quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Speakers' Corner 97

A Travessia

Chegou segunda-feira à praia de Santo António, depois de percorrer sensivelmente novecentos quilómetros ao longo da costa portuguesa, desde a Praia do Moledo, em Caminha, até às margens do Guadiana. Mas José Maria Pyrrait, o autor desta inusitada façanha, não vinha a pé, nem de qualquer forma motorizado. Avançava lenta e humanamente, ritmado pela sua pagaia, em cima de uma prancha de stand-up paddle.

Ao fim de cerca de quarenta dias de remada, o veterano surfista português, já com 60 anos, concluiu assim uma travessia única pela extensão do nosso litoral. Um desafio pessoal e uma viagem aspiracional sobre resiliência, superação e a permanente capacidade de abraçar objetivos e ambições, independentemente da idade ou da condição física.

Naquilo que o próprio apresentou como um manifesto pelo mar e pela saúde, chamando a atenção para a proteção do oceano, o envelhecimento saudável e a luta contra a diabetes tipo 2, completou uma viagem quase solitária e introspectiva, não apenas pela costa continental portuguesa, mas por uma certa forma de estar na vida.

O Pyrrait, como é conhecido no particular mundo do surf, é um daqueles raros personagens cuja vida daria um filme. Nascido em Lisboa e crescido no Brasil, foi repórter de guerra, fotógrafo profissional, surfista, treinador, viajante e colecionador de histórias, quase açoriano, saltimbanco e inspiração. Um desses heróis desconhecidos que, de repente, veem o seu nome repetido nos principais noticiários pela originalidade, bravura e dimensão da sua façanha.

Mas, para além de tudo o resto, a viagem de Pyrrait ficou marcada por um momento trágico.

Na etapa entre a Zambujeira do Mar e o Monte Clérigo, o jovem Arran Strong, que o acompanhava, desapareceu ao largo da Arrifana. Na sua página do Instagram, Pyrrait descreveu assim o sucedido:

Parámos ao largo da Arrifana para beber água e tirar algumas fotografias. Estivemos à conversa e, quando retomámos a travessia, deixei-o seguir à frente. Como o meu ritmo é mais rápido, fazia sempre isso. Quando o alcançava e ganhava algum avanço, parava e esperava por ele. Desta vez não foi diferente. No entanto, quando parei para o esperar, vi apenas a sua prancha à deriva, a cerca de 100 metros de distância. Remei o mais depressa que consegui até lá. Mergulhei vezes sem conta à sua procura, mas estávamos numa zona muito profunda e com uma visibilidade muito reduzida. […] Infelizmente, o Arran continua desaparecido e, neste momento, as possibilidades de ainda estar vivo são praticamente nulas.

Acredita-se que Strong, ele próprio um surfista de alta competição, terá sucumbido a complicações da epilepsia de que sofria.

Após a sua chegada, Pyrrait afirmou a sua convicção de que a morte não deve ser um tabu. “Todas as pessoas que nós amamos morrem um dia. Umas vão antes, outras vão depois de nós”, disse, numa declaração de amor por alguém que considerava como um filho e que morreu a fazer aquilo que amava.

Na Roma Antiga dizia-se que morriam cedo aqueles que os deuses amavam. A nós, resta-nos pedir que a morte nos leve, quando chegar, junto daqueles que amamos e rodeados daquilo que aprendemos a amar.

Depois de uma vida no mar e desta odisseia de 900 quilómetros pela costa portuguesa abaixo, e quando o país se prepara para celebrar os seus 900 anos, a viagem de Pyrrait lembra-nos que ainda somos um país de mar, de sal e de sonhos que se vivem na distância e na deambulação das correntes e das ondas; de ventos e tempestades que se cruzam com possíveis calmarias, num destino feito de milhas.

O mar não é nosso”, disse também Pyrrait aos jornalistas. “Mas há certas pessoas que são do mar, e eu tenho a sorte de ser uma delas.”

