quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Café Royal CII

Décor

Recentemente, um jovem casal dinamarquês fez-se fotografar, nu, no topo da grande pirâmide de Gizé, convidando a ira das autoridades egípcias e o espanto das redes sociais. O gesto, justificado pelos próprios como artístico, insere-se numa tendência que consiste em tirar fotos onde as pessoas surgem enquadradas por locais históricos e/ou paisagens, mais ou menos deslumbrantes (sendo que a parte da nudez é opcional…). O que motiva os praticantes deste desporto não é a descoberta dos locais e a sua fruição, ou a aprendizagem que essa descoberta obriga, mas antes a pulsão egocêntrica do registo da presença, a obsessão do tag e do like. Marcel Proust escreveu que a verdadeira viagem de descoberta consistia não em procurar novas paisagens, mas em encontrar novos olhos. A ditadura dos hashtags consiste em esvaziar por completo o acto de viajar de qualquer réstia de engrandecimento interior, tornando-o um mero acumular de clicks. Viajamos já não para aprender, mas para estar. Despimos por completo a magnificência de Gizé e tornamo-nos no centro da paisagem. É como se o mundo todo fosse apenas e tão só décor para a próxima selfie, com ou sem cuecas…
 

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