quarta-feira, 10 de junho de 2026

Speakers' Corner 88

Dia de Portugal e das suas Ilhas

Celebra-se hoje, nessa "mui nobre, leal e sempre constante" Angra do Heroísmo, o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. A data que já foi o Dia da Raça e, antes disso, bandeira republicana contra a monarquia pela mão do nosso muito ponta-delgadense Teófilo Braga, chega-nos agora envolta no manto da língua, da diáspora e de uma certa portugalidade consensual, suficientemente despojada de chavões identitários para não incomodar ninguém.

Este ano, as celebrações acontecem em Angra, mais precisamente no Cerrado do Bailão, vindas diretamente do Grão-Ducado do Luxemburgo, onde mais uma vez se homenageou essa diáspora portuguesa feita de sangue, suor e lágrimas, malas de cartão e magnatas da construção. A escolha foi justificada oficialmente pelos cinquenta anos das autonomias regionais. E creio tratar-se de uma escolha feliz. Não apenas pela beleza da cidade ou pela sua relevância histórica, mas porque oferece ao país uma oportunidade rara para refletir coletivamente sobre o que significam, afinal, cinco décadas de autogoverno democrático nas ilhas e sobre aquilo que estas acrescentam ao todo nacional.

Pondo de lado as pequenas polémicas protocolares e as inevitáveis suscetibilidades institucionais, que talvez se resolvessem com uma simples não comparência, tudo isso faz parte do folclore da ocasião e rapidamente será esquecido. Mais interessante será perguntar o que é efetivamente a Autonomia, como nos conduziu até aqui e que contributo trouxe à própria ideia de Portugal.

A Presidência da República justifica que a celebração nos Açores pretende sublinhar a "importância histórica, política e cultural das regiões autónomas na construção de um Portugal mais coeso, plural e solidário". Ora, se assim é, importa reconhecer que a Autonomia acrescentou horizonte e dimensão ao país. Tornou-o mais plural, mais democrático e mais capaz de assumir a sua intrínseca vocação atlântica.

Cinco décadas depois, os Açores já não são uma ameaça à unidade nacional, nem um problema político por resolver. São uma região que se governa democraticamente, administra uma parte significativa dos seus destinos e desenvolveu uma identidade política própria sem deixar de se reconhecer plenamente em Portugal.

As autonomias regionais constituem hoje uma das mais bem-sucedidas experiências, talvez a única verdadeiramente consequente, de descentralização política da democracia portuguesa. E, no entanto, persistem equívocos, de parte a parte, sobre o alcance desse autogoverno.

É precisamente por isso que importa colocar uma questão simples: se a Autonomia faz cinquenta anos e é amplamente reconhecida como uma conquista, porque continua o Estado português a comportar-se como se precisasse de manter um tutor constitucional nas ilhas?

A figura do Representante da República, independentemente de quem lhe envergue o título, permanece como uma relíquia de um tempo em que Lisboa olhava para as autonomias com a cautela e a desconfiança próprias de um vigilante de jardim-escola. Se as autonomias são suficientemente maduras para legislar, governar, administrar recursos públicos, representar os seus cidadãos e participar plenamente na vida democrática nacional, então talvez sejam também suficientemente maduras para dispensar tutelas simbólicas herdadas de uma longa tradição centralista e assumir maiores responsabilidades sobre os espaços que lhes dão razão de ser, nomeadamente o mar.

Celebrar o Dia de Portugal e os cinquenta anos da Autonomia deveria significar precisamente isso: reconhecer que o autogoverno regional fortaleceu a unidade nacional e que são também as ilhas que ampliam Portugal no mundo.

Porque, se é nobre uma nação que se celebra na figura de um poeta, maior ainda poderá ser aquela que se reconhece para além das fronteiras fixas do seu território continental, assume plenamente a sua dimensão atlântica e se abre ao mundo através do horizonte das suas ilhas e do mar que as une.

 

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Speakers' Corner 87

Entre Nevoeiros

Há semanas em que o cronista se depara com a angústia deserta da página em branco. Noutras, a torrente de factos é tal que a verdadeira dificuldade está em escolher por onde deixar cair a pena.

