visa pensar os Açores para lá dos muros invisíveis que fomos erguendo entre ilhas e entre nós próprios.

Porque há cadeias feitas de pedra e cimento. Mas há outras, talvez mais duras, feitas de inveja, ressentimento e pequenez. E um povo que deixa de sonhar com o horizonte acaba inevitavelmente por transformar a ilha numa prisão.

  

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Speakers' Corner 83

Sem rumo nem destino

O Presidente do Governo Regional e do PSD local, José Manuel Bolieiro, deu, na semana passada, nesse seu estilo pós-barroco de inspiração naïf, rendilhado e decorativo, uma extensa entrevista ao podcast “Política com Assinatura”, da jornalista da Antena 1, Natália Carvalho. De entre os vários temas abordados, o que sobressaiu no spin noticioso do dia foi uma pergunta estrategicamente colocada sobre o fim do prazo de validade da sua coligação de governo.

Num tom anticlimático, como quem revela um segredo de polichinelo, Bolieiro acabou por confirmar aquilo que já todos suspeitávamos e que, aliás, cada um à sua maneira, Artur Lima e Paulo Estevão já tinham, há muito, anunciado: o termo dessa ménage à trois de conveniência política entre centristas, monárquicos e sociais-democratas. A novidade foi tão pouco surpreendente que o tema acabou arrastado pela enxurrada do aumento dos combustíveis que o próprio governo de Bolieiro anunciou no dia seguinte, para exasperação dos especialistas de marketing político, enorme preocupação do próprio e desespero da carteira de todos nós.

O que surpreende neste epifenómeno político não é a sua confirmação, mas o timing. A meio de um mandato, quando todos clamam por uma remodelação que dê novo alento a uma governação caótica e destrutiva, Bolieiro opta, ao invés, por dar uma machadada final na já ínfima coesão do seu executivo. Se antes já era difícil discernir um rumo, agora teremos secretários em roda-viva, cavalgando sem rédea (literalmente, no caso do secretário da Agricultura), agindo sem nexo, cada um em função do seu próprio ganho político, em prejuízo de todos nós e dos destinos da região.

Vários comentadores já explicaram a matemática do cálculo político do presidente do Governo. Aproximando-se o fim do PRR, com uma dívida galopante, sem fim à vista para a privatização da SATA ou para as guerras na Saúde, e com a mais do que previsível continuação da curva descendente dos números do turismo ao longo do verão, culminando num orçamento praticamente impossível em outubro, José Manuel Bolieiro lança no xadrez político a hipótese de dissolução, na expectativa de ver quem cai na armadilha. Dizem os corredores que o faz para apaziguar alguns barões locais do seu partido. Outros veem nesse divórcio a esperança de uma vitória eleitoral robustecida e amplificada pela fraca implantação popular da atual oposição socialista.

O que parece é que Bolieiro, que nunca se imaginou Presidente, já se vê, neste momento, a partir para outros voos, quem sabe, num qualquer Ministério do Mar ou do Espaço, nesse Terreiro do Paço de metropolitanas mordomias. Ou, em último recurso, a chamar para junto de si o Chega, para governar sem altercação nem vergonha por mais um mandato. Algo que, suspeito, para ele, entre o que está e o que há de vir, seja mais ou menos a mesma coisa.

O que fica por revelar, para além do momento e do modo exato da queda do Governo, é como vai reagir o eleitorado a mais este cenário de caos eleitoral. Que já está toda a gente esgotada com os desvarios deste trio de incompetência, bairrismo e desnorte é um facto; mas quem vai capitalizar com isso permanece uma incógnita. Terá o PS capacidade para se impor como alternativa? Capitalizará o PSD, com o afastamento do CDS e do PPM, conseguindo uma maioria absoluta, alavancada não só na desconfiança do eleitorado na liderança dos socialistas, como também no receio dos neo-popular-fascistas do Chega? Conseguirá o CDS manter-se à custa da bandeira do bairrismo que o seu líder tanto gosta de agitar? Terá o PPM a esperança vã de preservar uma réstia de relevância? E para onde irão os votos de BE e PAN, em pleno eclipse de significância?

Não fosse tudo isto uma parte importante das nossas vidas, e até seria um jogo interessante de acompanhar. Assim, é apenas triste constatar como, sem rumo nem destino, nos vamos lenta e perigosamente aproximando do precipício final.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Speakers' Corner 79

Um dia em Como e outro tiramisù

Estava um dia claro e luminoso, de luz penetrante, sob um céu azul desassombrado, numa frígida manhã de abril. Um vento gélido e incisivo, descendo imperturbado do cume dos Alpes, trespassou-nos o rosto quando descemos os degraus do comboio na quase inconspícua vila de Varenna, vindos, logo cedo, de Milão. Descendo pela Via Imbarcadero, abeirámo-nos do terminal do ferry, com o curioso Hotel Olivedo em frente, a sua forma retangular erguendo-se, impositiva, três andares acima da envolvente, sem outros edifícios a rodeá-lo, de onde partimos para Bellagio, já no coração do Lago de Como.

Rendilhadas ao longo das margens do lago, as pequenas vilas sobem pelas colinas como ramos de vinhas antigas e amadurecidas. Grandes palacetes de nobreza reservada debruçam-se, em colunatas de inspiração romana, sobre as águas transparentes, fazendo ecoar histórias milenares de um passado sem fim. Canteiros de flores cuidadosamente tratados ornamentam jardins pontuados de árvores, limoeiros carregados de frutos reluzentes anunciam a promessa de licores agridoces. Estátuas de deuses e heróis, de nomes já esquecidos, pontuam os caminhos por onde passeamos, lenta e maravilhadamente.

Do ferry, que nos leva numa curta e pachorrenta viagem de poucos minutos, avistamos a fachada imponente do Grand Hotel Villa Serbelloni. Construído em 1850 como prenda de aniversário do conde Frizzoni, de Bérgamo, para a sua mulher, foi mais tarde adquirido pela família Bucher, da Suíça. Também conhecido como Grand Hotel Bellagio, foi, ao longo das décadas, refúgio de grandes nomes da política, das finanças e do espetáculo, como Churchill, J. F. Kennedy, os Rothschild, Clark Gable ou Al Pacino. Já na outra margem do lago, em Laglio, fica a famosa Villa Oleandra, uma mansão do século XVIII mandada construir pela família Stoppani, de Milão, e que George Clooney terá adquirido por dez milhões de dólares aos herdeiros da fortuna da maionese Heinz.

Bellagio recebe-nos com esse encantador charme italiano de ruas serpenteantes que sobem em escadarias estreitas pelas colinas íngremes, esplanadas de mesas engalanadas com toalhas impecavelmente brancas a decorar os passeios, enquanto as clássicas lanchas Vaporina, de madeira envernizada, balançam ao sabor das águas que batem suavemente no cais. Depois de um breve passeio pelas lojas, entre sedas, peles e caxemiras, subimos até à Via Centrale para almoçar no La Fontana: scialatielli alle vongole in bianco con crema di porri profumato al basilico e, para sobremesa, tiramisù.

Nesta viagem fizemos uma prova de tiramisù. Em cada restaurante, pedíamos a famosa sobremesa italiana, inventada, diz a lenda, pela dona de um bordel de Treviso, para revigorar os seus clientes, daí o lânguido nome, “levanta-me”. Com os seus palitos de la reine embebidos em café, creme de ovo, mascarpone e cacau em pó, concluímos que existem infindáveis receitas de tiramisù, todas elas saborosamente magníficas. O debate sobre qual o melhor poderia prolongar-se indefinidamente, tal como gostaríamos que esta viagem também se tivesse prolongado.

No mundo, existem muitos lugares tão ou mais deslumbrantes, mas Bellagio e as suas vilas irmãs, nas margens do Lago de Como, compõem um quadro inigualável que rivaliza, para não dizer que ultrapassa, em beleza e encanto muitos outros lugares, merecendo, por isso, uma visita pelo menos uma vez na vida.

Um dos prazeres de sair dos Açores, aliás, para além do ato em si de deixar a bruma para trás, é perceber que, apesar de toda a sua beleza e encanto, e de toda a retórica que tantas vezes nos eleva a medida absoluta de comparação, os Açores não são, de facto, o melhor ou o mais belo lugar do mundo. E talvez seja precisamente essa compreensão que dá mais valor ao regresso. Não a ilusão falaciosa da nossa superioridade ou excecionalidade, mas a consciência mais justa do lugar que realmente ocupamos no vasto rol das maravilhas do mundo.

 

quinta-feira, 19 de março de 2026

Speakers' Corner 76

Memória e futuro

At Flores, in the Azores Sir Richard Grenville lay,” este é o primeiro verso de The Revenge: A Ballad of the Fleet, de Alfred Lord Tennyson. O poema relata os acontecimentos da célebre batalha de 1591, travada ao largo da ilha das Flores, na qual o galeão The Revenge enfrentou, isolado, uma numerosa armada espanhola, acabando por se afundar após um combate longo e desigual.

Tennyson, poeta laureado da Inglaterra vitoriana, celebra nesse poema a bravura estoica perante probabilidades esmagadoras e imortaliza não apenas a coragem, mas também a aura mítica daquele galeão, que fora anteriormente comandado pelo lendário Sir Francis Drake. Durante décadas, o poema foi leitura obrigatória nas escolas inglesas, ajudando a fixar no imaginário britânico uma certa ideia dos Açores.

Este introito poético surge a propósito de uma petição apresentada ao Parlamento Regional que propõe a criação, nos Açores, de um Museu Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática. A iniciativa cidadã procura afirmar, de forma institucional, a relevância do arquipélago na história global da navegação e, mais concretamente, na história da arqueologia subaquática. Com efeito, poucas regiões do mundo concentram um número tão significativo de naufrágios históricos e, simultaneamente, um percurso tão marcante nas campanhas arqueológicas dedicadas ao seu estudo. O mar dos Açores é um verdadeiro arquivo submerso da expansão marítima e das rotas atlânticas.

Curiosamente, também por estes dias foi notícia a intenção do autarca da Ribeira Grande de recuperar um antigo projeto de criação de um Museu da Aviação dos Açores, a erguer nas ruínas do histórico Campo de Santana, popularmente conhecido como “aerovacas”. Efetivamente, também na história da aviação nacional e internacional os Açores tiveram um papel determinante, desde os primeiros voos de travessia atlântica, passando pelas operações associadas às duas Guerras Mundiais, pelos famosos clippers da Pan Am, até à criação da SATA. A isto soma-se o papel estratégico do Aeroporto de Santa Maria e, mais recentemente, as ambições ligadas ao setor aeroespacial, que reforçam o significado da posição geoestratégica do arquipélago.

Mais do que simples lugares de memória, os museus são espaços de construção de identidade. São centros de produção de conhecimento e veículos de disseminação cultural e pedagógica que ajudam a sustentar a vitalidade intelectual de uma sociedade e a sua consciência histórica.

Nos Açores, infelizmente, a cultura e a preservação da memória coletiva têm sido, demasiadas vezes, secundarizadas, quando não mesmo remetidas para um plano de abandono e insuficiência de recursos. O resultado é que o passado vai-se dissipando lentamente na erosão do tempo e na fragilidade das intenções.

Falta-nos um compromisso consistente com o conhecimento e com a valorização plena do que fomos ao longo dos séculos. Em vésperas de assinalar os seiscentos anos do povoamento, seria oportuno que a região e, em boa verdade, o próprio país, assumisse uma aposta clara na valorização do seu património histórico. Criar novas valências museológicas, investir em programação cultural consistente e apoiar a investigação não é mera despesa, mas passos essenciais para dignificar o passado e projetar a região no futuro.

Ao contrário do que por vezes se supõe, a História não é um mero adorno que se convoca para decorar efemérides ou celebrações. É a argamassa invisível que mantém coesa a identidade de um povo. Quando devidamente instituídos e apoiados, os museus contribuem para consolidar o sentimento de pertença e são instrumentos fulcrais de afirmação cultural, social e até económica.

Num território arquipelágico como os Açores, onde a distância se faz fronteira e limite, preservar e interpretar a História é uma forma de afirmar quem somos e o lugar que ocupamos no mundo.

Valorizar a memória não é um custo, é um investimento no futuro.

 


quarta-feira, 4 de março de 2026

Speakers' Corner 74

Autonomia, retórica e responsabilidade

Em matéria de citações, a internet é o paraíso dos apócrifos. Entre milhares de frases e referências multiplicam‑se as de veracidade duvidosa até que, no caos cibernético dos memes e das páginas de citações, se constrói todo um novo cânone. Sejam autênticas ou não, há aforismos que se impõem porque, mais do que a autoria, o que conta é a forma como captam na sua solenidade um certo espírito do tempo. Vem isto a propósito de duas frases, erradamente atribuídas, que me surgiram quando tentava caracterizar o momento político atual e, em particular, aquilo que me parece ser um preocupante descontrolo discursivo do Presidente do Governo Regional em declarações públicas recentes, tão surpreendentes quanto inquietantes.

Diz‑se que Sartre terá afirmado que “quando os políticos brincam com o caos, o caos aprende a brincar com eles”. Verdade ou não, a ideia serve‑nos de aviso para quem, instrumentalizando conceitos inflamáveis, se arrisca a perder o controlo sobre eles. Nas suas últimas intervenções públicas, Bolieiro pareceu agitar no ar, qual malabarista desgovernado, noções como autonomia, soberania ou poder negocial, sem medir ponderadamente o exato alcance das palavras. A metáfora da autonomia como “cobrador do fraque”, coletando tributos à República ou insinuando portagens sobre o espaço aéreo e o alcatrão das Lajes, transforma a geografia em imposto e a autonomia em mera tarifa.

Ora, declarações políticas não são meros exercícios retóricos para consumo fácil. Têm impacto local: afetando investidores, trabalhadores e a confiança dos eleitores; impacto externo: condicionando a credibilidade da Região perante o Estado e parceiros internacionais; e, não menos importante, impacto histórico: porque as palavras ficam registadas e moldam a memória futura. Uma governação responsável deve saber pesar cada afirmação à luz dessas três dimensões.

O exemplo da utilização da Base das Lajes é elucidativo. Explorada pela Força Aérea dos Estados Unidos ao abrigo de acordos bilaterais, a Base das Lajes insere‑se num delicado quadro de compromissos internacionais. Reduzir a discussão a cenários simplistas é ignorar que cada palavra proferida por um governante regional pode ser lida fora de portas como sinal político. Num mundo volátil, a ligeireza verbal pode ter custos diplomáticos e estratégicos que ultrapassam em muito o momento mediático. E o alinhamento cego e servil aos ditames do Palácio das Necessidades, já de si ajoelhado a um qualquer Trump de serviço, corrói a credibilidade da própria autonomia.

