segunda-feira, 25 de maio de 2026

Congresso da Autonomia - Discurso de Abertura








Congresso da Autonomia

Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada

23 de maio de 2026

Discurso de Abertura

Muito bom dia a todos. Senhoras e Senhores, entidades presentes, caros convidados. Quero começar por agradecer a presença de todos neste Congresso da Autonomia, neste dia cinzento, de bruma pesada, que nos faz sentir no corpo o verdadeiro sentido da vida insular atlântica.

Permitam-me primeiro uma palavra de agradecimento muito especial a todos os participantes nos diferentes painéis, pela vossa disponibilidade, colaboração e vontade de contribuir para esta reflexão coletiva.

À Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, por acolher graciosamente esta iniciativa.

À comunicação social aqui presente. E à não presente. Num tempo em que a informação é tantas vezes polarizada, fragmentada e dúbia, é essencial uma imprensa livre e corajosa, capaz de se afirmar sem tibiezas como testemunha crítica da sociedade e não apenas como amplificador de interesses instalados ou refém de contingências políticas e financeiras. É assim que se constroem comunidades mais conscientes, mais saudáveis e mais duradouras.

E, sobretudo, um agradecimento sentido, a todos os que, numa demonstração viva de participação democrática e cidadã, decidiram dedicar este sábado, ou uma parte dele, a ajudar-nos a pensar os Açores. Porque esse é, no fundo, o objetivo primordial deste encontro: pensar os Açores.

Mais do que uma celebração ou um simples assinalar de uma efeméride, este Congresso pretende ser um exercício de cidadania. Um espaço de participação cívica, de debate livre de ideias e de reflexão aberta e plural sobre o passado, o presente e o futuro da Região Autónoma dos Açores, no momento em que assinalamos o cinquentenário dessa grande conquista constitucional de Abril que foi a autonomia política e administrativa açoriana.

Pensar os Açores sem slogans fáceis nem ruído excessivo. Sem o imediatismo pueril que tantas vezes domina o debate público. Pensá-los com tempo, profundidade, espírito crítico e sentido de responsabilidade.

Os Açores não são uma entidade abstrata para uso burocrático, nem uma ideia romântica para uso poético. São a união de nove realidades distintas, que se encontram num mesmo ponto de origem, de destino e de pertença comum.

Celebramos este ano cinquenta anos da autonomia política e administrativa dos Açores. Cinquenta anos. E se me permitem uma nota pessoal, este cinquentenário coincide sensivelmente com a minha idade. Nasci nesse ano inaugural de mudança e esperança que foi 1974.

E, por si só, esta é uma data demasiado importante para se resumir a cerimónias protocolares, discursos de circunstância ou comemorações institucionais. Merece reflexão. Merece debate. Merece, acima de tudo, a participação dos açorianos.

Porque a autonomia não é apenas um modelo administrativo ou uma conquista constitucional. A autonomia é uma construção coletiva. É uma porta aberta para o futuro.

E é, até hoje, para adaptar uma citação famosa, a pior forma que os açorianos encontraram para se governarem a si próprios, à exceção de todas as outras.

Foi através dela que os Açores conquistaram capacidade de decisão, afirmaram a sua identidade e passaram a poder definir, com maior liberdade, o seu caminho no contexto nacional, europeu e atlântico.

Mas sabemos também que nenhuma conquista política vive apenas do passado. A autonomia não pode ser apenas memória. Tem de ser capacidade de ação. Capacidade de responder aos desafios do presente e de preparar o futuro.

E os desafios que hoje se colocam aos Açores são exigentes.

Vivemos num mundo em rápida transformação: marcado pela instabilidade económica, pelas alterações climáticas, pelas mudanças tecnológicas, pelas pressões demográficas e pelo desgaste crescente das democracias, da vida política e, de certa maneira, da vida pública em geral, com as pessoas a distanciarem-se cada dia cada vez mais da coisa pública, do bem comum e da vida das comunidades.

Os Açores não estão isolados desse mundo. Nem estão à margem dessas mudanças. Sentimo-las na economia, nos transportes, na saúde, na habitação, na dificuldade em fixar os jovens, no envelhecimento da população e nas desigualdades sociais. E sentimo-las também, muitas vezes, na forma como nos relacionamos uns com os outros e como olhamos para o interesse coletivo. Presos em nove insularidades distintas, tantas vezes dezanove. Ou, como dizia um amigo meu, com um Espírito Santo que mal olha para o Espírito Santo do lado.

