Da invisibilidade
Subiu ao palco, no passado sábado, no Teatro Micaelense, a
peça Filhos de Alguém, escrita a duas mãos por Nuno Costa Santos e João
Pedro Porto, com encenação de Miguel Damião. A peça versa sobre dois irmãos
gémeos, sem-abrigo e toxicodependentes, interpretados superiormente por Emanuel
Arada e Rui Silva, que fixam residência no célebre “banco de Antero”, ali ao
Campo de São Francisco, debaixo da icónica Esperança.
De entre os vários temas abordados, da pertença à identidade,
a perda e o infortúnio, mas também de uma sociedade insular em mudança, onde se
cruzam turismo, bairrismo, estratificação social, emigração e, sobretudo, uma
crescente desestruturação social e familiar, há, contudo, uma questão que
atravessa tudo isto e que me parece, paradoxalmente, ser o verdadeiro centro da
peça: a invisibilidade.
Ponta Delgada vive hoje um problema grave de indigência, em
grande medida amplificado pelo consumo descontrolado de novas drogas
sintéticas, que se espalham pelas ruas da cidade como uma pandemia, à mesma velocidade
com que as nossas respostas parecem ficar para trás. E, perante esta realidade,
a nossa reação coletiva é muitas vezes a indiferença. Passamos por ela todos os
dias, atravessamos o quotidiano alheados da sua presença, entre a manhã e a
noite, e aprendemos a não olhar, de casa para o trabalho e do trabalho para o
esquecimento coletivo. Quase como as térmitas, de que só nos lembramos quando
elas entram furtivamente em nossa casa.
É aqui que Filhos de Alguém introduz uma ironia
particularmente mordaz na nossa condição de observadores. Nós, espectadores, escolhemos
sentar-nos confortavelmente num teatro para assistir a uma história sobre
aquilo que, cá fora, fazemos precisamente por não ver. Pagamos um bilhete para
que nos mostrem, sob a proteção da ficção e dentro da respeitabilidade burguesa
e da luz coada de uma sala de espetáculos, uma realidade que se nos projeta na
rua e que existe dia-a-dia à nossa porta. E a peça sabe disso.
Logo no início, quase imperceptivelmente, vemos desenrolar no
ecrã dois sem-abrigo rebolando no “banco de Antero”. Durante alguns minutos
observamo-los como quem observa um pano de fundo, até que os atores entram pela
lateral da plateia quebrando de forma estridente a chamada “quarta parede”. Nesse
instante, aquilo que parecia estar confinado ao palco deixa de estar. Está ali,
no meio de nós.
Este artifício cénico é retomado ao longo da peça, com os
atores a interpelarem diretamente o público e transforma-se numa espécie de
acusação silenciosa ao próprio espectador. Em Filhos de Alguém não
estamos apenas perante uma ficção, uma simples metáfora ou uma história sobre algo
que suspeitamos ser real. Estamos perante uma verdade que reconhecemos, que
sabemos existir e que, fora dali, tantas vezes, escolhemos não ver.
Essa é, talvez, a sua maior ironia, precisamos de ir ao
teatro para que alguém nos mostre aquilo que está à nossa frente todos os dias.
A riqueza do texto destes dois nomes maiores da literatura
açoriana contemporânea, está também nessa capacidade de nos colocar perante a
nossa própria dualidade moral face ao infortúnio alheio. Mas é a encenação e a
força, ao mesmo tempo, poética e física dos atores que transforma essa reflexão
numa experiência corpórea, quase visceralmente incómoda.
Filhos de Alguém, mais do que uma peça sobre a
toxicodependência (aliás um dos momentos mais cenicamente belos da peça), ou
sobre o abandono social e familiar ou, mais especificamente, sobre a
dificuldade intrínseca da relação filial, é sobre esta invisibilidade perturbadora
em que nos transformamos enquanto comunidade e sobre essa existência marginal que
escolhemos não ver. É sobre essa diferença primordial entre saber que uma coisa
existe e ser obrigado a olhar para ela e agir.
No silêncio protegido do teatro, por breves momentos,
escolhemos ver. Cá fora, talvez devêssemos começar a fazer o mesmo.


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