Também no plano económico, a prudência discursiva devia ser essencial. Na Bolsa de Turismo de Lisboa, ao desvalorizar as preocupações do setor do turismo como “drama e pessimismo”, o Presidente do Governo destratou, sem vergonha ou decoro, a exatidão de dados objetivos: a saída da Ryanair, 10% de quebras nas dormidas e reduções significativas na oferta de lugares já para este verão. Quando empresários enfrentam dificuldades para pagar salários e contribuições sociais, esta narrativa surrealista soa escandalosamente a negação da realidade.

Outra frase apócrifa, desta vez atribuída a Winston Churchill, lembra que “coragem não é apenas levantar‑se e falar, mas sentar‑se e ouvir”. Talvez fosse ponderado ao Presidente do Governo compreender que governar implica consideração. Implica reconhecer que cada declaração entra no arquivo da História e pode ser citada amanhã como prova de prudência, ou de desvario.

Fechado na sua bolha de Santana, segurando periclitante o limiar de uma bancarrota, Bolieiro parece ter perdido o bom senso e o bom gosto de falar pouco, falar bem e, principalmente, entender que, mais do que gerir interesses circunstanciais ou particulares, “saber ao certo quanta parte do futuro se pode introduzir no presente é todo o segredo de um grande governo”, como escreveu Victor Hugo, o próprio, em Os Trabalhadores do Mar.

 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Speakers' Corner 62

Os Açores e a Doutrina Trump

Em dezembro de 1823, James Monroe, quinto presidente dos Estados Unidos, apresentou ao Congresso uma declaração que ficaria conhecida como Doutrina Monroe. A fórmula “América para os americanos” traduzia a reafirmação de um isolacionismo já insinuado por George Washington e desenvolvido por Thomas Jefferson, que concebera a ideia do “hemisfério americano”.

Dois séculos depois, a nova Estratégia Nacional de Segurança, um documento de pouco mais de trinta páginas divulgado na última semana, marca o regresso dessa matriz conceptual. Os EUA deixam de se apresentar como o “polícia global” a que nos habituámos desde a Segunda Guerra Mundial para, num espírito America First, colocarem o interesse nacional acima de qualquer compromisso multilateral. A prioridade passa a ser o reforço interno, assente na autonomia industrial, tecnológica e energética, reduzindo dependências externas, sobretudo da China, e protegendo cadeias de produção consideradas críticas, das novas tecnologias ao armamento.

No plano geopolítico, a estratégia recentra-se no “Hemisfério Ocidental”, recuperando de forma explícita a lógica monroísta. As Américas e o Caribe são classificadas como regiões vitais, com foco no controlo migratório, no combate ao narcotráfico e na limitação da influência de potências externas. Trata-se de uma mundivisão de blocos e zonas de influência, muito próxima, aliás, da teoria de “espaço vital” de Putin.

Quanto à Europa, o documento critica a gestão continental da imigração e da demografia, insinuando que vários governos estão a comprometer a própria “identidade civilizacional” europeia. Afirma mesmo que, em menos de vinte anos, a Europa poderá ser irreconhecível do ponto de vista político e étnico. Concorde-se ou não com esta leitura, ela revela um afastamento estratégico da sua fronteira ocidental que a União Europeia dificilmente poderá ignorar, tanto mais que, a oriente, há uma Ásia que se agiganta.

Este novo ordenamento do tabuleiro internacional coloca dilemas, mas também oportunidades, a Portugal e, de forma ainda mais acentuada, aos Açores, divididos entre uma orientação plenamente europeia ou uma vocação, ainda que por vezes tímida, assumidamente atlântica.

A verdade é que a geografia não muda com as conjunturas políticas ou ideológicas. E é precisamente essa constância que obriga a uma afirmação mais plena da centralidade atlântica do arquipélago. Durante décadas, a Base das Lajes foi encarada quase como inevitabilidade histórica, envolta numa relação romantizada com os EUA, marcada pela cooperação militar e pela nostalgia da emigração. Mas a nova-velha Doutrina Trump rompe com sentimentalismos e as alianças passam a ser tratadas como contratos comerciais, substantivamente negociáveis e passiveis de reversão.

Face a esta realidade, torna-se indispensável que qualquer negociação entre Lisboa e Washington conte com participação açoriana efetiva e qualificada e não apenas como observador turístico das reuniões da bilateral, mas como interlocutor estratégico imprescindível. Em paralelo, o arquipélago deve ser pensado como plataforma atlântica de duplo uso, civil e militar. Se os EUA valorizam o controlo de rotas, a vigilância marítima e a autonomia tecnológica, os Açores podem oferecer muito mais do que uma pista de aviação. Podem e devem ser um laboratório vivo e ponto logístico essencial para missões de longo alcance na investigação oceânica, aeroespacial e climática.

Por fim, e talvez com maior urgência do que nunca, impõe-se a diversificação das parcerias internacionais. Se Washington empurra a Europa para a periferia do xadrez global, Portugal e os Açores, pela sua proeminência atlântica, dispõem de uma rara oportunidade para aprofundar relações com um leque mais vasto de parceiros e redes científicas internacionais. Afirmando-se não como triste periferia, mas como verdadeiro carrefour estratégico num tempo e num mundo marcados pela incerteza.

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Speakers' Corner 56

Da falência à estabilidade cúmplice

O estado de quase calamidade pública da dívida regional atingiu um ponto tal que a situação se tornou digna de notícia de abertura dos telejornais nacionais. Há poucos dias, o telejornal da SIC abriu com os números dantescos deste descalabro financeiro. A dívida pública regional aumentou uns assustadores 42% em apenas quatro anos, atingindo já mais de 3.400 milhões de euros.

Destes, mais de mil milhões são da responsabilidade do atual governo regional, liderado por José Manuel Bolieiro, sustentado pela coligação PSD/CDS/PPM, com o beneplácito parlamentar do Chega e, ao que parece, surrealisticamente, também do PS-A. Mas já lá iremos.

De acordo com os especialistas, esta dívida per capita significa que cada um de nós, pobres cidadãos contribuintes, deve cerca de 14 mil euros. Um peso difícil de compreender, face ao nível dos nossos impostos e aos saldos das nossas contas bancárias. A medo, fui verificar, mas, ao que parece, são responsabilidades futuras. Não digam nada às minhas filhas, coitadas, que ainda não sabem.

Mas as más notícias não se ficam por aqui. O défice orçamental ultrapassa os 165 milhões de euros. As necessidades de financiamento da administração pública regional foram, no último ano, superiores a 247 milhões. A dívida a fornecedores já ultrapassa os 400 milhões, e o rating da Região teima em manter-se estagnado nos BBB, ou seja, as agências internacionais de avaliação financeira classificam o risco de incumprimento da Região como moderado, em contraciclo com a Madeira e a República.

A dívida da SATA já atinge os 400 milhões, e a da Portos dos Açores ronda os 270 milhões. Se juntarmos a isto o aumento do custo de vida e uma inflação que se mantém acima dos 2%, estamos perante um quadro de pré-bancarrota que nos devia preocupar a todos, todos os dias, várias vezes ao dia.

O cenário é de tal ordem que só mesmo uma revisão em alta da Lei de Finanças Regionais poderá permitir salvar a economia regional, o que, na prática, equivaleria a uma espécie de resgate financeiro, embora sem a mão pesada de uma Troika continental a pôr ordem nos nossos desmandos.

Desmandos esses que já inspiram epítetos pouco lisonjeiros. Um querido amigo, por sinal de direita, chama jocosa, mas certeiramente, ao secretário das Finanças o “Freitas das contas mal feitas”. E, nos meios empresariais, já se ouve dizer à boca pequena: “Volta Sérgio Ávila, que estás perdoado”. Porque havia dívida, é certo, mas ao menos havia dinheiro, numa espécie de indulgência retroativa a uma das figuras mais profundamente associadas ao descalabro da governação socialista. Agora, pelo contrário, há dívida, mas não há dinheiro, com muitos pequenos e médios empresários ainda à espera de receber os apoios da era Covid.

É precisamente este cenário que me leva à estratégia, ou à falta dela, do Partido Socialista. Perante esta demonstração de total incompetência e falta de horizonte do pior governo regional de sempre, o PS-Açores, pela voz do seu líder, dá a entender que está não só disponível para viabilizar o Orçamento Regional, como disposto a conceder uma espécie de livre-trânsito ao governo de Bolieiro até 2029, ao afirmar que o PS-A pretende uma longa reavaliação de “três anos sem eleições”, para, nas suas palavras, “se dar a conhecer”.

Num momento em que o Partido Socialista se devia afirmar como a única alternativa sólida de poder, dizendo “presente” neste momento crítico da vida regional, parece antes mais preocupado, com ou sem “Estados Gerais”, em salvar o seu líder do que em salvar os Açores desta deriva calamitosa em que se encontra a governação das ilhas.

É sobejamente conhecida a velha máxima de Sá Carneiro sobre a política sem ética e sem risco. Pelo que se percebe, o Partido Socialista dos Açores não parece querer correr riscos, nem parece ter vergonha de não o fazer.

Entre a bancarrota financeira e a complacência política, a Região vive à custa da dívida… e da falta de coragem.

 

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Speakers' Corner 54

As vencedoras e os vencidos

Os cenários pós-eleitorais são sempre férteis em elações, conjeturas, explicações e narrativas. Os americanos até têm um nome próprio para os profissionais que se dedicam a esta arte específica da comunicação política: os chamados spin doctors. Que é como quem diz, especialistas em dar a volta aos resultados.

Estas últimas eleições autárquicas, em particular aqui nos Açores, foram ricas em exercícios de contorcionismo verbal, sobretudo por parte dos líderes dos grandes partidos e, de forma bastante contundente, do candidato do PSD à Câmara de Ponta Delgada, todos prontos a clamar para si vitórias, mesmo que fossem vitórias de Pirro, como foi o caso.

Cada um, à sua maneira, cantou vitória, reclamando para si e para os seus os louros de mais votos, mais mandatos, uma percentagem que sobe aqui, uma freguesia ganha acolá. É o habitual nestas ocasiões, mas nem sempre é o mais justo, muito menos o mais verdadeiro.

No meu entender, o facto mais relevante destas eleições é, sem dúvida (ainda mais do que o alarme falso do CHEGA!...), a extraordinária vitória das mulheres. Nunca os Açores tiveram tantas mulheres a liderar autarquias, numa demonstração clara de uma evolução sísmica na política regional. Fátima Amorim, Ana Brum, Catarina Manito, Elisabete Nóia, Catarina Cabeceiras, Vânia Ferreira, Bárbara Chaves e Graça Melo, esta última com uma vitória tão retumbante quanto surpreendente. E, se juntarmos a isto as prestações inesperadas de Sónia Nicolau e de Lurdes Alfinete, uma tirando a maioria a Pedro Nascimento Cabral na maior autarquia dos Açores, e a outra ficando a uns escassos trezentos e poucos votos de virar a Ribeira Grande, temos uma demonstração vibrante de que foram, sem sombra de dúvida, as mulheres as grandes vencedoras desta noite eleitoral.

No campo dos derrotados, e ao contrário do que quiseram fazer parecer nos seus discursos de circunstância, José Manuel Bolieiro, Francisco César, Paulo Estêvão, José Pacheco e Pedro Nascimento Cabral saem da noite de domingo com mais razões de preocupação do que de regozijo. Por mais que o líder do PSD e do Governo queira cantar vitória, não consegue uma vitória robusta que lhe dê lastro para sobreviver às tempestades que aí vêm, nomeadamente as da SATA, da bancarrota e de um orçamento regional com mais austeridade do que o da Troika. Paulo Estêvão sofre uma derrota envergonhante no seu pequeno feudo particular, agravada pelas suspeitas que recaem sobre o seu candidato. José Pacheco ficou longe do que pretendia, ou sequer do que se esperava e, apesar de garantir a eleição para vereador em Ponta Delgada, não consegue, nem nas freguesias, as vitórias que lhe vaticinavam os observadores.

Por último, Francisco César vê o partido resvalar ainda mais no seu processo descendente que, apesar de ter mais votos do que o PSD, se traduziu na perda de câmaras, freguesias e mandatos, com a vergonha maior de ficar em terceiro lugar, atrás de Sónia Nicolau, em Ponta Delgada. Onde, aliás, seria importante que os dirigentes da secção concelhia do partido tirassem as devidas ilações da péssima condução de todo este processo.

Em Ponta Delgada, Pedro Nascimento Cabral perde dois vereadores, fica empatado com Sónia Nicolau e sofre uma queda impressionante de quase quatro mil votos. Fica agora dependente de difíceis negociações para conseguir aprovar o seu programa, tarefa árdua para alguém que já demonstrou não ter feitio para grandes diálogos.

Espero sinceramente que, neste cenário difícil que se avizinha, tanto na Câmara de Ponta Delgada como na Região, não venha a ser o PS de Francisco César a dar a mão aos desmandos de um PSD que, em conjunto, pode reivindicar os dúbios títulos de pior presidente de câmara e pior governo regional de sempre. Nem mesmo com a desculpa esfarrapada da “estabilidade”, porque a estabilidade é o refúgio dos fracos, e os Açores pedem lideranças fortes para navegar tempos de tempestades…

 

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Speakers' Corner 53

A celebração de uma identidade

Por um curioso alinhamento de datas, o país e a região vivem por estes anos uma inusitada sequência de efemérides e celebrações. Dos 50 anos do 25 de Abril, aos 600 anos do descobrimento dos Açores, passando pelos 50 anos da Autonomia Regional, e mesmo a coincidência de Ponta Delgada Capital da Cultura que acontece no próximo ano, entre 2024 e 2027, o país e a região vivem um momento ímpar de celebração da consciência coletiva que nos devia mobilizar a todos como sociedade.

Infelizmente, hoje a ideia de celebração identitária tornou-se numa espécie de anátema social. A minha geração, em particular, foi educada, em grande medida, para desconfiar da ideia de pátria. O Estado Novo apropriou-se de tal forma do nacionalismo que, depois da Revolução, o país pareceu precisar de se purgar daquela sombra do patriotismo que pairava sobre a nação como um xaile negro e opressivo. O orgulho nacional, a simples evocação da glória pátria, tornou-se suspeito, uma relíquia ideológica de um tempo de hinos, fardas, União Nacional e censura. O amor à pátria passou a soar a fascismo e a própria palavra “Portugal” foi, por muito tempo, pronunciada com embaraço, quase com constrangimento, numa surdina envergonhada só levemente aceite nas vitórias da Seleção Nacional e nos golos do Ronaldo.