Por isso, este congresso não foi pensado para produzir consensos artificiais. Nem para alimentar bairrismos, trincheiras políticas ou ambições pessoais. Foi pensado para criar espaço para um debate sério, franco, aberto e plural sobre aquilo que somos e, sobretudo, sobre aquilo que queremos ser.

Ao longo do dia teremos cinco painéis dedicados a diferentes dimensões da autonomia — humana, competitiva, produtiva, sustentável e futura.

E escolhemos, para participar destes cinco painéis, deliberadamente pessoas com origens, percursos, experiências e sensibilidades diferentes. Porque acreditamos que uma autonomia forte não se constrói no pensamento único nem no unanimismo estéril.

Constrói-se na diversidade, na capacidade de ouvir e no confronto democrático de ideias. Constrói-se, também, na própria multiplicidade das nossas nove identidades insulares, que serão sempre mais fortes quanto maior for a sua união e o seu Compromisso com os Açores.

Também quisemos que este congresso fosse uma iniciativa da sociedade civil. Num tempo em que tantas vezes esperamos que tudo venha das instituições, pareceu-nos importante devolver este debate aos cidadãos. Porque a autonomia pertence a todos. Não pertence a um partido, a um governo, nem tampouco a uma geração.

Pertence aos açorianos. Aos de agora e, sobretudo, aos de amanhã, aqueles para quem devemos direcionar as nossas maiores ambições e esperanças.

Pertence aos que cá vivem. Aos que partiram. Aos que querem ficar e aos que sonham voltar. Aos que nasceram nestas ilhas e também aos que, vindos de outras geografias, escolheram os Açores para morar.

E pertence a todos os que continuam a acreditar que é possível construir um futuro melhor para esta terra e para quem nela faz, dia após dia, a sua vida.

Gostaria também de deixar uma nota importante.

Falar do futuro dos Açores exige ambição. Mas exige igualmente maturidade. Nem o pessimismo permanente, que tantas vezes nos consome, nem o triunfalismo acrítico nos ajudam.

Precisamos de olhar para os problemas e para os desafios que temos diante de nós com frontalidade e realismo, mas também com confiança na nossa capacidade coletiva para os resolver.

E isso implica, por vezes, saber dizer que não.

Implica fazer escolhas com critérios racionais, com equidade entre ilhas e com sentido de responsabilidade, pensando no futuro coletivo e não apenas em interesses parcelares, setoriais ou puramente individuais ou na mera contabilidade parlamentar do próximo ciclo eleitoral.

Os Açores têm recursos, talento, conhecimento, criatividade e uma posição estratégica única. Mas, acima de tudo, têm pessoas. E será sempre pelas pessoas que a autonomia terá de ser medida.

Pela capacidade de criar oportunidades. Pela capacidade de gerar justiça social. Pela capacidade de garantir dignidade, coesão e esperança.

E, sobretudo, pela capacidade de gerar verdadeira autonomia. Essa liberdade fundamental de cada pessoa poder ser aquilo que deseja ser.

Esperamos sinceramente que este congresso possa contribuir, ainda que modestamente, para elevar a qualidade do debate público regional. Combatendo os bairrismos, os unanimismos e a cultura resignada do “deixar andar”, bem como a demagogia fácil do populismo de café, com que tantas vezes se destroem sonhos, projetos e aspirações legítimas.

Que daqui saiam soluções efetivas, mas também perguntas importantes. Novas ideias. E, principalmente, novas pontes de diálogo entre as ilhas e as suas gentes. Entre gerações. Entre diferentes formas de olhar e imaginar a ideia de Açores.

E uma consciência mais clara de que o futuro destas ilhas depende, sobretudo, da nossa capacidade de pensar coletivamente um futuro comum para além do curto prazo ou dos interesses particulares de cada momento.

Pela nossa parte assumimos o compromisso de manter viva esta chama do debate livre de ideias, da propositura empenhada e capaz de gerar soluções para o futuro dos Açores. Esta sessão ficará gravada e disponível online no site do Compromisso com os Açores onde será possível acompanhar posteriormente mais informações sobre esta iniciativa. Bem como serão coligidas atas que colocaremos à disposição dos interessados, sejam das instituições públicas como da cidadania.

Obrigado a todos pela vossa presença.

Desejo-vos um excelente congresso e um dia de debate vivo, livre e participado.

Muito obrigado.

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