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quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Speakers' Corner 103

Da invisibilidade

Subiu ao palco, no passado sábado, no Teatro Micaelense, a peça Filhos de Alguém, escrita a duas mãos por Nuno Costa Santos e João Pedro Porto, com encenação de Miguel Damião. A peça versa sobre dois irmãos gémeos, sem-abrigo e toxicodependentes, interpretados superiormente por Emanuel Arada e Rui Silva, que fixam residência no célebre “banco de Antero”, ali ao Campo de São Francisco, debaixo da icónica Esperança.

De entre os vários temas abordados, da pertença à identidade, a perda e o infortúnio, mas também de uma sociedade insular em mudança, onde se cruzam turismo, bairrismo, estratificação social, emigração e, sobretudo, uma crescente desestruturação social e familiar, há, contudo, uma questão que atravessa tudo isto e que me parece, paradoxalmente, ser o verdadeiro centro da peça: a invisibilidade.

Ponta Delgada vive hoje um problema grave de indigência, em grande medida amplificado pelo consumo descontrolado de novas drogas sintéticas, que se espalham pelas ruas da cidade como uma pandemia, à mesma velocidade com que as nossas respostas parecem ficar para trás. E, perante esta realidade, a nossa reação coletiva é muitas vezes a indiferença. Passamos por ela todos os dias, atravessamos o quotidiano alheados da sua presença, entre a manhã e a noite, e aprendemos a não olhar, de casa para o trabalho e do trabalho para o esquecimento coletivo. Quase como as térmitas, de que só nos lembramos quando elas entram furtivamente em nossa casa.

É aqui que Filhos de Alguém introduz uma ironia particularmente mordaz na nossa condição de observadores. Nós, espectadores, escolhemos sentar-nos confortavelmente num teatro para assistir a uma história sobre aquilo que, cá fora, fazemos precisamente por não ver. Pagamos um bilhete para que nos mostrem, sob a proteção da ficção e dentro da respeitabilidade burguesa e da luz coada de uma sala de espetáculos, uma realidade que se nos projeta na rua e que existe dia-a-dia à nossa porta. E a peça sabe disso.

Logo no início, quase imperceptivelmente, vemos desenrolar no ecrã dois sem-abrigo rebolando no “banco de Antero”. Durante alguns minutos observamo-los como quem observa um pano de fundo, até que os atores entram pela lateral da plateia quebrando de forma estridente a chamada “quarta parede”. Nesse instante, aquilo que parecia estar confinado ao palco deixa de estar. Está ali, no meio de nós.

Este artifício cénico é retomado ao longo da peça, com os atores a interpelarem diretamente o público e transforma-se numa espécie de acusação silenciosa ao próprio espectador. Em Filhos de Alguém não estamos apenas perante uma ficção, uma simples metáfora ou uma história sobre algo que suspeitamos ser real. Estamos perante uma verdade que reconhecemos, que sabemos existir e que, fora dali, tantas vezes, escolhemos não ver.

Essa é, talvez, a sua maior ironia, precisamos de ir ao teatro para que alguém nos mostre aquilo que está à nossa frente todos os dias.

A riqueza do texto destes dois nomes maiores da literatura açoriana contemporânea, está também nessa capacidade de nos colocar perante a nossa própria dualidade moral face ao infortúnio alheio. Mas é a encenação e a força, ao mesmo tempo, poética e física dos atores que transforma essa reflexão numa experiência corpórea, quase visceralmente incómoda.

Filhos de Alguém, mais do que uma peça sobre a toxicodependência (aliás um dos momentos mais cenicamente belos da peça), ou sobre o abandono social e familiar ou, mais especificamente, sobre a dificuldade intrínseca da relação filial, é sobre esta invisibilidade perturbadora em que nos transformamos enquanto comunidade e sobre essa existência marginal que escolhemos não ver. É sobre essa diferença primordial entre saber que uma coisa existe e ser obrigado a olhar para ela e agir.

No silêncio protegido do teatro, por breves momentos, escolhemos ver. Cá fora, talvez devêssemos começar a fazer o mesmo.

 

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Speakers' Corner 102

Das águas balneares

Agora que o verão que nunca verdadeiramente começou começa oficialmente a acabar, talvez seja tempo de fazer um breve balanço do que fica desta temporada estival.

Um dos indicadores mais reveladores, mais até do que essas multidões de turistas que também nunca chegaram, é a velha questão da qualidade das águas balneares. Um problema que nos atormenta ano após ano e que, este verão, voltou a revelar uma dimensão particularmente preocupante.

Das vinte e cinco águas balneares classificadas em São Miguel, apenas uma, as Piscinas Naturais da Lagoa, conseguiu apresentar uma folha limpa nas análises de qualidade da água. Se juntarmos as treze águas balneares não classificadas, mas igualmente sujeitas a análises periódicas, apenas mais uma, a Praia do Lombo Gordo, no Nordeste, conseguiu passar com distinção no teste do papel higiénico marítimo.

Ainda sem alguns dos resultados finais, que à data em que escrevo não foram publicados pelo competente departamento do Governo Regional, uma leitura preliminar dos dados disponíveis deixa-nos um quadro francamente inquietante.

Das trinta e oito localizações analisadas, sete apresentaram, pelo menos uma vez, valores de Escherichia coli ou Enterococos superiores a 500, quando o valor de referência é inferior a 15. Pelo menos quatro estiveram periodicamente encerradas durante a época balnear. Nem sequer lugares tradicionalmente associados ao cartão-postal dos Açores escaparam ao problema, como foi o caso da Caloura ou, um dos meus lugares de banhos prediletos, do Portinho do Faial da Terra.

Outros parecem ter adquirido já o estatuto de casos crónicos de insalubridade balnear, como são os casos da Vinha da Areia, Ribeira dos Pelames, Monte Verde, Mosteiros, Baixa da Areia e Ilhéu de Vila Franca do Campo.

Este último é particularmente significativo. Depois de um ano encerrado e de um sem-número de promessas atiradas ao vento por políticos de ambos os lados do azimute partidário, o Ilhéu, a pouco menos de um mês do final da época balnear, apresentava apenas quatro resultados, em dezassete análises realizadas, abaixo do limite legal. E, mais uma vez, terminará o ano sem que pareça existir uma explicação convincente para o problema, muito menos uma solução para o resolver.

Comissões de inquérito e grupos de trabalho. Investimentos de vulto em estações de tratamento e redes de esgotos anunciados por autarquias e Governo Regional. Declarações comovidas e juras de contrição. No fim, o resultado é invariavelmente o mesmo: nada. Ou, mais precisamente, mais poluição na água e ninguém verdadeiramente responsável por ela.

É difícil conciliar esta realidade com a imagem dos Açores como destino de natureza, sustentabilidade e excelência ambiental. Continuamos a vender natureza enquanto, literalmente, despejamos no mar a incapacidade de a proteger. Continuamos a dinamitar, a bombas de esgoto, o ouro que nos calhou na sorte, como se o mar não nos devolvesse sempre, mais cedo ou mais tarde, o lixo que teimamos em lhe atirar.

Esta irresponsabilidade coletiva, que tem nos responsáveis políticos os seus principais promotores, tornou-se quase uma assinatura da marca Açores. Lavamos a face em promessas e anúncios que, no fim, não dão em nada. Faz-se de conta que o problema é pontual, varre-se para debaixo do tapete e aguarda-se que a próxima análise, o próximo verão ou a próxima legislatura resolvam aquilo que todos sabem, mas teimam em não resolver.

Talvez seja mesmo uma sorte que as épocas balneares em São Miguel sejam tão ridiculamente curtas para uma ilha que se apresenta como destino de mar e de natureza. Porque, com análises destas, mais vale manter alguma distância da água. Não vá alguém mergulhar à procura dessa natureza pura e intacta açoriana e acabar, literalmente, a nadar no esgoto da nossa indiferença e incivilidade.

Ou então a estratégia é transformar a gastroenterite em produto de animação turística regional.

 

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Speakers' Corner 99

O lugar do repouso

Depois da Sagres, também o Amerigo Vespucci, tido por muitos como o mais belo navio do mundo, passou pelo horizonte da minha janela. Ancorado na ilharga do Ilhéu de Vila Franca do Campo, o imponente veleiro de três mastros, ao serviço da Marinha Militar Italiana, pousou sobre as águas, fazendo lembrar tempos idos de antigas e bravas navegações.

A passagem destes dois grandes navios, provenientes da Sail250, a celebração náutica dos 250 anos da independência dos Estados Unidos da América, faz lembrar as velhas rotas dos marinheiros dos Descobrimentos, rumando, como tantos antes deles, aos Açores e recuperando uma centralidade que as ilhas mantiveram pelo menos até ao advento da aviação a jato e que hoje parece, tantas vezes, apenas uma frase vazia na boca dos políticos em autocomplacência.

A verdade é que estas ilhas, colocadas na encruzilhada dos ventos e das correntes do Atlântico Norte, foram durante séculos ponto obrigatório de passagem para quem se aventurava a cruzar este grande e perigoso oceano. Colombo, Gama e tantos outros, como o próprio Amerigo Vespucci, em 1502, regressando de uma viagem ao Brasil ao serviço de Portugal, aportaram aos Açores para repouso dos homens e reparação das naves, nessa grande rota a que se usou chamar “volta do largo”.

Por aqui passaram piratas e navegadores, baleeiros e militares, comerciantes e emigrantes, galeões e hidroaviões. Por aqui se cruzaram as rotas das Índias, dos Brasis e das muitas Américas da abundância. Parte importante da História do mundo passou por estas ilhas. Mais do que ponto de partida ou de chegada, fomos lugar de trânsito. E, talvez por isso, um lugar de repouso na grande História dos outros.

Mas há uma outra história dentro dessa grande História que precisa de ser contada. Uma história que não é de passagem, mas de permanência. A história de um lugar onde se fixaram pessoas. Onde aportaram homens e mulheres que aqui fizeram vida, onde nasceram comunidades, se cultivou a terra, se levantaram igrejas e cidades, se construíram portos, se enfrentaram cataclismos, vulcões e tempestades. Onde se amou, sofreu e morreu. E onde, geração após geração, se construiu um lugar habitável no meio da fúria inclemente do Atlântico Norte, contra todas as expectativas e adversidades.

Porém, por destino ou fatalidade, os Açores vivem mais a história dos que partiram do que dos que ficaram. Até as agora anunciadas celebrações dos 600 anos parecem evocar mais a diáspora do que os que aqui foram vivendo ao longo de mais de seis séculos, ou, quem sabe, ainda mais.

Mais do que contar as grandezas desses outros Açores para lá do mar, precisamos, hoje mais do que nunca, de celebrar os Açores daqui. Dos agricultores e pescadores, dos comerciantes e artesãos, dos marinheiros e trabalhadores, das mulheres e das famílias, dos que, anónimos e sem constar dos livros de História, foram construindo estas ilhas contra a força dos ventos e a fúria das tempestades.