A história dos últimos cinquenta anos é também a história dessa tensão entre um Portugal ensimesmado e fechado sobre si mesmo e outro, cosmopolita, aberto ao mundo e à Europa. A democracia procurou libertar-se do velho país salazarento, rural e beato, que erguia estátuas ao sacrifício e à obediência, louvando a pobreza e a grandeza do Império, trazendo para o centro da vida coletiva a ideia de um país global. Foi a Europália de 1991, a Lisboa Capital da Cultura em 1994, a Expo 98, o Euro 2004, toda uma galeria de grandes eventos internacionais que pretendiam projetar o país para o exterior, modernizando-o. Mas, ao fazê-lo, o país acabou também por perder algo de essencial e de interior, o sentido de comunidade, o sentimento de pertença, a capacidade de celebrar em conjunto os feitos e a história sem medo de parecer antiquado ou, pior ainda, conservador.

As grandes datas nacionais foram-se tornando quase incómodas. O 5 de Outubro, como vimos nestes dias, tornou-se tóxico. O 10 de Junho transformou-se num ritual sem alma, deslocado das populações, onde nem já Camões se destaca como poeta agregador das massas. Os desfiles do 25 de Abril dividem mais do que unem, com a descida da Avenida seccionada em trupes de cada identidade sectária, com os liberais a fecharem o cortejo ao estilo carro-vassoura das diferenças políticas. As comemorações oficiais tendem a ser tratadas como obrigações protocolares, com tanto de bocejo como de pompa, ou, então, meras oportunidades para ajustes de contas ideológicas com o passado. A esquerda teme parecer nacionalista; a direita fá-lo muitas vezes de forma caricatural e nostálgica, incapaz de se renovar. O resultado é que o país perdeu a capacidade de se rever ao espelho e de se aceitar em si mesmo, com as suas glórias e os seus erros, inteiro, em vez de compartimentado e envergonhado, numa paralisação autodesvalorizante que o faz fugir de si próprio.

Talvez seja por isso que as comemorações dos cinquenta anos do 25 de Abril, que poderiam e deveriam ter sido uma afirmação serena da nossa maturidade democrática, acabaram reduzidas a um eco dos traumas do passado. Entre o revisionismo e a saudade, entre a retórica da “liberdade conquistada” e o ressentimento do “25 de Novembro”, o país parece reviver a infância das suas divisões, incapaz de transformar a memória em projeto. Incapaz de sarar as feridas passadas, unindo-se num ideal comum de liberdade e democracia. Em vez disso, caímos no fosso do revanchismo revisionista, agitando ainda as velhas bandeiras da revolução contra a reação. Como se ser de Abril não fosse, afinal, ser de Portugal e vice-versa.

Até porque celebrar o passado não tem de ser um processo regressivo, feito de traumas e restituições. Pelo contrário. Celebrar é um gesto profundamente afirmativo. É reconhecer que há uma história comum, um percurso que nos precede e uma continuidade que nos sustenta. Não se trata de glorificar o passado, mas de o compreender como parte viva de quem somos e que nos transporta, com segurança, para o futuro. Celebrar é afirmar uma identidade que não precisa de ser nacionalista para ser cultural, cívica ou simplesmente nossa, individual e humana.

Há um equívoco de fundo na ideia de que o passado é um túmulo amaldiçoado de que é preciso fugir ou esquecer. O nacionalismo é uma ideologia; o sentimento de pertença, não. Um povo sem laços é apenas uma soma de indivíduos. E uma comunidade que não celebra as suas datas é uma comunidade que esquece o seu próprio caminho. A memória coletiva precisa de rituais, de símbolos e de encontros. São esses momentos, por mais cerimoniosos ou até artificiais que pareçam, que alimentam a consciência de que pertencemos a algo maior do que nós próprios.

Em 2027, os Açores celebrarão 600 anos do seu descobrimento. É uma data que poderia (e deveria) ser mais do que uma efeméride histórica: é uma oportunidade para pensar o arquipélago como um projeto comum. Porque, na verdade, a ideia de arquipélago nunca esteve totalmente consolidada. Ainda hoje, como não me canso de escrever, persiste uma visão fragmentada, quase insular, da própria autonomia, uma soma de ilhas, mais do que uma consciência coletiva de Açores.

Celebrar os 600 anos não seria apenas recordar a chegada dos primeiros navegadores; seria pensar o que significa hoje viver num território atlântico e europeu. Seria um exercício de imaginação cívica, uma oportunidade de revisitar a história para projetar o futuro. Um futuro que, para os Açores, tem tudo a ganhar em reforçar a sua ideia de conjunto e de verdadeira comunidade arquipelágica na sua circunstância de ponte entre dois mundos.

Essas celebrações poderiam ser um momento de reencontro: entre a história e o presente, entre o local e o universal. Através da cultura, da arte, da ciência, da reflexão crítica e não apenas de discursos ou cerimónias protocolares, com mais ou menos concertos e sopas do Espírito Santo, poder-se-ia afirmar uma nova forma de pertença. Uma pertença aberta, moderna, consciente da sua complexidade e das suas tensões e que abarcasse todas as ilhas desde o Corvo a Santa Maria numa verdadeira Açorianidade.

Os Açores são, afinal, um microcosmo perfeito do dilema português: entre o orgulho de existir e o receio de o declarar. Tal como o país continental, o arquipélago vive entre a vontade de se afirmar e o medo de parecer retrógrado; entre a necessidade de celebrar e o pudor de o fazer. Mas não há nada de reacionário em querer celebrar o que somos. Reacionário é desistir de nos pensarmos, é omitir essa permanente tensão de existir.

Talvez o maior legado dos cinquenta anos do 25 de Abril pudesse ser precisamente este: libertar o amor à pátria da sombra do Estado Novo e devolvê-lo à cidadania democrática. Reconciliar-nos com a ideia de que um país pode orgulhar-se de si sem se fechar, que uma ilha pode celebrar a sua história sem se isolar, que um povo pode ter símbolos sem ser escravo deles.

No próximo ano celebraremos também os 50 anos da Autonomia. Ao que se sabe, pouco ou nada está ainda pensado para esse momento fundacional da nossa contemporaneidade insular. Talvez, nos gabinetes bafientos, algum técnico superior esteja incumbido de organizar o protocolo da celebração, dos discursos, das precedências e das comendas. A nós chega-nos pouco ou quase nada do que deveria ser a celebração do nosso aniversário coletivo enquanto entidade arquipelágica, autonómica, insular, europeia e atlântica. Talvez ainda vamos a tempo.

Talvez ainda vamos também a tempo de celebrar convenientemente esse estatuto de Capital da Cultura, mesmo que os financiamentos se percam nas gavetas das insolvências governativas, que os protagonismos políticos e artísticos tentem cooptar esses gestos simbólicos, retirando-lhes a essência popular e criativa que um momento como este deveria ter. Tal como, aliás, estava previsto na sua génese: um evento agregador da pluralidade insular, fazendo de Ponta Delgada não a capital, no sentido mais retrógrado do termo, mas o epicentro, motor e centralizador da multiplicidade e diversidade insular. Uma cidade feita desses nove bairros, na feliz formulação do Nuno Costa Santos, que se revisitam e se dão a conhecer em conjunto.

Celebrar, celebrarmo-nos, não tem de ser um frete ou um embaraço. Celebrarmo-nos, a nós, como povo, arquipélago e identidade, é antes uma afirmação viva dessa Açorianidade literária que Nemésio cunhou fará agora cem anos e que hoje não vale mais do que um envergonhado prémio literário de dois mil e quinhentos euros.

Perdemo-nos tanto na espuma do presente que nos esquecemos de celebrar o passado e de ambicionar o futuro.

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Speakers' Corner 52

O Grand Tour micaelense e o futuro do turismo regional

Sábado passado assinalou-se o Dia Mundial do Turismo, este ano dedicado ao tema “Turismo e Transformação Sustentável”, salientando o poder transformador desta indústria como agente positivo de mudança, tanto nos territórios como nas comunidades.

A ideia de turismo, alicerçada no conceito romântico do Grand Tour, é relativamente recente. Os seus primórdios recuam aos conceitos de lazer e de tempo livre, uma conquista civilizacional do final do século XVIII, generalizada na burguesia do século XIX. O lazer nasce da Revolução Industrial e é precisamente a máquina a vapor que impulsionará a deslocação das elites burguesas pelos territórios europeus e além-fronteiras.

Contrariamente ao que se possa pensar, os Açores não ficaram à margem deste movimento. A sua centralidade geográfica, as paisagens, as gentes, os produtos e, no caso específico de São Miguel, as termas de águas férreas, cedo despertaram o interesse de viajantes de ambos os lados do Atlântico.

Não é necessário ser especialista na matéria, nem recorrer às obras de autores como Ricardo Madruga da Costa ou Fátima Sequeira Dias, ainda que essenciais, para compreender a antiguidade e o potencial turístico das ilhas. Basta folhear o magnífico tomo de Maria das Mercês Pacheco, Viajantes nos Açores: o olhar estrangeiro sobre as ilhas desde o século XVI, da editora Artes e Letras, para sentir a antiguidade desse fascínio insular feito de vulcões, navegações e do sortilégio das suas gentes, que fazem do turismo nos Açores uma história já com bastante mais de 100 anos.

Em 1899, São Miguel foi pioneira no país com a criação da Sociedade Propagadora de Notícias Michaelenses. A instituição dedicava-se à promoção externa da ilha através de boletins, guias e informação turística, contando com figuras como Ernesto do Canto e Eugénio do Canto e Castro como seus principais dinamizadores.

No ano de 1924 ganhou notoriedade a Viagem dos Intelectuais, promovida por José Bruno Carreiro através do Correio dos Açores, que trouxe ao arquipélago notáveis da cultura e do jornalismo nacional, que puderam conhecer in loco o seu imenso potencial turístico.

Em julho de 1933 surge a Socidedade Terra Nostra, fundada por Augusto Arruda, Agnelo Casimiro e Francisco Bicudo, e enriquecida pelo talento artístico do Eng. Manuel António de Vasconcelos. Este audacioso projeto viria a consolidar o Vale das Furnas como epicentro turístico da ilha e que, um par de anos depois, Vasco Bensaúde transformaria no grupo que até hoje enverga o estandarte da excelência do destino Açores. Uma empreitada que, pela sua ousadia, muito merecia que se lhe fizesse a verdadeira história até como legado para as gerações futuras.

Poucos anos mais tarde, alguns destes protagonistas estariam também na fundação da SATA, companhia criada com a visão estratégica de ligar os Açores ao mundo e vice-versa. Hoje, infelizmente, a empresa atravessa uma fase de agonia precipitada, com consequências imprevisíveis para a sustentabilidade turística do destino.

A partir dos anos 1970 e 1980, com a chegada dos aviões a jato e profundas mudanças políticas e sociais, o turismo açoriano entrou numa espécie de hiato evolutivo. Ao qual não foi alheio o conservadorismo da época, cujo “mota-amarelismo” via nesta indústria progressista e inclusiva uma ameaça à estabilidade de um certo atavismo e sectarismo insular avesso a muitas modernidades.

Já no nosso tempo, o contributo de figuras como Albano Cymbron e os seus “suecos” e passeios pedestres, Serge Viallelle e a observação de cetáceos, Duarte Ponte e Luís Bensaúde com os seus hotéis, para referir apenas alguns no meio de muitos, aliados à liberalização do espaço aéreo, fizeram explodir a indústria turística na região, tornando-a incontornável no desenvolvimento do arquipélago.

O próprio Governo Regional reconhece isso mesmo: em comunicado pelo Dia Mundial do Turismo, apontou que o setor já contribui para mais de 1.000 milhões de euros de riqueza anual, representando cerca de 20% do VAB regional, 17% do PIB e 17% do emprego. Números que atestam a centralidade incontornável do turismo no futuro desta região.

Contudo, é precisamente essa relevância que nos deve levar a uma reflexão séria e descomplexada sobre o presente e o futuro do turismo nos Açores. Para isso é essencial fugir tanto das propagandas laudatórias como dos pessimismos retrógrados que veem no turismo uma doença perturbadora da placidez ilhoa.

Apesar do crescimento constante nos indicadores, há sinais cada vez mais preocupantes no retrato mais abrangente do sector, que nos deviam inquietar e ponderar. Desde logo, a ausência de linhas orientadoras claras e de planeamento estratégico fragiliza o crescimento sustentado de uma atividade essencial para o nosso desenvolvimento. Falta uma visão definida sobre que destino queremos ser e que metas queremos atingir, o que deixa o setor, já de si sensível a choques externos, ainda mais vulnerável às flutuações do mercado e, em especial, dos humores das companhias aéreas. Planos sucessivamente suspensos e estratégias elegantemente desenhadas, mas nunca efetivamente aplicadas, potenciam uma espécie de caos organizado que gera deriva em vez de rumo.

Outro problema premente é a falta de uma identidade. Tardamos em compreendermo-nos como um agregado de diferentes partes e em promover-nos como tal, potenciando diferenças, em lugar de, bairrista e artificialmente, promover gateways que na verdade se canibalizam umas às outras. Por outro lado, a hegemonia de uma imagem de “destino de natureza pura” negligencia dimensões como a história, a gastronomia, o património e as especificidades culturais distintas de cada ilha, elementos fundamentais para afirmar os Açores, no seu todo, como destino europeu e atlântico de referência, em particular em mercados como o norte-americano, tão ávido de história como de natureza.

A sazonalidade constitui igualmente um desafio central. No verão IATA (final de março a final de outubro), a região dispõe de cerca de 1,16 milhões de lugares em aviões, de acordo com os dados que é possível obter, número que desce drasticamente no inverno para apenas 350 mil. Este perigosíssimo desequilíbrio estrutural põe em causa a rentabilidade do setor e trava o seu crescimento pondo em risco empresas, postos de trabalho e investimentos.

Acresce o incremento exponencial da oferta e a saturação de alojamento: nos últimos dez anos, a capacidade aumentou mais de 600%, enquanto os hóspedes cresceram apenas 130% e as dormidas 200%. Este desfasamento revela um setor desequilibrado e altamente vulnerável, apesar do discurso da “sustentabilidade” que tanto agrada aos atores políticos.

Por último temos um claro desfasamento entre a oferta de infraestruturas e a procura turística, naquilo que é uma clara desqualificação do destino causando pressão sobre o território, a qualidade de vida dos locais e a própria experiência dos visitantes. Um destino como o nosso, não pode conviver com o fecho do Ilhéu a banhos ou a poluição na praia do Monte Verde.

Combater a sazonalidade, criar metas equilibradas de crescimento e alinhar oferta e procura são hoje os principais desafios para este sector. Uma política focada apenas no curto prazo, nos investimentos imediatos e estatísticas homólogas, conduzirá inevitavelmente à massificação e descaracterização de um destino que sempre se construiu mais pela ambição dos que cá vivem do que pela cobiça dos que nos visitam.