Na política regional, a novela prossegue excitante. Entrevistas e contraentrevistas alimentam parangonas. Esgrimem-se argumentos para todos os gostos, desde os que passam certidão de óbito à coligação aos que, marinando nela, ainda lhe auguram um futuro auspicioso. Na Roma antiga dizia-se que morrem novos aqueles que os deuses amam. Por cá, parece que os próprios protagonistas ainda não perceberam que são já cadáveres políticos, incapazes de regressar à vida por mais sopas do Espírito Santo que lhes sirvam.

Por seu lado, o líder da oposição, sem afastar totalmente o namoro centrista, ensaia um argumento formalista para justificar o receio de eleições. Uma coisa é controlar o próprio partido; outra, bem mais complexa, é enfrentar a imprevisibilidade do voto popular. Invocam-se a Constituição, os avisos do Presidente da República e os da sua enviada local para defender uma espécie de entente parlamentar, em vez de devolver a palavra ao povo.

O que mais espanta neste juridiquês político falacioso é a incapacidade de perceber o dano que causa à própria democracia. O medo do CHEGA, ou o medo de perder o próprio lugar, parece sobrepor-se à evidência de que, num momento em que a desconfiança dos cidadãos em relação à política é tão profunda, recusar o voto popular para resolver uma crise política apenas agravaria esse descrédito. E quanto maior o descrédito, mais fértil o terreno para o populismo que dizem combater.

É como se o nevoeiro que se abateu sobre as ilhas tivesse também descido sobre o discernimento dos protagonistas do teatro político. Um manto espesso e opressivo, produzido tanto pelas condições atmosféricas como pelo excesso de tática e pela falta de sentido de serviço público.

A névoa prolonga-se, aliás, como metáfora viva da nossa condição coletiva. Aviões permanecem em terra ou sobrevoam as ilhas em círculos, incapazes de aterrar. Acumulam-se passageiros sem destino nem lugar onde dormir. Tudo se suspende. Uma espécie de cataclismo em forma de vapor que entorpece os corpos e obscurece a visão, até que tudo se torna baço, inclusive nós próprios.

Talvez essa lassidão ajude a explicar o editorial de sábado do Diário Insular, onde, com desarmante naturalidade, foi revelado que informação técnica relevante sobre o risco vulcânico de Santa Bárbara terá sido deliberadamente omitida às populações, não apenas por departamentos governamentais, mas também pelo próprio jornal. Se assim foi, estamos perante uma grave omissão e uma afronta aos princípios mais elementares da deontologia jornalística.

Mas, num país onde a democracia parece padecer de uma doença lenta e degenerativa, à autocensura jornalística, mais perigosa do que muitas falsas notícias, junta-se uma chaga judicial que ameaça corroer a confiança pública. Depois de uma carta dirigida ao Presidente da República, o juiz Ivo Rosa descreveu, em entrevista, situações de verdadeira perseguição por parte do Ministério Público que deveriam provocar um sobressalto cívico generalizado. Mas já nem isso parece capaz de romper o nevoeiro que nos entorpece.

Também no sábado, Ponta Delgada recebeu a célebre peça Catarina ou a Beleza de Matar Fascistas. O que mais impressiona não é o dilema do conhecido paradoxo da tolerância de Popper. É, antes, a forma como o dispositivo cénico transforma o público em ator. A certa altura, deixa de ser o palco o lugar da intolerância e passa a ser a plateia o seu espelho. Nessa desconfortável inversão, percebemos que a fronteira entre democracia e autoritarismo é, afinal, muito mais frágil do que gostamos de admitir.

Talvez seja esse o maior paradoxo. Enquanto discutimos quem ameaça a democracia, esquecemo-nos de que ela raramente morre de um tiro. Morre lentamente e sem estrondo, como um nevoeiro.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Speakers' Corner 86

Congresso da Autonomia

“Nadar sem braçadeiras.” A resposta, desarmante e com essa acutilância própria da infância, foi dada por um aluno da Escola Novas Rotas a Luís Banrezes, uma das caras do Festival Tremor, um dos mais significativos produtos de exportação não extrativa da região, à pergunta: “o que é a autonomia?”

