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quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Speakers' Corner 46

A Primeira Lei de Newton

Portugal arde.

Com a fatalidade de um destino traçado e a regularidade de um relógio solar, o país consome-se, ou é consumido, pelo fogo no verão. Esta sina triste e aparentemente imutável repete-se ano após ano, com o rigor de uma lei por entre o calendário das procissões e das férias dos veraneantes. Uma verdadeira “Volta a Portugal”, não de bicicletas, mas de labaredas e de fumo.

Pelas notícias, somos inundados (perdoem-me a ironia) pelo suor banhado de espanto, coragem e exaustão dos bombeiros; pela fúria de alguns autarcas; pela aflição das populações; e pelos discursos gastos dos políticos de Lisboa que fogem das perguntas dos jornalistas ou fazem brindes com cervejas na festa do Pontal. Tudo isto em diretos televisivos incessantes, que procuram a emoção crua da catástrofe num guião estudado de desilusão e medo.

E o país arde.

E, como sempre, lamentamos a crónica falta de meios, os aviões que avariam, os eucaliptos que tomaram conta da paisagem como uma praga movida pela avareza e pelo lucro, e a sempre prometida mas nunca cumprida gestão do território, que os especialistas repetem há décadas como sendo o mais profundo e premente problema do país. Desertificámos o interior e, com ele, colocámo-nos a todos em risco.

Vivemos num tempo que se desmaterializou, que se desprendeu do solo, da terra, das culturas, das pastorícias, das estações. Como dizia há dias Henrique Pereira dos Santos, deixámos de comer cabrito para comer salmão e abacate. Os cabritos cresciam nas serras, alimentando-se do mesmo combustível que hoje alimenta os fogos que crescem sem travão, ao sabor do vento e de décadas de desertificação. Os salmões crescem em tanques, à base de ração de soja e antibióticos. Os abacates chegam de produções intensivas, imunes às restrições da sazonalidade e banhados numa enxurrada de rega e fertilizantes.

Esta artificialização dos ritmos e contextos coloca-nos numa condição permanente de alerta em que, ironicamente, somos ao mesmo tempo vítimas e agressores. Todo um mundo que desapareceu e recusamos adaptar-nos ao novo que surgiu.

Paradoxalmente, aqui na ilha, um autarca confrontado com uma óbvia e inacreditável asneira de urinóis e águas residuais de um evento a correrem sem freio para a ribeira e o mar respondeu candidamente: “sempre foi assim”. Perante o absurdo, a reação foi a resignada aceitação da barbárie, como se a estupidez fosse uma fatalidade da natureza, numa espécie de híper-conservadorismo que recusa a mudança, o progresso e até o próprio bom senso.

Estes dois movimentos, aparentemente opostos, um mundo rural desertificado e uma rudeza que se repete, radicam afinal no mesmo princípio: a inércia.

No país que arde e no autarca que se conforma há a mesma incapacidade de perceber que o mundo à volta se transforma, se modifica, que o mundo pula e avança num perpétuo movimento de constante evolução. O “sempre foi assim” traduz exatamente essa incapacidade de reconhecer que o mundo, afinal, já não é assim.

Da mesma forma que em Portugal continental o interior foi abandonado por décadas de migração para as grandes cidades, também nas ilhas o litoral se aburguesou, por assim dizer. Tornou-se finalmente habitado, fonte de prazer e fruição. Onde antes vivia o vazio e a indigência, hoje multiplicam-se turistas, escolas de surf, banhistas de diferentes proveniências e costumes. Sinalizando, numa inescapável fluorescência, que as coisas afinal já não são assim e que temos forçosamente de nos adaptar a elas.