Já para nem falar no velho e gasto tema da promoção, que não se faz sozinha, nem pode nunca deixar de se fazer, sempre, continuada e apaixonadamente.

No distante ano de 1933, o Dr. Agnelo Casimiro escrevia na revista Insula:

Turismo! Palavra mágica, que de há tempos vem eletrisando as classes micaelenses num justificado anseio de progresso regional. Podem e devem (…) aspirar com razão e sem receio a esta poderosa fonte de desenvolvimento local aquelas terras que, como a formosa ilha de Sam Miguel, encerram tantas maravilhas panorâmicas e tamanha riqueza hidrológica, gozando ainda de uma situação geográfica privilegiada, a meio caminho no imenso Atlântico, entre o Novo e Velho Mundo. (…) O que nos falta, pois? Apenas isto: preparação e propaganda. Todos o sabem também.”

Quase cem anos volvidos, este anseio em forma de aviso desse ilustre vulto do séc. XX micaelense mantém-se inusitadamente vivo e até mesmo com uma estranha e perturbadora atualidade, quando tantas e tantas vezes seguimos falhando na preparação e na qualificação do destino e negligenciando a importância da sua promoção cuidada e permanente.

Ao invés, seguimos ao sabor do vento. Infelizmente, mais da tempestade do que da bonança.

 

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Speakers' Corner 45

O Desafio Arquipelágico

Ao fim de quase trinta anos a viver nos Açores e mais de vinte como filho de açorianos no continente estou convicto de que o maior desafio que estas ilhas enfrentam, ainda hoje, é o desafio arquipelágico.

Não se trata apenas de afirmar a tão glosada e tantas vezes mal interpretada “açorianidade”, mas de construir uma verdadeira identidade arquipelágica. Una, coesa e realmente interdependente entre si. O grande desafio destas ilhas é conquistar a consciência de um arquipélago que se reconheça como tal, feito das suas nove partes, mas unido na certeza de uma realidade comum, partilhada por todos, entre o mar e a terra, e de um povo moldado na dicotomia entre os dois.

Desde os primeiros povoamentos que estas nove ilhas se mantêm de costas voltadas umas para as outras. Hoje, continuam a perder-se em bairrismos fúteis e disputas estéreis. Basta ver como as decisões políticas, seja de que natureza forem, ainda se fazem, tantas vezes, à medida da pressão local e não de uma visão arquipelágica sobre as ilhas.

E mesmo na diáspora, o açoriano só é “açoriano” para fora. Por dentro, mantém a marca indelével da sua ilha e, dentro dela, da sua freguesia. Como dizia, creio que, Daniel de Sá, pode-se tirar o homem da freguesia, mas não se consegue tirar a freguesia de dentro do homem.

Este apego telúrico, íntimo e inexpugnável, é talvez o traço mais pungente do ser açoriano. Talvez até, junto com a religiosidade, seja o mais premente. Mas, mesmo nessa religiosidade, o traço comum fragmenta-se em mil formas. Até no que poderia ser a mais unificadora das tradições, o culto do Espírito Santo, somos uma manta de retalhos. As sopas das Flores não são as mesmas que as de Santa Maria ou as da Terceira.

Ao longo dos séculos, esta fragmentação foi reforçada por divisões administrativas e políticas. No tempo das donatarias, a lógica era de feudo; mais tarde, os distritos acentuaram rivalidades, criando uma geografia mental onde “ilha vizinha” passou a ser “concorrente” e não “parceira”. Já na autonomia, a tripartição entre ilhas e cidades ecoa, de certa forma, as três pessoas do Espírito Santo, distintas, mas que raramente funcionam em verdadeira comunhão.

O grande desafio autonómico de 1976, que em breve comemoraremos (esperemos que de forma séria e não apenas celebratória e politicamente esvaziada), era e continua a ser a construção de uma verdadeira consciência de união arquipelágica. Olhando para o que foi feito nestes quase cinquenta anos, fica a sensação de que falhámos em criar um património identitário conjunto. Continuamos sem uma relação filial entre nove ilhas tão distintas e distantes, mas necessariamente dependentes umas das outras.

Se tivesse de assinalar os verdadeiros motores desse movimento eles seriam, não as formulações políticas, mas a SATA, a Universidade dos Açores e, fundamentalmente, a RTP-Açores. Cada uma, à sua maneira, fizeram mais pela ideia de Açores do que meio século de autonomia. A companhia aérea, ligando as ilhas e estas ao exterior. A universidade, dando-lhes lastro cultural, científico e diplomático, até. E a RTP-Açores, talvez a mais importante de todas, pelo conhecimento real que permitiu entre as ilhas dando-se os açorianos a conhecer entre si através dos ecrãs da televisão.

A identidade constrói-se com esse conhecimento mútuo, com partilha de sensibilidades e afectos, com o acto simples, mas poderoso, de mostrar a um açoriano do Corvo a realidade de outro em Santa Maria. E, nestes cinquenta anos, que agora se celebram, talvez tenha sido a RTP-Açores, mais do que ninguém, a conseguir esse abraço arquipelágico. Num território que vive de costas voltadas, é a televisão quem, com imagens e palavras, aproxima o que a geografia e a história tantas vezes separam.

Resta-nos esperar que talvez um dia essa união não dependa só das ondas hertzianas, mas das ondas reais de cooperação e reconhecimento mútuo e que nos viremos todos, finalmente, de frente uns para os outros.

quarta-feira, 30 de julho de 2025

Speakers' Corner 43

A heteronímia do lugar

É comum, na indústria do turismo, ensaiarem-se diversas explanações sobre a identidade dos destinos, procurando identificar com exatidão matemática as características únicas de cada lugar, a cultura, a história, as marcas do território e as idiossincrasias locais, com o objetivo de determinar a sua capacidade de atrair e fidelizar visitantes.

Nas últimas décadas, a massificação tornou-se um dos fatores mais determinantes na evolução dessas teorias. Fenómenos como a gentrificação, a desertificação e, sobretudo, a artificialização infiltram-se na identidade dos lugares, adulterando-a ou, como alguns defendem, destruindo-a. É como se os destinos passassem por uma espécie de crise de identidade, tanto do ponto de vista endógeno, na percepção que os residentes têm do seu território, como exógeno, refletindo as expetativas e fantasias de quem o visita. Uma espécie de bipolaridade beligerante entre a identidade vivida e a identidade experimentada.

No fundo, é como se o turismo se tornasse um fenómeno autofágico, consumindo-se a si próprio na sua voracidade financeira, muitas vezes dando origem à construção de uma ficção, uma heteronímia do lugar.

O lugar que o residente conhece e vive todos os dias já não é bem o mesmo que o turista visita. E o turista, por sua vez, procura algo que talvez nunca tenha existido. Uma fantasia de pureza, um postal ilustrado com cheiro a lava e sabor a mar. O destino passa então a viver uma dupla (ou tripla) personalidade: é ao mesmo tempo o que é, o que o turista deseja que seja e o que as agências de marketing juram que ele será. As dinâmicas entre turistas e residentes e os efeitos dessas relações, tanto imediatos como a médio e longo prazo, provocam uma multiplicidade de identidades que quase se consomem a si próprias. Ao ponto de já ninguém saber, com segurança, o que o lugar efetivamente é.

Esta confusão, estas personalidades sobrepostas, produzem uma nova forma de pressão sobre o território. Uma pressão que precisa de ser pensada, planeada e trabalhada se quisermos alcançar a tão proclamada sustentabilidade que tanto encanta os discursos políticos e as apresentações das agências de comunicação. E não se trata apenas de preservar o ambiente, controlar fluxos ou compilar planos diretores com números de camas e dormidas, ou estratégias de marketing com slogans sensacionais. Nem de estatísticas, tantas vezes cegas, que acumulam visitantes, mas ignoram experiências, alicerçadas numa visão estanque do destino, em vez de numa abordagem integrada, até holística, do que um território turístico e habitado pode e deve ser.

Trata-se, acima de tudo, de reconhecer essa identidade heteronímica do lugar: sendo autêntico e verdadeiro, mas também múltiplo e contraditório. Entre a vivência do residente e a ânsia do visitante, emerge uma realidade híbrida, simultaneamente genuína e desejada, com tanto de real como de ficcional. É nesta tensão que se constroem os destinos turísticos duradouros: os que sabem equilibrar, em simultâneo, a qualidade de vida de quem os habita e a qualidade da experiência de quem os visita.

Esse é o verdadeiro desafio da sustentabilidade turística: reforçar e potenciar esses dois eixos paralelos e indissociáveis. Porque, sem equilíbrio entre quem vive e quem visita, o destino colapsa. Porque, sem identidade, pouco restará para conhecer além da banal artificialização de um lugar perdido entre pragas de infestantes, águas poluídas, acessibilidades deficientes, expetativas frustradas e uma crescente hostilidade dos locais perante os visitantes.

Os Açores ainda vão a tempo de evitar os erros de um desenvolvimento turístico guiado pelo desordenamento e pela cobiça. Mas, para isso, é necessário que todos encarem esta atividade como mais do que uma nova galinha dos ovos de ouro, ou um inimigo a abater. E sim como um verdadeiro pilar de desenvolvimento futuro, capaz não só de gerar riqueza, mas, acima de tudo, de a redistribuir.

 

quarta-feira, 16 de abril de 2025

Speakers' Corner 28

O Território do Vazio

Nemésio, na sua busca pela açorianidade, identificou três tipos de açorianos – o picaroto, o terceirense e o micaelense. Sobre este último, pintou-o segurando o cabo da enxada e lavrando a terra “já penetrável ao tubérculo”. Nesta identificação telúrica das gentes açorianas há uma espécie de paradoxo insular, rodeado de mar por todos os lados o açoriano, em particular o micaelense, vira as costas ao oceano e faz-se senhor da terra, enraizando-se cada vez mais no interior da ilha e olhando o mar com distância e, muitas das vezes, temor.

A ligação do açoriano com o mar foi sempre relativamente ambígua. A condição insular obriga a um relacionamento estreito com o oceano, mas este mar, o inclemente Atlântico, onde nos situamos, castiga e enclausura. Nos Açores, posto de abastecimento nos cruzamentos entre oceanos e continentes, o mar foi sempre território de medos e angústias. De lá vinham os piratas e as tempestades, cemitério vivo de batalhas e de naufrágios e, ao longo do tempo, porta de saída de gentes rumo ao distante mundo da emigração. Mesmo a pesca, ou a cabotagem, foram sempre de subsistência ou de oportunidade, remetidas ao gueto de pequenas comunidades, tantas vezes segregadas e marginais.  

Até muito recentemente, o litoral, praias, poças e portinhos, eram lugar de baldio e atrevimento, largados à selvagem voracidade da juventude ou à ousadia da necessidade dos que aí buscavam amparo para a fome. A ideia do mar, ou desse espaço que o separa da terra, como lugar de prazer, de conforto e de alegria é extraordinariamente recente. Os Areais de Santa Bárbara são disso um exemplo, salvos por surfistas e ambientalistas da avidez dos saqueadores de areia. E é isso que explica o impressionante abandono a que tantos outros lugares, de igual ou maior potencial, foram sucessivamente deixados, ao longo de décadas, até o declínio e a ruína se apoderar de muitos deles, tal como agora, tragicamente aconteceu, no Porto de Santa Iria.

Bem sei que é injusto generalizar e que se tornou repetitivo colocar a todos nessa categoria demagógica de “os políticos”, mas o problema é que as situações são tantas e tão recorrentes, de todos os partidos, que não se consegue não utilizar esse epiteto, hoje tão depreciativo, para classificar toda uma classe de responsáveis públicos pela desgraça que se nos acometeu. O velho Porto de Santa Iria, é um dos mais belos e singulares lugares destas ilhas. Uma localização única, com uma história riquíssima. Os problemas de erosão, ou de manutenção, são conhecidos há décadas, por várias gerações de políticos, de ambos os lados do espectro partidário, com dezenas de promessas e de projetos, milhões de investimentos anunciados e o resultado foi a sua destruição, e, agora, com um novo rol de promessas e datas num caderno de encargos que inevitavelmente já não vai ser o mesmo.

Nos Açores, como as ribeiras que correm para o mar, despejam-se rios de dinheiro em coisas inúteis, em projetos horrendos, de interesse duvidoso, e sistematicamente negligencia-se o que é realmente relevante e significativo para a transformação de uma identidade e para a tão propalada sustentabilidade do arquipélago. Pegando apenas em São Miguel, a praia do Monte Verde, o Ilhéu, a Piscina das Feteiras, o Lombo Gordo, a Amora e o Degredo… e tantos outros lugares perdidos nesse “território do vazio”, como lhe chamou o historiador Alain Corbin, que é a orla marítima e o litoral.

São estes acontecimentos, tão tragicamente repetidos, que me levam a acreditar que os políticos são insensíveis à beleza, que, com o tempo, se tornam impermeáveis ao encanto dos lugares, da sua história e do legado do que nos rodeia e os devia, em absoluto, preocupar e ocupar. Talvez o que choque mais neste abandono frio e insensível do que nos é próximo e essencial não sejam as promessas incumpridas ou a farsa da sustentabilidade, mas essa ditadura demolidora do desleixo, do abandono e da simples falta de gosto.

quarta-feira, 9 de abril de 2025

Speakers' Corner 27

O ultraconservadorismo ambiental

Sábado último, um grupo de cidadãos assinou neste jornal um texto elogiando a interdição a banhos do Ilhéu de Vila Franca do Campo. Começando com uma exclamação de “Excelentes notícias!”, os autores do artigo reclamam a “devolução”, do Ilhéu, à sua “verdadeira função: um santuário natural.” Propondo que o uso balnear seria prejudicial para a biodiversidade deste “monumento geológico” e sugerindo “novas” formas de relação com o Ilhéu, “através de visitas guiadas conscientes”, escutar os silêncios, interpretação ambiental e programas de monitorização da biodiversidade marinha e terrestre do Ilhéu.

Pondo de lado alguma excitação negativa, que parece querer ver num problema de saúde-publica uma oportunidade proibicionista, há dois aspetos nesta visão ultraconservadora do ambientalismo que gostava de assinalar, pelo que, a meu ver, sinalizam de uma ideia distorcida do que são os Açores, por um lado, e do que deveria ser a preservação ambiental, por outro.