E a resposta não podia ser mais certeira. Autonomia é o contrário da dependência, seja para pensar, sonhar, agir, escolher, nadar sem braçadeiras ou voar rumo a um futuro melhor. Autonomia é essa maturidade; é liberdade para decidir o rumo da própria vida ou, neste caso específico, o rumo de uma região que se diz autónoma.

No passado sábado, em vésperas do “Dia da Pombinha”, decorreu, na Biblioteca Pública de Ponta Delgada, o Congresso da Autonomia. Um encontro que tive o prazer e a honra de coorganizar com os meus camaradas Nuno Tomé e José San-Bento, no âmbito da iniciativa Compromisso com os Açores. Num intenso dia de reflexão e debate, um vasto conjunto de personalidades oriundas de diferentes ilhas, formações e experiências debateu, juntamente com um público interessado e participativo, os Açores e a sua condição geográfica, social e política, procurando alcançar a sua essência e, acima de tudo, lançar pontes para um futuro melhor para as próximas gerações.

O objetivo deste encontro foi agitar o tão típico marasmo insular, que tantas vezes cobre a opinião livre e o debate franco de ideias como um nevoeiro baixo e espesso que se cola à pele e ao espírito dos açorianos. Longe dos espartilhos institucionais ou ideológicos, e contra todo o tipo de bairrismos ou unanimismos, as opiniões e propostas expressas no Congresso revelaram que é possível pensar os Açores de forma audaciosa, com ambição e projeto e, ao mesmo tempo, de forma abnegada e altruísta.

Melhores salários, maior aposta na ciência e maior capacidade de intervenção nas esferas de decisão nacionais. Aposta na complementaridade e na valorização das potencialidades endógenas e especificidades de cada ilha. Infraestruturas capazes, funcionais, racionais e complementares no contexto arquipelágico. Correto aproveitamento dos fundos disponíveis e investimentos públicos reprodutivos, capazes de alavancar o dinamismo e o potencial exportador do setor privado, mesmo em áreas não imediatamente óbvias, como a cultura ou nichos específicos do setor primário com produtos de maior valor acrescentado, competindo na qualidade em vez da quantidade. Repensar a estrutura do poder, apostando mais no municipalismo e na especialização, potenciando o mercado interno. Promover a criatividade e a diversificação para reter talento, sem que isso signifique a “consanguinidade de ideias”. Ao mesmo tempo, capacitar a região com recursos humanos e inteligência prospetiva que permitam melhores investimentos. Revisão da lei eleitoral, redução do número de deputados e de cargos governativos e uma urgente reforma da Lei das Finanças Regionais.

Estas foram algumas das sugestões deixadas no Congresso da Autonomia pelos mais de 17 especialistas intervenientes, a quem publicamente gostaria de agradecer pela riqueza e pertinência dos seus contributos. Só com políticas públicas robustas, sustentadas no conhecimento e no planeamento, poderemos vencer os desafios do futuro, seja na fixação dos jovens, no combate ao inverno demográfico, na transformação digital ou na ameaça das alterações climáticas.

Não basta fazer discursos de mão estendida. É preciso pensamento, diálogo e ação para legar às novas gerações um futuro de prosperidade em todas as ilhas.

Por último, uma palavra de apreço para o Dr. Mota Amaral, Pedro Nascimento Cabral e Cláudio Almeida que, numa demonstração superior de fair play ideológico, nos honraram com a sua presença. Ao contrário, diga-se, de todas as outras entidades públicas e partidos que, de forma ostensiva e, em alguns casos, deliberada, se fizeram notar pela ausência. A “humildade democrática” prova-se nos gestos, e não nas palavras.

 

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Congresso da Autonomia - Discurso de Abertura


Congresso da Autonomia

Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada

23 de maio de 2026

Discurso de Abertura

Muito bom dia a todos. Senhoras e Senhores, entidades presentes, caros convidados. Quero começar por agradecer a presença de todos neste Congresso da Autonomia, neste dia cinzento, de bruma pesada, que nos faz sentir no corpo o verdadeiro sentido da vida insular atlântica.

