A morte de uma árvore
Morreu a araucária. Viveu mais de cem anos, mas os ventos de
domingo derrubaram-na. Velha, cansada, doente, tombou como uma imponente coluna
jónica de um templo antigo, levantada pela raiz apodrecida, sobre os plátanos e
os fetos que a rodeavam. O tronco vasto e inabraçável fez-se suportar sobre o
caminho que sobe para o mirante, os seus galhos cravados no solo como lanças de
uma batalha perdida contra o desenrolar inexorável do tempo, e ali jaz, como um
cadáver, ainda de olhos abertos perscrutando o vazio no meio da tristeza calada
que nos invadiu a todos.
Quando éramos miúdos trepávamos as arvores à procura de
sonhos e outros frutos doces. Colecionávamos jambos, araçaís, nêsperas carnudas
e suculentas, que saboreávamos em faustosos repastos de adocicado festim. Lançávamo-nos
por entre os galhos como marinheiros suspensos nos velames. Pequenos Peter Pans
de excitação e riso, saltitando, de ramo em ramo, como hábeis ginastas
desprovidos de medo ou de receio, e a araucária era o castelo mais alto e
intransponível de todos, o nosso Evereste infantil das subidas às árvores. Mais
tarde, já adolescentes, eu e o André, fazíamos subidas anuais, todos os verões,
aos galhos mais altos da araucária, ao topo dos seus vinte, trinta, cinquenta
metros, tão alto como o horizonte que só dali se alcançava, contorcendo o corpo
por entre a esquadria dos seus ramos retos, como antigos primatas, como velhos
piratas, buscando ouros e tesouros. Em busca, talvez, de um mapa para o
interior de nós.
A minha avó contava que a araucária tinha sido uma árvore de
Natal da família, ainda antes dela ter nascido, nos primeiros anos do século
passado, que o meu bisavô havia depois mandado plantar naquele lugar amplo ao
fundo do jardim para que crescesse sem impedimentos, apontando ao céu com a sua
forma cónica quase perfeita, como um símbolo do caminho que todos aspiramos até
à eternidade. Cinco gerações depois essa eternidade passada pereceu, caiu, tombada
pelo peso da sua própria ancestralidade e história. Pela inevitabilidade da própria
vida que se desfaz em morte e renascimento, sucessivamente, em busca, tal como
nós, de sonhos, de ínfimos relances do firmamento, como só as árvores, na sua
firme sabedoria, nos sabem dar.
Ao longo do tempo, a minha avó e as irmãs, a minha mãe e os
meu tios, eu, a minha irmã e os meus primos e amigos, todos corremos pelo
jardim à sua sombra, rodeamos as suas raízes em brincadeiras simples, os
primeiros e atabalhoados pés nos pedais das bicicletas, as cabanas construídas
com folhagens dispersas, os passeios ao entardecer com possíveis e desejadas namoradas.
Algumas vezes levei as minhas filhas a visitar a velha araucária como se fosse alguém
da família e levo no coração a tristeza de que elas já não verão a sua sombra altiva
sobre o jardim e a luz do sol poente nas tardes de outono aquecendo o seus
ramos, os milhafres aterrissando nos seus ramos cimeiros, o som da brisa
passando pelos estiletes das suas folhas lanceoladas cujas pontas, quando
éramos miúdos, fingíamos serem adultos charutos que fumávamos crescidamente
como cavalheiros de barbas e casaca nos salões de antigamente.
Morreu a araucária, mas, como em todas as mortes, sobrevivem
em nós as memórias que guardaremos até ao nosso próprio fim. Ficam-nos os pedaços
do tempo que guardamos na alma, na essência mais límpida do ser. O coração não,
o coração bate incessante inconsciente ao seu próprio bater. A mente perde-se
nos seus labirintos, infinitos corredores entre a razão e o mito, entre
consciência e ilusão. A alma guarda-nos, sustem-nos nessa permanente viagem do
devir e da intermitência das coisas. Morreu a velha araucária, mas a sua
presença viverá para sempre dentro de nós, porque na densidade contida da
floresta uma árvore só nunca morre. Tal como nas memórias e nos sonhos que vivem
para sempre no interior silencioso e ensombrado da alma de cada um de nós, quem
sabe se mesmo até depois da nossa própria morte…
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