Talvez seja essa verdade escondida desta viagem. A aceitação de que, entre a terra de onde partimos e a terra onde chegamos, somos todos passageiros de uma mesma corrente. Solitários remadores do oceano da vida. E alguns têm a sorte de ser do mar.

 

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Speakers' Corner 96

Órfãos da luz

A manhã levantou-se com a cor do ocaso. De uma luz tépida e baça, como um vidro fosco, impenetrável ao olhar. Um nevoeiro espesso cobria o horizonte, num prenúncio de chuva. Esse sinistro nevoeiro de Antero, essa matéria informe onde as coisas parecem perder o contorno e os homens a vontade. Um nevoeiro líquido e gotejante, ritmado pelo crepitar miúdo da chuva sobre os vidros. Essa humidade constante que repreende a vocação dos olhos para indagar. Tudo se confundia entre o mar, o céu e o horizonte, até na cor dos olhos de quem insiste em encontrar alguma coisa para lá da bruma. O mundo inteiro parecia reduzido a um único tom de branco acinzentado.

Agosto acordou espesso. Com qualquer coisa de viscoso, de enlameado pelo chuvisco morno, um persistente chuvisco piolhento que abespinha a pele e o humor. É um Agosto que faz as ilhas merecerem o seu velho epíteto de bruma. Dias sucessivos debaixo dessa névoa quente que se prende ao corpo com a fatalidade de um suor insistente. Procuramos o mar para nos refrescarmos, mas o oceano está quente e o ar tão saturado de água que quase se faz vapor. Tudo parece dissolver-se na mesma substância húmida. Os sentidos deixam de reconhecer o lugar das coisas, os hábitos perdem o rumo e as estações parecem divertir-se com a nossa necessidade de lhes dar um nome. O verão fez-se outono que saltou o inverno e perdeu-se numa primavera que nunca chegou a existir.

Talvez sempre tenha sido assim. A memória é difusa e capaz de esconder o passado na mesma névoa que cobre o horizonte. Guardo recordações vagas dos verões da infância, em que o sol também se escondia por entre as frinchas dos dias. Andávamos sempre com uma muda de roupa para remediar a chuva que teimava em voltar. Abrigávamo-nos debaixo das árvores do jardim e regressávamos a casa nas intermitências do tempo. Ficavam as tardes compridas no recato das casas, o som abafado das janelas fechadas, o cheiro da roupa húmida e a dor das otites. As tardes mornas e macilentas de Pedro da Silveira, onde o tempo parecia desistir de passar e apenas permanecia, suspenso entre a humidade das paredes e a impaciência das horas.

Quando éramos miúdos e chovia na praia escondíamos as mochilas debaixo da areia para as proteger da chuva e mergulhávamos no mar, como se a água fosse a forma mais simples de esperar que o tempo mudasse. Os mais velhos pregavam-nos amonas na água escura e nós voltávamos à superfície golpeando o ar, as lágrimas e o riso, sem imaginar que o verão pudesse alguma vez falhar-nos. Naquele tempo o verão não precisava de ser luminoso. Bastava-lhe ser nosso.

Ou talvez fôssemos nós que ainda não conhecíamos as frustrações meteorológicas da idade adulta, nem confundíamos o estado do céu com o estado da alma. A infância tem essa feliz capacidade de resistir aos humores do tempo e da natureza.

Hoje, da minha janela, não se vê o Ilhéu. O horizonte é branco-sujo, como um lençol antigo que os anos foram deixando encardir. O nevoeiro faz-se mortalha das nossas aspirações de sol e cobre-nos com um calor líquido, obstinado, quase irrespirável, com o peso de um cansaço que lentamente se entranha no corpo.

Há um peso no ar. Um fardo invisível de gotas suspensas que se cola às costas e ao pensamento. Uma gordura húmida que se deposita sobre as coisas como um lodo transparente, tornando mais lentos os gestos, mais baça a luz, mais pesado o ânimo. Somos órfãos da luz, náufragos à deriva neste arquipélago de bruma.