Permitam-me primeiro uma palavra de agradecimento muito especial a todos os participantes nos diferentes painéis, pela vossa disponibilidade, colaboração e vontade de contribuir para esta reflexão coletiva.

À Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, por acolher graciosamente esta iniciativa.

À comunicação social aqui presente. E à não presente. Num tempo em que a informação é tantas vezes polarizada, fragmentada e dúbia, é essencial uma imprensa livre e corajosa, capaz de se afirmar sem tibiezas como testemunha crítica da sociedade e não apenas como amplificador de interesses instalados ou refém de contingências políticas e financeiras. É assim que se constroem comunidades mais conscientes, mais saudáveis e mais duradouras.

E, sobretudo, um agradecimento sentido, a todos os que, numa demonstração viva de participação democrática e cidadã, decidiram dedicar este sábado, ou uma parte dele, a ajudar-nos a pensar os Açores. Porque esse é, no fundo, o objetivo primordial deste encontro: pensar os Açores.

Mais do que uma celebração ou um simples assinalar de uma efeméride, este Congresso pretende ser um exercício de cidadania. Um espaço de participação cívica, de debate livre de ideias e de reflexão aberta e plural sobre o passado, o presente e o futuro da Região Autónoma dos Açores, no momento em que assinalamos o cinquentenário dessa grande conquista constitucional de Abril que foi a autonomia política e administrativa açoriana.

Pensar os Açores sem slogans fáceis nem ruído excessivo. Sem o imediatismo pueril que tantas vezes domina o debate público. Pensá-los com tempo, profundidade, espírito crítico e sentido de responsabilidade.

Os Açores não são uma entidade abstrata para uso burocrático, nem uma ideia romântica para uso poético. São a união de nove realidades distintas, que se encontram num mesmo ponto de origem, de destino e de pertença comum.

Celebramos este ano cinquenta anos da autonomia política e administrativa dos Açores. Cinquenta anos. E se me permitem uma nota pessoal, este cinquentenário coincide sensivelmente com a minha idade. Nasci nesse ano inaugural de mudança e esperança que foi 1974.

E, por si só, esta é uma data demasiado importante para se resumir a cerimónias protocolares, discursos de circunstância ou comemorações institucionais. Merece reflexão. Merece debate. Merece, acima de tudo, a participação dos açorianos.

Porque a autonomia não é apenas um modelo administrativo ou uma conquista constitucional. A autonomia é uma construção coletiva. É uma porta aberta para o futuro.

E é, até hoje, para adaptar uma citação famosa, a pior forma que os açorianos encontraram para se governarem a si próprios, à exceção de todas as outras.

Foi através dela que os Açores conquistaram capacidade de decisão, afirmaram a sua identidade e passaram a poder definir, com maior liberdade, o seu caminho no contexto nacional, europeu e atlântico.

Mas sabemos também que nenhuma conquista política vive apenas do passado. A autonomia não pode ser apenas memória. Tem de ser capacidade de ação. Capacidade de responder aos desafios do presente e de preparar o futuro.

E os desafios que hoje se colocam aos Açores são exigentes.

Vivemos num mundo em rápida transformação: marcado pela instabilidade económica, pelas alterações climáticas, pelas mudanças tecnológicas, pelas pressões demográficas e pelo desgaste crescente das democracias, da vida política e, de certa maneira, da vida pública em geral, com as pessoas a distanciarem-se cada dia cada vez mais da coisa pública, do bem comum e da vida das comunidades.

Os Açores não estão isolados desse mundo. Nem estão à margem dessas mudanças. Sentimo-las na economia, nos transportes, na saúde, na habitação, na dificuldade em fixar os jovens, no envelhecimento da população e nas desigualdades sociais. E sentimo-las também, muitas vezes, na forma como nos relacionamos uns com os outros e como olhamos para o interesse coletivo. Presos em nove insularidades distintas, tantas vezes dezanove. Ou, como dizia um amigo meu, com um Espírito Santo que mal olha para o Espírito Santo do lado.