Newton explicou que um objeto, esteja em repouso ou em movimento, não muda o seu estado a menos que seja forçado por uma força exterior. Já que nos recusamos a aceitar Newton, que ao menos nos lembremos de Darwin para perceber que, se não fizermos alguma coisa diferente do que “sempre foi”, se não nos adaptarmos, acabaremos fatalmente por ser os agentes da nossa própria autodestruição, tanto pela (má) ação como pela inércia.

quarta-feira, 11 de junho de 2025

Speakers' Corner 36

História de um país sem rumo

Quem calcorreia hoje as ruas de Ponta Delgada, descendo da Machado dos Santos à António José d’Almeida, rumo à Matriz, dificilmente saberá quem foram esses expoentes do republicanismo que dão nome a duas das mais importantes artérias do nosso burgo. Machado Santos, vice-almirante, herói do 5 de Outubro, foi um perpétuo revolucionário, tido como o “pai da República”. António José d’Almeida, médico e opositor da monarquia, ficou conhecido por um manifesto publicado em Coimbra, na sua juventude, intitulado Bragança, o Último, que o levou à prisão e ao estatuto de herói republicano. Mais tarde viria a ser Presidente da República, entre 1919 e 1923. Ambos maçons, como muitos republicanos da época, simbolizam o espírito de um tempo dividido entre a agitação contestatária e a aspiração progressista. A Primeira República foi um imensamente agitado período de transição entre uma monarquia de setecentos anos e uma ditadura, que duraria quarenta e oito, e que pretendia vir repor uma certa organização e esteio a um país desgovernado. Nesses curtos 16 anos, Portugal teve 45 governos e 8 presidentes.

Se um futuro historiador olhar o país daqui a 100 anos, reconhecerá certamente as mesmas tendências, as mesmas aspirações populares incumpridas e os desmandos políticos de elites conspiracionistas. Provavelmente calcorreará ruas com nomes como Costa ou Montenegro, nomes que, como tantos outros, cairão também no esquecimento. A história, como dizia Mark Twain, não se repete, mas rima. E há, neste tempo que vivemos, uma impressão forte de fim de regime. Cinquenta anos após Abril, o país parece soçobrar sob o peso do que ficou por cumprir.

Dos famosos três D’s que Medeiros Ferreira levou ao Congresso Democrático de Aveiro, em 1973, e que Melo Antunes transportaria para o programa do MFA, a descolonização redundou num desastre, a democratização sucumbiu ao poder do capitalismo partidário, e o desenvolvimento coloca Portugal entre os países da UE com maior desigualdade na distribuição da riqueza. Só Bulgária, Roménia, Letónia e Lituânia nos ultrapassam nesse triste ranking do índice de Gini.

Se há ilação a tirar das últimas eleições, é a de que existe um descontentamento generalizado no país, um povo descrente e cansado e uma classe política incapaz de se regenerar e de incutir esperança nos eleitores. O mesmo historiador futuro, ou uma cartomante de agora, dirá, e com razão, que o momento é propício a sebastianismos, a líderes salvíficos que, acoberto de um manto de nada, como um nevoeiro diáfano, se apresentam como portadores da ordem, do bom-senso e do progresso, mesmo que falso e mentiroso e empacotado em insultos e alarvidades.

Quando o centro ruir, a democracia ruirá com ele. Muito provavelmente, o país elegerá um ex-almirante de fama vacinal para o cargo de mais alto magistrado da Nação. Um primeiro-ministro pouco transparente e de passado duvidoso cairá em desgraça num escândalo judicial envolvendo empresas e favores. Montenegro cairá, e o PPD cairá com ele. E, depois disso, um líder populista e demagogo poderá ascender ao poder, erguido em promessas doces e inebriantes de autoridade, limpeza e patriotismo. O velho e reconhecido “pôr ordem nisto”, ou o salazarento “Tudo pela Nação, nada contra a Nação”. A direita será toda ela populista, com tudo o que isso traz de reacionarismo e nacionalismo bacoco. O Almirante, então, dirá que o país precisa de estabilidade e dará o seu magnânimo aval a uma coligação entre Ventura e um qualquer Passos Coelho da vida. A esquerda, órfã e desorientada, será remetida a uma oposição triste e prolongada. E Portugal mergulhará, de novo, numa bem-comportada e resignada noite autoritária com o Almirante ao leme, de fato assertoado e barba grisalha, sabe-se lá com que rumo.

