Um verão sem fim
"Foi sem mais nem menos / Que um dia selei a 125
azul", eram os versos iniciais de 125 Azul, tema dos Trovante,
escrito por Luís Represas, que, juntamente com o inesquecível
"tu-tu-ru-ru" da melodia, tornou-se um hino de uma geração, num país
que se abria ao mundo como se vivesse um verão sem fim, livre, despreocupado e
luminoso.
Depois dos anos do PREC, da adesão à CEE, do segundo resgate
do FMI, já com o "Soares é Fixe" na Presidência e Cavaco a iniciar
uma década de maiorias absolutas, a segunda metade dos anos oitenta, "a
década prodigiosa", como lhe chamou Pedro Boucherie Mendes, foi um
tempo de extraordinária confiança e esperança. Para a minha geração, aqueles
foram os anos em que tudo parecia possível e o futuro aparentava, finalmente,
ter abraçado o país.
Após o boom do rock português, com Rui Veloso, UHF, Já
Fumega ou Táxi, a segunda metade dos anos oitenta deu-nos uma nova maturidade
musical. Dunas, dos GNR, Anzol, dos Rádio Macau, Baía de
Cascais, dos Delfins, Surrealizar, dos BAN ou, para os mais
alternativos, Zuvi Zeva Novi!, dos Mler Ife Dada, todos lançados entre
1985 e 1988, vestiram aquele tempo com uma banda sonora de múltiplos matizes e
uma criatividade invulgar. Foi nesse ambiente que os Trovante editaram, em
1987, Terra Firme, um disco que abria precisamente com 125 Azul e
fechava com Perdidamente, uma memorável adaptação de Ser Poeta,
de Florbela Espanca.
1987 foi também o ano da campanha do MEC para a primeira
eleição portuguesa para o Parlamento Europeu, do inesquecível golo de calcanhar
de Madjer que deu ao Futebol Clube do Porto a sua primeira Taça dos Clubes
Campeões Europeus e de uma sensação quase coletiva de que Portugal tinha
finalmente deixado de viver de costas voltadas para o mundo.
Vestidos de blusão Duffy e sonhando com uma Yamaha 125, azul
ou de uma outra cor qualquer, ser jovem nos anos oitenta em Portugal era
acreditar que o mundo não tinha limites. Antes do Frágil e da explosão do
Bairro Alto, a noite lisboeta fazia-se num circuito que passava pelo Bananas,
Plateau, Alcântara-Mar e Xafarix, o popular bar de Luís Represas. A
"betalhada" da cidade, viesse do Restelo ou de São Domingos de
Benfica, desfilava por ali convencida de que Lisboa estava finalmente a
descobrir a modernidade. E nós éramos os porta-estandartes desse futuro que
julgávamos durar para sempre, como um verão sem fim.
Olhando para trás, talvez seja precisamente essa tonalidade
de esperança o que mais impressiona. Havia uma confiança quase ilimitada no
amanhã, uma convicção, ainda que ingénua, de que a vida seria sempre maior do
que os seus obstáculos. A morte de Luís Represas representa, para muitos da
minha geração, mais do que a perda de um ícone cultural, o encerramento
simbólico de uma época e de uma certa ideia de juventude que julgávamos
infindável.
Hoje, os jovens dançam funk brega e ouvem kizomba. A PGA
parece um exame banal perante a catástrofe digital dos exames do ensino
secundário. O equivalente mais próximo da pop chique dos Trovante talvez sejam
os talentosos, mas incrivelmente repetitivos, Capitão Fausto. Em comparação,
apesar da heroína, dos polos Lacoste comprados na Feira de Carcavelos, de
Carlos Cruz antes da Casa Pia ou das Amoreiras antes do caso Taveira, os anos
oitenta conservam, na memória de quem os viveu, uma inesperada e doce
inocência.
Hoje, o tempo rasteirou-nos pelas canelas. Vieram os
impostos e as análises clínicas. O álcool deu lugar à metformina; as drogas
leves aos suplementos de ferro e vitaminas. A aspiração deixou de ser a
velocidade de uma Yamaha 125 e passou a ser o controlo do colesterol ou da
hemoglobina glicada. Já não seguimos pela ponte aberta da vida ao som de 125
Azul. Seguimos ao ritmo das recomendações médicas e das contas para pagar.
Mas talvez, afinal, não tenha sido a vida que se tornou mais amarga. Foi apenas
aquele verão sem fim que terminou. O açúcar que tratou de vir cobrar a fatura.