Por isso, este congresso não foi pensado para produzir consensos artificiais. Nem para alimentar bairrismos, trincheiras políticas ou ambições pessoais. Foi pensado para criar espaço para um debate sério, franco, aberto e plural sobre aquilo que somos e, sobretudo, sobre aquilo que queremos ser.

Ao longo do dia teremos cinco painéis dedicados a diferentes dimensões da autonomia — humana, competitiva, produtiva, sustentável e futura.

E escolhemos, para participar destes cinco painéis, deliberadamente pessoas com origens, percursos, experiências e sensibilidades diferentes. Porque acreditamos que uma autonomia forte não se constrói no pensamento único nem no unanimismo estéril.

Constrói-se na diversidade, na capacidade de ouvir e no confronto democrático de ideias. Constrói-se, também, na própria multiplicidade das nossas nove identidades insulares, que serão sempre mais fortes quanto maior for a sua união e o seu Compromisso com os Açores.

Também quisemos que este congresso fosse uma iniciativa da sociedade civil. Num tempo em que tantas vezes esperamos que tudo venha das instituições, pareceu-nos importante devolver este debate aos cidadãos. Porque a autonomia pertence a todos. Não pertence a um partido, a um governo, nem tampouco a uma geração.

Pertence aos açorianos. Aos de agora e, sobretudo, aos de amanhã, aqueles para quem devemos direcionar as nossas maiores ambições e esperanças.

Pertence aos que cá vivem. Aos que partiram. Aos que querem ficar e aos que sonham voltar. Aos que nasceram nestas ilhas e também aos que, vindos de outras geografias, escolheram os Açores para morar.

E pertence a todos os que continuam a acreditar que é possível construir um futuro melhor para esta terra e para quem nela faz, dia após dia, a sua vida.

Gostaria também de deixar uma nota importante.

Falar do futuro dos Açores exige ambição. Mas exige igualmente maturidade. Nem o pessimismo permanente, que tantas vezes nos consome, nem o triunfalismo acrítico nos ajudam.

Precisamos de olhar para os problemas e para os desafios que temos diante de nós com frontalidade e realismo, mas também com confiança na nossa capacidade coletiva para os resolver.

E isso implica, por vezes, saber dizer que não.

Implica fazer escolhas com critérios racionais, com equidade entre ilhas e com sentido de responsabilidade, pensando no futuro coletivo e não apenas em interesses parcelares, setoriais ou puramente individuais ou na mera contabilidade parlamentar do próximo ciclo eleitoral.

Os Açores têm recursos, talento, conhecimento, criatividade e uma posição estratégica única. Mas, acima de tudo, têm pessoas. E será sempre pelas pessoas que a autonomia terá de ser medida.

Pela capacidade de criar oportunidades. Pela capacidade de gerar justiça social. Pela capacidade de garantir dignidade, coesão e esperança.

E, sobretudo, pela capacidade de gerar verdadeira autonomia. Essa liberdade fundamental de cada pessoa poder ser aquilo que deseja ser.

Esperamos sinceramente que este congresso possa contribuir, ainda que modestamente, para elevar a qualidade do debate público regional. Combatendo os bairrismos, os unanimismos e a cultura resignada do “deixar andar”, bem como a demagogia fácil do populismo de café, com que tantas vezes se destroem sonhos, projetos e aspirações legítimas.

Que daqui saiam soluções efetivas, mas também perguntas importantes. Novas ideias. E, principalmente, novas pontes de diálogo entre as ilhas e as suas gentes. Entre gerações. Entre diferentes formas de olhar e imaginar a ideia de Açores.

E uma consciência mais clara de que o futuro destas ilhas depende, sobretudo, da nossa capacidade de pensar coletivamente um futuro comum para além do curto prazo ou dos interesses particulares de cada momento.

Pela nossa parte assumimos o compromisso de manter viva esta chama do debate livre de ideias, da propositura empenhada e capaz de gerar soluções para o futuro dos Açores. Esta sessão ficará gravada e disponível online no site do Compromisso com os Açores onde será possível acompanhar posteriormente mais informações sobre esta iniciativa. Bem como serão coligidas atas que colocaremos à disposição dos interessados, sejam das instituições públicas como da cidadania.