E há ainda a história dos muitos que por aqui passaram e deixaram alguma coisa de si. Os navegadores e tantos outros, viajantes, cientistas, militares, escritores, comerciantes e exploradores que encontraram nos Açores abrigo, conhecimento, alimento ou simplesmente descanso. Uns por meras horas, outros dias, outros uma vida inteira. Todos fazem parte da história deste lugar.

Talvez os 600 anos dos Açores devessem ser também uma oportunidade para contar essa outra história. Não apenas a dos que daqui partiram, mas a dos que aqui chegaram, dos que por aqui passaram e, sobretudo, dos que aqui se deixaram ficar.

Porque os Açores não foram apenas um porto de abrigo no mapa das grandes viagens. Foram lugar de passagem, mas também de permanência.

E, mais do que um lugar por onde passou a História dos outros, são um lugar onde a nossa própria História aconteceu e continua a acontecer.

Talvez seja essa a história que devêssemos celebrar hoje, antes que o passado se perca nas neblinas do futuro.

 

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Speakers' Corner 96

Órfãos da luz

A manhã levantou-se com a cor do ocaso. De uma luz tépida e baça, como um vidro fosco, impenetrável ao olhar. Um nevoeiro espesso cobria o horizonte, num prenúncio de chuva. Esse sinistro nevoeiro de Antero, essa matéria informe onde as coisas parecem perder o contorno e os homens a vontade. Um nevoeiro líquido e gotejante, ritmado pelo crepitar miúdo da chuva sobre os vidros. Essa humidade constante que repreende a vocação dos olhos para indagar. Tudo se confundia entre o mar, o céu e o horizonte, até na cor dos olhos de quem insiste em encontrar alguma coisa para lá da bruma. O mundo inteiro parecia reduzido a um único tom de branco acinzentado.

Agosto acordou espesso. Com qualquer coisa de viscoso, de enlameado pelo chuvisco morno, um persistente chuvisco piolhento que abespinha a pele e o humor. É um Agosto que faz as ilhas merecerem o seu velho epíteto de bruma. Dias sucessivos debaixo dessa névoa quente que se prende ao corpo com a fatalidade de um suor insistente. Procuramos o mar para nos refrescarmos, mas o oceano está quente e o ar tão saturado de água que quase se faz vapor. Tudo parece dissolver-se na mesma substância húmida. Os sentidos deixam de reconhecer o lugar das coisas, os hábitos perdem o rumo e as estações parecem divertir-se com a nossa necessidade de lhes dar um nome. O verão fez-se outono que saltou o inverno e perdeu-se numa primavera que nunca chegou a existir.

Talvez sempre tenha sido assim. A memória é difusa e capaz de esconder o passado na mesma névoa que cobre o horizonte. Guardo recordações vagas dos verões da infância, em que o sol também se escondia por entre as frinchas dos dias. Andávamos sempre com uma muda de roupa para remediar a chuva que teimava em voltar. Abrigávamo-nos debaixo das árvores do jardim e regressávamos a casa nas intermitências do tempo. Ficavam as tardes compridas no recato das casas, o som abafado das janelas fechadas, o cheiro da roupa húmida e a dor das otites. As tardes mornas e macilentas de Pedro da Silveira, onde o tempo parecia desistir de passar e apenas permanecia, suspenso entre a humidade das paredes e a impaciência das horas.

Quando éramos miúdos e chovia na praia escondíamos as mochilas debaixo da areia para as proteger da chuva e mergulhávamos no mar, como se a água fosse a forma mais simples de esperar que o tempo mudasse. Os mais velhos pregavam-nos amonas na água escura e nós voltávamos à superfície golpeando o ar, as lágrimas e o riso, sem imaginar que o verão pudesse alguma vez falhar-nos. Naquele tempo o verão não precisava de ser luminoso. Bastava-lhe ser nosso.

Ou talvez fôssemos nós que ainda não conhecíamos as frustrações meteorológicas da idade adulta, nem confundíamos o estado do céu com o estado da alma. A infância tem essa feliz capacidade de resistir aos humores do tempo e da natureza.

Hoje, da minha janela, não se vê o Ilhéu. O horizonte é branco-sujo, como um lençol antigo que os anos foram deixando encardir. O nevoeiro faz-se mortalha das nossas aspirações de sol e cobre-nos com um calor líquido, obstinado, quase irrespirável, com o peso de um cansaço que lentamente se entranha no corpo.

Há um peso no ar. Um fardo invisível de gotas suspensas que se cola às costas e ao pensamento. Uma gordura húmida que se deposita sobre as coisas como um lodo transparente, tornando mais lentos os gestos, mais baça a luz, mais pesado o ânimo. Somos órfãos da luz, náufragos à deriva neste arquipélago de bruma.

Talvez por isso o verão na ilha permaneça sempre inacabado. Não começa, nem acaba. Desenrola-se como a própria névoa, escondendo-se atrás de manhãs como esta, até que um dia damos por nós a sentir saudades de um tempo que talvez nunca tenha brilhado tanto quanto o recordamos. As estações vivem menos no calendário do que na memória. E a memória, como o nevoeiro, nunca faz desaparecer o tempo. Apenas o encobre até ao dia em que voltamos a ansiar por ele.

 

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Speakers' Corner 93

O Valor dos Regressos

Nos últimos dias, e ainda antes da divulgação das mais recentes análises à qualidade das águas balneares, São Miguel voltou a assistir ao encerramento de duas zonas balneares por decisão das autoridades de saúde. Somando-se a outros episódios recentes e a resultados preocupantes em várias zonas balneares de referência, começa a desenhar-se um padrão que deveria preocupar autarquias, Governo e cidadãos.

Infelizmente, na incessante discussão que vamos tendo sobre o turismo, perdemo-nos demasiadas vezes na questão das acessibilidades aéreas e esquecemo-nos de um fator ainda mais determinante para o sucesso do destino: a sua qualificação.

A qualidade de um destino não se mede apenas pelo alojamento ou pela restauração. Mede-se também pela limpeza das praias, pela conservação dos trilhos, pela qualidade das águas balneares, pela paisagem, pelo património e pela experiência global que proporciona a quem o visita. É essa experiência, no seu conjunto, que gera a melhor forma de promoção: a recomendação de quem já nos visitou. E, acima de tudo, cria aquilo que qualquer destino turístico procura, turistas que regressam, vulgarmente conhecidos no jargão do setor como repeaters.

A relação entre first timers e repeaters é um dos indicadores mais importantes da competitividade de um destino. Quem visita pela primeira vez concentra-se normalmente nos lugares mais conhecidos, contribuindo para a pressão sobre os pontos turísticos mais mediáticos. Quem regressa procura outras ilhas, novas experiências, gastronomia, património, cultura e um conhecimento mais profundo do território. É também quem permanece mais tempo, distribui melhor o seu consumo e contribui para um turismo mais sustentável.

É precisamente este valor do regresso que tendemos a esquecer nos Açores. Num arquipélago com um mercado interno reduzido e dependente da ligação aérea, fidelizar visitantes é tão importante como conquistar novos turistas.

Os aviões trazem turistas. Só a qualidade do destino os faz regressar.

Quando nos obcecamos com campanhas de promoção ou com a captação de novas rotas, esquecemo-nos de que a melhor estratégia para encher esses aviões continua a ser garantir a satisfação de quem nos visita. Um turista satisfeito não só regressa como recomenda o destino a familiares e amigos, multiplicando o impacto da sua experiência muito para além da sua própria viagem.

Segundo os dados mais recentes do OTSA, na época alta de 2025, cerca de 60% dos turistas estavam nos Açores pela primeira vez e apenas 40% repetiam a visita. E dificilmente a explicação para esta diferença estará no preço. Mais de 70% dos visitantes têm rendimentos mensais superiores a 2000€ e, destes, mais de 12% ultrapassam os 9000€. Apesar dos elevados níveis de satisfação dos inquiridos, continuamos a revelar uma capacidade relativamente modesta para transformar boas experiências em regressos.

Nos últimos anos, o setor privado fez um esforço extraordinário para qualificar a oferta turística, seja no alojamento, na restauração ou na animação. Já o investimento público ficou tristemente aquém desse esforço. Bermas de estradas degradadas, praias sem nadadores-salvadores, zonas balneares frequentemente interditas ou cobertas de algas, trilhos sem manutenção e um património histórico e cultural insuficientemente valorizado são detalhes que, somados, pesam na experiência de quem nos visita e acabam por enfraquecer a competitividade do destino no feroz mercado global.

A sustentabilidade do turismo açoriano não depende apenas da capacidade de atrair novos visitantes ou abrir novos mercados. Depende, sobretudo, da capacidade de lhes dar razões para voltar. Um destino vale verdadeiramente quando deixa de ser apenas uma descoberta e passa a ocupar um lugar permanente na memória afetiva de quem o visita. É esse, mais do que qualquer campanha de promoção ou nova rota aérea, o verdadeiro valor dos regressos.

 

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Speakers' Corner 88

Dia de Portugal e das suas Ilhas

Celebra-se hoje, nessa "mui nobre, leal e sempre constante" Angra do Heroísmo, o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. A data que já foi o Dia da Raça e, antes disso, bandeira republicana contra a monarquia pela mão do nosso muito ponta-delgadense Teófilo Braga, chega-nos agora envolta no manto da língua, da diáspora e de uma certa portugalidade consensual, suficientemente despojada de chavões identitários para não incomodar ninguém.

Este ano, as celebrações acontecem em Angra, mais precisamente no Cerrado do Bailão, vindas diretamente do Grão-Ducado do Luxemburgo, onde mais uma vez se homenageou essa diáspora portuguesa feita de sangue, suor e lágrimas, malas de cartão e magnatas da construção. A escolha foi justificada oficialmente pelos cinquenta anos das autonomias regionais. E creio tratar-se de uma escolha feliz. Não apenas pela beleza da cidade ou pela sua relevância histórica, mas porque oferece ao país uma oportunidade rara para refletir coletivamente sobre o que significam, afinal, cinco décadas de autogoverno democrático nas ilhas e sobre aquilo que estas acrescentam ao todo nacional.

Pondo de lado as pequenas polémicas protocolares e as inevitáveis suscetibilidades institucionais, que talvez se resolvessem com uma simples não comparência, tudo isso faz parte do folclore da ocasião e rapidamente será esquecido. Mais interessante será perguntar o que é efetivamente a Autonomia, como nos conduziu até aqui e que contributo trouxe à própria ideia de Portugal.

A Presidência da República justifica que a celebração nos Açores pretende sublinhar a "importância histórica, política e cultural das regiões autónomas na construção de um Portugal mais coeso, plural e solidário". Ora, se assim é, importa reconhecer que a Autonomia acrescentou horizonte e dimensão ao país. Tornou-o mais plural, mais democrático e mais capaz de assumir a sua intrínseca vocação atlântica.

Cinco décadas depois, os Açores já não são uma ameaça à unidade nacional, nem um problema político por resolver. São uma região que se governa democraticamente, administra uma parte significativa dos seus destinos e desenvolveu uma identidade política própria sem deixar de se reconhecer plenamente em Portugal.

As autonomias regionais constituem hoje uma das mais bem-sucedidas experiências, talvez a única verdadeiramente consequente, de descentralização política da democracia portuguesa. E, no entanto, persistem equívocos, de parte a parte, sobre o alcance desse autogoverno.