Oxalá me engane. Porque se não irei acabar os meus dias na frente de um qualquer pelotão de fuzilamento por delito de opinião e tráfico de liberdade de expressão.

quarta-feira, 12 de março de 2025

Speakers' Corner 23

Restauração Democrática

No próximo ano comemorar-se-á o centésimo aniversário do 28 de Maio de 1926, o funesto golpe de estado que pôs fim à Primeira República e abriu a porta para os 48 anos de ditadura do Estado Novo. A história da Primeira República foi marcada por uma permanente e agitada convulsão política e social. Do fervor republicano ao sidonismo, passando pelas tentativas de reinstituição da monarquia, do anticlericalismo ao esforço de recuperação económica, passando pelos enormes abalos globais da Grande Guerra e da Gripe Espanhola, o sonho republicano, que atravessou o país como uma honrosa utopia progressista, cedo se tornou numa enorme balburdia que gerou nada mais do que 49 governos, 40 chefes de governo e 29 tentativas de golpe de estado, duas delas em 1925, a primeira das quais, a 18 de Abril, liderada por um hoje desconhecido Filomeno da Câmara de Melo Cabral, oficial da Armada, natural deste bucólico concelho de Ponta Delgada e cujo nome herdara de seu pai, famoso médico e hidrologista, pioneiro do termalismo nas Furnas.

A ideia, elaborada por Hegel, de que a história se repete sempre duas vezes e glosada depois por Marx, de que esta se repetia primeiro como tragédia e depois como farsa, e a que Mark Twain responderia mais tarde com a sua máxima de que a história não se repetiria, mas que rimava, tem perpassado pela filosofia ao longo dos tempos e surge hoje, no atual estado do mundo e do país, com particular acuidade e pertinência. Quem siga, mesmo que distraidamente, o rumo do mundo e da nação não pode deixar de ler estranhas e impressionantes semelhanças entre 2025 e 1925, ao ponto de se poder, justificada e apropriadamente, citar o refrão desse dançante tema da banda inglesa Propellerheads, na voz da cintilante Shirley Bassey, “it's all just a little bit of history repeating”.

Se a presente crise da democracia portuguesa se repetirá, ou não, numa nova deriva totalitária é ainda cedo para dizer, mas que há algo neste desvario político moderno que rima com a ebulição republicana, isso é inegável. Não vale a pena elaborar mais nos desmandos de Luís Montenegro, entre a empresa familiar e os buracos de golfe com grandes empresários do Norte que, alegadamente, o manteriam no rol das avenças à renda de 9 a 15 mil euros mensais. Mas esta promiscuidade entre política e negócios, e a consequente fuga para a frente do primeiro-ministro, que coloca o país perante uma instabilidade política preocupante, 3 eleições em pouco mais de 3 anos, é em tudo semelhante às tumultuosas primeiras décadas do século vinte português.

Também não é fácil antever o que sairá destas novas eleições. Como irá o cansado eleitorado reagir a mais esta estultícia da política nacional? Será Montenegro penalizado ou irá o eleitor fazer vistas largas à ampla e largamente flexível espinha ética do líder da AD? Conseguirá Pedro Nuno Santos fazer esquecer as improbidades do costismo ou o arrivismo juvenil do líder do PS continuará a afastar de si os eleitores do centrão? Não vale a pena arriscar em previsões, nestas eleições inesperadas e em grande medida indesejáveis, mas não é preciso ser vidente para pressentir que o caldo está propício é para os Venturas, com ou sem criancinhas nas malas, e para os Almirantes, com as suas sebastiânicas e retrógradas alocuções à grandeza pátria, tão assustadoramente próximas de 1926.

A única redenção para este pântano em que o país está novamente mergulhado é a sublevação dos moderados, a revolta dos democratas e a afirmação firme daqueles que ainda acreditam que é na ética republicana e na moral pública que reside a essência da democracia representativa. Este Maio que aí vem, terá forçosamente de marcar o ponto de partida para essa verdadeira Restauração Democrática que o país tão urgentemente precisa, sob o risco de, ao revés, nos projetarmos outra vez num longo, árduo e imprevisível inverno democrático…

quarta-feira, 5 de março de 2025

Speakers' Corner 22

Tragédias do desgoverno nacional

No início de Novembro de 2023, depois de quase um ano de uma surpreendente convulsão política, às mãos de um governo de maioria absoluta mergulhado num caos sucessivo de escândalos, intrigas, investigações e suspeitas, o país foi surpreendido por uma ação policial em São Bento, que levaria à demissão de António Costa, no meio de um parágrafo da Procuradoria-Geral do Ministério Público e uns quantos maços avulsos de notas escondidos nas estantes do seu chefe-de-gabinete.