Obrigado a todos pela vossa presença.

Desejo-vos um excelente congresso e um dia de debate vivo, livre e participado.

Muito obrigado.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Speakers' Corner 85

A salto e a sonho

Na segunda-feira passada, um recluso da cadeia de Ponta Delgada, enquanto gozava o seu tempo de pátio, apoiou-se nas paredes do ginásio e, galgando o muro, saltou por entre os buracos da rede mal remediada que envolve o estabelecimento, evadindo-se da prisão que o encarcerava. Resvalando, apressado, pela estrada, alcançou os tetrápodes da avenida e lançou-se precipitadamente ao mar.

Fugido da prisão, logo se fechou a fronteira da ilha, numa metáfora brutal da existência insular. Viver numa ilha é tanto horizonte como limite. E aquilo que não se pode transpor a salto só se consegue alcançar à força de barco e de sonho, como escreveu Manuel Ferreira.

Pondo de lado a realidade concreta desta história, de pobreza, precariedade e desinvestimento crónico numa cadeia que já ultrapassou todos os limites do razoável, até do seu próprio tempo de vida (se bem que, nestes 50 anos de autonomia, talvez estes sejam exatamente os temas de que devêssemos falar), o que esta história caricata nos traz é uma metáfora viva da nossa identidade: um homem que fugiu da prisão para se lançar ao mar e descobrir que, afinal, era a ilha que o aprisionava.

Algures na primeira metade do século passado, numa altura em que esta ilha fervilhava de ambição e empreendedorismo privado, com as forças vivas da cidade de Ponta Delgada, e da ilha no seu todo, fortemente empenhadas no seu desenvolvimento, fosse na eletrificação, no comércio, no turismo ou em planos mais vastos, como a linha de caminho-de-ferro que circundaria a ilha ou, mais tarde, as ligações aéreas que a ligariam ao mundo, um grupo de empresários e beneméritos, aqueles que alguns hoje, presos nos baús do ressabiamento, chamam pejorativamente de terratenentes, pretendeu levar a cabo a construção de um sanatório para tratamento das doenças mentais, tendo para tal desiderato convidado o ilustre cirurgião Egas Moniz a visitar a ilha.

Reza a lenda que, após um jantar oferecido em sua honra no final dessa visita e quando questionado acerca da viabilidade de tal investimento, o famoso médico, não sem alguma ironia, terá respondido que o melhor seria construir um muro à volta da ilha, suprindo assim todas as suas necessidades em matéria de sanidade mental. Ou da falta dela, acrescentaria eu.

Esta história sempre me fez rir e, ainda hoje, olhando o estado da coisa pública, muitas vezes me questiono acerca da sua acutilante perspicácia.

O facto é que os Açores, ou as suas nove ilhas, de dimensões e singularidades distintas, são um território hostil e tantas vezes inclemente com as suas gentes. Há aqui uma rudeza própria, um enclausuramento natural das esperanças que tem tanto de físico como de mental. A vida faz-se aqui da força das suas contrariedades, numa luta constante entre os elementos e a própria natureza das pessoas.

Cinquenta anos depois da instituição da Autonomia consagrada pela Constituição de 1976, os Açores vivem talvez o período mais difícil da sua frágil e curta história arquipelágica. Os bairrismos, ou, se quisermos, a luta fratricida entre São Miguel e Terceira, atingem níveis de estridência como nunca se viu, num agigantar de ressentimento e violência que põe em causa a própria integridade do projeto autonómico, com consequências futuras que temo que os próprios intervenientes, as tão propaladas elites políticas, económicas e culturais de cada burgo, pareçam não querer enxergar convenientemente.

É neste cenário de dupla insularidade que vos convido a participar no Congresso da Autonomia, iniciativa cidadã que terá lugar neste sábado, na Biblioteca Pública de Ponta Delgada, que visa pensar os Açores para lá dos muros invisíveis que fomos erguendo entre ilhas e entre nós próprios.