Começando por este último aspeto, existe uma corrente de pensamento que vê na interdição do acesso e da fruição da natureza o caminho para a conservação ambiental. Limite de acessos, capacidades de carga, interdições, épocas de defeso e todo um outro tipo de obstáculos à interação entre o homem e a natureza. Quase como se o estatuto de monumento, ou reserva natural fosse uma espécie de fronteira militarizada entre os bárbaros humanos, destruidores e incivilizados, e a virginal e impoluta natureza intacta das nossas nove ilhas atlânticas. Thoreau, escritor e ensaísta americano, um dos pais do transcendentalismo e ávido naturalista, escreveu, em “Walden”, um manifesto sobre a comunhão com a natureza, que buscamos a natureza para viver deliberadamente, “para afrontar apenas os factos essenciais da vida”, para aprender o que temos para ensinar, “e não, quando morrer, descobrir que não havia vivido”. Por oposição àquilo que Thoreau considerava serem as vidas de “silencioso desespero” da maioria dos homens. Precisamente, a melhor forma de proteger a natureza é educando as pessoas para sua vital importância e isso só é possível através da fruição dos seus espaços e ambientes e não se pode proteger o meio natural afastando as pessoas dele. Conservação é uma coisa, interdição é outra.

Por outro lado, a ideia errónea de que os Açores são um grande santuário natural intacto e puro é não só falsa como potencialmente perigosa. Toda a história destas ilhas é uma de interação entre homem e natureza. A virada das terras, os cultivos, a introdução de espécies, os Açores são esse moldar da natureza pelo homem e, por sua vez, da construção do homem pela natureza que o rodeia, tantas vezes castigando, outras acolhendo e nutrindo, com a sua opulência e abundância. E o Ilhéu da Vila, proteção e ancoradouro natural desde os inícios do povoamento, representa um exemplo singular dessa relação simbiótica e de interdependência entre o humano e o natural. Até 1942 a Vila Franca foi, por causa do seu Ilhéu, ancoradouro privilegiado da ilha, inclusive no interior do Ilhéu, o que levou ao rasgar de um canal de acesso logo no séc. XVI. Esta relevância levou mesmo à elaboração de um projeto para a construção de um ou mais molhes de ligação entre o Ilhéu e a ilha, para a criação de um grande porto oceânico, o que originou a criação da Companhia do Abrigo Marítimo do Ilheo de Vila Franca do Campo, da qual até a rainha D. Amélia e o rei D Fernando foram subscritores de ações. Ao longo dos séculos, o Ilhéu foi terra de cultivos, de vinha e pastoreio e, em 1933, zona de banhos e veraneio com a construção de uma casa de apoio pelo seu então proprietário António Botelho da Câmara Velho de Melo Cabral. Desde sempre o Ilhéu é parte fundamental da vivência micaelense e fonte perene dessa ligação entre homem, mar e natureza. Elogiar a sua interdição, mesmo que por ultraconservadorismo ambiental, é rejeitar a verdadeira natureza da vida insular.

 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Speakers' Corner 20

Natureza intacta e outros mitos

Por estes dias, a pacata ilha das Flores tem sido abalada por uma inusitada intempérie. Desta feita, a razão de tal rara fama são já não as intermitências meteorológicas, mas as adversidades paisagísticas e territoriais. Este furacão tem várias incidências, algumas do foro sociológico, outras jurídico, mas duas dessas questões, em particular no que concerne ao âmago da uma certa ideia de Açores, são suficientemente significativas para permitirem uma análise mais teórica, ou mesmo filosófica, se quisermos, e uma atenção que se devia expandir e generalizar às restantes ilhas.

Pelo que foi tornado público, um casal estrangeiro radicado na ilha terá vindo a adquirir uma série de terrenos privados nas imediações e acessos ao famoso Poço da Ribeira do Ferreiro. Recentemente, esses novos proprietários do local terão vindo a desenvolver uma série de trabalhos de desmatamento e limpeza do coberto vegetal, tentando restituir a paisagem ao seu uso passado. Das diferentes reações que se têm feito ouvir, primeiro nas redes sociais e depois na pantalha televisiva, as principais preocupações da população, para além de um receio de privatização do acesso ao espaço, prendem-se com a adulteração do cenário natural e a índole jurídica da posse de um cartaz turístico regional, numa dicotomia público-privada aparentemente de difícil resolução num arquipélago onde praticamente tudo é, ou já foi, privado.

A ideia da natureza pura, ou intacta, com que os Açores se têm promovido ao longo dos tempos radica num infeliz desconhecimento da história e num logro comercial baseado no mito da virgindade da nossa paisagem. Os Açores são, na verdade, um caso de estudo de uma paisagem toda ela humanizada por seiscentos anos de trabalho da mão do homem. A chegada dos primeiros povoadores é marcada, desde logo, por aquilo que ficou conhecido como a “virada das terras”, um infinitamente laborioso processo de remoção dos mantos vegetais de floresta Laurissilva autóctone e da lava, por forma a se obterem extensões de terra arável e passível ao cultivo. Este rendilhado de muros de pedra seca e terra de cultivo, do cereal à vinha, ou a atual pastagem, aqui e ali pontilhada de hortênsias e conteiras ou matas de criptomérias, espécies todas elas importadas, construído com suor ao longo dos tempos, são aquilo que hoje marca e distingue a paisagem açoriana e não podiam estar mais distantes dessa ideia romântica de natureza intacta.

O que este episódio nos devia levar a debater é precisamente que paisagem somos ou queremos ter e que território queremos promover para o estrangeiro, seja por via do turismo, seja por via do repovoamento das ilhas com populações, vegetais ou humanas, forasteiras, algo que, também, sempre caracterizou as nossas ilhas. Veja-se, por exemplo, o caso paradigmático de Thomas Hickling e o seu deslumbrante e icónico Jardim Terra-Nostra.

Por outro lado, a colaboração, ou a falta dela, entre público e privado, na gestão do território, na utilização da paisagem e na promoção de modelos de desenvolvimento para as ilhas também nos devia inquietar. A verdade é que os poderes públicos, sejam autárquicos ou autonómicos, têm-se pautado por um impressionante desleixo face ao ambiente e à paisagem, na grande maioria dos casos, do qual o mais latente talvez seja a tentativa e inexplicável abandono da reflorestação e arranjo paisagístico da bacia hidrográfica das Furnas. Se há coisa que os sucessivos governos nunca souberam fazer é preservar e desenvolver o património seja ele natural, construído ou a mistura dos dois. Basta ver o exemplo da paupérrima e cronicamente suborçamentada rede regional de museus, ou um mirabolante projeto de miradouro para a cumeeira da Lagoa do Fogo, para perceber como o Estado é mau gestor da coisa pública. Se esta interessantíssima polémica nos trouxesse reflexão contextualizada, extensível às nove ilhas do arquipélago, sobre uma ideia de futuro para os Açores, já não seria mal empregue…

 

segunda-feira, 9 de maio de 2022

Para uma História do Surf (e do Bodyboard) nos Açores

Apontamentos e Memórias 

Quem, há vinte ou trinta anos atrás, poderia imaginar que, um dia, seria possível? Para os mais antigos, como eu, aquele é e será sempre o “Pico da Ganza”. Aquele cantinho, aquele morro, aquelas ondas, eram uma espécie de refúgio escondido aonde acedíamos sob risco da própria pele, perseguidos por cães de fila, os pneus dos carros furados e rendeiros furiosos perseguindo-nos como se fossemos invasores. Só chegar ao “Pico da Ganza” já era uma realização plena da rebeldia e da inquietação punk do surf nos anos 80 e 90. O risco, o estar fora da lei, não olhar a meios, ou a ameaças, para cumprir o chamamento das ondas, das boas ondas. Uma quase libertinagem aquática e oceânica movida pelo prazer dos tubos e de deslizar naquelas ondas isoladas e desconhecidas.

Naquele tempo os Açores eram uma entidade inexistente no universo mundial do Surf. Não havia fotógrafos. As revistas chegavam com meses de atraso. As fotografias eram todas do Havai, da Califórnia, do Brasil ou de França. Os destinos eram todos distantes e exóticos, a Austrália, a Indonésia, nem sequer as Fiji, ou o Taiti, eram ainda conhecidas. Agora, o distante e exótico somos nós. E, o nosso velho “Pico da Ganza” é cartaz promocional de uma marca de pranchas de Bodyboard, com distribuição planetária. Aquilo com que nós sonhávamos, há tantos anos atrás, olhando as fotografias de outros mares e outras ondas, em oceanos diferentes do nosso, hoje, algum miúdo igual ao que fomos então, sonha ser surfista, ali, dentro de um tubo, no “Pico da Ganza”. Quem, então, haveria de dizer…

Por isso, a pergunta, então, que fica por fazer é esta: como foi possível esta evolução de 180 graus, num curto espaço de 20 anos? Como, numa região historicamente virada de costas para o mar, os desportos de ondas, Surf e Bodyboard, conseguiram esta projeção e esta relevância no seio da sociedade açoriana, influenciando decisões políticas e fazendo parte do dia-a-dia de tantas famílias e da própria sociedade açoriana e captando o interesse e a atenção do mundo do Surf um pouco por todo o globo?

Dizem-nos, os compêndios e os manuais de historiografia, que o tempo das gerações é medido em décadas. 25 anos, sensivelmente, é a duração e a mudança entre cada geração. Porém, nesta história que aqui me interessa contar o tempo mede-se em verões e as gerações mudam em dias de praia, de sol e de ondas. Em períodos de swell, ritmos de ondulação, manobras, histórias e experiências. Tudo aquilo que compõe uma vida, no fundo, que é feita de instantes e singularidades, como o primeiro take-off, o primeiro drop, o primeiro tubo, a primeira vez naquela onda inóspita e nunca antes surfada.

Não existem registos escritos sobre os primórdios longínquos do surf nos Açores. Não tivemos um Capitão Cook, nem havia aqui um outro tipo de polinésios, que escrevesse nas crónicas a agitação das ondas nas praias, baías e enseadas destas ilhas atlânticas nos idos de quinhentos. O Surf, aqui, é um fenómeno moderno e é, essencialmente, um filho da baleação. Embora ainda não esteja comprovado, por um estudo aprofundado, de fontes coevas, é seguro dizer-se que o Surf, ou essa ideia e gesto de correr vagas com auxílio de um objeto de madeira, terá, possivelmente, aportado aos Açores, Madeira e Cabo Verde, pela mão dos baleeiros do séc. XIX.

Começando a partir dos anos 30 do séc. XIX, e ao longo de toda a época de ouro da baleação americana, os grandes navios baleeiros partiam da costa este dos EUA, nomeadamente dos portos de Nantucket e New Bedford, em grandes viagens anuais de circum-navegação, que os levavam a cruzar o Atlântico e o Pacífico, em busca de caçar os grandes cetáceos e na procura de óleo, gordura e espermacete. Nessas viagens, era frequente a recolha de marinheiros originários das ilhas tendo, assim, muitos açorianos, madeirenses e cabo-verdianos chegado ao Havai levados nessas longas rotas da baleação. De igual forma, muitos americanos se fixaram nos Açores como agentes de navegação, dos quais o exemplo maior e mais significativo é, sem dúvida, a família Dabney, que se sediou na Horta.

No final do século dezanove, entre 1878 e 1887, dá-se uma grande leva de emigração açoriana e madeirense para o Havai. Famílias inteiras são contratadas pela Hawaiian Sugar Planters Association para trabalharem nos campos de cana-de-açúcar, muitos deles levando mulheres e filhos e fixando-se permanentemente nesse arquipélago do pacífico. Estima-se que neste período cerca de 10 500 portugueses se fixaram nas ilhas havaianas, até cerca de 11% da população do Havai, pelo ano de 1910, ser de ascendência portuguesa. Os portugueses, apelidados de “Pukiki” pelos nativos havaianos, levaram consigo várias tradições que, ainda hoje, se mantêm e fazem parte da cultura popular do Havai, como as “malassadas” ou o culto do “Espírito Santo”, ainda hoje celebrado, no início de maio, em vários pontos dessas ilhas do Pacífico.

O nosso cavaquinho, um instrumento originário do Minho e historicamente muito popular entre os marinheiros, por ser maneirinho e fácil de transportar, é o pai do famoso Ukelele havaiano e é seguro dizer-se que terá chegado ao Havai, precisamente, pela mão dos marinheiros portugueses das escunas baleeiras de novecentos. É, aliás, esta correlação de causas e efeitos que nos permite dizer que esses mesmos marinheiros terão tido contacto com a prática do surf no Havai, nesse tempo, e que poderão, talvez, ter trazido a mesma para as ilhas atlânticas.

Nos anos 80 do século passado era costume ver miúdos a apanhar ondas, carreiras, em pranchas improvisadas de esferovite ou em pequenas canoas, quase caixas, feitas de madeira ou de lata, no centro da baía de Rabo de Peixe. Ao que tudo indica, e pelo que era relatado pelos próprios, essa era uma prática passada entre gerações, anterior mesmo aos primeiros surfistas das ilhas. Esses relatos permitem pressupor que entre os homens do mar haveria esse conhecimento e essa tradição do divertimento nas ondas com recurso a algum tipo de “pranchas”, um conhecimento passado ao longo dos tempos, de geração em geração. Não é, portanto, inverosímil pressupor que este estreito contacto entre os povos dos dois arquipélagos, dos dois maiores oceanos, tenha levado a trocas culturais e que algum emigrante açoriano possa ter trazido, de volta, essa tradição havaiana de correr vagas de mar com o auxílio de uma prancha.

Também é possível especular que as duas grandes guerras mundiais terão trazido surfistas aos Açores. O Surf moderno tem a sua primeira expansão após os jogos olímpicos de 1912, com as tournées mundiais do campeão olímpico de natação, o havaiano Duke Kahanamoku, que popularizou o desporto, por vários países, fazendo demonstrações documentadas de surf na Califórnia, na Austrália e no norte da Europa. Durante a 1ª guerra mundial, a marinha dos EUA teve uma importante base militar na cidade de Ponta Delgada, entre 1917 e 1919, Naval Base 13 – Mid-Atlantic Naval Base Ponta Delgada, com o seu comando naval na antiga residência do Cônsul Hickling, também ele um americano radicado nos Açores, na freguesia de São Pedro, comandada pelo Almirante Herbert Owar Dunn.    

Natural de Rhode Island, Dunn era amante dos desportos náuticos, nomeadamente da vela, e podemos imaginar os marinheiros americanos a disfrutarem, nos seus momentos de lazer, das praias e das ondas das Milícias e do Pópulo, em pranchas de madeira improvisadas.

O mesmo poderá ter ocorrido durante a segunda guerra mundial, nas ilhas de Santa Maria, entre 1941 e 1945, período em que o Governo Português assinou um acordo de cedência militar, com o Governo americano, visando a cedência do aeroporto para missões de defesa do esforço de guerra dos aliados, e Terceira, na Base das Lajes, a partir de 1943, com varias centenas de militares e aviadores americanos ai estacionados, muitos deles originários da Califórnia, onde, por essa altura, o Surf era já um desporto popular e em franco crescimento.

