quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Speakers' Corner 66

Entre o excesso e o vazio

A pouco menos de duas semanas das eleições presidenciais, o país parece anestesiado pela apatia gerada pelo lote menos entusiasmante de candidatos destes cinquenta anos de democracia.

Da overdose de debates ao frenesim das sondagens, mastigando números no vício dos empates técnicos, esta campanha, que oficialmente começou no domingo passado, atravessa o país como um nevoeiro, num marasmo de ideias e propostas que tarda em nos galvanizar. E, no entanto, não faltam candidatos.

De catorze, temos agora onze, ao contrário dos oito que as televisões nos quiseram fazer crer. Aliás, essa manipulação mediática da vontade popular constitui um ataque sério à democracia e à liberdade de escolha, que deveria ter sido amplamente condenado. Contudo, tudo parece ter passado em branco, como uma cortina de fumo.

E o mais triste, nesta profusão de candidaturas, é a incapacidade persistente do país, e dos partidos políticos, em fazer emergir protagonistas relevantes, com verdadeira estatura intelectual e política para desempenhar o mais alto cargo da nação. Faltam-nos estadistas. Homens e mulheres competentes, com visão clara e uma estratégia para o país, dispostos a colocar o interesse público acima do interesse partidário e do horizonte curto da eleição mais próxima.

E o paradoxo está aí: no meio do excesso, um vazio. Na profusão de putativos, sem estatuto ou estatura, tanto à direita como à esquerda, se é que essa divisão ainda existe, numa eleição que deveria ser, por natureza, elevada e suprapartidária. O que se vê é antes um mosaico de pequenos interesses pessoais e sectoriais, numa demonstração clara de fragmentação, mais tática do que política.

Há dias, numa rádio, Vítorino Silva, o conhecido Tino de Rans, resumiu o momento com uma lucidez desconcertante. As esquerdas divididas, como lhes chamou, disputam hoje o sexto lugar com Manuel João Vieira. Um comentário que é simultaneamente diagnóstico e epitáfio. E o retrato claro de um desnorte que roça o harakiri político.

Curiosamente, por estes dias, a RTP Notícias exibiu A Duas Voltas, documentário sobre as presidenciais de 1986. Para quem, como eu, cresceu politicamente nesse período, o contraste é brutal. Em 1986 havia protagonistas de craveira, envolvidos num confronto ideológico claro entre uma direita conservadora e saudosista e uma esquerda que, apesar de fraturada, estava profundamente enraizada na sociedade. A vitória de Mário Soares, amplificada por um dos slogans mais icónicos da democracia portuguesa — Soares é fixe — foi expressão dessa mobilização coletiva.

Hoje, as eleições cansam. Enfastiam pela tibieza dos candidatos, pelas indefinições do grande centrão e pelas falácias demagógicas dos arautos do antissistema, que querem ser tudo e acabam por não ser nada. Capitães de submarinos que num dia se dizem herdeiros de Soares e no outro se reclamam de Sá Carneiro. Liberais de discurso polido e ideias recicladas, embaladas na cantiga de sereia do mérito e do capital, omitindo a sua dupla tirania.

À esquerda, a situação não é melhor. Em eleições decisivas, precisamente porque a própria democracia pode estar em causa, prevalece o calculismo partidário sobre o interesse comum. PCP, Bloco, Livre e até sectores do PS revelam-se incapazes de engolir o orgulho para enfrentar, de forma consequente, a extrema-direita populista e autoritária que se põe à espreita na esquina das urnas.

Estas eleições arriscam-se a ficar na história por duas razões inquietantes. Primeiro, pela incapacidade do Estado em garantir um processo eleitoral tecnicamente irrepreensível, sem candidatos-fantasma a distraírem o boletim de voto. Segundo, e mais grave, por poderem abrir a porta aos mais perigosos fantasmas do passado. Estas eleições arriscam-se a ser lembradas não pela escolha de um Presidente, mas como o momento em que o país aceitou, com uma indiferença soporífera, a erosão da sua própria democracia.