É precisamente por isso que importa colocar uma questão simples: se a Autonomia faz cinquenta anos e é amplamente reconhecida como uma conquista, porque continua o Estado português a comportar-se como se precisasse de manter um tutor constitucional nas ilhas?

A figura do Representante da República, independentemente de quem lhe envergue o título, permanece como uma relíquia de um tempo em que Lisboa olhava para as autonomias com a cautela e a desconfiança próprias de um vigilante de jardim-escola. Se as autonomias são suficientemente maduras para legislar, governar, administrar recursos públicos, representar os seus cidadãos e participar plenamente na vida democrática nacional, então talvez sejam também suficientemente maduras para dispensar tutelas simbólicas herdadas de uma longa tradição centralista e assumir maiores responsabilidades sobre os espaços que lhes dão razão de ser, nomeadamente o mar.

Celebrar o Dia de Portugal e os cinquenta anos da Autonomia deveria significar precisamente isso: reconhecer que o autogoverno regional fortaleceu a unidade nacional e que são também as ilhas que ampliam Portugal no mundo.

Porque, se é nobre uma nação que se celebra na figura de um poeta, maior ainda poderá ser aquela que se reconhece para além das fronteiras fixas do seu território continental, assume plenamente a sua dimensão atlântica e se abre ao mundo através do horizonte das suas ilhas e do mar que as une.

 

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Speakers' Corner 85

A salto e a sonho

Na segunda-feira passada, um recluso da cadeia de Ponta Delgada, enquanto gozava o seu tempo de pátio, apoiou-se nas paredes do ginásio e, galgando o muro, saltou por entre os buracos da rede mal remediada que envolve o estabelecimento, evadindo-se da prisão que o encarcerava. Resvalando, apressado, pela estrada, alcançou os tetrápodes da avenida e lançou-se precipitadamente ao mar.

Fugido da prisão, logo se fechou a fronteira da ilha, numa metáfora brutal da existência insular. Viver numa ilha é tanto horizonte como limite. E aquilo que não se pode transpor a salto só se consegue alcançar à força de barco e de sonho, como escreveu Manuel Ferreira.

Pondo de lado a realidade concreta desta história, de pobreza, precariedade e desinvestimento crónico numa cadeia que já ultrapassou todos os limites do razoável, até do seu próprio tempo de vida (se bem que, nestes 50 anos de autonomia, talvez estes sejam exatamente os temas de que devêssemos falar), o que esta história caricata nos traz é uma metáfora viva da nossa identidade: um homem que fugiu da prisão para se lançar ao mar e descobrir que, afinal, era a ilha que o aprisionava.

Algures na primeira metade do século passado, numa altura em que esta ilha fervilhava de ambição e empreendedorismo privado, com as forças vivas da cidade de Ponta Delgada, e da ilha no seu todo, fortemente empenhadas no seu desenvolvimento, fosse na eletrificação, no comércio, no turismo ou em planos mais vastos, como a linha de caminho-de-ferro que circundaria a ilha ou, mais tarde, as ligações aéreas que a ligariam ao mundo, um grupo de empresários e beneméritos, aqueles que alguns hoje, presos nos baús do ressabiamento, chamam pejorativamente de terratenentes, pretendeu levar a cabo a construção de um sanatório para tratamento das doenças mentais, tendo para tal desiderato convidado o ilustre cirurgião Egas Moniz a visitar a ilha.

Reza a lenda que, após um jantar oferecido em sua honra no final dessa visita e quando questionado acerca da viabilidade de tal investimento, o famoso médico, não sem alguma ironia, terá respondido que o melhor seria construir um muro à volta da ilha, suprindo assim todas as suas necessidades em matéria de sanidade mental. Ou da falta dela, acrescentaria eu.

Esta história sempre me fez rir e, ainda hoje, olhando o estado da coisa pública, muitas vezes me questiono acerca da sua acutilante perspicácia.

O facto é que os Açores, ou as suas nove ilhas, de dimensões e singularidades distintas, são um território hostil e tantas vezes inclemente com as suas gentes. Há aqui uma rudeza própria, um enclausuramento natural das esperanças que tem tanto de físico como de mental. A vida faz-se aqui da força das suas contrariedades, numa luta constante entre os elementos e a própria natureza das pessoas.

Cinquenta anos depois da instituição da Autonomia consagrada pela Constituição de 1976, os Açores vivem talvez o período mais difícil da sua frágil e curta história arquipelágica. Os bairrismos, ou, se quisermos, a luta fratricida entre São Miguel e Terceira, atingem níveis de estridência como nunca se viu, num agigantar de ressentimento e violência que põe em causa a própria integridade do projeto autonómico, com consequências futuras que temo que os próprios intervenientes, as tão propaladas elites políticas, económicas e culturais de cada burgo, pareçam não querer enxergar convenientemente.

É neste cenário de dupla insularidade que vos convido a participar no Congresso da Autonomia, iniciativa cidadã que terá lugar neste sábado, na Biblioteca Pública de Ponta Delgada, que visa pensar os Açores para lá dos muros invisíveis que fomos erguendo entre ilhas e entre nós próprios.

Porque há cadeias feitas de pedra e cimento. Mas há outras, talvez mais duras, feitas de inveja, ressentimento e pequenez. E um povo que deixa de sonhar com o horizonte acaba inevitavelmente por transformar a ilha numa prisão.

  

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Speakers' Corner 83

Sem rumo nem destino

O Presidente do Governo Regional e do PSD local, José Manuel Bolieiro, deu, na semana passada, nesse seu estilo pós-barroco de inspiração naïf, rendilhado e decorativo, uma extensa entrevista ao podcast “Política com Assinatura”, da jornalista da Antena 1, Natália Carvalho. De entre os vários temas abordados, o que sobressaiu no spin noticioso do dia foi uma pergunta estrategicamente colocada sobre o fim do prazo de validade da sua coligação de governo.

Num tom anticlimático, como quem revela um segredo de polichinelo, Bolieiro acabou por confirmar aquilo que já todos suspeitávamos e que, aliás, cada um à sua maneira, Artur Lima e Paulo Estevão já tinham, há muito, anunciado: o termo dessa ménage à trois de conveniência política entre centristas, monárquicos e sociais-democratas. A novidade foi tão pouco surpreendente que o tema acabou arrastado pela enxurrada do aumento dos combustíveis que o próprio governo de Bolieiro anunciou no dia seguinte, para exasperação dos especialistas de marketing político, enorme preocupação do próprio e desespero da carteira de todos nós.

O que surpreende neste epifenómeno político não é a sua confirmação, mas o timing. A meio de um mandato, quando todos clamam por uma remodelação que dê novo alento a uma governação caótica e destrutiva, Bolieiro opta, ao invés, por dar uma machadada final na já ínfima coesão do seu executivo. Se antes já era difícil discernir um rumo, agora teremos secretários em roda-viva, cavalgando sem rédea (literalmente, no caso do secretário da Agricultura), agindo sem nexo, cada um em função do seu próprio ganho político, em prejuízo de todos nós e dos destinos da região.

Vários comentadores já explicaram a matemática do cálculo político do presidente do Governo. Aproximando-se o fim do PRR, com uma dívida galopante, sem fim à vista para a privatização da SATA ou para as guerras na Saúde, e com a mais do que previsível continuação da curva descendente dos números do turismo ao longo do verão, culminando num orçamento praticamente impossível em outubro, José Manuel Bolieiro lança no xadrez político a hipótese de dissolução, na expectativa de ver quem cai na armadilha. Dizem os corredores que o faz para apaziguar alguns barões locais do seu partido. Outros veem nesse divórcio a esperança de uma vitória eleitoral robustecida e amplificada pela fraca implantação popular da atual oposição socialista.

O que parece é que Bolieiro, que nunca se imaginou Presidente, já se vê, neste momento, a partir para outros voos, quem sabe, num qualquer Ministério do Mar ou do Espaço, nesse Terreiro do Paço de metropolitanas mordomias. Ou, em último recurso, a chamar para junto de si o Chega, para governar sem altercação nem vergonha por mais um mandato. Algo que, suspeito, para ele, entre o que está e o que há de vir, seja mais ou menos a mesma coisa.

O que fica por revelar, para além do momento e do modo exato da queda do Governo, é como vai reagir o eleitorado a mais este cenário de caos eleitoral. Que já está toda a gente esgotada com os desvarios deste trio de incompetência, bairrismo e desnorte é um facto; mas quem vai capitalizar com isso permanece uma incógnita. Terá o PS capacidade para se impor como alternativa? Capitalizará o PSD, com o afastamento do CDS e do PPM, conseguindo uma maioria absoluta, alavancada não só na desconfiança do eleitorado na liderança dos socialistas, como também no receio dos neo-popular-fascistas do Chega? Conseguirá o CDS manter-se à custa da bandeira do bairrismo que o seu líder tanto gosta de agitar? Terá o PPM a esperança vã de preservar uma réstia de relevância? E para onde irão os votos de BE e PAN, em pleno eclipse de significância?

Não fosse tudo isto uma parte importante das nossas vidas, e até seria um jogo interessante de acompanhar. Assim, é apenas triste constatar como, sem rumo nem destino, nos vamos lenta e perigosamente aproximando do precipício final.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Speakers' Corner 79

Um dia em Como e outro tiramisù

Estava um dia claro e luminoso, de luz penetrante, sob um céu azul desassombrado, numa frígida manhã de abril. Um vento gélido e incisivo, descendo imperturbado do cume dos Alpes, trespassou-nos o rosto quando descemos os degraus do comboio na quase inconspícua vila de Varenna, vindos, logo cedo, de Milão. Descendo pela Via Imbarcadero, abeirámo-nos do terminal do ferry, com o curioso Hotel Olivedo em frente, a sua forma retangular erguendo-se, impositiva, três andares acima da envolvente, sem outros edifícios a rodeá-lo, de onde partimos para Bellagio, já no coração do Lago de Como.

Rendilhadas ao longo das margens do lago, as pequenas vilas sobem pelas colinas como ramos de vinhas antigas e amadurecidas. Grandes palacetes de nobreza reservada debruçam-se, em colunatas de inspiração romana, sobre as águas transparentes, fazendo ecoar histórias milenares de um passado sem fim. Canteiros de flores cuidadosamente tratados ornamentam jardins pontuados de árvores, limoeiros carregados de frutos reluzentes anunciam a promessa de licores agridoces. Estátuas de deuses e heróis, de nomes já esquecidos, pontuam os caminhos por onde passeamos, lenta e maravilhadamente.

Do ferry, que nos leva numa curta e pachorrenta viagem de poucos minutos, avistamos a fachada imponente do Grand Hotel Villa Serbelloni. Construído em 1850 como prenda de aniversário do conde Frizzoni, de Bérgamo, para a sua mulher, foi mais tarde adquirido pela família Bucher, da Suíça. Também conhecido como Grand Hotel Bellagio, foi, ao longo das décadas, refúgio de grandes nomes da política, das finanças e do espetáculo, como Churchill, J. F. Kennedy, os Rothschild, Clark Gable ou Al Pacino. Já na outra margem do lago, em Laglio, fica a famosa Villa Oleandra, uma mansão do século XVIII mandada construir pela família Stoppani, de Milão, e que George Clooney terá adquirido por dez milhões de dólares aos herdeiros da fortuna da maionese Heinz.