Talvez por isso o verão na ilha permaneça sempre inacabado. Não começa, nem acaba. Desenrola-se como a própria névoa, escondendo-se atrás de manhãs como esta, até que um dia damos por nós a sentir saudades de um tempo que talvez nunca tenha brilhado tanto quanto o recordamos. As estações vivem menos no calendário do que na memória. E a memória, como o nevoeiro, nunca faz desaparecer o tempo. Apenas o encobre até ao dia em que voltamos a ansiar por ele.

 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Speakers' Corner 95

Um verão sem fim

"Foi sem mais nem menos / Que um dia selei a 125 azul", eram os versos iniciais de 125 Azul, tema dos Trovante, escrito por Luís Represas, que, juntamente com o inesquecível "tu-tu-ru-ru" da melodia, tornou-se um hino de uma geração, num país que se abria ao mundo como se vivesse um verão sem fim, livre, despreocupado e luminoso.

Depois dos anos do PREC, da adesão à CEE, do segundo resgate do FMI, já com o "Soares é Fixe" na Presidência e Cavaco a iniciar uma década de maiorias absolutas, a segunda metade dos anos oitenta, "a década prodigiosa", como lhe chamou Pedro Boucherie Mendes, foi um tempo de extraordinária confiança e esperança. Para a minha geração, aqueles foram os anos em que tudo parecia possível e o futuro aparentava, finalmente, ter abraçado o país.

Após o boom do rock português, com Rui Veloso, UHF, Já Fumega ou Táxi, a segunda metade dos anos oitenta deu-nos uma nova maturidade musical. Dunas, dos GNR, Anzol, dos Rádio Macau, Baía de Cascais, dos Delfins, Surrealizar, dos BAN ou, para os mais alternativos, Zuvi Zeva Novi!, dos Mler Ife Dada, todos lançados entre 1985 e 1988, vestiram aquele tempo com uma banda sonora de múltiplos matizes e uma criatividade invulgar. Foi nesse ambiente que os Trovante editaram, em 1987, Terra Firme, um disco que abria precisamente com 125 Azul e fechava com Perdidamente, uma memorável adaptação de Ser Poeta, de Florbela Espanca.

1987 foi também o ano da campanha do MEC para a primeira eleição portuguesa para o Parlamento Europeu, do inesquecível golo de calcanhar de Madjer que deu ao Futebol Clube do Porto a sua primeira Taça dos Clubes Campeões Europeus e de uma sensação quase coletiva de que Portugal tinha finalmente deixado de viver de costas voltadas para o mundo.

Vestidos de blusão Duffy e sonhando com uma Yamaha 125, azul ou de uma outra cor qualquer, ser jovem nos anos oitenta em Portugal era acreditar que o mundo não tinha limites. Antes do Frágil e da explosão do Bairro Alto, a noite lisboeta fazia-se num circuito que passava pelo Bananas, Plateau, Alcântara-Mar e Xafarix, o popular bar de Luís Represas. A "betalhada" da cidade, viesse do Restelo ou de São Domingos de Benfica, desfilava por ali convencida de que Lisboa estava finalmente a descobrir a modernidade. E nós éramos os porta-estandartes desse futuro que julgávamos durar para sempre, como um verão sem fim.

Olhando para trás, talvez seja precisamente essa tonalidade de esperança o que mais impressiona. Havia uma confiança quase ilimitada no amanhã, uma convicção, ainda que ingénua, de que a vida seria sempre maior do que os seus obstáculos. A morte de Luís Represas representa, para muitos da minha geração, mais do que a perda de um ícone cultural, o encerramento simbólico de uma época e de uma certa ideia de juventude que julgávamos infindável.

Hoje, os jovens dançam funk brega e ouvem kizomba. A PGA parece um exame banal perante a catástrofe digital dos exames do ensino secundário. O equivalente mais próximo da pop chique dos Trovante talvez sejam os talentosos, mas incrivelmente repetitivos, Capitão Fausto. Em comparação, apesar da heroína, dos polos Lacoste comprados na Feira de Carcavelos, de Carlos Cruz antes da Casa Pia ou das Amoreiras antes do caso Taveira, os anos oitenta conservam, na memória de quem os viveu, uma inesperada e doce inocência.

