O ópio do povo
Na última semana, uma miríade de acontecimentos políticos
assolou a Europa e o mundo, agitando as águas da história com a turbulência
imprevisível das massas.
Em Espanha, na sequência das manifestações provocadas pelo
caso Maricarmen, Sánchez convocou eleições antecipadas, depois de ver chumbadas
as suas propostas para enfrentar a crise da habitação.
Em França, estudantes do ensino secundário, num movimento
espontâneo que se espalhou por centenas de escolas, protestam contra a falta de
professores, as turmas sobrelotadas, a degradação dos edifícios escolares e a
falência do sistema de ensino. A eles juntaram-se sindicatos de professores,
associações de pais e outros sectores da sociedade. A poucos meses das eleições
presidenciais, Macron vê Le Pen e Mélenchon ganharem avanço nas sondagens.
Em Inglaterra, o novo primeiro-ministro Andy Burnham fez, na
conferência anual do Labour, um discurso onde prometeu maior controlo público
da água, da energia e da habitação, alterações ao sistema de pensões, reforma
eleitoral e uma reaproximação à União Europeia.
Na Ucrânia, Putin continua a bombardear Kiev enquanto o
chanceler alemão Merz passeia pelos escombros, prometendo mais meios e
financiamento para o apoio a Zelensky.
Em Ormuz, a guerra bíblica de Trump ameaça transformar-se
numa nova Guerra dos Cem Anos, perante o impasse com o Governo de Teerão.
Enquanto isso, as principais companhias americanas de IA
assinam acordos sobre superinteligência, procurando estabelecer mecanismos de
autocontrolo, vigilância e boas práticas de segurança. Ao mesmo tempo, os
agentes de IA tornam-se cada vez mais autónomos, abandonando as suas “caixas de
areia” e aprendendo a pedalar sozinhos, sem rodinhas, até à singularidade.
No Brasil, Lula disputará a segunda volta das presidenciais
com Flávio Bolsonaro, que ganhou o primeiro turno, com 47% dos votos.
Em Portugal, o primeiro-ministro Luís “Spinumviva”
Montenegro deu uma aula na sua antiga escola secundária, em Espinho, sobre
ética, integridade e prevenção da corrupção. A piada faz-se sozinha.
Marco Rubio visita Portugal, enquanto o Ministério Público
lança averiguações para apurar se houve ilegalidades na utilização americana da
Base das Lajes nos ataques ao Irão.
Já na nossa pequena intimidade insular, José Manuel
Bolieiro, depois de ter declarado na Madeira que considerava pouco éticas
algumas práticas comerciais das transportadoras aéreas, alegou, no entanto, que
não se imiscui nos assuntos internos da companhia da qual o Governo Regional
ainda é, até ver, o principal acionista.
O mundo parece aproximar-se de uma nova encruzilhada, onde
passado e futuro convergem como dois comboios desgovernados. Um mundo onde o
humano parece ter passado a ser um dano colateral, um acessório dos grandes
movimentos globais, dos líderes desgovernados, dos algoritmos acelerados e de
um capitalismo cada vez mais selvagem e decadente.
A crise energética junta-se ao aumento dos juros, da
inflação e do custo de vida, num clima que alguns economistas descrevem como pré-2008,
numa referência clara à maior crise financeira do nosso tempo.
No meio deste turbilhão, o cidadão atento vacila, suspenso
entre a estupefação e o medo. Haverá esperança na condição humana? Poderemos
ainda recuperar o rumo da história para uma era de paz e progresso? Ou o que
nos espera é a hecatombe global, feita de extinção e domínio da máquina? Um
tecnofeudalismo distópico, inteiramente algorítmico e superinteligente?
Estamos a assistir, em directo, à detonação de uma bomba
atómica à escala global. Só que sem bunker para onde fugir. O mundo divide-se
entre doomers apocalípticos e tecno-otimistas utópicos.
Entretanto, em Portugal, o país divide-se entre os de
Ronaldo e os de Jesus, num interminável drama de balneário transformado em fofoca
televisiva e discussões de café.
Para Portugal o futebol será sempre o ópio mágico para
adormecer o povo e obnubilar as massas.

