quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Speakers' Corner 47

Perseguidores de tempestades

Nos últimos dias, a comunidade surfista açoriana esteve em estado de alerta em antecipação à chegada da ondulação originada pelo furacão Erin.

Nascido de uma onda tropical que se formou próximo de Cabo Verde, no dia 11 de agosto, quatro dias depois, ao aproximar-se das Antilhas e do mar das Caraíbas, o Erin atingiu a categoria de furacão. O que o torna particularmente extraordinário foi o seu impressionante crescimento à medida que curvava pelo Atlântico em aproximação aos Estados Unidos, tornando-se o furacão que mais rapidamente atingiu a categoria 5 na escala de Saffir-Simpson. Passou da categoria 1, com ventos na ordem dos 120 km/h, para a categoria 5, com ventos superiores a 250 km/h, em apenas um dia.

Felizmente, o Erin desenvolveu-se maioritariamente sobre o mar, afetando ligeiramente as ilhas das Caraíbas e já como tempestade tropical atingiu as Bermudas, provocando chuvas, alguns cortes de energia e dificuldades nas ligações aéreas. Ironia do destino, os principais impactos do Erin foram, afinal, as fortes inundações que causou em Cabo Verde, ainda na sua fase inicial, e, agora, a poderosa ondulação que gerou ao longo de todo o Atlântico Norte.

Os surfistas são seres especiais, buscam a agitação onde outros procuram a calmaria. O surf, afinal, é um jogo de paciência, mais de espera e de busca do que de ação, mais de antecipação do que de agitação. Somos, por assim dizer, vindimadores de tempestades, e a emoção única das ondas talvez só seja igualada pela excitação de imaginar uma ondulação a cruzar vastos oceanos até se materializar, de forma pura e intocada, em ondas no litoral escondido e isolado da ilha.

Ontem, enquanto os banhistas eram surpreendidos por ondas inusitadamente grandes, os surfistas percorriam a costa em busca do pico perfeito, daquela onda única e rara que só quebra circunstancialmente, com as condições certas. E, por toda a internet chegavam relatos dessa ondulação gigantesca, com ondas de 24 metros a atingirem a costa leste dos Estados Unidos e previsões de vagas de quase 20 metros, em pleno agosto, na costa portuguesa.

Felizmente para uns, decepcionante para outros, o Erin passou tranquilamente pelas ilhas açorianas, com ondas a rondar os 2 metros, perfeitamente aceitáveis para os surfistas de fim de semana que infestam as praias da ilha nesta altura do ano.

Mas, o que importa reter são os dados globais destas tempestades e o que elas representam para os Açores. A verdade é que temos assistido a um aumento significativo não só do número de tempestades como também, e mais grave, da sua intensidade. Os dados dizem-nos que, nos últimos 100 anos, os Açores passaram a ter três vezes mais tempestades tropicais e furacões do que no início do século XX, sendo as décadas de 70 e 90 as que registaram maior número. Outro dado significativo é a intensidade: cinco grandes furacões atingiram os Açores nos últimos 20 anos. Desde o Gordon, que cruzou o arquipélago em setembro de 2006, a sul de São Miguel, ainda como furacão de categoria 1, até ao Lorenzo, que assolou as ilhas do Grupo Ocidental nos primeiros dias de outubro de 2019, também ainda como furacão de categoria 1, atingindo as Flores e o Corvo com ventos sustentados de 100 km/h e ondas na ordem dos 15 a 20 metros, causando os estragos que todos conhecemos.

O que isto nos diz é que a natureza não se preocupa com as aflições humanas. Como dizia Pessoa: “A natureza não tem coração; é de uma indiferença que ofende”. Somos nós, os humanos, que temos de aprender a compreendê-la, a aceitar-lhe os humores e a saber viver com ela. Isso significa que não vale a pena contrariar os desígnios do clima, nem querer, arrogantemente, enfrentar as suas forças que, como todos os surfistas sabem, se estão nas tintas para com os desejos ou ambições dos homens.

Se não soubermos moldar-nos ao que a natureza nos oferece, acabaremos inevitavelmente por ser destruídos por ela.


quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Speakers' Corner 46

A Primeira Lei de Newton

Portugal arde.

Com a fatalidade de um destino traçado e a regularidade de um relógio solar, o país consome-se, ou é consumido, pelo fogo no verão. Esta sina triste e aparentemente imutável repete-se ano após ano, com o rigor de uma lei por entre o calendário das procissões e das férias dos veraneantes. Uma verdadeira “Volta a Portugal”, não de bicicletas, mas de labaredas e de fumo.