Bellagio recebe-nos com esse encantador charme italiano de ruas serpenteantes que sobem em escadarias estreitas pelas colinas íngremes, esplanadas de mesas engalanadas com toalhas impecavelmente brancas a decorar os passeios, enquanto as clássicas lanchas Vaporina, de madeira envernizada, balançam ao sabor das águas que batem suavemente no cais. Depois de um breve passeio pelas lojas, entre sedas, peles e caxemiras, subimos até à Via Centrale para almoçar no La Fontana: scialatielli alle vongole in bianco con crema di porri profumato al basilico e, para sobremesa, tiramisù.

Nesta viagem fizemos uma prova de tiramisù. Em cada restaurante, pedíamos a famosa sobremesa italiana, inventada, diz a lenda, pela dona de um bordel de Treviso, para revigorar os seus clientes, daí o lânguido nome, “levanta-me”. Com os seus palitos de la reine embebidos em café, creme de ovo, mascarpone e cacau em pó, concluímos que existem infindáveis receitas de tiramisù, todas elas saborosamente magníficas. O debate sobre qual o melhor poderia prolongar-se indefinidamente, tal como gostaríamos que esta viagem também se tivesse prolongado.

No mundo, existem muitos lugares tão ou mais deslumbrantes, mas Bellagio e as suas vilas irmãs, nas margens do Lago de Como, compõem um quadro inigualável que rivaliza, para não dizer que ultrapassa, em beleza e encanto muitos outros lugares, merecendo, por isso, uma visita pelo menos uma vez na vida.

Um dos prazeres de sair dos Açores, aliás, para além do ato em si de deixar a bruma para trás, é perceber que, apesar de toda a sua beleza e encanto, e de toda a retórica que tantas vezes nos eleva a medida absoluta de comparação, os Açores não são, de facto, o melhor ou o mais belo lugar do mundo. E talvez seja precisamente essa compreensão que dá mais valor ao regresso. Não a ilusão falaciosa da nossa superioridade ou excecionalidade, mas a consciência mais justa do lugar que realmente ocupamos no vasto rol das maravilhas do mundo.

 

quinta-feira, 19 de março de 2026

Speakers' Corner 76

Memória e futuro

“At Flores, in the Azores Sir Richard Grenville lay,” este é o primeiro verso de The Revenge: A Ballad of the Fleet, de Alfred Lord Tennyson. O poema relata os acontecimentos da célebre batalha de 1591, travada ao largo da ilha das Flores, na qual o galeão The Revenge enfrentou, isolado, uma numerosa armada espanhola, acabando por se afundar após um combate longo e desigual.

Tennyson, poeta laureado da Inglaterra vitoriana, celebra nesse poema a bravura estoica perante probabilidades esmagadoras e imortaliza não apenas a coragem, mas também a aura mítica daquele galeão, que fora anteriormente comandado pelo lendário Sir Francis Drake. Durante décadas, o poema foi leitura obrigatória nas escolas inglesas, ajudando a fixar no imaginário britânico uma certa ideia dos Açores.

Este introito poético surge a propósito de uma petição apresentada ao Parlamento Regional que propõe a criação, nos Açores, de um Museu Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática. A iniciativa cidadã procura afirmar, de forma institucional, a relevância do arquipélago na história global da navegação e, mais concretamente, na história da arqueologia subaquática. Com efeito, poucas regiões do mundo concentram um número tão significativo de naufrágios históricos e, simultaneamente, um percurso tão marcante nas campanhas arqueológicas dedicadas ao seu estudo. O mar dos Açores é um verdadeiro arquivo submerso da expansão marítima e das rotas atlânticas.

Curiosamente, também por estes dias foi notícia a intenção do autarca da Ribeira Grande de recuperar um antigo projeto de criação de um Museu da Aviação dos Açores, a erguer nas ruínas do histórico Campo de Santana, popularmente conhecido como “aerovacas”. Efetivamente, também na história da aviação nacional e internacional os Açores tiveram um papel determinante, desde os primeiros voos de travessia atlântica, passando pelas operações associadas às duas Guerras Mundiais, pelos famosos clippers da Pan Am, até à criação da SATA. A isto soma-se o papel estratégico do Aeroporto de Santa Maria e, mais recentemente, as ambições ligadas ao setor aeroespacial, que reforçam o significado da posição geoestratégica do arquipélago.

Mais do que simples lugares de memória, os museus são espaços de construção de identidade. São centros de produção de conhecimento e veículos de disseminação cultural e pedagógica que ajudam a sustentar a vitalidade intelectual de uma sociedade e a sua consciência histórica.

Nos Açores, infelizmente, a cultura e a preservação da memória coletiva têm sido, demasiadas vezes, secundarizadas, quando não mesmo remetidas para um plano de abandono e insuficiência de recursos. O resultado é que o passado vai-se dissipando lentamente na erosão do tempo e na fragilidade das intenções.

Falta-nos um compromisso consistente com o conhecimento e com a valorização plena do que fomos ao longo dos séculos. Em vésperas de assinalar os seiscentos anos do povoamento, seria oportuno que a região e, em boa verdade, o próprio país, assumisse uma aposta clara na valorização do seu património histórico. Criar novas valências museológicas, investir em programação cultural consistente e apoiar a investigação não é mera despesa, mas passos essenciais para dignificar o passado e projetar a região no futuro.

Ao contrário do que por vezes se supõe, a História não é um mero adorno que se convoca para decorar efemérides ou celebrações. É a argamassa invisível que mantém coesa a identidade de um povo. Quando devidamente instituídos e apoiados, os museus contribuem para consolidar o sentimento de pertença e são instrumentos fulcrais de afirmação cultural, social e até económica.

Num território arquipelágico como os Açores, onde a distância se faz fronteira e limite, preservar e interpretar a História é uma forma de afirmar quem somos e o lugar que ocupamos no mundo.

Valorizar a memória não é um custo, é um investimento no futuro.

 


quarta-feira, 4 de março de 2026

Speakers' Corner 74

Autonomia, retórica e responsabilidade

Em matéria de citações, a internet é o paraíso dos apócrifos. Entre milhares de frases e referências multiplicam‑se as de veracidade duvidosa até que, no caos cibernético dos memes e das páginas de citações, se constrói todo um novo cânone. Sejam autênticas ou não, há aforismos que se impõem porque, mais do que a autoria, o que conta é a forma como captam na sua solenidade um certo espírito do tempo. Vem isto a propósito de duas frases, erradamente atribuídas, que me surgiram quando tentava caracterizar o momento político atual e, em particular, aquilo que me parece ser um preocupante descontrolo discursivo do Presidente do Governo Regional em declarações públicas recentes, tão surpreendentes quanto inquietantes.

Diz‑se que Sartre terá afirmado que “quando os políticos brincam com o caos, o caos aprende a brincar com eles”. Verdade ou não, a ideia serve‑nos de aviso para quem, instrumentalizando conceitos inflamáveis, se arrisca a perder o controlo sobre eles. Nas suas últimas intervenções públicas, Bolieiro pareceu agitar no ar, qual malabarista desgovernado, noções como autonomia, soberania ou poder negocial, sem medir ponderadamente o exato alcance das palavras. A metáfora da autonomia como “cobrador do fraque”, coletando tributos à República ou insinuando portagens sobre o espaço aéreo e o alcatrão das Lajes, transforma a geografia em imposto e a autonomia em mera tarifa.

Ora, declarações políticas não são meros exercícios retóricos para consumo fácil. Têm impacto local: afetando investidores, trabalhadores e a confiança dos eleitores; impacto externo: condicionando a credibilidade da Região perante o Estado e parceiros internacionais; e, não menos importante, impacto histórico: porque as palavras ficam registadas e moldam a memória futura. Uma governação responsável deve saber pesar cada afirmação à luz dessas três dimensões.

O exemplo da utilização da Base das Lajes é elucidativo. Explorada pela Força Aérea dos Estados Unidos ao abrigo de acordos bilaterais, a Base das Lajes insere‑se num delicado quadro de compromissos internacionais. Reduzir a discussão a cenários simplistas é ignorar que cada palavra proferida por um governante regional pode ser lida fora de portas como sinal político. Num mundo volátil, a ligeireza verbal pode ter custos diplomáticos e estratégicos que ultrapassam em muito o momento mediático. E o alinhamento cego e servil aos ditames do Palácio das Necessidades, já de si ajoelhado a um qualquer Trump de serviço, corrói a credibilidade da própria autonomia.

Também no plano económico, a prudência discursiva devia ser essencial. Na Bolsa de Turismo de Lisboa, ao desvalorizar as preocupações do setor do turismo como “drama e pessimismo”, o Presidente do Governo destratou, sem vergonha ou decoro, a exatidão de dados objetivos: a saída da Ryanair, 10% de quebras nas dormidas e reduções significativas na oferta de lugares já para este verão. Quando empresários enfrentam dificuldades para pagar salários e contribuições sociais, esta narrativa surrealista soa escandalosamente a negação da realidade.

Outra frase apócrifa, desta vez atribuída a Winston Churchill, lembra que “coragem não é apenas levantar‑se e falar, mas sentar‑se e ouvir”. Talvez fosse ponderado ao Presidente do Governo compreender que governar implica consideração. Implica reconhecer que cada declaração entra no arquivo da História e pode ser citada amanhã como prova de prudência, ou de desvario.

Fechado na sua bolha de Santana, segurando periclitante o limiar de uma bancarrota, Bolieiro parece ter perdido o bom senso e o bom gosto de falar pouco, falar bem e, principalmente, entender que, mais do que gerir interesses circunstanciais ou particulares, “saber ao certo quanta parte do futuro se pode introduzir no presente é todo o segredo de um grande governo”, como escreveu Victor Hugo, o próprio, em Os Trabalhadores do Mar.

 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Speakers' Corner 62

Os Açores e a Doutrina Trump

Em dezembro de 1823, James Monroe, quinto presidente dos Estados Unidos, apresentou ao Congresso uma declaração que ficaria conhecida como Doutrina Monroe. A fórmula “América para os americanos” traduzia a reafirmação de um isolacionismo já insinuado por George Washington e desenvolvido por Thomas Jefferson, que concebera a ideia do “hemisfério americano”.

Dois séculos depois, a nova Estratégia Nacional de Segurança, um documento de pouco mais de trinta páginas divulgado na última semana, marca o regresso dessa matriz conceptual. Os EUA deixam de se apresentar como o “polícia global” a que nos habituámos desde a Segunda Guerra Mundial para, num espírito America First, colocarem o interesse nacional acima de qualquer compromisso multilateral. A prioridade passa a ser o reforço interno, assente na autonomia industrial, tecnológica e energética, reduzindo dependências externas, sobretudo da China, e protegendo cadeias de produção consideradas críticas, das novas tecnologias ao armamento.

