sábado, 22 de outubro de 2011

post para Nuno Barata

ao jeito da blogosfera circa 2003

Meu Muito Querido Amigo
Apesar da montanha russa emocional dos meus últimos dias, não posso deixar de te transmitir o meu profundo pesar, para não dizer incómodo, ao ler o teu post sobre o IVA dos espectáculos.
A frase brutal de que os “espectáculos são mera alienação” atingiu-me como um bloco de cimento em cheio no estômago. De um amante de livros para outro, não posso acreditar que realmente penses assim e só compreendo tal boutade pela ditadura do efeito sensacionalista do post e da ânsia de contraditório.
A verdade, meu querido amigo, é que a humanidade seria infinitamente mais triste e pobre sem a representação, a música, o bailado, etc., etc., etc. Por maior que seja o nosso amor aos livros, quão lastimável seria uma existência apenas feita de fólios e pergaminhos, que bolor monástico nos governaria os espíritos num mundo de prateleiras, bibliotecas e traça.
A suprema execução da literatura é a sua representação diária. Mais, sem drama, sem humor ou ritmo é impossível a existência de verdadeira literatura. Nem os melhores dos ensaístas viveram sem a representação dos seus actos.
Desde a mais clássica antiguidade, desde Homero, o primeiro, múltiplo, contador de histórias que “os espectáculos” foram elementos fundamentais para a realização da existência, para a concretização do significado da vida. Sófocles, Shakespeare, Beckett, fizeram do teatro a condensação suprema do significado da alma. Pensar num mundo sem música, sem ópera, sem a consagração plural e universal do espírito humano através do ritmo e do compasso e da história dos seres é abdicar da probabilidade do humano.
A realização da arte é feita pela sua partilha, do autor ao público e de público em público pela sua representação, reduzir isso a um fenómeno individual, solitário, vazio e triste é abdicar do seu poder redentor. Por mais imprescindível que seja a leitura.
E já nem vou falar do valor do cinema, 7ª (número mágico) Arte que a mim tanto me ensinou e que é uma arte pública por excelência.
Perdoa-me Nuno, mas pensar que a vivência e a experiência da arte são fenómenos menores perante a possibilidade do estudo dos cânones é abdicar em absoluto do que mais profundamente nos faz humanos - a necessidade de partilhar a experiência do conhecimento. Não me interessa sequer se é o Quim Barreiros ou o Stockhausen, uma sociedade sem a possibilidade de fruir universalmente da cultura é uma sociedade imperfeita.
É por isso que a visão economicista não está em quem contesta esta medida idiota e inculta de subir o IVA às artes performativas como se fossem luxos taxáveis ao mais alto percentil, o economicês bárbaro está em quem acha que a arte só existe nos pergaminhos, esquecendo tudo o que de arte é feito em vida.
Abraço amigo, na esperança, de certo partilhada, de dias melhores.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

adágio para estes dias

"Always forgive your enemies; nothing annoys them so much."
Oscar Wilde