Pelas notícias, somos inundados (perdoem-me a ironia) pelo suor banhado de espanto, coragem e exaustão dos bombeiros; pela fúria de alguns autarcas; pela aflição das populações; e pelos discursos gastos dos políticos de Lisboa que fogem das perguntas dos jornalistas ou fazem brindes com cervejas na festa do Pontal. Tudo isto em diretos televisivos incessantes, que procuram a emoção crua da catástrofe num guião estudado de desilusão e medo.

E o país arde.

E, como sempre, lamentamos a crónica falta de meios, os aviões que avariam, os eucaliptos que tomaram conta da paisagem como uma praga movida pela avareza e pelo lucro, e a sempre prometida mas nunca cumprida gestão do território, que os especialistas repetem há décadas como sendo o mais profundo e premente problema do país. Desertificámos o interior e, com ele, colocámo-nos a todos em risco.

Vivemos num tempo que se desmaterializou, que se desprendeu do solo, da terra, das culturas, das pastorícias, das estações. Como dizia há dias Henrique Pereira dos Santos, deixámos de comer cabrito para comer salmão e abacate. Os cabritos cresciam nas serras, alimentando-se do mesmo combustível que hoje alimenta os fogos que crescem sem travão, ao sabor do vento e de décadas de desertificação. Os salmões crescem em tanques, à base de ração de soja e antibióticos. Os abacates chegam de produções intensivas, imunes às restrições da sazonalidade e banhados numa enxurrada de rega e fertilizantes.

Esta artificialização dos ritmos e contextos coloca-nos numa condição permanente de alerta em que, ironicamente, somos ao mesmo tempo vítimas e agressores. Todo um mundo que desapareceu e recusamos adaptar-nos ao novo que surgiu.

Paradoxalmente, aqui na ilha, um autarca confrontado com uma óbvia e inacreditável asneira de urinóis e águas residuais de um evento a correrem sem freio para a ribeira e o mar respondeu candidamente: “sempre foi assim”. Perante o absurdo, a reação foi a resignada aceitação da barbárie, como se a estupidez fosse uma fatalidade da natureza, numa espécie de híper-conservadorismo que recusa a mudança, o progresso e até o próprio bom senso.

Estes dois movimentos, aparentemente opostos, um mundo rural desertificado e uma rudeza que se repete, radicam afinal no mesmo princípio: a inércia.

No país que arde e no autarca que se conforma há a mesma incapacidade de perceber que o mundo à volta se transforma, se modifica, que o mundo pula e avança num perpétuo movimento de constante evolução. O “sempre foi assim” traduz exatamente essa incapacidade de reconhecer que o mundo, afinal, já não é assim.

Da mesma forma que em Portugal continental o interior foi abandonado por décadas de migração para as grandes cidades, também nas ilhas o litoral se aburguesou, por assim dizer. Tornou-se finalmente habitado, fonte de prazer e fruição. Onde antes vivia o vazio e a indigência, hoje multiplicam-se turistas, escolas de surf, banhistas de diferentes proveniências e costumes. Sinalizando, numa inescapável fluorescência, que as coisas afinal já não são assim e que temos forçosamente de nos adaptar a elas.

Newton explicou que um objeto, esteja em repouso ou em movimento, não muda o seu estado a menos que seja forçado por uma força exterior. Já que nos recusamos a aceitar Newton, que ao menos nos lembremos de Darwin para perceber que, se não fizermos alguma coisa diferente do que “sempre foi”, se não nos adaptarmos, acabaremos fatalmente por ser os agentes da nossa própria autodestruição, tanto pela (má) ação como pela inércia.

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Speakers' Corner 45

O Desafio Arquipelágico

Ao fim de quase trinta anos a viver nos Açores e mais de vinte como filho de açorianos no continente estou convicto de que o maior desafio que estas ilhas enfrentam, ainda hoje, é o desafio arquipelágico.

Não se trata apenas de afirmar a tão glosada e tantas vezes mal interpretada “açorianidade”, mas de construir uma verdadeira identidade arquipelágica. Una, coesa e realmente interdependente entre si. O grande desafio destas ilhas é conquistar a consciência de um arquipélago que se reconheça como tal, feito das suas nove partes, mas unido na certeza de uma realidade comum, partilhada por todos, entre o mar e a terra, e de um povo moldado na dicotomia entre os dois.

Desde os primeiros povoamentos que estas nove ilhas se mantêm de costas voltadas umas para as outras. Hoje, continuam a perder-se em bairrismos fúteis e disputas estéreis. Basta ver como as decisões políticas, seja de que natureza forem, ainda se fazem, tantas vezes, à medida da pressão local e não de uma visão arquipelágica sobre as ilhas.