Hoje, o tempo rasteirou-nos pelas canelas. Vieram os impostos e as análises clínicas. O álcool deu lugar à metformina; as drogas leves aos suplementos de ferro e vitaminas. A aspiração deixou de ser a velocidade de uma Yamaha 125 e passou a ser o controlo do colesterol ou da hemoglobina glicada. Já não seguimos pela ponte aberta da vida ao som de 125 Azul. Seguimos ao ritmo das recomendações médicas e das contas para pagar. Mas talvez, afinal, não tenha sido a vida que se tornou mais amarga. Foi apenas aquele verão sem fim que terminou. O açúcar que tratou de vir cobrar a fatura.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Speakers' Corner 94

A vitória dos trabalhadores

E, no fim, ganhou a Espanha. Talvez a equipa que melhor encarnou a ideia de trabalho coletivo ao longo de todo o Mundial. A Espanha demonstrou que o futebol continua a ser um jogo de onze contra onze, e não o desfile deste ou daquele astro, dessas estrelas fabricadas pelo marketing e a venda de camisolas. Apesar de tudo, o futebol continua a ser o passe, a finta, a organização e a força, física e mental, de um grupo de trabalhadores que, juntos, alcançam a glória.

Para lá de Messi ou de Lamine Yamal, a Espanha mostrou que o futebol é a visão e a coragem de um treinador, a resistência defensiva de uma equipa que sofreu apenas um golo em oito jogos, a consistência de um meio-campo que sabe trocar a bola no seu famoso tiki-taka, desesperando os adversários, e um ataque cínico e letal, feito até (sim, Roberto Martínez) de jogadores saídos do banco.

A Espanha de Simón, Cubarsí, Rodri, Cucurella, Oyarzabal, Merino e Torres é a Espanha das antiestrelas, da força e da união de um grupo que, envergando as cores das suas cidades e regiões, representam um país feito de múltiplas identidades. É também a Espanha dessa Hispanidad de Unamuno que inspirou Nemésio a criar a nossa Açorianidade e que nos recorda que é da união das diferenças que nascem os grandes futuros.

Entretanto, por Portugal, o Governo de Montenegro, campeão das viagens para assistir aos jogos do Mundial, ardia em lume alto com os escândalos do caos dos exames nacionais e da amizade polémica entre o ministro da Administração Interna, Luís Neves, e um empreiteiro de Barcelos.

Mais do que episódios isolados, ambos revelam uma preocupante húbris de quem exerce o poder convencido de que está acima das regras comuns. Embora em planos distintos, um perdido na arrogância do grande reformador, outro na sobranceria de quem parece confundir amizade com interesse público, ambos ilustram um país onde demasiadas vezes o Estado é capturado por pequenos esquemas, amizades, lóbis e redes de influência.

No fim, sobra sempre o cidadão comum. O estudante e a sua família, confrontados com a total incompetência do Estado; os professores e as escolas, que, apesar de tudo, mantiveram o sistema de pé enquanto tudo desmoronava; ou o contribuinte, perseguido pelo fisco por meia dúzia de euros e obrigado a assistir, impotente, ao espetáculo dos doutores que tudo parecem poder fazer: da piscina construída onde era um tanque à obra sem licença, do empreiteiro sem fatura ao inacreditável atrelado carregado de reagentes para o processamento de estupefacientes, enviado numa espécie de leasing improvisado do Seixal para o armazém do amigo.

E por aqui, nas ilhas, onde a dívida pública continua a crescer numa espiral sem travão, o presidente do Governo anuncia agora um investimento faraónico de trezentos milhões de euros num hospital que já deixou de ser apenas novo e universitário para se transformar num monumento político cuja construção parece importar mais do que a capacidade futura para o manter.

Sem explicar se os Açores dispõem da dimensão e da sustentabilidade financeira para suportar este verdadeiro Palácio de Versalhes das varizes e das overdoses, Bolieiro compromete a Região com centenas de milhões de euros sem esclarecer de onde virá o dinheiro e qual o plano para assegurar a sua viabilidade. Pior ainda, insiste na narrativa de que a República suportará 85% do investimento, quando a própria resolução do Conselho do Governo esclarece que esse financiamento respeita apenas à reposição das condições de prestação de cuidados de saúde existentes antes do incêndio.