Uns poucos dias depois, Marcelo Rebelo de Sousa comunicava ao país a sua decisão de convocar eleições, alicerçado na presunção, aliás criada por si, de que a maioria eleitoral existente era de Costa e não do PS e, nas suas palavras, na impossibilidade de manter em funções um governo fraco e que seria visto, assim, como um governo de iniciativa presidencial. Ao mesmo tempo, o líder do PSD, Luís Montenegro, alinhava pelo mesmo diapasão da urgente ida às urnas alegando que “a degradação do governo impõe a devolução da palavra ao povo” (sic). De facto, o pouco mais de um ano e meio do segundo governo de Costa parecia uma inexplicável via sacra de casos, casinhos e casões, entre ministros e secretários de estado, envolvidos nos mais rocambolescos e degradantes episódios de corrupção e desgoverno até, por fim, subir ao cargo do próprio Primeiro-ministro.

Fast forward para os dias de hoje e temos um governo de minoria parlamentar frágil e acossado, mergulhado em incompetências e incompatibilidades, cujo fumo da suspeição chegou, também finalmente, ao próprio Luís Montenegro. Depois do caos na Saúde, do escândalo do INEM, da incompreensível Lei dos Solos, noticiam os jornais que o Primeiro-ministro de Portugal, o tal da degradação do anterior governo, está desde a sua tomada de posse a receber chorudas avenças de empresas privadas, entre elas a Solverde dos casinos, através de uma empresa familiar, cuja participação terá vendido, em ato nulo, à sua mulher, com quem é casado em comunhão de adquiridos. De um passo, ficamos a saber que Montenegro é, não só, um péssimo advogado, como, ainda por cima, um igual hipócrita aos que tanto criticava antes de si. E que, numa surreal declaração ao país, em horário nobre televisivo, ensaiou uma fuga para a frente em dois atos, delegando a empresa aos seus filhos, de 19 e 23 anos, admitindo dessa forma a prevaricação anterior, e ameaçando, no jogo político-partidário, a roleta-russa das moções de censura e de confiança. Quando o único caminho digno que se lhe apresentava era demissão pronta e segura e a consequente convocação de eleições.

Mas, tão mau ou pior do que a hipocrisia e o cinismo político de Luís Montenegro, ou o cúmplice e inusitado silêncio de Marcelo, é o contorcionismo acobardado do principal líder da oposição, Pedro Nuno Santos, que é incapaz de se confrontar, preso que está no seu próprio labirinto partidário, com a exigência moral de fazer cair este governo, seja apresentando ele próprio uma moção de censura, seja votando favoravelmente outra de um qualquer outro partido, como a já anunciada pelo PCP.

Nos últimos anos muito se tem debatido as razões para a ascensão dos populismos, da demagogia e da polarização política, que tem minado as democracias e levado à escolha pelo eleitorado de políticos e partidos iliberais e de tendência totalitária. Políticos e comentadores repetem-se na condenação do discurso dos Andrés Venturas desta vida e espantam-se com a fulgurante aparição de todo o tipo de Almirantes. A realidade é que a crise das democracias está no seu próprio âmago e nos degradantes comportamentos dos que se dizem defensores da moral e do bem-comum, quando na verdade apenas se preocupam com o seu próprio bem pessoal e com os joguinhos políticos da dança das cadeiras do poder.

Olhamos as notícias e as ações e os discursos dos políticos atuais e enche-nos uma sensação enjoada de que isto já não é um país, mas um pântano sem fundo…

 

 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Speakers' Corner 19

O país dos doutores

A notícia passou mais ou menos despercebida entre o corrupio mediático nacional, entretido com o cúmulo jurídico dos deputados do Chega e a minimaratona dos putativos presidenciáveis, mas conta-se facilmente. Na sua mais recente revisão do contrato coletivo de trabalho, a AHRESP e o Sindicato dos Trabalhadores do Setor de Serviços acordaram, entre outras coisas, a alteração da velha designação de “empregado de mesa” para uma mais moderna e fina denominação de “assistente de sala”. Diz o Expresso que a nova nomenclatura visa valorizar aquela que é vista como “uma das profissões mais mal amadas no turismo” (sic!). Um pouco como os cozinheiros que agora são todos chefs.