Nos quarenta anos que mediaram entre a segunda guerra mundial e os anos oitenta o Surf nas ilhas terá sido uma atividade maioritariamente de turistas e de alguns, muito poucos, entusiastas. Velejadores e marinheiros terão certamente trazido pranchas e experimentado as ondas açorianas. Rusty Miller, o famoso e reputado surfista californiano, cruzou o Atlântico nos anos 50, num navio-escola, e passou nos Açores, embora, de acordo com o seu próprio relato, não tenha aqui surfado, mas outros como ele poderão tê-lo feito. Pedro Martins de Lima o “primeiro” surfista português, viajava regularmente aos Açores na mesma altura, para velejar, fazer caça submarina e, quem sabe, apanhar ondas com o seu amigo Leo Weitzenbaur. E, claro, temos a história épica do Carlos “Garoupa” Medeiros que, no final dos anos 40, construiu, ele próprio, uma prancha de madeira de criptoméria, inspirado pelos filmes de Hollywood do Cine-teatro Vilafranquense e surfando, solitário, as inchas no baixio sob o olhar atento e imponente do Ilhéu de Vila Franca do Campo.

Ao contrário do que se poderia pensar o conceito de lazer é extraordinariamente recente na história da humanidade. A ideia de tempo livre só entrou no léxico civilizacional há sensivelmente cento e cinquenta anos com o advento da revolução industrial e a libertação da força de trabalho. Até lá as atividades humanas, para além de comer e dormir, eram ocupadas em funções ditas reprodutivas como caçar, cultivar, transformar, comerciar, aprender, entre outras ocupações estritamente funcionais e utilitárias. Não fazer nenhum é uma conquista moderna, aliás, inscrita na Declaração Universal dos Direitos Humanos, no seu Artigo 24, em 1948, se bem que, e infelizmente, tenha muito pouco de realmente universal.

Da mesma forma, o ato de desfrutar da orla marítima, de gozar a praia, o oceano e as ondas, também só entrou nos hábitos sociais do mundo ocidental no virar do século dezanove para o século vinte. “As Praias de Portugal, guia do banhista e viajante”, de Ramalho Ortigão, teve a sua primeira edição em 1876 e seguia a então moderníssima tendência de incentivar a descoberta e usufruto da vida à beira-mar como fonte de saúde, de bem-estar e de saudável ocupação do tempo livre. Ir a banhos, como então se dizia, era para Ramalho Ortigão algo tão chique e moderno como é para nos hoje comer sushi por encomenda entregue pelo estafeta da Glovo.

Tirando o Havai e outras ilhas do Pacífico, a ideia de tirar prazer de uma atividade no mar era absolutamente estranha para todo o Ocidente. O mar era local de faina, de gesta e de labor, ou aventura. O oceano era mais um local de perigo do que de conforto, ou de alegria. O Adamastor em oposição à Ilha dos Amores que era, como o próprio nome indica, uma ilha. Terra firme e segura e luxuriante. Só no século XX o ocidente descobriu o encanto e o chamamento das ondas e a arte de ser levado por elas, ou de se levar com elas.

A minha primeira onda foi na praia do CDS, na Costa da Caparica, algures pela primavera/verão de 82 ou 83, numa prancha Suntalon do Rodrigo Carmona. Lembro-me dessa carreirinha como se fosse hoje, em linha reta desde o outside até arrojar, como um cetáceo, na areia. A paixão, que logo se transformou em vício, foi instantânea e levou a que numa Nauticampo, poucos meses depois, os meus pais me comprassem uma Atunas, azul com quilhas aparafusadas e gráficos coloridos no deck.

Comparativamente, a Atunas era um míssil ao lado da Suntalon. Com os seus rails curvos, crescent tail e nose curto, ao lado do formato charuto das Suntalon, a minha Atunas fazia-me acreditar ser um exímio corredor de vagas. No entanto, ambas eram iguais na tortura cutânea. Os decks picotados e as horas infindáveis que passávamos na água provocavam chagas profundas e dolorosas nos nossos peitos imberbes e infantis. Aqueles primeiros verões, imersos em felicidade e água salgada, foram o meu ato iniciático na religião das ondas. Para alguém, como eu, que não acredita em Deus o mar tornou-se, desde então, na minha única fé.

Um ou dois anos depois uma apendicite aguda levou-me ao bloco operatório do Hospital Santa Maria, o resultado foi a remoção do apêndice e, a minha mãe, pesarosa, ofereceu-me, em jeito de recompensa, uma Morey Boogie Mach 7-7 e um fato O’Neill, um short-john, denominado O’No, que era lindo de morrer, azul-marinho e verde-água, mas perfeitamente inútil nas águas geladas das praias do litoral de Lisboa, não que isso me preocupasse, que a vontade e a excitação de estar na água era tanta que o frio era uma coisa que não se me assistia. Para além do Rodrigo, também fazia parte desse grupo das primeiras surfadas o atual Ministro da Cultura, o Pedro Adão e Silva, os dois bodyboarders arrependidos que cedo, como São Pedro fez a Jesus, renegaram as suas pranchas, o Pedro tinha uma BZ stinger, se não me engano, e abraçaram o Surf, que era uma forma mais exigente, mais endinheirada e mais amiga das miúdas, de apanhar ondas. Eu, provavelmente por ser mais remediado, ou mais preguiçoso, deixei-me ficar pela arte dos el rolos e dos 360…

E depois, metem-se as férias, nos Açores, nos fluorescentes anos 80…

De todas as coisas que o 25 de Abril de 74 deu a Portugal, e foram muitas, e foram importantes, talvez a menos óbvia seja dizer que lhe deu a primeira verdadeira geração de surfistas nacionais. Se bem que, se tivermos em conta aquilo que o Surf representa de liberdade e afirmação pessoal, então, até fará sentido a ligação à Revolução dos Cravos. Até à revolução a evolução do Surf em território continental fez-se muito à imagem do que foi a sua evolução nas ilhas, ou se calhar até em menor escala e a um ritmo mais lento do que nas ilhas, vivendo da influência de viajantes, turistas e outros nómadas, hippies dos anos 60 e 70, na sua maioria americanos e australianos, com o ocasional francês, que corriam a costa portuguesa em busca de um sentido para a vida e no entretanto, enquanto o destino não aparecia, iam apanhando umas ondas. Eram esses viajantes que iam deixando, aqui e ali, umas pranchas, alguns ensinamentos e muitos sonhos nas cabeças dos poucos jovens surfistas portugueses.

Com o 25 de Abril, e acima de tudo com a partida para o Brasil de um número significativo de crianças e jovens, fugidos com as famílias às incógnitas do PREC, e ainda mais com o regresso desses jovens a Portugal cheios do sal, do samba e do espírito de Ipanema, é que nasceu, em pleno, o Surf em Portugal. De igual modo, nas ilhas, é esse contacto com o exterior, com a América, também com o Brasil e principalmente com o continente, Lisboa nomeadamente, que se dá a génese do Surf no arquipélago. São miúdos cujas famílias tinham contacto direto com o exterior que vão trazer não só os materiais, pranchas, fatos e outro tipo de equipamento, mas a cultura e o espírito do Surf para os Açores.

Partindo do início dos anos 80, quando eu comecei a surfar, aqui em São Miguel já havia uma meia dúzia de surfistas. O Carlos Gouveia, mais conhecido como “Perna”, um terceirense naturalizado micaelense, que surfava todos os tipos de mar com a mesma bonomia e que conseguia a coisa espantosa de ter uma namorada, mais tarde sua mulher, que aguentava horas e horas, sentada no carro, a ler, à espera dele enquanto ele surfava Rabo de Peixe clássico. Para quem conheça ou consiga imaginar o largo em frente à igreja de Rabo de Peixe em meados dos anos oitenta percebe que este é em si mesmo um feito digno de registo. O “Perna” tinha um irmão que por brincadeira apelidamos de “Braço”. O Marco Sousa e o Armindo, dois homens da vela que por isso, julgo eu, se aproximaram do Surf. O Marco depois foi também parapentista e sempre que me via, fosse onde fosse, perguntava “o que é que fazes aqui”, como se ficasse sempre espantado de me ver. Foi com o Marco e o Armindo que surfamos, pela primeira vez, nos areais de Santa Bárbara, que na altura era uma praia sem areia fruto da apanha ilegal de areia para a construção civil. Estes eram os mais velhos, por terem sensivelmente mais 10 anos do que nós.

Fazem ainda parte desta primeira geração, se assim lhes podemos chamar, o Henrique Areias. Os irmãos "Violante" Pedro e o Manuel Medeiros. O Paulo “Sagão” Ramos. O Francisco Cabral de Melo. O Paulinho “Picuruta” Santos. O Rigoberto Oliveira. O Miguel Read. Bruno Brum. Guy Costa. O Rui Horta Santos. E, o João Carlos Fraga, no Faial e o João Monjardino, na Terceira.

Depois, havia os da nossa idade. O Zé Albergaria, os irmãos Valdemar, Pedro e “Valdinho” Bettencourt d'Oliveira. O Pedro Neves. Luis Paiva. O Joao Brilhante e o Miguel “Fru”. O Paulo “Gadelha” e os “Romis”. O Zé e o Valdinho eram dois talentos natos, com uma habilidade e uma queda natural para apanhar e deslizar nas ondas e um estilo, no Surf o estilo é tudo, sem precedentes e é preciso ter em conta que nessa altura não havia filmes, nem spots na TV ou vídeos do YouTube. Não havia comparação nem orientação. Aprendíamos observando as revistas, imaginando o antes e o depois dos movimentos fixados no milésimo de segundo da fotografia. No final dos anos 80 os “valdinhos” foram, inclusive, ao Havai e trouxeram consigo de volta pranchas do Eric Arakawa, se não me engano, uma espécie de Fórmula 1 das ondas, naquele tempo.

No Bodyboard formou-se naquela altura um pequeno grupo, quase um gang, de miúdos apaixonados e havidos por apanhar ondas, onde eu me incluía quando aterrava, “o português”, na ilha, nas férias, e do qual faziam parte o André Almeida e Sousa, o Diogo Cymbron e o Bernardo Rodrigues. O Bernardo era, ainda é, aquele tipo de pessoa que é bom em tudo o que faz. Surfava melhor que nós todos, tocava guitarra, tinha boas notas e um sucesso absolutamente invejável com as raparigas, tudo coisas que nos deixava a todos a querer ser como o Bernardo. O André ficou conhecido como o “Selvagem”, o Diogo era o “Punk Rural” e a mim foi-me dada, pelo Zé “Minhoca”, a sensacional alcunha do “Pavarotti”, ou parvaroti como a minha avó Leonor gostava, ironicamente, de dizer. Paralelamente, havia o Pedro Machado, o Alvarinho e os irmãos Moniz, Joao e o seu irmão mais novo o Vasquinho, que era, também, um enorme talento natural, com um estilo de dropknee que, provavelmente, na altura, em Portugal, seria apenas comparável ao do malogrado Ricardo Horta. Uns anos mais tarde, surgiu também, o grupo dos Sousa Lima, que carregavam consigo, em doses iguais, o entusiasmo e os materiais topo de gama.

Esta é a primeira geração de surfistas a sério em São Miguel e foram estes que tornaram a imagem dos corredores de vagas algo habitual nas praias da costa sul, desde a Ribeira Quente aos Mosteiros e desbravaram, com coragem, inconsciência e muita ousadia os principais spots da costa norte - Rabo de Peixe, Areais, Monte Verde e Sta. Iria, que eram, naquele tempo, ao que se cingia o North Shore micaelense.

Este foi um tempo e uma história feita de criatividade, adolescência, bravura, asneiras, pranchas, fatos, carros inesquecíveis, viagens marcantes, escaldões, boiões de Nívea, escapadas às escondidas dos pais e dos avós, copos, festas, finos na Cascata, socos no Cheers, amassos no Pópulos e não, ninguém metia wax no cabelo, os cabelos louros e descolorados eram só dos dias inteiros passados na praia debaixo do sol….

A história da evolução do Surf moderno está intimamente ligada à evolução das tecnologias e da própria globalização. Em “The World in The Curl: An Unconventional History of Surfing”, Peter Westwick e Peter Neushul explicam bem como a invenção e o desenvolvimento de novos materiais compósitos e o acesso e liberalização de meios de deslocação no planeta, com o advento dos aviões a jato, tiveram um papel fundamental na disseminação do Surf pelo globo.

O desenvolvimento das espumas de poliuretano, fruto do esforço científico da segunda guerra, é um elemento fulcral na expansão da indústria do Surf. As espumas de poliuretano, inventadas por Otto Bayer, tiveram um papel fundamental na indústria aeronáutica do tempo da guerra, sendo que muitos dos principais centros de desenvolvimento da força aérea americana ficavam precisamente na Califórnia. Após a guerra, muitos destes engenheiros enveredaram por outros voos associando o seu conhecimento científico e de engenharia ao uso desses mesmos materiais na construção e multiplicação de pranchas.

É esta relativa facilidade na produção de equipamentos para a prática de Surf que vai permitir a sua democratização, embora este nunca tenha sido um desporto barato. Em 1971, Tom Morey, engendrou, na sua garagem no Havai, o primeiro protótipo da prancha de bodyboard a que chamou de Boogie Board, em homenagem ao Boogie Woogie, um estilo de blues do qual Tom era particularmente fã. Daí nasceu a sua marca Morey Boogie que, em 1977, vendeu à gigante fabricante de brinquedos Mattel, tornando-se o bodyboard tão ou mais popular que a Barbie e o Ken.

O acesso a materiais é fundamental para o desenvolvimento do Surf. Sem pranchas e fatos não há Surf ou Bodyboard, só bodysurf. As surf shops, nos anos oitenta, eram inexistentes nos Açores e raras em Portugal. Em Ponta Delgada a MAP uma loja de material náutico e de pesca, do Honorato, era onde, lá de quando em vez, se conseguia comprar um fato ou uns pés de pato, depois a Jamé passou a ter também algum material técnico para além do habitual surf wear, mas a maioria do material vinha de fora, principalmente dos EUA, ou do continente, dada a facilidade de muitos jovens açorianos contactarem familiares emigrados na América e pedir para enviarem, fatos e pranchas. Em Lisboa, o cenário não era muito melhor com meia dúzia de lojas espalhadas pela Costa da Caparica e no eixo linha Cascais. Esta escassez de material fazia com que as pranchas durassem anos e fossem sendo remendadas e reparadas consoante o uso e a necessidade. O mesmo com os fatos, feitos daquilo que à luz da tecnologia moderna era não polietileno fino e maleável, como o que temos hoje, mas um quase couro, duro e ressequido. Uma técnica comum para ajudar a vestir os fatos era o uso de sacos de plástico, ou meias, para melhor fazer deslizar os membros do corpo para dentro daquelas autênticas armaduras de borracha. E pazadas de creme Nívea, no pescoço e outras zonas da anatomia onde o neopreno ressequido tinha tendência a queimar a pele, como alcatrão seco, depois de horas e horas de fato vestido.