No plano geopolítico, a estratégia recentra-se no “Hemisfério Ocidental”, recuperando de forma explícita a lógica monroísta. As Américas e o Caribe são classificadas como regiões vitais, com foco no controlo migratório, no combate ao narcotráfico e na limitação da influência de potências externas. Trata-se de uma mundivisão de blocos e zonas de influência, muito próxima, aliás, da teoria de “espaço vital” de Putin.

Quanto à Europa, o documento critica a gestão continental da imigração e da demografia, insinuando que vários governos estão a comprometer a própria “identidade civilizacional” europeia. Afirma mesmo que, em menos de vinte anos, a Europa poderá ser irreconhecível do ponto de vista político e étnico. Concorde-se ou não com esta leitura, ela revela um afastamento estratégico da sua fronteira ocidental que a União Europeia dificilmente poderá ignorar, tanto mais que, a oriente, há uma Ásia que se agiganta.

Este novo ordenamento do tabuleiro internacional coloca dilemas, mas também oportunidades, a Portugal e, de forma ainda mais acentuada, aos Açores, divididos entre uma orientação plenamente europeia ou uma vocação, ainda que por vezes tímida, assumidamente atlântica.

A verdade é que a geografia não muda com as conjunturas políticas ou ideológicas. E é precisamente essa constância que obriga a uma afirmação mais plena da centralidade atlântica do arquipélago. Durante décadas, a Base das Lajes foi encarada quase como inevitabilidade histórica, envolta numa relação romantizada com os EUA, marcada pela cooperação militar e pela nostalgia da emigração. Mas a nova-velha Doutrina Trump rompe com sentimentalismos e as alianças passam a ser tratadas como contratos comerciais, substantivamente negociáveis e passiveis de reversão.

Face a esta realidade, torna-se indispensável que qualquer negociação entre Lisboa e Washington conte com participação açoriana efetiva e qualificada e não apenas como observador turístico das reuniões da bilateral, mas como interlocutor estratégico imprescindível. Em paralelo, o arquipélago deve ser pensado como plataforma atlântica de duplo uso, civil e militar. Se os EUA valorizam o controlo de rotas, a vigilância marítima e a autonomia tecnológica, os Açores podem oferecer muito mais do que uma pista de aviação. Podem e devem ser um laboratório vivo e ponto logístico essencial para missões de longo alcance na investigação oceânica, aeroespacial e climática.

Por fim, e talvez com maior urgência do que nunca, impõe-se a diversificação das parcerias internacionais. Se Washington empurra a Europa para a periferia do xadrez global, Portugal e os Açores, pela sua proeminência atlântica, dispõem de uma rara oportunidade para aprofundar relações com um leque mais vasto de parceiros e redes científicas internacionais. Afirmando-se não como triste periferia, mas como verdadeiro carrefour estratégico num tempo e num mundo marcados pela incerteza.

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Speakers' Corner 56

Da falência à estabilidade cúmplice

O estado de quase calamidade pública da dívida regional atingiu um ponto tal que a situação se tornou digna de notícia de abertura dos telejornais nacionais. Há poucos dias, o telejornal da SIC abriu com os números dantescos deste descalabro financeiro. A dívida pública regional aumentou uns assustadores 42% em apenas quatro anos, atingindo já mais de 3.400 milhões de euros.

Destes, mais de mil milhões são da responsabilidade do atual governo regional, liderado por José Manuel Bolieiro, sustentado pela coligação PSD/CDS/PPM, com o beneplácito parlamentar do Chega e, ao que parece, surrealisticamente, também do PS-A. Mas já lá iremos.

De acordo com os especialistas, esta dívida per capita significa que cada um de nós, pobres cidadãos contribuintes, deve cerca de 14 mil euros. Um peso difícil de compreender, face ao nível dos nossos impostos e aos saldos das nossas contas bancárias. A medo, fui verificar, mas, ao que parece, são responsabilidades futuras. Não digam nada às minhas filhas, coitadas, que ainda não sabem.

Mas as más notícias não se ficam por aqui. O défice orçamental ultrapassa os 165 milhões de euros. As necessidades de financiamento da administração pública regional foram, no último ano, superiores a 247 milhões. A dívida a fornecedores já ultrapassa os 400 milhões, e o rating da Região teima em manter-se estagnado nos BBB, ou seja, as agências internacionais de avaliação financeira classificam o risco de incumprimento da Região como moderado, em contraciclo com a Madeira e a República.

A dívida da SATA já atinge os 400 milhões, e a da Portos dos Açores ronda os 270 milhões. Se juntarmos a isto o aumento do custo de vida e uma inflação que se mantém acima dos 2%, estamos perante um quadro de pré-bancarrota que nos devia preocupar a todos, todos os dias, várias vezes ao dia.

O cenário é de tal ordem que só mesmo uma revisão em alta da Lei de Finanças Regionais poderá permitir salvar a economia regional, o que, na prática, equivaleria a uma espécie de resgate financeiro, embora sem a mão pesada de uma Troika continental a pôr ordem nos nossos desmandos.

Desmandos esses que já inspiram epítetos pouco lisonjeiros. Um querido amigo, por sinal de direita, chama jocosa, mas certeiramente, ao secretário das Finanças o “Freitas das contas mal feitas”. E, nos meios empresariais, já se ouve dizer à boca pequena: “Volta Sérgio Ávila, que estás perdoado”. Porque havia dívida, é certo, mas ao menos havia dinheiro, numa espécie de indulgência retroativa a uma das figuras mais profundamente associadas ao descalabro da governação socialista. Agora, pelo contrário, há dívida, mas não há dinheiro, com muitos pequenos e médios empresários ainda à espera de receber os apoios da era Covid.

É precisamente este cenário que me leva à estratégia, ou à falta dela, do Partido Socialista. Perante esta demonstração de total incompetência e falta de horizonte do pior governo regional de sempre, o PS-Açores, pela voz do seu líder, dá a entender que está não só disponível para viabilizar o Orçamento Regional, como disposto a conceder uma espécie de livre-trânsito ao governo de Bolieiro até 2029, ao afirmar que o PS-A pretende uma longa reavaliação de “três anos sem eleições”, para, nas suas palavras, “se dar a conhecer”.

Num momento em que o Partido Socialista se devia afirmar como a única alternativa sólida de poder, dizendo “presente” neste momento crítico da vida regional, parece antes mais preocupado, com ou sem “Estados Gerais”, em salvar o seu líder do que em salvar os Açores desta deriva calamitosa em que se encontra a governação das ilhas.

É sobejamente conhecida a velha máxima de Sá Carneiro sobre a política sem ética e sem risco. Pelo que se percebe, o Partido Socialista dos Açores não parece querer correr riscos, nem parece ter vergonha de não o fazer.

Entre a bancarrota financeira e a complacência política, a Região vive à custa da dívida… e da falta de coragem.

 

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Speakers' Corner 54

As vencedoras e os vencidos

Os cenários pós-eleitorais são sempre férteis em elações, conjeturas, explicações e narrativas. Os americanos até têm um nome próprio para os profissionais que se dedicam a esta arte específica da comunicação política: os chamados spin doctors. Que é como quem diz, especialistas em dar a volta aos resultados.

Estas últimas eleições autárquicas, em particular aqui nos Açores, foram ricas em exercícios de contorcionismo verbal, sobretudo por parte dos líderes dos grandes partidos e, de forma bastante contundente, do candidato do PSD à Câmara de Ponta Delgada, todos prontos a clamar para si vitórias, mesmo que fossem vitórias de Pirro, como foi o caso.

Cada um, à sua maneira, cantou vitória, reclamando para si e para os seus os louros de mais votos, mais mandatos, uma percentagem que sobe aqui, uma freguesia ganha acolá. É o habitual nestas ocasiões, mas nem sempre é o mais justo, muito menos o mais verdadeiro.

No meu entender, o facto mais relevante destas eleições é, sem dúvida (ainda mais do que o alarme falso do CHEGA!...), a extraordinária vitória das mulheres. Nunca os Açores tiveram tantas mulheres a liderar autarquias, numa demonstração clara de uma evolução sísmica na política regional. Fátima Amorim, Ana Brum, Catarina Manito, Elisabete Nóia, Catarina Cabeceiras, Vânia Ferreira, Bárbara Chaves e Graça Melo, esta última com uma vitória tão retumbante quanto surpreendente. E, se juntarmos a isto as prestações inesperadas de Sónia Nicolau e de Lurdes Alfinete, uma tirando a maioria a Pedro Nascimento Cabral na maior autarquia dos Açores, e a outra ficando a uns escassos trezentos e poucos votos de virar a Ribeira Grande, temos uma demonstração vibrante de que foram, sem sombra de dúvida, as mulheres as grandes vencedoras desta noite eleitoral.

No campo dos derrotados, e ao contrário do que quiseram fazer parecer nos seus discursos de circunstância, José Manuel Bolieiro, Francisco César, Paulo Estêvão, José Pacheco e Pedro Nascimento Cabral saem da noite de domingo com mais razões de preocupação do que de regozijo. Por mais que o líder do PSD e do Governo queira cantar vitória, não consegue uma vitória robusta que lhe dê lastro para sobreviver às tempestades que aí vêm, nomeadamente as da SATA, da bancarrota e de um orçamento regional com mais austeridade do que o da Troika. Paulo Estêvão sofre uma derrota envergonhante no seu pequeno feudo particular, agravada pelas suspeitas que recaem sobre o seu candidato. José Pacheco ficou longe do que pretendia, ou sequer do que se esperava e, apesar de garantir a eleição para vereador em Ponta Delgada, não consegue, nem nas freguesias, as vitórias que lhe vaticinavam os observadores.

Por último, Francisco César vê o partido resvalar ainda mais no seu processo descendente que, apesar de ter mais votos do que o PSD, se traduziu na perda de câmaras, freguesias e mandatos, com a vergonha maior de ficar em terceiro lugar, atrás de Sónia Nicolau, em Ponta Delgada. Onde, aliás, seria importante que os dirigentes da secção concelhia do partido tirassem as devidas ilações da péssima condução de todo este processo.

Em Ponta Delgada, Pedro Nascimento Cabral perde dois vereadores, fica empatado com Sónia Nicolau e sofre uma queda impressionante de quase quatro mil votos. Fica agora dependente de difíceis negociações para conseguir aprovar o seu programa, tarefa árdua para alguém que já demonstrou não ter feitio para grandes diálogos.

Espero sinceramente que, neste cenário difícil que se avizinha, tanto na Câmara de Ponta Delgada como na Região, não venha a ser o PS de Francisco César a dar a mão aos desmandos de um PSD que, em conjunto, pode reivindicar os dúbios títulos de pior presidente de câmara e pior governo regional de sempre. Nem mesmo com a desculpa esfarrapada da “estabilidade”, porque a estabilidade é o refúgio dos fracos, e os Açores pedem lideranças fortes para navegar tempos de tempestades…

 

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Speakers' Corner 53

A celebração de uma identidade

Por um curioso alinhamento de datas, o país e a região vivem por estes anos uma inusitada sequência de efemérides e celebrações. Dos 50 anos do 25 de Abril, aos 600 anos do descobrimento dos Açores, passando pelos 50 anos da Autonomia Regional, e mesmo a coincidência de Ponta Delgada Capital da Cultura que acontece no próximo ano, entre 2024 e 2027, o país e a região vivem um momento ímpar de celebração da consciência coletiva que nos devia mobilizar a todos como sociedade.