Porque há cadeias feitas de pedra e cimento. Mas há outras, talvez mais duras, feitas de inveja, ressentimento e pequenez. E um povo que deixa de sonhar com o horizonte acaba inevitavelmente por transformar a ilha numa prisão.

  

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Speakers' Corner 84

Fé na Humanidade

Esta terá sido a semana mais religiosa da vida portuguesa contemporânea. Num curto intervalo de dias coincidiram, mais uma vez, as duas maiores manifestações de fé popular do país: o Senhor Santo Cristo dos Milagres e Fátima. Num Estado que se proclama laico, a extraordinária capacidade de mobilização coletiva destas celebrações revela um país que, afinal, continua profundamente marcado pela sua génese cristã. Seja através do culto mariano de Fátima, seja, em versão insular, pela devoção ao Senhor Santo Cristo, tal como foi difundida por Madre Teresa da Anunciada, permanece viva uma espécie de memória espiritual que resiste à modernidade e à erosão da própria fé.

O fenómeno de Fátima não pode ser dissociado da sua circunstância histórica. As aparições de 1917 emergem num Portugal dilacerado pelas convulsões anticlericais da Primeira República e de um mundo devastado pela Primeira Guerra Mundial. Na Cova da Iria, três crianças pobres e analfabetas surgem quase como símbolo de uma inocência primordial, escolhidas pelo divino para advertir a humanidade acerca das suas fragilidades morais e espirituais. Não surpreende, por isso, que a reação inicial do poder republicano tenha oscilado entre a hostilidade e a repressão, interpretando o fenómeno como uma potencial conspiração clerical e monárquica contra a República. Também não é indiferente o facto de Portugal se encontrar então mergulhado no horror da guerra europeia e africana. Fátima nasce desse cruzamento entre medo, esperança e necessidade de transcendência. Mais tarde, a oficialização do culto pela Igreja, em 1930, e a apropriação simbólica feita pelo Estado Novo acabariam por sedimentar Fátima como um dos grandes pilares identitários do século XX português.

O culto do Senhor Santo Cristo dos Milagres, profundamente enraizado em São Miguel e em todo o imaginário açoriano, possui igualmente uma origem inseparável do seu tempo histórico. Surge na esteira da Contrarreforma católica e do reforço do culto da Paixão de Cristo como resposta doutrinária aos avanços do protestantismo europeu. O Ecce Homo, o Jesus humilhado, ensanguentado e sofredor, torna-se uma das imagens centrais da espiritualidade barroca saída do Concílio de Trento.

Entre os finais do século XVII e o início do XVIII, os Açores eram um território de pobreza, isolamento e permanente vulnerabilidade. À ameaça constante de catástrofes e tempestades somavam-se os ataques de piratas e a tragédia da emigração. Foi nesse ambiente religioso e político, num império português alimentado pelo ouro do Brasil, que viveu Madre Teresa da Anunciada. A procissão promovida por Madre Teresa, em 1698, nasce precisamente dessa necessidade coletiva de proteção, redenção e esperança perante a permanente precariedade da vida.

Talvez por isso o Senhor Santo Cristo permaneça tão profundamente inscrito não só no espírito micaelense como na alma açoriana. Não apenas enquanto devoção religiosa, mas enquanto linguagem emocional de um povo habituado à imponderabilidade da existência. A imagem do Cristo sofredor funciona não como triunfo da transcendência, mas como reconhecimento íntimo da inerente fragilidade da condição humana.

Para alguém sem fé, como eu, o fenómeno coletivo da peregrinação, da promessa ou da simples crença é, antes de tudo, uma manifestação pura de humanidade. A devoção mariana ou a sacralização da imagem do Cristo da Paixão representam, acima de tudo, a expressão não do divino, mas daquilo que existe de mais sublime em nós: a infinita capacidade do ser humano para resistir e para amar, mesmo em face do Inferno.

Maria, a mãe, ou o Jesus torturado e sofredor apresentado à multidão simplesmente como “o Homem”, acabam por ser espelhos simbólicos da própria Humanidade. São representações da nossa vulnerabilidade, mas também da nossa permanente possibilidade de redenção e dessa extraordinária capacidade que temos, apesar de tudo, para criar o bem.