No campo das pranchas de bodyboard para além da 7-7 e da BZ Stinger, dois clássicos absolutos da altura, havia outras pranchas que despertavam a cobiça da miudagem. Turbo e Wave Rebel eram duas outras marcas que dominavam o mercado e também a Génesis, do visionário brasileiro Marcus Kal Kung. Por cá o Bernardo surfava com uma Mach 20, o modelo mais futurista da Morey, com as suas quilhas retrateis e o deck em vinil, com gráficos ao melhor estilo cyber disco dos anos 80, uma espécie de hit do Giorgio Moroder em formato prancha de bodyboard. Olhando para a prancha hoje parece um tanque de guerra, mas como ela andava e como ele a fazia andar…

O meu único encosto relativo com o mundo da “prozada”, patrocínios, marcas e campeonatos foi quando o meu tio João Augusto, ligado ao negócio da importação de alimentos para pássaros, recebeu uma proposta para representar em Portugal uma marca sul africana de waveskis, a Wave Warrior, que por sinal, na altura, estava a lançar uma gama de pranchas de bodyboard com slicks em fibra. Uma novidade absoluta no mercado, mas um flop tanto técnico como comercial. Sendo o único “surfista” da família, fui chamado para ser consultor e atleta da marca, uma aventura que foi tão rápida e curta, como fracassada.

Que eu tenha conhecimento só houve dois shapers, dignos desse nome, na ilha de São Miguel, o João Brilhante, uma das mais singulares e marcantes personagens do Surf açoriano e o Dário Correia. Claro que havia alguns curiosos e inspirados e corajosos aspirantes a shapers como os irmãos Mário e Jorge e as suas Crystal Voyagers, que, ao que sei, se auto exilaram na paradisíaca Caldeira da Fajã do Santo Cristo, e consta que o Francisco Cabral de Melo também se terá aventurado no fabrico de pranchas. Mas, nada sequer comparável aos sucessos comerciais de marcas como a Semente ou a Pólen, os dois grandes gigantes do Surf nacional nos anos 80 e 90.

Ser surfista, naquele tempo, era tratar bem do material, saber estimar e cuidar e ser vintage antes do tempo…

Rastejantes, sapos, pensos higiénicos, lombas, boogies, moreyboogies, etc., etc., eram muitos os epítetos que marcavam a “má” relação entre surfistas e bodyboarders ao longo dos loucos anos 80 e 90. O estigma era tão grande que, na verdade, a grande maioria da malta da minha geração, que começou a apanhar ondas de Bodyboard, mais tarde ou mais cedo, a certa altura da vida, passaram a fazer Surf e alguns deles hoje fazem paddle que é a versão gondoleira dos desportos de ondas, algo que só comprova que nem todas as evoluções são no sentido positivo, mas adiante.

O ponto central aqui é que o Bodyboard era tanto do ponto de vista financeiro como desportivo mais acessível do que o Surf. Por metade do preço era possível comprar uma prancha de Bodyboard e, com metade da chatice, era possível começar a curtir, verdadeiramente desfrutar, umas ondas. Como costumávamos dizer o Bodyboard era mais fácil de aprender, mas mais difícil de evoluir, enquanto no Surf a curva evolutiva era ao contrário, era mais difícil de pôr em pé, mas ir em frente, todos iam…

Ao contrário do que acontecia no continente onde a clivagem entre surfistas e “rastejantes” era mais profunda, com atritos e inimizades constantes, em muito potenciadas pelo crowd, que era já muito em praias como as da Costa ou da Linha, nos Açores, o número reduzido de gente no mar e o facto de sermos todos basicamente primos uns dos outros levava a uma mais saudável convivência entre os subgrupos de surfistas. Aliás, a única separação, a haver alguma, era entre betos e alternativos e os mistos, mais conhecidos como betos-alternativos. Embora, uma amiga minha do liceu D Pedro V tivesse a teoria que todos os surfistas eram betos e gostavam de INXS… mas já estou a fugir do tema.

Como já referi, o primeiro grupo de bodyboarders, a sério, de São Miguel era composto pelo Bernardo, o Diogo, o André, eu, quando vinha nas férias, e a inolvidável Guilhermina. A Guilhermina era o Volvo GL do pai do Bernardo que nos levava pelas estradas, ruas e canadas da ilha, as vezes em contramão, em busca de ondas, cervejas, miúdas e juventude. Os carros, aliás, são uma parte importante desta história. Para além da GL do Bernardo, havia a Renault 4L dos Albergarias, um dos, se não o mais marcante surf vehicle da ilha, durante aqueles anos, e que, para além de literalmente voar, tinha uma aparelhagem que valia mais do que o carro todo e com um bom gosto musical de fazer inveja a qualquer rádio alternativa britânica. Havia, também, um Opel Corsa, dos pais do Diogo, que eu espatifei uma vez à saída de um bar porque me apetecia pão quente às tantas da noite, mas também já estou a fugir do tema…

Antes dos carros, havia os sapatos e as boleias. Antes de alguém ter a carta, fazíamos todos cerca de um a quatro anos de diferença de idades, mas não se notava, andávamos a pé ou à boleia. Da Fajã de Baixo até ao Pópulo ainda eram um par de quilómetros que de manhã, à ida, ainda se faziam facilmente, ao fim do dia era telefonar a pedir boleia aos pais, mães e avós. Depois havia as boleias, às escondidas, para a Ribeira Grande, em carrinhas de caixa aberta de lavradores ou camiões das obras na estrada da Ribeira Grande antiga.

Nesta altura o Bernardo e o Vasquinho eram os melhores talentos na água. Logo depois surgiu uma nova geração, uns cinco anos mais novos do que nós e a quem passamos a ser nós a dar boleia, onde se destacavam o Serginho, o Ricardo “Caveira”, o Miguili, o Ivo Batista, que era tão bom na água como na grande área, e um miúdo franzino e sempre sorridente chamado Ricardo Moura. Estes putos entraram na água e no mundo do bodyboard açoriano lançando aéreos e el rolos e dando-nos calças a nós todos. E, o Moura, não fora o azar de um tímpano, poderia ter muito bem sido um dos melhores bodyboarders nacionais, quem ficou a ganhar com isso foram os rallies. O único defeito dos miúdos era gostarem de Offspring…

Logo a seguir vem uma outra leva, cheia de talento e, gosto eu de pensar, com a enorme vantagem de terem malta na água para observar, coisa que nós não tínhamos tido, a nossa foi uma aprendizagem de instinto, cassetes VHS mil vezes rebobinadas, com uns clips do Eurosport que misturavam windsurf, com Bodyboard, com Surf, e as revistas emprestadas, recortadas e mil vezes folheadas, fujo outra vez… esta segunda leva tinha o Bruno “animal”, o Corvelo, o Rijo e o Pedrim Correia, que hoje é patrocinado pela Pride, que acabou de lançar uma prancha, que só por ter uma foto do “Pico da Ganza” no slick devia, também, ter o nome dele estampado no deck.

Apesar de tudo, nos Açores, Surf e Bodyboard sempre conviveram e sempre se incentivaram um ao outro, a união faz a força e ainda bem que assim foi…

Costumo dizer que só é local quem nunca viajou. Viajar é uma parte fundamental da vivência do Surf. A ideia e a prática da viagem está, até, na génese do Surf moderno, com essa autêntica viagem de peregrinação de Duke Kahanamoku, em redor do mundo, ofertando a dádiva da arte de correr ondas aos pagãos e aos não iniciados.

Procurar ondas, na praia ao lado, naquela baía do outro lado da falésia, percorrer a costa, ou sonhar com costas distantes, em outros continentes e ilhas paradisíacas, é, também, ser surfista. Desde o filme “Endless Summer” do John Severson, estreado em 1966, que essa mística do “search”, da procura, está impressa no mais íntimo de cada surfista, de cada um de nós, aqueles que se deixaram tomar pela ânsia de conquistar a magia das ondas.

Também aqui, nestas ilhas atlânticas, a História do Surf é feita de viagens, desde os baleeiros, aos velejadores, passando por militares estacionados ou peregrinos desterrados, ou aqueles a quem eu chamo os expatriados. Até as viagens entre as ilhas ou dentro das ilhas experimentando e mapeando novos spots, novas ondas e emoções, são também uma forma de se ser verdadeiramente surfista.

O conceito dos expatriados é fundamental para compreender a evolução do Surf nos Açores. Estou a falar dos continentais que nos anos 80 e 90, por razões relacionadas com o Surf, ou não, escolhem os Açores para viver, trazendo consigo desde logo as pranchas e o hábito não sazonal de surfar. Assim de repente recordo dois nomes: o Pires dos Santos e o José Maria Pyrrait.

O João Luis Pires dos Santos era um verdadeiro profeta das ondas, alguém que dedicou a sua vida, de uma forma radical e quase monástica, a uma certa ideia e conceção das ondas e do Surf, não como um desporto, ou uma atividade de lazer, mas como uma religião. Uma quase maçonaria das vagas, com rituais de iniciação, cerimoniais secretos e conhecimentos ocultos. A paixão que tinha pelo mar e a sua visão do Surf deixou não só uma marca profunda como um legado, principalmente na ilha Terceira, mas não só, que vai para além da célebre COCOVAMA, a Confraria dos Corredores de Vagas de Mar, e que perdurará no tempo. Embora num plano muito diferente do meu, tivemos até algumas polémicas, o João Luís foi alguém que me marcou pessoalmente, pela sua cultura e desenvoltura, e que merecia uma mais justa homenagem e celebração por tudo aquilo que fez pelo Surf nos Açores.

Mas, não deixa de ser irónico como muitas vezes são estes mesmos expatriados os mais acérrimos defensores do localismo como se quisessem defender a sua pátria adotiva dos erros cometidos nas suas pátrias de origem…

O Pyrrait era outro estilo, grande, sonoro, aberto e aventureiro. O Pyrrait tornou-se açoriano pela razão mais sincera de todas, o amor. Amor as ondas, à liberdade de as viver, e amor a uma açoriana. Anos mais tarde o Pyrrait recebia-nos, a mim e ao André, em Ribeira D’Ilhas, sempre com a sua alegria e cervejas Budweiser estupidamente geladas. O Pyrrait foi também, se não estou em erro, o fotógrafo da primeira e famosa surf trip da SurfPortugal ao Açores, que se tornou lendária pela forma como alicerçou, ainda mais, na mente dos açorianos, essa ideia de que os surfistas eram uma espécie James Deans das ondas, jovens rebeldes sem causa e salvação…

A lista dos expatriados é longa e diversa, uns vieram e partiram, outros ficaram, alguns regressam, de tempos a tempos. O Hugo Valente é um de muitos professores que começaram carreira e assentaram nos Açores. A Joana Cadete e o João Silvestre. O Duarte Filipe, pai do Jácome Correia. O Marco Costa, pai da Azores Atlantic Surfers. O Zé Seabra, que, para além de ter dado início à primeira verdadeira escola de Surf de São Miguel, fora de outros projetos mais de âmbito social, como o do Luís Melo no Clube K e Clube Naval de Rabo de Peixe, ou do João Brilhante com os miúdos de São Roque, o Seabra, dizia eu, foi um desbravador de picos e alguém que nos fez a todos olhar com outros olhos para o potencial de lugares que eram, até a sua coragem e experiência o mostrar possível, vistos como insurfáveis. Uma das minhas primeiras incursões na Fajã do Araújo, algures no início dos anos 2000, foi com o Zé e o Valente, numa surfada da qual nunca na minha vida me esquecerei.

São muitos, e não é possível, nesta lista de memórias pessoais falar de todos. Hoje, talvez, dois dos mais relevantes, por razões opostas, obviamente, mas igualmente importantes, pela natureza do seu trabalho e da sua marca no panorama do Surf açoriano, são o Rodrigo Heredia, campeão europeu, profissional do Surf e das competições, que alavancou o desenvolvimento do Surf como produto turístico. E, o João Rei, artista, designer e profissional do amor pela pureza e pela alma do Surf, que importa todos os dias a candura e o espírito sulista de Sagres para estas nossas ilhas de bruma.

Eu próprio, sou de certa maneira um expatriado. Açoriano em Lisboa e Português nos Açores. Nascido de famílias micaelenses, que vinha cá nas férias, e que acertei residência permanente na ilha em 1998.

Estes são só alguns exemplos da importância destes expatriados e das viagens na construção de um universo de Surf nas ilhas, tal como as muitas viagens pontuais de surfistas estrangeiros e de revistas, como a viagem dos irmãos Greg e Rusty Long às Flores, na perseguição de um swell gigante no atlântico. E tantas outras, de revistas como a Surfing, a Surf Session e, claro, as muitas que a SurfPortugal fez ao longo dos anos.

Ainda no âmbito das viagens duas em particular. Em 1990 ou 91 um grupo gigantesco de micaelenses embarcou na fragata em Ponta Delgada rumo à Maré de Agosto. Entre eles iam um grupo substancial de surfistas e bodyboarders que, por especial alinhamento dos astros, ou sorte se quiserem, apanhou algumas das melhores e maiores inchas das últimas décadas. Instalados em tendas no forte da Praia Formosa passamos uma semana de surf, música e enamoramento só possível quando se tem 15 ou 16 anos. O swell estava tão bom que até as esquerdas, do lado este da praia, funcionaram e alguns de nós optaram por essa onda para fugir ao crowd e lançar o olho atrevido às miúdas que iam para aí fazer topless. Surfamos até não conseguir mais, comemos cachorros-quentes e latas de atum, bebemos cervejas com os Repórter Estrábico, engatamos miúdas ao som dos Trovante, e fugimos a correr com rolos de papel higiénico na mão dos donos das casas que tinham o azar de ter os portões a dar para a ribeira onde por alguma razão alguém achou que era o melhor substituto de uma casa de banho. Um grupo ficou numa tenda gigante do Diogo Cymbrn que se tornou uma espécie de quartel-general e centro de convívio todas as noites. E ficaram célebres os gemidos do Diogo, a sofrer de dores nos pés das feridas dos pés de pato, enquanto dormia com o Bernardo ao lado. Eu, o André e o João Henrique ficamos numa outra tenda, mínima, que não dava para os três, mas não fazia mal porque o João Henrique praticamente nunca dormiu lá que tinha sempre outra companhia. O João não surfava e acabou, infelizmente, como tantos outros, por se perder nesse universo infernal do consumo de drogas. Nessa viagem iam também um grupo de surfistas do continente, com o João Antas, o Miguel Fortes e, julgo eu, se a memória não me atraiçoa, os irmãos Villas-Boas. Numa onda o João Antas abriu a cabeça nas pedras, ou com a prancha, e foi ao centro de saúde suturar o escalpe para uma horas depois estar de novo na água.