Infelizmente, hoje a ideia de celebração identitária tornou-se numa espécie de anátema social. A minha geração, em particular, foi educada, em grande medida, para desconfiar da ideia de pátria. O Estado Novo apropriou-se de tal forma do nacionalismo que, depois da Revolução, o país pareceu precisar de se purgar daquela sombra do patriotismo que pairava sobre a nação como um xaile negro e opressivo. O orgulho nacional, a simples evocação da glória pátria, tornou-se suspeito, uma relíquia ideológica de um tempo de hinos, fardas, União Nacional e censura. O amor à pátria passou a soar a fascismo e a própria palavra “Portugal” foi, por muito tempo, pronunciada com embaraço, quase com constrangimento, numa surdina envergonhada só levemente aceite nas vitórias da Seleção Nacional e nos golos do Ronaldo.

A história dos últimos cinquenta anos é também a história dessa tensão entre um Portugal ensimesmado e fechado sobre si mesmo e outro, cosmopolita, aberto ao mundo e à Europa. A democracia procurou libertar-se do velho país salazarento, rural e beato, que erguia estátuas ao sacrifício e à obediência, louvando a pobreza e a grandeza do Império, trazendo para o centro da vida coletiva a ideia de um país global. Foi a Europália de 1991, a Lisboa Capital da Cultura em 1994, a Expo 98, o Euro 2004, toda uma galeria de grandes eventos internacionais que pretendiam projetar o país para o exterior, modernizando-o. Mas, ao fazê-lo, o país acabou também por perder algo de essencial e de interior, o sentido de comunidade, o sentimento de pertença, a capacidade de celebrar em conjunto os feitos e a história sem medo de parecer antiquado ou, pior ainda, conservador.

As grandes datas nacionais foram-se tornando quase incómodas. O 5 de Outubro, como vimos nestes dias, tornou-se tóxico. O 10 de Junho transformou-se num ritual sem alma, deslocado das populações, onde nem já Camões se destaca como poeta agregador das massas. Os desfiles do 25 de Abril dividem mais do que unem, com a descida da Avenida seccionada em trupes de cada identidade sectária, com os liberais a fecharem o cortejo ao estilo carro-vassoura das diferenças políticas. As comemorações oficiais tendem a ser tratadas como obrigações protocolares, com tanto de bocejo como de pompa, ou, então, meras oportunidades para ajustes de contas ideológicas com o passado. A esquerda teme parecer nacionalista; a direita fá-lo muitas vezes de forma caricatural e nostálgica, incapaz de se renovar. O resultado é que o país perdeu a capacidade de se rever ao espelho e de se aceitar em si mesmo, com as suas glórias e os seus erros, inteiro, em vez de compartimentado e envergonhado, numa paralisação autodesvalorizante que o faz fugir de si próprio.

Talvez seja por isso que as comemorações dos cinquenta anos do 25 de Abril, que poderiam e deveriam ter sido uma afirmação serena da nossa maturidade democrática, acabaram reduzidas a um eco dos traumas do passado. Entre o revisionismo e a saudade, entre a retórica da “liberdade conquistada” e o ressentimento do “25 de Novembro”, o país parece reviver a infância das suas divisões, incapaz de transformar a memória em projeto. Incapaz de sarar as feridas passadas, unindo-se num ideal comum de liberdade e democracia. Em vez disso, caímos no fosso do revanchismo revisionista, agitando ainda as velhas bandeiras da revolução contra a reação. Como se ser de Abril não fosse, afinal, ser de Portugal e vice-versa.

Até porque celebrar o passado não tem de ser um processo regressivo, feito de traumas e restituições. Pelo contrário. Celebrar é um gesto profundamente afirmativo. É reconhecer que há uma história comum, um percurso que nos precede e uma continuidade que nos sustenta. Não se trata de glorificar o passado, mas de o compreender como parte viva de quem somos e que nos transporta, com segurança, para o futuro. Celebrar é afirmar uma identidade que não precisa de ser nacionalista para ser cultural, cívica ou simplesmente nossa, individual e humana.

Há um equívoco de fundo na ideia de que o passado é um túmulo amaldiçoado de que é preciso fugir ou esquecer. O nacionalismo é uma ideologia; o sentimento de pertença, não. Um povo sem laços é apenas uma soma de indivíduos. E uma comunidade que não celebra as suas datas é uma comunidade que esquece o seu próprio caminho. A memória coletiva precisa de rituais, de símbolos e de encontros. São esses momentos, por mais cerimoniosos ou até artificiais que pareçam, que alimentam a consciência de que pertencemos a algo maior do que nós próprios.

Em 2027, os Açores celebrarão 600 anos do seu descobrimento. É uma data que poderia (e deveria) ser mais do que uma efeméride histórica: é uma oportunidade para pensar o arquipélago como um projeto comum. Porque, na verdade, a ideia de arquipélago nunca esteve totalmente consolidada. Ainda hoje, como não me canso de escrever, persiste uma visão fragmentada, quase insular, da própria autonomia, uma soma de ilhas, mais do que uma consciência coletiva de Açores.

Celebrar os 600 anos não seria apenas recordar a chegada dos primeiros navegadores; seria pensar o que significa hoje viver num território atlântico e europeu. Seria um exercício de imaginação cívica, uma oportunidade de revisitar a história para projetar o futuro. Um futuro que, para os Açores, tem tudo a ganhar em reforçar a sua ideia de conjunto e de verdadeira comunidade arquipelágica na sua circunstância de ponte entre dois mundos.

Essas celebrações poderiam ser um momento de reencontro: entre a história e o presente, entre o local e o universal. Através da cultura, da arte, da ciência, da reflexão crítica e não apenas de discursos ou cerimónias protocolares, com mais ou menos concertos e sopas do Espírito Santo, poder-se-ia afirmar uma nova forma de pertença. Uma pertença aberta, moderna, consciente da sua complexidade e das suas tensões e que abarcasse todas as ilhas desde o Corvo a Santa Maria numa verdadeira Açorianidade.

Os Açores são, afinal, um microcosmo perfeito do dilema português: entre o orgulho de existir e o receio de o declarar. Tal como o país continental, o arquipélago vive entre a vontade de se afirmar e o medo de parecer retrógrado; entre a necessidade de celebrar e o pudor de o fazer. Mas não há nada de reacionário em querer celebrar o que somos. Reacionário é desistir de nos pensarmos, é omitir essa permanente tensão de existir.

Talvez o maior legado dos cinquenta anos do 25 de Abril pudesse ser precisamente este: libertar o amor à pátria da sombra do Estado Novo e devolvê-lo à cidadania democrática. Reconciliar-nos com a ideia de que um país pode orgulhar-se de si sem se fechar, que uma ilha pode celebrar a sua história sem se isolar, que um povo pode ter símbolos sem ser escravo deles.

No próximo ano celebraremos também os 50 anos da Autonomia. Ao que se sabe, pouco ou nada está ainda pensado para esse momento fundacional da nossa contemporaneidade insular. Talvez, nos gabinetes bafientos, algum técnico superior esteja incumbido de organizar o protocolo da celebração, dos discursos, das precedências e das comendas. A nós chega-nos pouco ou quase nada do que deveria ser a celebração do nosso aniversário coletivo enquanto entidade arquipelágica, autonómica, insular, europeia e atlântica. Talvez ainda vamos a tempo.

Talvez ainda vamos também a tempo de celebrar convenientemente esse estatuto de Capital da Cultura, mesmo que os financiamentos se percam nas gavetas das insolvências governativas, que os protagonismos políticos e artísticos tentem cooptar esses gestos simbólicos, retirando-lhes a essência popular e criativa que um momento como este deveria ter. Tal como, aliás, estava previsto na sua génese: um evento agregador da pluralidade insular, fazendo de Ponta Delgada não a capital, no sentido mais retrógrado do termo, mas o epicentro, motor e centralizador da multiplicidade e diversidade insular. Uma cidade feita desses nove bairros, na feliz formulação do Nuno Costa Santos, que se revisitam e se dão a conhecer em conjunto.

Celebrar, celebrarmo-nos, não tem de ser um frete ou um embaraço. Celebrarmo-nos, a nós, como povo, arquipélago e identidade, é antes uma afirmação viva dessa Açorianidade literária que Nemésio cunhou fará agora cem anos e que hoje não vale mais do que um envergonhado prémio literário de dois mil e quinhentos euros.

Perdemo-nos tanto na espuma do presente que nos esquecemos de celebrar o passado e de ambicionar o futuro.

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Speakers' Corner 52

O Grand Tour micaelense e o futuro do turismo regional

Sábado passado assinalou-se o Dia Mundial do Turismo, este ano dedicado ao tema “Turismo e Transformação Sustentável”, salientando o poder transformador desta indústria como agente positivo de mudança, tanto nos territórios como nas comunidades.

A ideia de turismo, alicerçada no conceito romântico do Grand Tour, é relativamente recente. Os seus primórdios recuam aos conceitos de lazer e de tempo livre, uma conquista civilizacional do final do século XVIII, generalizada na burguesia do século XIX. O lazer nasce da Revolução Industrial e é precisamente a máquina a vapor que impulsionará a deslocação das elites burguesas pelos territórios europeus e além-fronteiras.

Contrariamente ao que se possa pensar, os Açores não ficaram à margem deste movimento. A sua centralidade geográfica, as paisagens, as gentes, os produtos e, no caso específico de São Miguel, as termas de águas férreas, cedo despertaram o interesse de viajantes de ambos os lados do Atlântico.

Não é necessário ser especialista na matéria, nem recorrer às obras de autores como Ricardo Madruga da Costa ou Fátima Sequeira Dias, ainda que essenciais, para compreender a antiguidade e o potencial turístico das ilhas. Basta folhear o magnífico tomo de Maria das Mercês Pacheco, Viajantes nos Açores: o olhar estrangeiro sobre as ilhas desde o século XVI, da editora Artes e Letras, para sentir a antiguidade desse fascínio insular feito de vulcões, navegações e do sortilégio das suas gentes, que fazem do turismo nos Açores uma história já com bastante mais de 100 anos.

Em 1899, São Miguel foi pioneira no país com a criação da Sociedade Propagadora de Notícias Michaelenses. A instituição dedicava-se à promoção externa da ilha através de boletins, guias e informação turística, contando com figuras como Ernesto do Canto e Eugénio do Canto e Castro como seus principais dinamizadores.

No ano de 1924 ganhou notoriedade a Viagem dos Intelectuais, promovida por José Bruno Carreiro através do Correio dos Açores, que trouxe ao arquipélago notáveis da cultura e do jornalismo nacional, que puderam conhecer in loco o seu imenso potencial turístico.