Esta poderia ser mais uma inconsequente e inócua aventura do tão em voga processo de cancelamento em curso. Em que as nossas sociedades se entretêm a rever terminologias, sinaléticas de wc e outros mais ou menos estapafúrdios detalhes de comportamento e inter-relação cultural e social. Mas, temo que haja aqui um sinal de algo mais profundo e alarmante com que nos devíamos todos preocupar: a continua desvalorização social de profissões determinantes.

Portugal sempre foi um país classista. São resquícios de um certo feudalismo intrínseco, e de uma certa imposição religiosa, que nem uma ascensão fulgurante de uma burguesia mercantil conseguiu aplacar. Salazar, como bom corporativista que era, para além de anticomunista primário, como todos os fascistas, procurou estabelecer um regime ditatorialmente controlador dos agentes económicos, funcionando como juiz das relações entre patrões e trabalhadores, oprimindo as liberdades dos últimos, mas também limitando muitas vezes as licenciosidades dos primeiros. Isto levou a um país de doutores, onde todos querem ser patrões, todos anseiam ser chefes e ninguém quer ser servente, muito menos simples trabalhador.

No seu “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, o sociólogo alemão Max Weber estabeleceu as bases da teoria da correlação entre filiação religiosa e estratificação social, tendo por base as estatísticas laborais da Alemanha no dealbar do século XX, identificando a propensão do puritanismo protestante pelo capital e o trabalho, e a maior inclinação humanista do catolicismo e a sua inerente tradição de culpabilização da riqueza.

O nosso país, eternamente enredado nas suas múltiplas manifestações do “Fado, Futebol e Fátima”, vive nessa teia de sub-reptícias hierarquias e vergonhas, onde riqueza e trabalho, estatuto, ou status, social, se quisermos, e relevância se imiscuem num permanente caldo cultural de idealização e embaraço. O aristocrata rural deu lugar ao doutor citadino e ambos dominando a criadagem com leves ares de sobranceria numa mão e caridadezinha na outra. Os eternos Tomás de Palma Bravo, de “O Delfim”, de Cardoso Pires, espécie de retrato último desse conservadorismo patriarcal e cínico português, que se pela por um BMW e a vivenda com piscina e, agora, com a interpretação semiótica da categoria profissional.

Vivemos num país onde todos querem ser doutores ou engenheiros, advogados e juristas, médicos, de bata branca e consultório privado, que, como dizia o Eça, é “chique a valer”. Já ninguém quer ser pedreiro ou carpinteiro, e até esses já só sonham ser empreiteiro, nem já sequer empregado de mesa, que isso é coisa para paquistanês fazer. Num país sobrelotado de licenciados, com canudos inúteis debaixo dos braços, tristes e incompetentes nas suas funções de técnicos superiores de vão de escada de secretaria governamental o que realmente faz falta são competências e trabalhadores. Quando terminei a universidade, nessa coisa dos títulos, autodenominei-me de “poeta, surfista e cultivador de ananases”. Hoje, depois de tudo o que já vivi, fico-me pela singela categoria de mero e simples estalajadeiro. Num país de tantos maus doutores, o que mais falta faz são bons empregados de mesa…