Num tempo de heróis de pés de barro e de governantes enlameados, resta-nos a esperança que vem dos trabalhadores. Sejam os professores que, contra tudo, salvaram a época de exames. Ou aqueles onze operários espanhóis que em campo nos lembraram que a glória não é um direito, mas uma conquista da união, do trabalho e da humildade.

 

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Speakers' Corner 93

O Valor dos Regressos

Nos últimos dias, e ainda antes da divulgação das mais recentes análises à qualidade das águas balneares, São Miguel voltou a assistir ao encerramento de duas zonas balneares por decisão das autoridades de saúde. Somando-se a outros episódios recentes e a resultados preocupantes em várias zonas balneares de referência, começa a desenhar-se um padrão que deveria preocupar autarquias, Governo e cidadãos.

Infelizmente, na incessante discussão que vamos tendo sobre o turismo, perdemo-nos demasiadas vezes na questão das acessibilidades aéreas e esquecemo-nos de um fator ainda mais determinante para o sucesso do destino: a sua qualificação.

A qualidade de um destino não se mede apenas pelo alojamento ou pela restauração. Mede-se também pela limpeza das praias, pela conservação dos trilhos, pela qualidade das águas balneares, pela paisagem, pelo património e pela experiência global que proporciona a quem o visita. É essa experiência, no seu conjunto, que gera a melhor forma de promoção: a recomendação de quem já nos visitou. E, acima de tudo, cria aquilo que qualquer destino turístico procura, turistas que regressam, vulgarmente conhecidos no jargão do setor como repeaters.

A relação entre first timers e repeaters é um dos indicadores mais importantes da competitividade de um destino. Quem visita pela primeira vez concentra-se normalmente nos lugares mais conhecidos, contribuindo para a pressão sobre os pontos turísticos mais mediáticos. Quem regressa procura outras ilhas, novas experiências, gastronomia, património, cultura e um conhecimento mais profundo do território. É também quem permanece mais tempo, distribui melhor o seu consumo e contribui para um turismo mais sustentável.

É precisamente este valor do regresso que tendemos a esquecer nos Açores. Num arquipélago com um mercado interno reduzido e dependente da ligação aérea, fidelizar visitantes é tão importante como conquistar novos turistas.

Os aviões trazem turistas. Só a qualidade do destino os faz regressar.

Quando nos obcecamos com campanhas de promoção ou com a captação de novas rotas, esquecemo-nos de que a melhor estratégia para encher esses aviões continua a ser garantir a satisfação de quem nos visita. Um turista satisfeito não só regressa como recomenda o destino a familiares e amigos, multiplicando o impacto da sua experiência muito para além da sua própria viagem.

Segundo os dados mais recentes do OTSA, na época alta de 2025, cerca de 60% dos turistas estavam nos Açores pela primeira vez e apenas 40% repetiam a visita. E dificilmente a explicação para esta diferença estará no preço. Mais de 70% dos visitantes têm rendimentos mensais superiores a 2000€ e, destes, mais de 12% ultrapassam os 9000€. Apesar dos elevados níveis de satisfação dos inquiridos, continuamos a revelar uma capacidade relativamente modesta para transformar boas experiências em regressos.

Nos últimos anos, o setor privado fez um esforço extraordinário para qualificar a oferta turística, seja no alojamento, na restauração ou na animação. Já o investimento público ficou tristemente aquém desse esforço. Bermas de estradas degradadas, praias sem nadadores-salvadores, zonas balneares frequentemente interditas ou cobertas de algas, trilhos sem manutenção e um património histórico e cultural insuficientemente valorizado são detalhes que, somados, pesam na experiência de quem nos visita e acabam por enfraquecer a competitividade do destino no feroz mercado global.