Em julho de 1933 surge a Socidedade Terra Nostra, fundada por Augusto Arruda, Agnelo Casimiro e Francisco Bicudo, e enriquecida pelo talento artístico do Eng. Manuel António de Vasconcelos. Este audacioso projeto viria a consolidar o Vale das Furnas como epicentro turístico da ilha e que, um par de anos depois, Vasco Bensaúde transformaria no grupo que até hoje enverga o estandarte da excelência do destino Açores. Uma empreitada que, pela sua ousadia, muito merecia que se lhe fizesse a verdadeira história até como legado para as gerações futuras.

Poucos anos mais tarde, alguns destes protagonistas estariam também na fundação da SATA, companhia criada com a visão estratégica de ligar os Açores ao mundo e vice-versa. Hoje, infelizmente, a empresa atravessa uma fase de agonia precipitada, com consequências imprevisíveis para a sustentabilidade turística do destino.

A partir dos anos 1970 e 1980, com a chegada dos aviões a jato e profundas mudanças políticas e sociais, o turismo açoriano entrou numa espécie de hiato evolutivo. Ao qual não foi alheio o conservadorismo da época, cujo “mota-amarelismo” via nesta indústria progressista e inclusiva uma ameaça à estabilidade de um certo atavismo e sectarismo insular avesso a muitas modernidades.

Já no nosso tempo, o contributo de figuras como Albano Cymbron e os seus “suecos” e passeios pedestres, Serge Viallelle e a observação de cetáceos, Duarte Ponte e Luís Bensaúde com os seus hotéis, para referir apenas alguns no meio de muitos, aliados à liberalização do espaço aéreo, fizeram explodir a indústria turística na região, tornando-a incontornável no desenvolvimento do arquipélago.

O próprio Governo Regional reconhece isso mesmo: em comunicado pelo Dia Mundial do Turismo, apontou que o setor já contribui para mais de 1.000 milhões de euros de riqueza anual, representando cerca de 20% do VAB regional, 17% do PIB e 17% do emprego. Números que atestam a centralidade incontornável do turismo no futuro desta região.

Contudo, é precisamente essa relevância que nos deve levar a uma reflexão séria e descomplexada sobre o presente e o futuro do turismo nos Açores. Para isso é essencial fugir tanto das propagandas laudatórias como dos pessimismos retrógrados que veem no turismo uma doença perturbadora da placidez ilhoa.

Apesar do crescimento constante nos indicadores, há sinais cada vez mais preocupantes no retrato mais abrangente do sector, que nos deviam inquietar e ponderar. Desde logo, a ausência de linhas orientadoras claras e de planeamento estratégico fragiliza o crescimento sustentado de uma atividade essencial para o nosso desenvolvimento. Falta uma visão definida sobre que destino queremos ser e que metas queremos atingir, o que deixa o setor, já de si sensível a choques externos, ainda mais vulnerável às flutuações do mercado e, em especial, dos humores das companhias aéreas. Planos sucessivamente suspensos e estratégias elegantemente desenhadas, mas nunca efetivamente aplicadas, potenciam uma espécie de caos organizado que gera deriva em vez de rumo.

Outro problema premente é a falta de uma identidade. Tardamos em compreendermo-nos como um agregado de diferentes partes e em promover-nos como tal, potenciando diferenças, em lugar de, bairrista e artificialmente, promover gateways que na verdade se canibalizam umas às outras. Por outro lado, a hegemonia de uma imagem de “destino de natureza pura” negligencia dimensões como a história, a gastronomia, o património e as especificidades culturais distintas de cada ilha, elementos fundamentais para afirmar os Açores, no seu todo, como destino europeu e atlântico de referência, em particular em mercados como o norte-americano, tão ávido de história como de natureza.

A sazonalidade constitui igualmente um desafio central. No verão IATA (final de março a final de outubro), a região dispõe de cerca de 1,16 milhões de lugares em aviões, de acordo com os dados que é possível obter, número que desce drasticamente no inverno para apenas 350 mil. Este perigosíssimo desequilíbrio estrutural põe em causa a rentabilidade do setor e trava o seu crescimento pondo em risco empresas, postos de trabalho e investimentos.

Acresce o incremento exponencial da oferta e a saturação de alojamento: nos últimos dez anos, a capacidade aumentou mais de 600%, enquanto os hóspedes cresceram apenas 130% e as dormidas 200%. Este desfasamento revela um setor desequilibrado e altamente vulnerável, apesar do discurso da “sustentabilidade” que tanto agrada aos atores políticos.

Por último temos um claro desfasamento entre a oferta de infraestruturas e a procura turística, naquilo que é uma clara desqualificação do destino causando pressão sobre o território, a qualidade de vida dos locais e a própria experiência dos visitantes. Um destino como o nosso, não pode conviver com o fecho do Ilhéu a banhos ou a poluição na praia do Monte Verde.

Combater a sazonalidade, criar metas equilibradas de crescimento e alinhar oferta e procura são hoje os principais desafios para este sector. Uma política focada apenas no curto prazo, nos investimentos imediatos e estatísticas homólogas, conduzirá inevitavelmente à massificação e descaracterização de um destino que sempre se construiu mais pela ambição dos que cá vivem do que pela cobiça dos que nos visitam.

Já para nem falar no velho e gasto tema da promoção, que não se faz sozinha, nem pode nunca deixar de se fazer, sempre, continuada e apaixonadamente.

No distante ano de 1933, o Dr. Agnelo Casimiro escrevia na revista Insula:

“Turismo! Palavra mágica, que de há tempos vem eletrisando as classes micaelenses num justificado anseio de progresso regional. Podem e devem (…) aspirar com razão e sem receio a esta poderosa fonte de desenvolvimento local aquelas terras que, como a formosa ilha de Sam Miguel, encerram tantas maravilhas panorâmicas e tamanha riqueza hidrológica, gozando ainda de uma situação geográfica privilegiada, a meio caminho no imenso Atlântico, entre o Novo e Velho Mundo. (…) O que nos falta, pois? Apenas isto: preparação e propaganda. Todos o sabem também.”

Quase cem anos volvidos, este anseio em forma de aviso desse ilustre vulto do séc. XX micaelense mantém-se inusitadamente vivo e até mesmo com uma estranha e perturbadora atualidade, quando tantas e tantas vezes seguimos falhando na preparação e na qualificação do destino e negligenciando a importância da sua promoção cuidada e permanente.

Ao invés, seguimos ao sabor do vento. Infelizmente, mais da tempestade do que da bonança.

 

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Speakers' Corner 45

O Desafio Arquipelágico

Ao fim de quase trinta anos a viver nos Açores e mais de vinte como filho de açorianos no continente estou convicto de que o maior desafio que estas ilhas enfrentam, ainda hoje, é o desafio arquipelágico.

Não se trata apenas de afirmar a tão glosada e tantas vezes mal interpretada “açorianidade”, mas de construir uma verdadeira identidade arquipelágica. Una, coesa e realmente interdependente entre si. O grande desafio destas ilhas é conquistar a consciência de um arquipélago que se reconheça como tal, feito das suas nove partes, mas unido na certeza de uma realidade comum, partilhada por todos, entre o mar e a terra, e de um povo moldado na dicotomia entre os dois.

Desde os primeiros povoamentos que estas nove ilhas se mantêm de costas voltadas umas para as outras. Hoje, continuam a perder-se em bairrismos fúteis e disputas estéreis. Basta ver como as decisões políticas, seja de que natureza forem, ainda se fazem, tantas vezes, à medida da pressão local e não de uma visão arquipelágica sobre as ilhas.

E mesmo na diáspora, o açoriano só é “açoriano” para fora. Por dentro, mantém a marca indelével da sua ilha e, dentro dela, da sua freguesia. Como dizia, creio que, Daniel de Sá, pode-se tirar o homem da freguesia, mas não se consegue tirar a freguesia de dentro do homem.

Este apego telúrico, íntimo e inexpugnável, é talvez o traço mais pungente do ser açoriano. Talvez até, junto com a religiosidade, seja o mais premente. Mas, mesmo nessa religiosidade, o traço comum fragmenta-se em mil formas. Até no que poderia ser a mais unificadora das tradições, o culto do Espírito Santo, somos uma manta de retalhos. As sopas das Flores não são as mesmas que as de Santa Maria ou as da Terceira.

Ao longo dos séculos, esta fragmentação foi reforçada por divisões administrativas e políticas. No tempo das donatarias, a lógica era de feudo; mais tarde, os distritos acentuaram rivalidades, criando uma geografia mental onde “ilha vizinha” passou a ser “concorrente” e não “parceira”. Já na autonomia, a tripartição entre ilhas e cidades ecoa, de certa forma, as três pessoas do Espírito Santo, distintas, mas que raramente funcionam em verdadeira comunhão.

O grande desafio autonómico de 1976, que em breve comemoraremos (esperemos que de forma séria e não apenas celebratória e politicamente esvaziada), era e continua a ser a construção de uma verdadeira consciência de união arquipelágica. Olhando para o que foi feito nestes quase cinquenta anos, fica a sensação de que falhámos em criar um património identitário conjunto. Continuamos sem uma relação filial entre nove ilhas tão distintas e distantes, mas necessariamente dependentes umas das outras.

Se tivesse de assinalar os verdadeiros motores desse movimento eles seriam, não as formulações políticas, mas a SATA, a Universidade dos Açores e, fundamentalmente, a RTP-Açores. Cada uma, à sua maneira, fizeram mais pela ideia de Açores do que meio século de autonomia. A companhia aérea, ligando as ilhas e estas ao exterior. A universidade, dando-lhes lastro cultural, científico e diplomático, até. E a RTP-Açores, talvez a mais importante de todas, pelo conhecimento real que permitiu entre as ilhas dando-se os açorianos a conhecer entre si através dos ecrãs da televisão.

A identidade constrói-se com esse conhecimento mútuo, com partilha de sensibilidades e afectos, com o acto simples, mas poderoso, de mostrar a um açoriano do Corvo a realidade de outro em Santa Maria. E, nestes cinquenta anos, que agora se celebram, talvez tenha sido a RTP-Açores, mais do que ninguém, a conseguir esse abraço arquipelágico. Num território que vive de costas voltadas, é a televisão quem, com imagens e palavras, aproxima o que a geografia e a história tantas vezes separam.

Resta-nos esperar que talvez um dia essa união não dependa só das ondas hertzianas, mas das ondas reais de cooperação e reconhecimento mútuo e que nos viremos todos, finalmente, de frente uns para os outros.

quarta-feira, 30 de julho de 2025

Speakers' Corner 43

A heteronímia do lugar

É comum, na indústria do turismo, ensaiarem-se diversas explanações sobre a identidade dos destinos, procurando identificar com exatidão matemática as características únicas de cada lugar, a cultura, a história, as marcas do território e as idiossincrasias locais, com o objetivo de determinar a sua capacidade de atrair e fidelizar visitantes.

Nas últimas décadas, a massificação tornou-se um dos fatores mais determinantes na evolução dessas teorias. Fenómenos como a gentrificação, a desertificação e, sobretudo, a artificialização infiltram-se na identidade dos lugares, adulterando-a ou, como alguns defendem, destruindo-a. É como se os destinos passassem por uma espécie de crise de identidade, tanto do ponto de vista endógeno, na percepção que os residentes têm do seu território, como exógeno, refletindo as expetativas e fantasias de quem o visita. Uma espécie de bipolaridade beligerante entre a identidade vivida e a identidade experimentada.

