Autonomia, retórica e responsabilidade
Em matéria de citações, a internet é o paraíso dos
apócrifos. Entre milhares de frases e referências multiplicam‑se as de
veracidade duvidosa até que, no caos cibernético dos memes e das páginas de
citações, se constrói todo um novo cânone. Sejam autênticas ou não, há
aforismos que se impõem porque, mais do que a autoria, o que conta é a forma
como captam na sua solenidade um certo espírito do tempo. Vem isto a propósito
de duas frases, erradamente atribuídas, que me surgiram quando tentava
caracterizar o momento político atual e, em particular, aquilo que me parece
ser um preocupante descontrolo discursivo do Presidente do Governo Regional em
declarações públicas recentes, tão surpreendentes quanto inquietantes.
Diz‑se que Sartre terá afirmado que “quando os políticos
brincam com o caos, o caos aprende a brincar com eles”. Verdade ou não, a
ideia serve‑nos de aviso para quem, instrumentalizando conceitos inflamáveis,
se arrisca a perder o controlo sobre eles. Nas suas últimas intervenções
públicas, Bolieiro pareceu agitar no ar, qual malabarista desgovernado, noções
como autonomia, soberania ou poder negocial, sem medir ponderadamente o exato
alcance das palavras. A metáfora da autonomia como “cobrador do fraque”,
coletando tributos à República ou insinuando portagens sobre o espaço aéreo e o
alcatrão das Lajes, transforma a geografia em imposto e a autonomia em mera
tarifa.
Ora, declarações políticas não são meros exercícios
retóricos para consumo fácil. Têm impacto local: afetando investidores,
trabalhadores e a confiança dos eleitores; impacto externo: condicionando a
credibilidade da Região perante o Estado e parceiros internacionais; e, não
menos importante, impacto histórico: porque as palavras ficam registadas e
moldam a memória futura. Uma governação responsável deve saber pesar cada
afirmação à luz dessas três dimensões.
O exemplo da utilização da Base das Lajes é elucidativo.
Explorada pela Força Aérea dos Estados Unidos ao abrigo de acordos bilaterais,
a Base das Lajes insere‑se num delicado quadro de compromissos internacionais.
Reduzir a discussão a cenários simplistas é ignorar que cada palavra proferida
por um governante regional pode ser lida fora de portas como sinal político.
Num mundo volátil, a ligeireza verbal pode ter custos diplomáticos e
estratégicos que ultrapassam em muito o momento mediático. E o alinhamento cego
e servil aos ditames do Palácio das Necessidades, já de si ajoelhado a um
qualquer Trump de serviço, corrói a credibilidade da própria autonomia.
Também no plano económico, a prudência discursiva devia ser
essencial. Na Bolsa de Turismo de Lisboa, ao desvalorizar as preocupações do
setor do turismo como “drama e pessimismo”, o Presidente do Governo destratou,
sem vergonha ou decoro, a exatidão de dados objetivos: a saída da Ryanair, 10%
de quebras nas dormidas e reduções significativas na oferta de lugares já para
este verão. Quando empresários enfrentam dificuldades para pagar salários e
contribuições sociais, esta narrativa surrealista soa escandalosamente a
negação da realidade.
Outra frase apócrifa, desta vez atribuída a Winston
Churchill, lembra que “coragem não é apenas levantar‑se e falar, mas sentar‑se
e ouvir”. Talvez fosse ponderado ao Presidente do Governo compreender que
governar implica consideração. Implica reconhecer que cada declaração entra no
arquivo da História e pode ser citada amanhã como prova de prudência, ou de
desvario.
Fechado na sua bolha de Santana, segurando periclitante o
limiar de uma bancarrota, Bolieiro parece ter perdido o bom senso e o bom gosto
de falar pouco, falar bem e, principalmente, entender que, mais do que gerir
interesses circunstanciais ou particulares, “saber ao certo quanta parte do
futuro se pode introduzir no presente é todo o segredo de um grande governo”,
como escreveu Victor Hugo, o próprio, em Os Trabalhadores do Mar.