A sustentabilidade do turismo açoriano não depende apenas da capacidade de atrair novos visitantes ou abrir novos mercados. Depende, sobretudo, da capacidade de lhes dar razões para voltar. Um destino vale verdadeiramente quando deixa de ser apenas uma descoberta e passa a ocupar um lugar permanente na memória afetiva de quem o visita. É esse, mais do que qualquer campanha de promoção ou nova rota aérea, o verdadeiro valor dos regressos.

 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Speakers' Corner 92

A ideia de América

No último sábado, os Estados Unidos da América celebraram o 250.º aniversário da Declaração de Independência. Mais do que um marco histórico ou uma celebração identitária, o 4th of July, particularmente num aniversário tão simbólico como este, é um convite a refletir sobre aquilo a que se usou chamar a ideia de América.

Desde tempos imemoriais, alimentado por lendas e mitos atlânticos, o Ocidente foi imaginado como a Terra Prometida. A chegada dos primeiros colonos à América consolidou essa visão de um território de oportunidades e abundância, uma narrativa renovada ao longo dos séculos nas lutas dos Founding Fathers, na conquista do Oeste, na corrida ao ouro e na land of opportunity de sucessivas gerações de emigrantes que ali encontraram a terra dos sonhos e, para alguns, da prosperidade. Poucas imagens traduzem melhor esse imaginário do que a voz de Frank Sinatra cantando If you can make it there, you'll make it anywhere, em New York, New York. A cidade que nunca dorme, juntamente com o grande Oeste americano, permanece, ainda hoje, como símbolo maior dessa promessa de liberdade e oportunidade para todos.

O historiador Daniel J. Boorstin descreveu a América como uma nação onde tudo parecia possível, uma terra do inesperado, da descoberta e da esperança. Talvez essa tenha sido a maior herança política dos EUA: a convicção de que a liberdade individual constitui a condição essencial para construir uma vida melhor e de que o papel da comunidade e do Estado é, antes de mais, protegê-la.

Os princípios inscritos na Declaração de Independência, na Constituição e, em particular, na Bill of Rights, três dos mais influentes documentos da tradição política ocidental, assentam na ideia de We the People. Limitam o poder do Estado, estabelecem o equilíbrio entre poderes e consagram liberdades fundamentais como a liberdade de expressão, de religião, de imprensa e de reunião, bem como o direito a um julgamento justo e à proteção contra os abusos da autoridade.

As palavras de Thomas Jefferson inscritas na Declaração de Independência permanecem entre as mais poderosas da história política moderna: "Consideramos estas verdades evidentes por si mesmas: que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo seu Criador de certos direitos inalienáveis, entre os quais a Vida, a Liberdade e a procura da Felicidade." Nelas afirma-se uma profunda mudança civilizacional face ao Antigo Regime, colocando a dignidade da pessoa humana no centro da organização política da comunidade, do Estado e da Lei.

Apesar das suas profundas contradições ao longo destes duzentos e cinquenta anos, marcadas pela escravatura, pelo genocídio dos povos nativos, pelas tentações imperialistas e pelas desigualdades de uma sociedade moldada pelas tensões do capitalismo, a América continua, mesmo num tempo de populismos e nacionalismos, a representar a land of the free. O American Dream, esse El Dorado possível, continua a alimentar a esperança e a ambição de milhões de pessoas em todo o mundo.

Para nós, açorianos, mais do que a décima ilha, a América representa uma existência repartida entre dois continentes, entre as margens de um oceano de esperança onde o Velho e o Novo Mundo se encontram. Dos irmãos Corte-Real ao novo ou velho emigrante açoriano de hoje, a América permanece não apenas como um lugar, mas como uma ideia: a de que existe sempre uma nova fronteira por descobrir e um futuro melhor para construir.

Talvez seja esse o seu maior legado. Recordar-nos que um povo só é verdadeiramente livre enquanto conservar essa capacidade de sonhar. Porque sonhar é desafiar os limites do presente e acreditar na possibilidade de um futuro melhor. Enquanto existir essa liberdade de sonhar, haverá sempre um caminho por abrir, um oceano por atravessar ou uma esperança por cumprir. No fim, são os sonhos que nos tornam livres. E talvez seja essa liberdade o que, de alguma forma, nos torna únicos e imortais.