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Speakers' Corner 14

Nacional iliteracia

Mandada erigir em 1568 pela Infanta Dona Maria, oitava filha do Rei D. Manuel I, a Igreja de Santa Engrácia, ali ao alto do campo de Santa Clara, em Lisboa, foi destruída por um grande temporal em 1681. No ano seguinte, por obra dos irmãos da Irmandade dos Escravos do Santíssimo Sacramento, a primeira pedra do novo templo foi lançada pelo Infante D. Pedro, quinto filho de D. João IV, que viria a ser coroado rei em 1683 e cognominado “o Pacífico”. Ao que reza a lenda, o templo estaria amaldiçoado pelo fantasma de Simão Pires Solis, jovem cristão-novo, vítima injustiçada dos horrores da Inquisição, preso, acusado e julgado, sem prova, de profanação do santuário, quando por ai rondava enamorado de uma fidalga noviça do Convento de Santa Clara. Ditou a sentença que ao réu fossem decepadas as mãos e incendiadas à sua vista e, colocado num poste alto, fosse então queimado vivo e, feito o fogo em pó, as suas cinzas deitadas ao mar para que de todo se extinguisse a sua memória. Vítima de tal injustiça Simão Solis amaldiçoaria a reconstrução do templo, que levaria quase 300 anos a ver concluída a sua obra, cujo termino só aconteceria em 1966 por ordem de António de Oliveira Salazar, jornada que daria origem à popular expressão “obras de Santa Engrácia”, naquele que é o detalhe mais caricato de um monumento que é hoje conhecido como Panteão Nacional.

A ideia de um Panteão Nacional data de 1836 e deve a sua instituição ao então Ministro Passos Manuel com o intuito de homenagear os heróis da “revolução vintista”, também conhecida como Revolução do Porto, momento fundamental do Liberalismo português. Já em plena República, em 1916, à Igreja de Santa Engrácia, cujo desenho do arquiteto João Antunes é justamente considerado um dos expoentes do barroco português, é acometida a função de Panteão Nacional mas cuja efetivação plena só teria lugar cinquenta anos depois por ordem de Salazar, como forma de afirmação do regime contra não só a desconfiança política num regime ainda abalado pelas ondas de choque das presidenciais de 1958 e do assassinato de Humberto Delgado, bem como da superstição popular que via no eternamente inacabado monumento um símbolo da fatalidade nacional. Ao historiador Damião Peres é incumbida a tarefa de liderar a comissão que definiria as honras de panteão que, em cenotáfios ou tumulares, homenageia e guarda personalidades tão dispares como D. Nuno Álvares Pereira, Afonso de Albuquerque, Teófilo Braga, Óscar Carmona, Garrett e Guerra Junqueiro. Já mais recentemente e não sem certa polémica, as honras de panteão foram concedidas a Amália, Eusébio e Sophia. Hoje, ao fim de uma longa batalha judicial com os herdeiros, os restos mortais de Eça de Queiroz recebem também essa distinção, numa cerimónia solene, trasladado o féretro do grande romancista do cemitério de Santa Cruz do Douro, em Baião, para uma das salas tumulares da antiga Igreja de Santa Engrácia, num processo político iniciado pelo deputado socialista José Luís Carneiro, em resposta a um repto do bisneto do escritor, o também romancista, Afonso Reis Cabral.

A política é uma arma, em todos os pontos revolta pelas vontades contraditórias; ali dominam as más paixões; ali luta-se pela avidez do ganho ou pelo gozo da vaidade; ali há a postergação dos princípios e o desprezo dos sentimentos; ali há a abdicação de tudo o que o homem tem na alma de nobre, de generoso, de grande, de racional e de justo; em volta daquela arena enxameiam os aventureiros inteligentes, os grandes vaidosos, os especuladores ásperos; há a tristeza e a miséria; dentro há a corrupção, o patrono, o privilégio. A refrega é dura; combate-se, atraiçoa-se, brada-se, foge-se, destrói-se, corrompe-se.” Escreveu Eça em 1867, com intemporal sabedoria. Possam estas vãs prebendas que hoje lhe são apostas reverter em leitores da sua obra e incrementos nacionais na sua parca e sempre tão equivoca literacia.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

o pequeno ecrã


A notícia nacional da semana não tem, felizmente, nada que ver com sócrates nem pêtes. A melhor notícia foi a de que o Conselho Geral Independente da RTP indicou os nomes de Gonçalo Reis e, principalmente, Nuno Artur Silva, para a administração da televisão pública.

