A retro-autonomia
Há dias, um amigo convidou-me para estar presente num evento
em Carcavelos. Entusiasmado, lancei-me nos sites das duas companhias aéreas em
busca de preços. A iridescência do online devolve-me valores na ordem dos 400€
e 500€, ida e volta, de um dia para o outro. Para tarifas mais em conta, ainda
assim a rondar os 300€, e com viagem de regresso a ocupar um dia inteiro, com
escalas na Horta ou em Angra, ambas as companhias obrigam a uma estadia de pelo
menos três dias na capital. Já muito foi dito sobre este novo espaço aéreo
regional, devolvido ao cartel das companhias de bandeira, ou sobre os dramas do
Subsídio Social de Mobilidade e da sua plataforma de desesperança, que obrigam
o residente a hipotecar vencimentos para uma ida à metrópole. Mas a verdade,
nua e crua, é que este novo modelo resulta num enorme retrocesso na mobilidade
da região.
Este fim de semana, o ar aqui em casa foi presenteado com os
aromas fétidos de um entupimento no saneamento básico da rua, o que provocou um
transvase de águas residuais para uma conduta pluvial que descarrega
diretamente no mar. A princípio, julgámos tratar-se da maré ou da famigerada
alga que infestou as ilhas, mas cedo percebemos que o problema era, afinal, de
origem intestinal humana. O problema, esperamos nós, ficou resolvido na
segunda-feira de manhã, com um telefonema para os serviços da Câmara ou, talvez,
pelo burburinho que, entretanto, já se tinha instalado nos fóruns do Facebook, que
são, hoje em dia, o que faz os políticos mexer. A verdade é que ficámos a
perceber que o sistema de saneamento básico da Vila funciona com redundâncias
do século passado, à mercê da sorte e da falta de investimento e manutenção. Algo
que já nem é um retrocesso, mas um enquistamento crónico do nosso poder
autárquico. Entretanto, os dejetos e remanescentes da higiene pessoal continuam
ali, no calhau, à espera da maré de lua cheia ou de uma chuvada forte que os
leve para o mar. Consta também que o Ilhéu abrirá nesta época balnear, também
ele ao sabor da sorte e da maré.
Nas notícias, ontem fez manchete o encerramento definitivo
das Termas da Ferraria, dezasseis anos após a sua reabertura, depois de um
investimento público de mais de quatro milhões de euros e após seis meses de
espera por uma solução para a reabertura da estrada de acesso, encerrada na
sequência de uma derrocada. Mais um prego no caixão da falta de dinheiro e
estratégia da Secretaria do Turismo e das Obras Públicas. Algo, aliás,
amplificado pela notícia do desinvestimento no Torneio de Futebol Pauleta que,
por via da redução de verbas, viu a sua dimensão e prestígio seriamente
comprometidos. Se o Pauleta se queixa, quem somos nós para chorar o fim dos
apoios da DRT à Cultura e ao Desporto? É só mais um retrocesso, como tantos
outros.
Mas talvez o maior recuo de todos seja o ressurgir e o
alastrar dos incompreensíveis bairrismos entre as ilhas, especialmente entre a
Terceira e São Miguel, agora a propósito do malfadado e, diria, assombrado
Hospital do Divino Espírito Santo. É difícil compreender a sanha com que certa
intelectualidade terceirense se arregimenta contra uma suposta “elite
terratenente micaelense” (expressão deles, não minha), que, dizem, pretende
prejudicar as oito ilhas com um investimento centralizado numa estrutura
hospitalar em Ponta Delgada. Ao ponto de sugerirem, como alternativa, pasme-se,
numa espécie de psicologia invertida, a construção de dois hospitais na ilha de
São Miguel, a menos de vinte quilómetros um do outro. Este bairrismo cego e
desvairado, assente em argumentos arcaicos de um pseudo-feudalismo
marxista-leninista, das elites de São Miguel contra o povo dos Açores, é mais
do que um recuo. É uma autêntica regressão ao passado mais escuro e opressivo
de uma região sem união, cultura e noção de geografia humana.
De recuo em recuo, passamos de uma autonomia progressiva
para um novo paradigma – o da retro-autonomia.