E mesmo na diáspora, o açoriano só é “açoriano” para fora. Por dentro, mantém a marca indelével da sua ilha e, dentro dela, da sua freguesia. Como dizia, creio que, Daniel de Sá, pode-se tirar o homem da freguesia, mas não se consegue tirar a freguesia de dentro do homem.

Este apego telúrico, íntimo e inexpugnável, é talvez o traço mais pungente do ser açoriano. Talvez até, junto com a religiosidade, seja o mais premente. Mas, mesmo nessa religiosidade, o traço comum fragmenta-se em mil formas. Até no que poderia ser a mais unificadora das tradições, o culto do Espírito Santo, somos uma manta de retalhos. As sopas das Flores não são as mesmas que as de Santa Maria ou as da Terceira.

Ao longo dos séculos, esta fragmentação foi reforçada por divisões administrativas e políticas. No tempo das donatarias, a lógica era de feudo; mais tarde, os distritos acentuaram rivalidades, criando uma geografia mental onde “ilha vizinha” passou a ser “concorrente” e não “parceira”. Já na autonomia, a tripartição entre ilhas e cidades ecoa, de certa forma, as três pessoas do Espírito Santo, distintas, mas que raramente funcionam em verdadeira comunhão.

O grande desafio autonómico de 1976, que em breve comemoraremos (esperemos que de forma séria e não apenas celebratória e politicamente esvaziada), era e continua a ser a construção de uma verdadeira consciência de união arquipelágica. Olhando para o que foi feito nestes quase cinquenta anos, fica a sensação de que falhámos em criar um património identitário conjunto. Continuamos sem uma relação filial entre nove ilhas tão distintas e distantes, mas necessariamente dependentes umas das outras.

Se tivesse de assinalar os verdadeiros motores desse movimento eles seriam, não as formulações políticas, mas a SATA, a Universidade dos Açores e, fundamentalmente, a RTP-Açores. Cada uma, à sua maneira, fizeram mais pela ideia de Açores do que meio século de autonomia. A companhia aérea, ligando as ilhas e estas ao exterior. A universidade, dando-lhes lastro cultural, científico e diplomático, até. E a RTP-Açores, talvez a mais importante de todas, pelo conhecimento real que permitiu entre as ilhas dando-se os açorianos a conhecer entre si através dos ecrãs da televisão.

A identidade constrói-se com esse conhecimento mútuo, com partilha de sensibilidades e afectos, com o acto simples, mas poderoso, de mostrar a um açoriano do Corvo a realidade de outro em Santa Maria. E, nestes cinquenta anos, que agora se celebram, talvez tenha sido a RTP-Açores, mais do que ninguém, a conseguir esse abraço arquipelágico. Num território que vive de costas voltadas, é a televisão quem, com imagens e palavras, aproxima o que a geografia e a história tantas vezes separam.

Resta-nos esperar que talvez um dia essa união não dependa só das ondas hertzianas, mas das ondas reais de cooperação e reconhecimento mútuo e que nos viremos todos, finalmente, de frente uns para os outros.

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Speakers' Corner 44

A frustração de uma petição

Nestes tempos conturbados que vamos vivendo, é frequente ouvirmos os políticos nas televisões falarem da erosão dos valores, da falência da democracia, da ascensão dos populismos e do fantasma de novos totalitarismos que pairam negros e ameaçadores sobre nós, como nuvens de mau agoiro.

A verdade é que esta luta da democracia pela sua autopreservação é já antiga. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial que as democracias ocidentais têm procurado manter o Estado Social e defender o seu contrato com os cidadãos. Não poucas vezes, essa defesa passou pelo apelo à participação cívica e pela criação de instrumentos de democracia direta, como é o caso dos referendos ou, mais concretamente, das petições. Com estes instrumentos, pretendia-se incentivar os cidadãos a fazerem parte do governo democrático, indo mais além do que a mera prática do dever cívico do voto nos atos eleitorais.

No enquadramento constitucional português, o direito de petição está consagrado desde 1976, tendo sido reforçado com a revisão constitucional de 1989 e regulamentado pela Lei n.º 43/90, de 10 de agosto, que estabelece as condições do seu exercício por cidadãos e entidades coletivas. Este direito permite a qualquer cidadão (português ou estrangeiro residente) recorrer aos órgãos de soberania para defender direitos ou propor medidas de interesse geral.

