quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Speakers' Corner 71

O riaggiornamento da política nacional

A esmagadora vitória de António José Seguro nestas eleições presidenciais representa um momento charneira da nossa história democrática. Não apenas pelo resultado eleitoral em si, mas sobretudo pelo que ele enuncia para o futuro do país. Num contexto marcado pelo crescimento acelerado da extrema-direita populista e pela erosão prolongada dos partidos do centro democrático, esta eleição surge como um sinal claro de que dois terços do eleitorado recusa a lógica da polarização permanente e destrutiva.

Num país fatigado pelo ruído mediático, pela política-espetáculo e pela exploração sistemática do medo, a vitória de Seguro funciona como um balão de oxigénio democrático. Não porque traga soluções milagrosas ou promessas redentoras, mas precisamente porque representa o contrário desse discurso divisionista, apelando à moderação, à contenção e à recusa consciente de uma política feita à base do conflito e da indignação. Num tempo em que gritar parece ser confundido com liderar, esta escolha não é irrelevante.

Despolarizado, relativamente despartidarizado e associado a uma ética de compromisso, Seguro encarna uma ideia de presidência que procura unir o país em torno de valores essenciais e do bem-comum. Depois de anos em que o debate político foi progressivamente capturado por extremos ruidosos, esta eleição revela uma vontade clara de recentrar a democracia no interesse público.

É neste sentido que se pode falar de um verdadeiro riaggiornamento da política nacional. Que me perdoem os meus camaradas pelo uso do termo, com as suas inevitáveis conotações clericais, mas tal como o Concílio Vaticano II procurou atualizar a Igreja ao mundo moderno, também a vitória de Seguro aponta para uma renovação do centro democrático que não passa pela rutura, mas pela atualização das formas de fazer política. Não se trata de negar o passado, mas de o tornar novamente funcional num presente cada vez mais caótico e indefinido.

O que mais de três milhões de eleitores parecem ter afirmado nestas eleições é que não querem ver o país entregue à lógica do martelo pneumático de um populismo que promete “destruir o sistema” à força de murros na mesa. Preferem, pelo contrário, preservar os fundamentos do regime democrático, mesmo reconhecendo as suas falhas. E, esta escolha é, em si mesma, um ato político profundamente relevante.

Se André Ventura se reivindica como líder de uma “nova direita”, cabe agora aos partidos do centro agir em torno de uma nova estratégia política. Como o próprio Seguro afirmou numa entrevista à TSF, em 2019, a melhor forma de combater os “exploradores do medo” não é imitá-los, mas responder concretamente aos problemas das pessoas, uma orientação estratégica básica que o centro democrático parece ter esquecido.

Vale também recordar um outro episódio recente, menos conveniente para alguns. No debate de 2014 que opôs Seguro a António Costa na disputa pela liderança do PS, Seguro denunciou a “promiscuidade entre a política e os negócios” e acusou os seus adversários de transformarem o partido num espaço de interesses. Não deixa de ser irónico ver hoje muitos dos protagonistas dessa época, incluindo o próprio Costa, surgirem a apoiar Seguro, num exercício triste de memória seletiva e de hipocrisia moral.

Ainda assim, o essencial permanece. O que esta vitória traz é a possibilidade de uma política centrada na ética pública, no combate aos compadrios e aos privilégios, sem recorrer à demagogia populista. Uma política de princípios em vez de slogans, de interesse público em vez de interesses privados, de cidadãos em vez de oligarquias. Talvez este seja, esperamos nós, o início de um tempo verdadeiramente pós-populista em Portugal.

A questão que fica não é se Seguro pode mudar o sistema sozinho, mas se os partidos do centro, em particular o PS, em que eu milito, saberão estar à altura da esperança que esta eleição anuncia.


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