Pela mesma altura, eu o Bernardo e o Diogo fomos, na pior surf trip de sempre, de expedição à ilha Terceira na esperança mal prevista de apanhar ondas em Santa Catarina não sabendo que era Verão e o Surf, como todos sabemos, é um desporto de Inverno. Dessa viagem ficam as memórias da Twins, das noites dormidas no quartel dos bombeiros e uma senhora no parque de campismo de Porto Martins ao ver-me limpar o doce de amora cujo frasco se tinha partido dentro da mochila com os dedos e a língua gritar em sobressalto e sotaque fundo da ilha: “wuei pá nã mames nos dedos que te podes cortjá…

Em 1998, quando acabei o curso, numa espécie de contrato de compra e venda com os meus pais, fui 6 meses de pranchas e mochilas as costas para os EUA e o México, na procura de viver em pleno esse sonho do Endless Summer e foi onde acabei por decidir vir viver para os Açores e onde, ainda hoje, de certa maneira, procuro ainda viver esse sonho…

O que penso que fica deste caminho é a noção de que, ao contrário de locais como a Califórnia, a Austrália, de certa forma o Brasil e o Norte de França, que desde os anos 40 viam o Surf a crescer exponencialmente, nos Açores, e até mesmo em Portugal continental, a primeira grande geração de surfistas surge no final dos anos 70, início de 80. E isso leva-me a um outro conceito importante, que é o de retorno. É no final dos anos 90, no virar do milénio, quando esta geração (a geração conhecida como do Portugal Radical) tinha acabado os cursos e regressa aos Açores, para continuar a sua vida, trabalhar, constituir família, essas coisas sérias e adultas, que se dá o primeiro grande boom, a verdadeira ignição, daquilo a que podemos chamar uma cultura de Surf na região. E, é quando podemos, com segurança, afirmar que o Surf se assume como um motor de desenvolvimento económico e social no seio da sociedade açoriana.

Ainda esta manhã, o António Benjamim, um dos sócios da surf shop Espaço Azul, me dizia que a loja fará no próximo ano 20 anos. Esta longevidade, ou como se diz em História Económica, esta sustentabilidade do mercado, só é possível porque existe desde então para cá uma comunidade, um grupo coeso e sustentado, de clientes que permite a manutenção do negócio. Não que alguma vez eles irão ficar ricos à conta disso, mas, e isto é importante, poderão certamente deixar o negócio à próxima geração.

A melhor figura para ilustrar aquilo que foram os últimos vinte e tal anos do Surf nos Açores é, inquestionavelmente, o Luis Melo. O Luís representa esse crescimento, essa evolução segura e constante que o Surf tem tido nas ilhas. Eu e o Luís coincidimos temporalmente no regresso aos Açores, ali no final dos anos 90. Nesse tempo ainda éramos meia dúzia os que surfavam regularmente e, no Inverno, não eram poucas as vezes que chegávamos aos Areais, Monte Verde ou Rabo de Peixe, dois metrões clássico off-shore e ficávamos no carro sentados à espera meia hora, uma hora, a ver se chegava mais alguém para não surfarmos sozinhos. Uma noite, no Forno, fui ter com o Luís e trocamos números de telemóvel, sim já havia telemóveis, e combinamos avisar sempre que fôssemos ao mar, foi assim, isso e o facto de eu ter ficado sem carta de condução durante um ano por o medidor de alcoolemia estar avariado…, que nos tornamos companheiros de ondas e de projetos ligados às ondas durante mais de uma década. Para além de ser uma excelente pessoa, com uma retidão e uma honestidade absolutas, que muitos confundem com altivez ou antipatia, o Luís tem uma extraordinária qualidade, a disciplina. É essa forma de estar na vida que faz do Luís não só um ótimo parceiro na água, algumas das melhores e maiores ondas que já surfei foram com ele, como um ótimo organizador e colaborador em tantos projetos como provas, campeonatos, associações e um sem número de programas. O Luís é não só o homem dos mil desportos, como o homem das múltiplas atividades. Para além de ter promovido duas escolinhas de Surf, vários campeonatos amadores e o primeiro programa de TV regional dedicado aos desportos radicais, o Alta Pressão, com a Joana Cadete e realizado pelo Bruno Correia e o Alexandre Jesus, o Luís, fruto também de ser um professor de educação física considerado por todos, trouxe para o Surf uma imagem de respeitabilidade que até então pura e simplesmente não existia.

Nos anos 2000 o associativismo ligado ao Surf era inexistente ou, na melhor das hipóteses, comatoso, nos Açores. Quando em 2008 o Rodrigo Heredia imagina trazer os campeonatos nacionais e mundiais para São Miguel, a única associação local era a recentemente ressuscitada ASSM, Associação de Surf de São Miguel, que era presidida pelo João Brilhante. Nesse momento gerou-se uma discussão, que passados todos estes anos pode parecer obtusa e disparatada, entre duas fações, ou duas ideias antagónicas do caminho que o Surf devia seguir em São Miguel e nos Açores. Por um lado, uma conceção mais conservadora e protecionista, se quisermos, que entendia que as ondas açorianas deviam ser resguardadas da massificação mediática e turística, restringindo os eventos e os campeonatos e privilegiando os locais, representada pelo João Brilhante. Do outro lado, uma ideia de que era preciso apanhar rapidamente o comboio do progresso e orientá-lo no sentido dos melhores interesses dos locais, mas não só, se não a coisa ia rebentar, como rebentou, e a malta ia ficar a ver passar o comboio, basicamente vinham os de fora fazer a festa e lançar os foguetes, para os políticos aplaudirem, e nós ficávamos a apanhar as canas. Eu, o Luís, o Vasco Medeiros e um grupo de outros malucos estávamos desse lado da barricada e foi assim que nasceu a USBA, União de Surfista e Bodyboarders dos Açores. A única agremiação de desportos de ondas que juntou surfistas e bodyboarders e não teve medo de o colocar no nome até hoje em todo o país e, creio eu, no mundo. A USBA consumiu 8 anos das nossas vidas e apesar de todos os erros e disparates, pessoalmente perdi muito dinheiro com a USBA, fomos responsáveis, junto com o Rodrigo, é certo, que era ele o detentor da licença da ASP para realizar os campeonatos e os governos só queriam era patrocinar campeonatos mundiais, mas fomos responsáveis por uma série de iniciativas que, estou certo, permitiram não só solidificar as bases da nossa comunidade de amantes dos desportos de ondas, como projetar os Açores como destino de Surf no mundo todo, mas mais importante de tudo, julgo eu, sedimentou na sociedade açoriana uma imagem do Surf e dos surfistas, nos antípodas dos hippies junkies de antigamente, mas de pessoas normais que apenas sofriam com uma paixão maluca por essa coisa louca de apanhar ondas.

Para mim, pessoalmente, ter trazido aos Açores os campeonatos nacionais e mundiais de Surf e Bodyboard, o Mundial da IBA em Santa Catarina, feito em parceria com a AST, Associação de Surf da Terceira, com o Carlos Leal à frente, uma das melhores pessoas com que tive o privilégio de me cruzar na vida, e o Paulinho Costa, uma lenda do Bodyboard nacional, ter podido trazer o Mike Stewart aos Açores e apertar a mão ao Tom Curren, entre tantas outras iniciativas maiores e mais pequenas, cursos de juízes, palestras, conferências, é algo que trarei para sempre comigo, no meu íntimo, com a certeza que é fruto, também, desse trabalho que muito do que existe hoje continua, e continuará no futuro, para outras gerações, e que os desportos de ondas e os locais onde os mesmos são praticados nunca mais serão tratados como, por exemplo, os Areais foram no passado.

E, é essa caminhada, desde ser estaleiro de construção civil para ser hoje cartaz de candidatura a Reserva Mundial de Surf, que os Areais representam, que, para mim, marca uma história absolutamente singular de como no espaço de uma geração, com uma conjugação de vontades, se consegue mudar um local, uma comunidade e apontar para um futuro melhor para todos nós…

Há pouco mais de 20 anos atrás, a praia dos Areais de Sta. Bárbara era, literalmente, um estaleiro de construção civil. Abandonada, negligenciada, deixada pelas autoridades públicas à mercê da rapina e da selvajaria de empreiteiros, rendeiros e proprietários, toda aquela linha de costa, desde Santana à Ribeira Seca, ou mesmo até ao Palheiro e às Piscinas da Ribeira Grande, abarcando o Monte Verde, era uma zona de ninguém. Ou, de quase ninguém.

Um dado histórico e sociológico que temos que compreender é que a sociedade e a cultura açoriana foram sempre pouco atreitas ao mar, receosa e temente do oceano. A construção da história açoriana fez-se ao longo dos seus quinhentos anos de ligação e de exploração da terra. Até as igrejas, na sua maioria, estão viradas de costas para o mar. O mar era de onde vinham os piratas, as tempestades e outro tipo de ameaças. Era da terra que vinha a riqueza e o mar era mais porta de saída do que de entrada dessas riquezas. Mesmo as pequenas comunidades piscatórias eram frágeis e ostracizadas, vivendo numa economia mais de subsistência do que de exportação. Os homens da baleia estavam na verdade em terra, trabalhando as vinhas e os campos quando ao longe se avistavam os bufos das baleias e se lançavam roqueiras e correrias até aos botes. E, a descoberta do mar e da orla marítima como lugar de lazer é uma conquista contemporânea, é um fenómeno recente e já nosso, dos nossos pais e não muito mais longe do que isso.

Este, para mim, é que é um dos aspetos fundamentais desta história. Este verdadeiro conto de Cinderella que leva a que um lugar sujo e abandonado seja hoje uma praia limpa, a maior parte das vezes, vigiada, protegida, com restaurantes, balneários, estacionamento, hotéis, resorts, vídeos no YouTube, cartaz de promoção turística, cenário publicitário, ex-libris de uma cidade e com surfistas na água o ano inteiro.

Apesar dos Açores terem tido contacto com o Surf desde meados do século XIX e serem certamente dos primeiros lugares do país a contar com esporádicos surfistas desde o dealbar do século XX, é só após a revolução que a orla marítima vai ganhar relevância no contexto da sociedade portuguesa e açoriana e é só com a geração do Portugal Radical que os desportos de ondas vão, lenta mas afirmativamente, ganhar peso e lastro como interlocutores respeitados no xadrez social e político.

Não estou com isto a dizer que foram os surfistas que salvaram os Areais, não foram, tanto não que o mesmo, por exemplo, não foi possível fazer com Rabo de Peixe, foram as regras de Bruxelas e as oscilações económicas que moldaram a economia no sentido de ser cada vez menos rentável extrair areia daquele local. Mas, foram certamente, também, os surfistas que dignificaram aquele local e contribuíram para que o mesmo fosse visto pelos políticos de outra maneira. E nós estávamos lá e lembro-me bem das primeiras conversas com o Ricardo Silva, na altura Presidente da Câmara Municipal, e com o Fernando Monteiro, arquiteto responsável pelo projeto, sobre a construção de um estacionamento e de um apoio de praia nos Areais e isso passou-se há pouco mais de 20 anos.

Costuma-se dizer que a única voz que os políticos realmente ouvem, e não é por vontade, é por obrigação, é a das urnas. Quando um político olha para um grupo de pessoas não vê indivíduos, nem cidadãos, vê votos. E isso, neste caso concreto, nesta história, é o elemento mais importante. A coisa mais importante na História do Surf nos Açores não foram as ondas, que as há e muitas e de qualidade, felizmente, não foram as pranchas, os fatos e os materiais mais ou menos baratos e acessíveis, não foram os dirigentes e as associações, ou os eventos com mais ou menos projeção mediática. A coisa mais importante foram os surfistas, fomos nós. Médicos, advogados, engenheiros, professores, empresários, carpinteiros, músicos, artistas, surfistas a tempo inteiro, fomos nós, foi haver gente na água o ano todo tornando natural e apetecível aos olhos dos outros, dos que nos olham de terra, a existência daqueles locais, daqueles pedaços de costa esquecidos e negligenciados durante tantos anos, décadas, e levando a um lento, mas progressivo e já não reversível virar das mentalidades açorianas de frente para o mar.

O André “Galinha”, o Sérgio Aparício, o “Xolim”, o Serginho e todos os miúdos e graúdos e turistas que nestes anos tem experimentado o batismo das ondas. O Pedro e o Almeida. Todos os putos que entraram num campeonato, o Jácome e o Nicolau, o Xico Benjamim e o Peter Helión, o Pedrim e o Rijo, o Miguel Reis, o Luís, o Afri, o Hélder, o “Tricky”. As miúdas, todas as raparigas e mulheres que se redescobriram no mar e na liberdade das ondas, uma espécie de nova emancipação no oceano. O João e o Gui e mais todos os pais e filhos e netos que vão juntos ao mar, seja de semana ou no fim-de-semana, seja na Maia ou no Baixio da Vila, nos Areais ou na Fajã do Araújo, seja em merrecas, espumas, meio-metrinho ou dois metrões, do flat ao gigante e os vagalhões do Marco Medeiros em Santana ou na Viola. A História do Surf e do Bodyboard nos Açores é feita dos seus surfistas e bodyboarders, tantos e ao mesmo tempo tão poucos, que ao longo destas últimas duas décadas conquistaram para si e deram a ganhar aos açorianos essa dádiva pura da natureza que são esses pedaços de magia em que a terra se enamora do mar em ondas…

Para quem, como eu, assistiu a essa viagem e percorreu esse caminho não deixa de ser fabuloso perceber aonde chegámos. Ainda há muito para andar, tanto para fazer. A luta pela preservação do oceano e pela defesa da orla marítima não se faz com fotos bonitas e estátuas de bronze ou slogans e prémios de belo efeito, mas de medidas concretas, obras, mesmo aquelas que ficam debaixo do chão e não dão votos, organização, planeamento e priorização de investimentos. Mas, quantos mais surfistas houver e mais empenhados eles forem, de fim-de-semana ou do ano todo, pros ou paparucos, de verão ou de inverno, maior e melhor será o futuro do Surf nos Açores. Aloha…

Vila Franca do Campo, Maio de 2022