quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Speakers' Corner 99

O lugar do repouso

Depois da Sagres, também o Amerigo Vespucci, tido por muitos como o mais belo navio do mundo, passou pelo horizonte da minha janela. Ancorado na ilharga do Ilhéu de Vila Franca do Campo, o imponente veleiro de três mastros, ao serviço da Marinha Militar Italiana, pousou sobre as águas, fazendo lembrar tempos idos de antigas e bravas navegações.

A passagem destes dois grandes navios, provenientes da Sail250, a celebração náutica dos 250 anos da independência dos Estados Unidos da América, faz lembrar as velhas rotas dos marinheiros dos Descobrimentos, rumando, como tantos antes deles, aos Açores e recuperando uma centralidade que as ilhas mantiveram pelo menos até ao advento da aviação a jato e que hoje parece, tantas vezes, apenas uma frase vazia na boca dos políticos em autocomplacência.

A verdade é que estas ilhas, colocadas na encruzilhada dos ventos e das correntes do Atlântico Norte, foram durante séculos ponto obrigatório de passagem para quem se aventurava a cruzar este grande e perigoso oceano. Colombo, Gama e tantos outros, como o próprio Amerigo Vespucci, em 1502, regressando de uma viagem ao Brasil ao serviço de Portugal, aportaram aos Açores para repouso dos homens e reparação das naves, nessa grande rota a que se usou chamar “volta do largo”.

Por aqui passaram piratas e navegadores, baleeiros e militares, comerciantes e emigrantes, galeões e hidroaviões. Por aqui se cruzaram as rotas das Índias, dos Brasis e das muitas Américas da abundância. Parte importante da História do mundo passou por estas ilhas. Mais do que ponto de partida ou de chegada, fomos lugar de trânsito. E, talvez por isso, um lugar de repouso na grande História dos outros.

Mas há uma outra história dentro dessa grande História que precisa de ser contada. Uma história que não é de passagem, mas de permanência. A história de um lugar onde se fixaram pessoas. Onde aportaram homens e mulheres que aqui fizeram vida, onde nasceram comunidades, se cultivou a terra, se levantaram igrejas e cidades, se construíram portos, se enfrentaram cataclismos, vulcões e tempestades. Onde se amou, sofreu e morreu. E onde, geração após geração, se construiu um lugar habitável no meio da fúria inclemente do Atlântico Norte, contra todas as expectativas e adversidades.

Porém, por destino ou fatalidade, os Açores vivem mais a história dos que partiram do que dos que ficaram. Até as agora anunciadas celebrações dos 600 anos parecem evocar mais a diáspora do que os que aqui foram vivendo ao longo de mais de seis séculos, ou, quem sabe, ainda mais.

Mais do que contar as grandezas desses outros Açores para lá do mar, precisamos, hoje mais do que nunca, de celebrar os Açores daqui. Dos agricultores e pescadores, dos comerciantes e artesãos, dos marinheiros e trabalhadores, das mulheres e das famílias, dos que, anónimos e sem constar dos livros de História, foram construindo estas ilhas contra a força dos ventos e a fúria das tempestades.

E há ainda a história dos muitos que por aqui passaram e deixaram alguma coisa de si. Os navegadores e tantos outros, viajantes, cientistas, militares, escritores, comerciantes e exploradores que encontraram nos Açores abrigo, conhecimento, alimento ou simplesmente descanso. Uns por meras horas, outros dias, outros uma vida inteira. Todos fazem parte da história deste lugar.

Talvez os 600 anos dos Açores devessem ser também uma oportunidade para contar essa outra história. Não apenas a dos que daqui partiram, mas a dos que aqui chegaram, dos que por aqui passaram e, sobretudo, dos que aqui se deixaram ficar.

Porque os Açores não foram apenas um porto de abrigo no mapa das grandes viagens. Foram lugar de passagem, mas também de permanência.

E, mais do que um lugar por onde passou a História dos outros, são um lugar onde a nossa própria História aconteceu e continua a acontecer.

Talvez seja essa a história que devêssemos celebrar hoje, antes que o passado se perca nas neblinas do futuro.

 

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