Quem andar pela casa dos quarenta fará, provavelmente, parte da primeira geração de portugueses que cresceu, verdadeiramente, com a televisão. Nos idos de setenta, quando o objecto entrou nas nossas casas ainda era suficientemente esquisito para ser especial. Depois, com o passar do tempo e, em particular, com a ditadura do canal único, a televisão e os seus conteúdos foram para muitos de nós um elemento formador essencial. Uns melhores, outros piores, a verdade é que figuras como Vasco Granja e Fernando Pessa, Joaquim Furtado e José Duarte ou, ainda, a voz de Eládio Clímaco nos documentários da BBC e da National Geographic, se transformaram em parte do nosso imaginário. Posso afirmá-lo sem pudor, que a televisão e a RTP em particular foram essenciais para o meu crescimento, tanto pelas coisas que me ensinaram como pelos horizontes que abriram. E, lembro-me também do advento das primeiras parabólicas e do verdadeiro universo que abriram para outras línguas, países e ideias. O facto de a minha avó ter uma tornava as minhas férias nos Açores ainda mais especiais. (Pobre da minha avó que, só para me ter a seu lado, aquentou serões e serões a ver o Alternative Nation na MTV… que educação musical, para mim e para ela…).  

Mais tarde, por via dos blogues e por um convite, que teve tanto de audaz como de irreverente, do Joel Neto, secundado pela voz autorizada do Osvaldo Cabral, assumi, eu próprio, o papel de comentador num programa de televisão. O comentário, que tinha tanto de político, como de opinião, como, muitas vezes, de má-língua prolongou-se por quatro ou cinco anos e saltitou por vários programas da RTP-A. O que essa experiência me ensinou foi a importância que a criatividade e a coragem têm na constituição de uma grelha de programas. As televisões serão tanto melhores quanto mais desempoeiradas forem as pessoas responsáveis por as gerir. Desde os administradores, aos directores passando pelos apresentadores e pelas pessoas que dão a cara na tela com inteligência e, acima de tudo, com liberdade.

E aqui chego ao Nuno Artur Silva. Não me interessa nada se ele é de esquerda ou de direita, nem se pertence a este ou àquele lobby. Interessa-me sim que seja uma pessoa com o seu currículo na criação de conteúdos, com a sua bagagem intelectual e com a sua irreverência a gerir os conteúdos de uma estação com os meios da RTP, para que esta deixe de ser, apenas, caixa-de-ressonância da espuma dos dias. Só isso, já é uma boa notícia.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Então é assim...


É, talvez, a mais antiga verdade da natureza – a luta entre os fortes e os fracos. Quem tem força tem poder e pode, a qualquer momento, exercê-lo sobre quem não o tem. Houve quem lhe chamasse “a lei da selva”. Mas as comunidades humanas tentaram, ao longo da História, umas vezes melhor outras pior, contrariar este paradigma. Usando o pensamento o homem tentou organizar a sua existência em torno de princípios tão estranhos como liberdade, fraternidade e igualdade. Houve quem dissesse que era isso que nos separava dos animais. No plano da organização política muitas foram as tentativas, os falhanços e os sucessos. Ao longo da História pensou-se que a melhor forma de organização seria aquela que desse voz aos povos e que estes elegessem os seus melhores para, com respeito pelas minorias, organizar a comunidade tendo em vista o bem comum. Pensou-se até que seria possível uma organização transnacional de comunidades que, baseadas nos mesmos valores de respeito pela dignidade humana, pudessem, democraticamente, decidir pela forma mais benigna de, dando prosperidade às populações, salvar o planeta. Grandes estadistas afirmaram mesmo que embora fosse péssimo, esse sistema, era o melhor de todos os maus sistemas de governo. Chegamos então ao nosso tempo, em que, mergulhados numa profundíssima crise, o primado essencial da política deixou de ser o ser humano, o bem-estar da comunidade, mas a “confiança dos agentes económicos e dos mercados”. Mais importante para um decisor político do que a confiança das populações é a prosperidade dos mercados. Governar não em função da prosperidade das populações, mas com vista a que os mercados não vejam os seus negócios dificultados. Chegamos à Dividocracia. Habituem-se, que ela vai ficar por ai durante muito tempo.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

1 palhaço, 2 palhaços, 3 palhaços...

...uma palhaçada, é o que é!

quinta-feira, 4 de abril de 2013

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

eu licenciado em História me confesso,

ou de como a asneira é livre...