No fundo, é como se o turismo se tornasse um fenómeno autofágico, consumindo-se a si próprio na sua voracidade financeira, muitas vezes dando origem à construção de uma ficção, uma heteronímia do lugar.

O lugar que o residente conhece e vive todos os dias já não é bem o mesmo que o turista visita. E o turista, por sua vez, procura algo que talvez nunca tenha existido. Uma fantasia de pureza, um postal ilustrado com cheiro a lava e sabor a mar. O destino passa então a viver uma dupla (ou tripla) personalidade: é ao mesmo tempo o que é, o que o turista deseja que seja e o que as agências de marketing juram que ele será. As dinâmicas entre turistas e residentes e os efeitos dessas relações, tanto imediatos como a médio e longo prazo, provocam uma multiplicidade de identidades que quase se consomem a si próprias. Ao ponto de já ninguém saber, com segurança, o que o lugar efetivamente é.

Esta confusão, estas personalidades sobrepostas, produzem uma nova forma de pressão sobre o território. Uma pressão que precisa de ser pensada, planeada e trabalhada se quisermos alcançar a tão proclamada sustentabilidade que tanto encanta os discursos políticos e as apresentações das agências de comunicação. E não se trata apenas de preservar o ambiente, controlar fluxos ou compilar planos diretores com números de camas e dormidas, ou estratégias de marketing com slogans sensacionais. Nem de estatísticas, tantas vezes cegas, que acumulam visitantes, mas ignoram experiências, alicerçadas numa visão estanque do destino, em vez de numa abordagem integrada, até holística, do que um território turístico e habitado pode e deve ser.

Trata-se, acima de tudo, de reconhecer essa identidade heteronímica do lugar: sendo autêntico e verdadeiro, mas também múltiplo e contraditório. Entre a vivência do residente e a ânsia do visitante, emerge uma realidade híbrida, simultaneamente genuína e desejada, com tanto de real como de ficcional. É nesta tensão que se constroem os destinos turísticos duradouros: os que sabem equilibrar, em simultâneo, a qualidade de vida de quem os habita e a qualidade da experiência de quem os visita.

Esse é o verdadeiro desafio da sustentabilidade turística: reforçar e potenciar esses dois eixos paralelos e indissociáveis. Porque, sem equilíbrio entre quem vive e quem visita, o destino colapsa. Porque, sem identidade, pouco restará para conhecer além da banal artificialização de um lugar perdido entre pragas de infestantes, águas poluídas, acessibilidades deficientes, expetativas frustradas e uma crescente hostilidade dos locais perante os visitantes.

Os Açores ainda vão a tempo de evitar os erros de um desenvolvimento turístico guiado pelo desordenamento e pela cobiça. Mas, para isso, é necessário que todos encarem esta atividade como mais do que uma nova galinha dos ovos de ouro, ou um inimigo a abater. E sim como um verdadeiro pilar de desenvolvimento futuro, capaz não só de gerar riqueza, mas, acima de tudo, de a redistribuir.

 

quarta-feira, 16 de abril de 2025

Speakers' Corner 28

O Território do Vazio

Nemésio, na sua busca pela açorianidade, identificou três tipos de açorianos – o picaroto, o terceirense e o micaelense. Sobre este último, pintou-o segurando o cabo da enxada e lavrando a terra “já penetrável ao tubérculo”. Nesta identificação telúrica das gentes açorianas há uma espécie de paradoxo insular, rodeado de mar por todos os lados o açoriano, em particular o micaelense, vira as costas ao oceano e faz-se senhor da terra, enraizando-se cada vez mais no interior da ilha e olhando o mar com distância e, muitas das vezes, temor.

A ligação do açoriano com o mar foi sempre relativamente ambígua. A condição insular obriga a um relacionamento estreito com o oceano, mas este mar, o inclemente Atlântico, onde nos situamos, castiga e enclausura. Nos Açores, posto de abastecimento nos cruzamentos entre oceanos e continentes, o mar foi sempre território de medos e angústias. De lá vinham os piratas e as tempestades, cemitério vivo de batalhas e de naufrágios e, ao longo do tempo, porta de saída de gentes rumo ao distante mundo da emigração. Mesmo a pesca, ou a cabotagem, foram sempre de subsistência ou de oportunidade, remetidas ao gueto de pequenas comunidades, tantas vezes segregadas e marginais.  

Até muito recentemente, o litoral, praias, poças e portinhos, eram lugar de baldio e atrevimento, largados à selvagem voracidade da juventude ou à ousadia da necessidade dos que aí buscavam amparo para a fome. A ideia do mar, ou desse espaço que o separa da terra, como lugar de prazer, de conforto e de alegria é extraordinariamente recente. Os Areais de Santa Bárbara são disso um exemplo, salvos por surfistas e ambientalistas da avidez dos saqueadores de areia. E é isso que explica o impressionante abandono a que tantos outros lugares, de igual ou maior potencial, foram sucessivamente deixados, ao longo de décadas, até o declínio e a ruína se apoderar de muitos deles, tal como agora, tragicamente aconteceu, no Porto de Santa Iria.

Bem sei que é injusto generalizar e que se tornou repetitivo colocar a todos nessa categoria demagógica de “os políticos”, mas o problema é que as situações são tantas e tão recorrentes, de todos os partidos, que não se consegue não utilizar esse epiteto, hoje tão depreciativo, para classificar toda uma classe de responsáveis públicos pela desgraça que se nos acometeu. O velho Porto de Santa Iria, é um dos mais belos e singulares lugares destas ilhas. Uma localização única, com uma história riquíssima. Os problemas de erosão, ou de manutenção, são conhecidos há décadas, por várias gerações de políticos, de ambos os lados do espectro partidário, com dezenas de promessas e de projetos, milhões de investimentos anunciados e o resultado foi a sua destruição, e, agora, com um novo rol de promessas e datas num caderno de encargos que inevitavelmente já não vai ser o mesmo.

Nos Açores, como as ribeiras que correm para o mar, despejam-se rios de dinheiro em coisas inúteis, em projetos horrendos, de interesse duvidoso, e sistematicamente negligencia-se o que é realmente relevante e significativo para a transformação de uma identidade e para a tão propalada sustentabilidade do arquipélago. Pegando apenas em São Miguel, a praia do Monte Verde, o Ilhéu, a Piscina das Feteiras, o Lombo Gordo, a Amora e o Degredo… e tantos outros lugares perdidos nesse “território do vazio”, como lhe chamou o historiador Alain Corbin, que é a orla marítima e o litoral.

São estes acontecimentos, tão tragicamente repetidos, que me levam a acreditar que os políticos são insensíveis à beleza, que, com o tempo, se tornam impermeáveis ao encanto dos lugares, da sua história e do legado do que nos rodeia e os devia, em absoluto, preocupar e ocupar. Talvez o que choque mais neste abandono frio e insensível do que nos é próximo e essencial não sejam as promessas incumpridas ou a farsa da sustentabilidade, mas essa ditadura demolidora do desleixo, do abandono e da simples falta de gosto.

quarta-feira, 9 de abril de 2025

Speakers' Corner 27

O ultraconservadorismo ambiental

Sábado último, um grupo de cidadãos assinou neste jornal um texto elogiando a interdição a banhos do Ilhéu de Vila Franca do Campo. Começando com uma exclamação de “Excelentes notícias!”, os autores do artigo reclamam a “devolução”, do Ilhéu, à sua “verdadeira função: um santuário natural.” Propondo que o uso balnear seria prejudicial para a biodiversidade deste “monumento geológico” e sugerindo “novas” formas de relação com o Ilhéu, “através de visitas guiadas conscientes”, escutar os silêncios, interpretação ambiental e programas de monitorização da biodiversidade marinha e terrestre do Ilhéu.

Pondo de lado alguma excitação negativa, que parece querer ver num problema de saúde-publica uma oportunidade proibicionista, há dois aspetos nesta visão ultraconservadora do ambientalismo que gostava de assinalar, pelo que, a meu ver, sinalizam de uma ideia distorcida do que são os Açores, por um lado, e do que deveria ser a preservação ambiental, por outro.

Começando por este último aspeto, existe uma corrente de pensamento que vê na interdição do acesso e da fruição da natureza o caminho para a conservação ambiental. Limite de acessos, capacidades de carga, interdições, épocas de defeso e todo um outro tipo de obstáculos à interação entre o homem e a natureza. Quase como se o estatuto de monumento, ou reserva natural fosse uma espécie de fronteira militarizada entre os bárbaros humanos, destruidores e incivilizados, e a virginal e impoluta natureza intacta das nossas nove ilhas atlânticas. Thoreau, escritor e ensaísta americano, um dos pais do transcendentalismo e ávido naturalista, escreveu, em “Walden”, um manifesto sobre a comunhão com a natureza, que buscamos a natureza para viver deliberadamente, “para afrontar apenas os factos essenciais da vida”, para aprender o que temos para ensinar, “e não, quando morrer, descobrir que não havia vivido”. Por oposição àquilo que Thoreau considerava serem as vidas de “silencioso desespero” da maioria dos homens. Precisamente, a melhor forma de proteger a natureza é educando as pessoas para sua vital importância e isso só é possível através da fruição dos seus espaços e ambientes e não se pode proteger o meio natural afastando as pessoas dele. Conservação é uma coisa, interdição é outra.

Por outro lado, a ideia errónea de que os Açores são um grande santuário natural intacto e puro é não só falsa como potencialmente perigosa. Toda a história destas ilhas é uma de interação entre homem e natureza. A virada das terras, os cultivos, a introdução de espécies, os Açores são esse moldar da natureza pelo homem e, por sua vez, da construção do homem pela natureza que o rodeia, tantas vezes castigando, outras acolhendo e nutrindo, com a sua opulência e abundância. E o Ilhéu da Vila, proteção e ancoradouro natural desde os inícios do povoamento, representa um exemplo singular dessa relação simbiótica e de interdependência entre o humano e o natural. Até 1942 a Vila Franca foi, por causa do seu Ilhéu, ancoradouro privilegiado da ilha, inclusive no interior do Ilhéu, o que levou ao rasgar de um canal de acesso logo no séc. XVI. Esta relevância levou mesmo à elaboração de um projeto para a construção de um ou mais molhes de ligação entre o Ilhéu e a ilha, para a criação de um grande porto oceânico, o que originou a criação da Companhia do Abrigo Marítimo do Ilheo de Vila Franca do Campo, da qual até a rainha D. Amélia e o rei D Fernando foram subscritores de ações. Ao longo dos séculos, o Ilhéu foi terra de cultivos, de vinha e pastoreio e, em 1933, zona de banhos e veraneio com a construção de uma casa de apoio pelo seu então proprietário António Botelho da Câmara Velho de Melo Cabral. Desde sempre o Ilhéu é parte fundamental da vivência micaelense e fonte perene dessa ligação entre homem, mar e natureza. Elogiar a sua interdição, mesmo que por ultraconservadorismo ambiental, é rejeitar a verdadeira natureza da vida insular.