 

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Speakers' Corner 91

A Outra Face da Autonomia

Na última sexta-feira, a Assembleia da República assinalou, numa sessão solene, o cinquentenário das primeiras eleições regionais e da instalação dos parlamentos dos Açores e da Madeira. Numa cerimónia marcada pela conspícua ausência do Primeiro-Ministro, os discursos oscilaram entre a exaltação das conquistas alcançadas e a já habitual reafirmação da necessidade de um maior apoio financeiro da República às ilhas.

Também António Vitorino, convidado a discursar no Salão Nobre da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, salientou a justiça dessa solidariedade nacional, reforçando a ideia, repetidamente evocada por José Manuel Bolieiro, de um devido "tributo da República" para com os arquipélagos.

Ao mesmo tempo, um episódio aparentemente secundário acabou por revelar muito sobre o atual momento político e sobre os seus protagonistas. Enquanto Miguel Albuquerque abandonou a presidência da Mesa do Congresso do PSD, alegando explicitamente o insuficiente compromisso da direção nacional com as autonomias, José Manuel Bolieiro aceitou, sem pejo, o convite de Montenegro para desempenhar esse cargo. O que, para um, constituiu uma questão de verticalidade autonómica, para o outro traduziu-se num exercício de maleabilidade política. Mais do que uma falha de lealdade de Bolieiro para com Albuquerque, para com a Madeira ou para com a defesa conjunta do projeto autonómico, o episódio demonstra como a causa da autonomia continua, demasiadas vezes, subordinada às conveniências pessoais e partidárias dos seus protagonistas.

Para lá dos discursos e das estratégias, há uma ideia de fundo que sobressai ao cabo de meio século de autonomia e das respetivas celebrações: a de que existe uma obrigação permanente da República de financiar o desenvolvimento das regiões autónomas, como se a solidariedade nacional fosse um direito adquirido, inesgotável e incondicional.

Por mais legítimas que sejam estas reivindicações, há uma outra face da autonomia de que ninguém parece querer falar: a da corresponsabilidade. Solidariedade nacional e responsabilidade insular são os dois pilares fundamentais do projeto autonómico. Uma reconhece os custos permanentes da insularidade; a outra exige que a Região governe os seus destinos com rigor, eficiência e visão estratégica.

O discurso político permanece excessivamente concentrado naquilo que a República deve aos Açores e muito menos naquilo que os Açores devem a si próprios. Continuamos a discutir transferências financeiras, mas evitamos debater a produtividade, a competitividade, a simplificação e modernização administrativa, a eficiência dos serviços públicos ou a sustentabilidade da dívida regional. É sempre mais fácil reclamar novos recursos do que reformar a forma como utilizamos os que já temos.

Celebramos estradas, portos, aeroportos e hospitais, mas raramente debatemos quem pagará a sua manutenção nas próximas décadas. Evitamos discutir o inverno demográfico, a reorganização inevitável dos serviços públicos, a complementaridade entre ilhas ou a necessidade de fazer escolhas difíceis num território com recursos limitados e persistentes bolsas de pobreza.

Passamos demasiado tempo enredados em bairrismos, olhando para os nossos umbigos, ou em reivindicações pecuniárias, em vez de olharmos para os Açores sem o conforto da retórica sobre uma alegada centralidade atlântica, que não passa de um acaso geográfico, enfrentando antes as nossas fragilidades na educação, na produtividade, na demografia, na coesão territorial e na criação de riqueza.

A autonomia nasceu para substituir a tutela política de Lisboa, não para institucionalizar uma dependência financeira permanente. Só uma Região que se governe com exigência, rigor e visão estratégica poderá reclamar, com inteira legitimidade, a solidariedade nacional e o respeito político da República.

Caso contrário, continuaremos a levantar a voz para reclamar mais autonomia, enquanto estendemos a mão para que alguém continue a pagar a conta.