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

a força das imagens

 
 Lisboa, 15 de Setembro de 2012.
 
                                                                                                                                                                          

terça-feira, 5 de junho de 2012

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

do incomparável

No seu primeiro grande momento de iliteracia (para não lhe chamar outra coisa) Pedro Passos Coelho, algures entre cimeiras europeias, comparou a queda de Tripoli com o 25 de Abril. “O fim do regime de Muammar Kadhafi na Líbia foi «uma espécie de 25 de Abril», afirmou esta quinta-feira em Paris o primeiro-ministro português”. Temos um primeiro-ministro que não conhece a história do seu país e os intelectuais, bem pensantes e instruídos, da nação, que zurziram na licenciatura de José Sócrates, não se comovem. Que falta que faz um Antero de Quental nestas alturas…

terça-feira, 26 de abril de 2011

pequenas estupefacções

supostamente os Homens da Luta ridicularizavam os arquétipos da esquerda radical e, subitamente, tornaram-se na mascote dessa mesma esquerda, sic transit gloria mundi...

pequenas exaltações

o primeiro passo para a presidencialização do regime...


Sampaio, Soares, Eanes e o próprio Cavaco pediram uma concertação de esforços.
Cavaco convidou-os, e não hesitaram um segundo. Apareceram ontem juntos no Pátio dos Bichos, do Palácio de Belém, onde iam decorrer as cerimónias do 25 de Abril.

fonte: DN

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

presidente reformado

Não tomem isto como uma manifestação mesquinha de rancor, para isso já nos bastou o discurso do prof. Cavaco na noite da vitória. Mas vindo de quem tanto fala de ética e de moral, de superioridade de carácter e de ser impoluto, branco como o OMO, “nascer duas vezes…” e outros dislates, não deixa de ser surpreendente que o mesmo prof. Cavaco, que se candidatou a um segundo mandato, sabendo de ante mão ao que ia, opte de forma sonsa por duas pensões de reforma, que perfazem mais ou menos dez mil euros, em vez do vencimento de Presidente da República que não chega aos sete mil e quinhentos. Não vale a pena grandes adjectivos, basta dizer que quem se gere por mecanismos destes não percebe nada de "bom senso e de bom gosto". Como diz o povo – mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O momento literário da década!!

Atenção contêm linguagem ofensiva.

"não há nada a que não se possa juntar um caralho,"

Ministério Público quis levar a julgamento cabo da GNR que usou expressão junto de superior, mas Relação de Lisboa ilibou-o.
Quando um cabo da GNR, irritado com o facto de não ter conseguido uma troca na escala de serviço, se dirige ao seu superior, dizendo "não dá pra trocar, então prò c...", está a cometer um crime de insubordinação ou apenas a desabafar? Este debate percorreu o Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Lisboa e o Tribunal de Instrução Criminal, chegando, a 28 de Outubro deste ano, ao Tribunal da Relação de Lisboa, que encerrou o caso: o cabo não deve ser julgado, porque a expressão utilizada é um "um sinal de mera virilidade verbal"....
Diário de Noticias, 18 de Novembro de 2010.

Palavras para quê, é o país que temos caralho!

via Da Literatura

sexta-feira, 5 de março de 2010

Piadas de ocasião

Ao que dizem os jornais, a opinião pública alemã, tendo como porta-voz o Bild e os deputados do liberal FDP, aconselharam o governo Grego a vender algumas das suas ilhas para equilibrar o défice e vencer os problemas financeiros do país. Pondo de lado a óbvia arrogância germânica, fica a impressão de que os próprios alemães não se aperceberam ainda da sua posição na Europa. Basta ir a Creta, ou passear na baixa de Quarteira para compreender que há muito que isto foi vendido ao norte da Europa. Aliás, veremos se quando Portugal chegar ao fundo do fundo, como a Grécia, os nossos amigos escandinavos não quererão comprar os Açores a retalho – o Grupo Oriental aos finlandeses; o Grupo Central aos suecos e dinamarqueses; e o Grupo Ocidental aos noruegueses, que assim como assim também não fazem parte da União Europeia.