O lugar do repouso
Depois da Sagres, também o Amerigo Vespucci, tido por
muitos como o mais belo navio do mundo, passou pelo horizonte da minha janela.
Ancorado na ilharga do Ilhéu de Vila Franca do Campo, o imponente veleiro de
três mastros, ao serviço da Marinha Militar Italiana, pousou sobre as águas,
fazendo lembrar tempos idos de antigas e bravas navegações.
A passagem destes dois grandes navios, provenientes da
Sail250, a celebração náutica dos 250 anos da independência dos Estados Unidos
da América, faz lembrar as velhas rotas dos marinheiros dos Descobrimentos,
rumando, como tantos antes deles, aos Açores e recuperando uma centralidade que
as ilhas mantiveram pelo menos até ao advento da aviação a jato e que hoje
parece, tantas vezes, apenas uma frase vazia na boca dos políticos em
autocomplacência.
A verdade é que estas ilhas, colocadas na encruzilhada dos
ventos e das correntes do Atlântico Norte, foram durante séculos ponto
obrigatório de passagem para quem se aventurava a cruzar este grande e perigoso
oceano. Colombo, Gama e tantos outros, como o próprio Amerigo Vespucci, em
1502, regressando de uma viagem ao Brasil ao serviço de Portugal, aportaram aos
Açores para repouso dos homens e reparação das naves, nessa grande rota a que
se usou chamar “volta do largo”.
Por aqui passaram piratas e navegadores, baleeiros e
militares, comerciantes e emigrantes, galeões e hidroaviões. Por aqui se
cruzaram as rotas das Índias, dos Brasis e das muitas Américas da abundância.
Parte importante da História do mundo passou por estas ilhas. Mais do que ponto
de partida ou de chegada, fomos lugar de trânsito. E, talvez por isso, um lugar
de repouso na grande História dos outros.
Mas há uma outra história dentro dessa grande História que
precisa de ser contada. Uma história que não é de passagem, mas de permanência.
A história de um lugar onde se fixaram pessoas. Onde aportaram homens e
mulheres que aqui fizeram vida, onde nasceram comunidades, se cultivou a terra,
se levantaram igrejas e cidades, se construíram portos, se enfrentaram
cataclismos, vulcões e tempestades. Onde se amou, sofreu e morreu. E onde,
geração após geração, se construiu um lugar habitável no meio da fúria inclemente
do Atlântico Norte, contra todas as expectativas e adversidades.
Porém, por destino ou fatalidade, os Açores vivem mais a
história dos que partiram do que dos que ficaram. Até as agora anunciadas
celebrações dos 600 anos parecem evocar mais a diáspora do que os que aqui foram
vivendo ao longo de mais de seis séculos, ou, quem sabe, ainda mais.
Mais do que contar as grandezas desses outros Açores para lá
do mar, precisamos, hoje mais do que nunca, de celebrar os Açores daqui. Dos
agricultores e pescadores, dos comerciantes e artesãos, dos marinheiros e
trabalhadores, das mulheres e das famílias, dos que, anónimos e sem constar dos
livros de História, foram construindo estas ilhas contra a força dos ventos e a
fúria das tempestades.
E há ainda a história dos muitos que por aqui passaram e
deixaram alguma coisa de si. Os navegadores e tantos outros, viajantes,
cientistas, militares, escritores, comerciantes e exploradores que encontraram
nos Açores abrigo, conhecimento, alimento ou simplesmente descanso. Uns por
meras horas, outros dias, outros uma vida inteira. Todos fazem parte da
história deste lugar.
Talvez os 600 anos dos Açores devessem ser também uma
oportunidade para contar essa outra história. Não apenas a dos que daqui
partiram, mas a dos que aqui chegaram, dos que por aqui passaram e, sobretudo,
dos que aqui se deixaram ficar.
Porque os Açores não foram apenas um porto de abrigo no mapa
das grandes viagens. Foram lugar de passagem, mas também de permanência.
E, mais do que um lugar por onde passou a História dos
outros, são um lugar onde a nossa própria História aconteceu e continua a
acontecer.
Talvez seja essa a história que devêssemos celebrar hoje,
antes que o passado se perca nas neblinas do futuro.


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