Entre o excesso e o vazio
A pouco menos de duas semanas das eleições presidenciais, o
país parece anestesiado pela apatia gerada pelo lote menos entusiasmante de
candidatos destes cinquenta anos de democracia.
Da overdose de debates ao frenesim das sondagens, mastigando
números no vício dos empates técnicos, esta campanha, que oficialmente começou
no domingo passado, atravessa o país como um nevoeiro, num marasmo de ideias e
propostas que tarda em nos galvanizar. E, no entanto, não faltam candidatos.
De catorze, temos agora onze, ao contrário dos oito que as
televisões nos quiseram fazer crer. Aliás, essa manipulação mediática da
vontade popular constitui um ataque sério à democracia e à liberdade de
escolha, que deveria ter sido amplamente condenado. Contudo, tudo parece ter
passado em branco, como uma cortina de fumo.
E o mais triste, nesta profusão de candidaturas, é a
incapacidade persistente do país, e dos partidos políticos, em fazer emergir
protagonistas relevantes, com verdadeira estatura intelectual e política para
desempenhar o mais alto cargo da nação. Faltam-nos estadistas. Homens e
mulheres competentes, com visão clara e uma estratégia para o país, dispostos a
colocar o interesse público acima do interesse partidário e do horizonte curto
da eleição mais próxima.
E o paradoxo está aí: no meio do excesso, um vazio. Na
profusão de putativos, sem estatuto ou estatura, tanto à direita como à
esquerda, se é que essa divisão ainda existe, numa eleição que deveria ser, por
natureza, elevada e suprapartidária. O que se vê é antes um mosaico de pequenos
interesses pessoais e sectoriais, numa demonstração clara de fragmentação, mais
tática do que política.
Há dias, numa rádio, Vítorino Silva, o conhecido Tino de
Rans, resumiu o momento com uma lucidez desconcertante. As esquerdas divididas,
como lhes chamou, disputam hoje o sexto lugar com Manuel João Vieira. Um
comentário que é simultaneamente diagnóstico e epitáfio. E o retrato claro de
um desnorte que roça o harakiri político.
Curiosamente, por estes dias, a RTP Notícias exibiu A
Duas Voltas, documentário sobre as presidenciais de 1986. Para quem, como
eu, cresceu politicamente nesse período, o contraste é brutal. Em 1986 havia
protagonistas de craveira, envolvidos num confronto ideológico claro entre uma
direita conservadora e saudosista e uma esquerda que, apesar de fraturada,
estava profundamente enraizada na sociedade. A vitória de Mário Soares,
amplificada por um dos slogans mais icónicos da democracia portuguesa — Soares
é fixe — foi expressão dessa mobilização coletiva.
Hoje, as eleições cansam. Enfastiam pela tibieza dos
candidatos, pelas indefinições do grande centrão e pelas falácias demagógicas
dos arautos do antissistema, que querem ser tudo e acabam por não ser nada.
Capitães de submarinos que num dia se dizem herdeiros de Soares e no outro se
reclamam de Sá Carneiro. Liberais de discurso polido e ideias recicladas,
embaladas na cantiga de sereia do mérito e do capital, omitindo a sua dupla
tirania.
À esquerda, a situação não é melhor. Em eleições decisivas,
precisamente porque a própria democracia pode estar em causa, prevalece o
calculismo partidário sobre o interesse comum. PCP, Bloco, Livre e até sectores
do PS revelam-se incapazes de engolir o orgulho para enfrentar, de forma
consequente, a extrema-direita populista e autoritária que se põe à espreita na
esquina das urnas.
Estas eleições arriscam-se a ficar na história por duas
razões inquietantes. Primeiro, pela incapacidade do Estado em garantir um
processo eleitoral tecnicamente irrepreensível, sem candidatos-fantasma a
distraírem o boletim de voto. Segundo, e mais grave, por poderem abrir a porta
aos mais perigosos fantasmas do passado. Estas eleições arriscam-se a ser
lembradas não pela escolha de um Presidente, mas como o momento em que o país
aceitou, com uma indiferença soporífera, a erosão da sua própria democracia.