 

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Speakers' Corner 83

Sem rumo nem destino

O Presidente do Governo Regional e do PSD local, José Manuel Bolieiro, deu, na semana passada, nesse seu estilo pós-barroco de inspiração naïf, rendilhado e decorativo, uma extensa entrevista ao podcast “Política com Assinatura”, da jornalista da Antena 1, Natália Carvalho. De entre os vários temas abordados, o que sobressaiu no spin noticioso do dia foi uma pergunta estrategicamente colocada sobre o fim do prazo de validade da sua coligação de governo.

Num tom anticlimático, como quem revela um segredo de polichinelo, Bolieiro acabou por confirmar aquilo que já todos suspeitávamos e que, aliás, cada um à sua maneira, Artur Lima e Paulo Estevão já tinham, há muito, anunciado: o termo dessa ménage à trois de conveniência política entre centristas, monárquicos e sociais-democratas. A novidade foi tão pouco surpreendente que o tema acabou arrastado pela enxurrada do aumento dos combustíveis que o próprio governo de Bolieiro anunciou no dia seguinte, para exasperação dos especialistas de marketing político, enorme preocupação do próprio e desespero da carteira de todos nós.

O que surpreende neste epifenómeno político não é a sua confirmação, mas o timing. A meio de um mandato, quando todos clamam por uma remodelação que dê novo alento a uma governação caótica e destrutiva, Bolieiro opta, ao invés, por dar uma machadada final na já ínfima coesão do seu executivo. Se antes já era difícil discernir um rumo, agora teremos secretários em roda-viva, cavalgando sem rédea (literalmente, no caso do secretário da Agricultura), agindo sem nexo, cada um em função do seu próprio ganho político, em prejuízo de todos nós e dos destinos da região.

Vários comentadores já explicaram a matemática do cálculo político do presidente do Governo. Aproximando-se o fim do PRR, com uma dívida galopante, sem fim à vista para a privatização da SATA ou para as guerras na Saúde, e com a mais do que previsível continuação da curva descendente dos números do turismo ao longo do verão, culminando num orçamento praticamente impossível em outubro, José Manuel Bolieiro lança no xadrez político a hipótese de dissolução, na expectativa de ver quem cai na armadilha. Dizem os corredores que o faz para apaziguar alguns barões locais do seu partido. Outros veem nesse divórcio a esperança de uma vitória eleitoral robustecida e amplificada pela fraca implantação popular da atual oposição socialista.

O que parece é que Bolieiro, que nunca se imaginou Presidente, já se vê, neste momento, a partir para outros voos, quem sabe, num qualquer Ministério do Mar ou do Espaço, nesse Terreiro do Paço de metropolitanas mordomias. Ou, em último recurso, a chamar para junto de si o Chega, para governar sem altercação nem vergonha por mais um mandato. Algo que, suspeito, para ele, entre o que está e o que há de vir, seja mais ou menos a mesma coisa.

O que fica por revelar, para além do momento e do modo exato da queda do Governo, é como vai reagir o eleitorado a mais este cenário de caos eleitoral. Que já está toda a gente esgotada com os desvarios deste trio de incompetência, bairrismo e desnorte é um facto; mas quem vai capitalizar com isso permanece uma incógnita. Terá o PS capacidade para se impor como alternativa? Capitalizará o PSD, com o afastamento do CDS e do PPM, conseguindo uma maioria absoluta, alavancada não só na desconfiança do eleitorado na liderança dos socialistas, como também no receio dos neo-popular-fascistas do Chega? Conseguirá o CDS manter-se à custa da bandeira do bairrismo que o seu líder tanto gosta de agitar? Terá o PPM a esperança vã de preservar uma réstia de relevância? E para onde irão os votos de BE e PAN, em pleno eclipse de significância?

Não fosse tudo isto uma parte importante das nossas vidas, e até seria um jogo interessante de acompanhar. Assim, é apenas triste constatar como, sem rumo nem destino, nos vamos lenta e perigosamente aproximando do precipício final.