Ao nível da União Europeia, qualquer cidadão dispõe do direito de petição ao Parlamento Europeu, consagrado no artigo 227.º do Tratado sobre o Funcionamento da UE e no artigo 44.º da Carta dos Direitos Fundamentais. As petições europeias constituem um canal direto entre cidadãos e instituições da UE, reforçando a democracia participativa. Destacam-se particularmente em temas como o ambiente, a saúde pública ou a proteção de direitos fundamentais.

Em ambos os níveis, nacional e europeu, as petições são instrumentos centrais de participação democrática, permitindo aos cidadãos contribuir ativamente para os processos políticos e legislativos, com procedimentos claros, simples e, felizmente, cada vez mais acessíveis graças à digitalização.

O problema é que, infelizmente, e com particular gravidade ao nível regional, as petições têm sido sucessivamente tratadas com uma espécie de sobranceria altiva por parte de deputados, comissões e parlamento. O instrumento peticionário é encarado, nomeadamente pelo parlamento regional, como mais uma maçada regimental que é necessário cumprir com enfado. Recorrentemente, as petições são admitidas, organizam-se audições por parte das comissões competentes, elaboram-se relatórios vazios, em que os partidos que suportam os governos se limitam a fazer eco daquilo que os diferentes departamentos governamentais lhes impingem e, tanto em sede de relatório como de debate, abstêm-se de emitir parecer, fazer recomendações ao governo ou, e aqui os restantes grupos parlamentares são igualmente responsáveis, apresentar qualquer tipo de proposta legislativa ou de resolução que acolha as preocupações dos cidadãos e procure efetivamente resolver os problemas que estas petições sinalizam.

O caso mais recente é o da petição SOS Monte Verde, em que, após inúmeras audições e, até, visitas ao local, tanto a comissão como o plenário foram incapazes de olhar com intenção para as propostas feitas pelos cidadãos com vista a uma solução equilibrada para o problema de contaminação das águas da praia do Monte Verde e das ribeiras que aí desaguam. Pelo contrário, expuseram-se ao ridículo de apenas corroborar as ações que as secretarias envolvidas alegam estar a implementar e que, como ficou claro em julho último, com uma nova interdição a banhos no local, comprovadamente não servem nem resolvem o problema.

Quando tanto se fala em defender a democracia, talvez se devesse começar por aqui: pela proteção e pelo respeito por um dos poucos gestos de democracia participativa que os cidadãos ainda têm ao seu dispor.

quarta-feira, 30 de julho de 2025

Speakers' Corner 43

A heteronímia do lugar

É comum, na indústria do turismo, ensaiarem-se diversas explanações sobre a identidade dos destinos, procurando identificar com exatidão matemática as características únicas de cada lugar, a cultura, a história, as marcas do território e as idiossincrasias locais, com o objetivo de determinar a sua capacidade de atrair e fidelizar visitantes.

Nas últimas décadas, a massificação tornou-se um dos fatores mais determinantes na evolução dessas teorias. Fenómenos como a gentrificação, a desertificação e, sobretudo, a artificialização infiltram-se na identidade dos lugares, adulterando-a ou, como alguns defendem, destruindo-a. É como se os destinos passassem por uma espécie de crise de identidade, tanto do ponto de vista endógeno, na percepção que os residentes têm do seu território, como exógeno, refletindo as expetativas e fantasias de quem o visita. Uma espécie de bipolaridade beligerante entre a identidade vivida e a identidade experimentada.

No fundo, é como se o turismo se tornasse um fenómeno autofágico, consumindo-se a si próprio na sua voracidade financeira, muitas vezes dando origem à construção de uma ficção, uma heteronímia do lugar.

O lugar que o residente conhece e vive todos os dias já não é bem o mesmo que o turista visita. E o turista, por sua vez, procura algo que talvez nunca tenha existido. Uma fantasia de pureza, um postal ilustrado com cheiro a lava e sabor a mar. O destino passa então a viver uma dupla (ou tripla) personalidade: é ao mesmo tempo o que é, o que o turista deseja que seja e o que as agências de marketing juram que ele será. As dinâmicas entre turistas e residentes e os efeitos dessas relações, tanto imediatos como a médio e longo prazo, provocam uma multiplicidade de identidades que quase se consomem a si próprias. Ao ponto de já ninguém saber, com segurança, o que o lugar efetivamente é.

Esta confusão, estas personalidades sobrepostas, produzem uma nova forma de pressão sobre o território. Uma pressão que precisa de ser pensada, planeada e trabalhada se quisermos alcançar a tão proclamada sustentabilidade que tanto encanta os discursos políticos e as apresentações das agências de comunicação. E não se trata apenas de preservar o ambiente, controlar fluxos ou compilar planos diretores com números de camas e dormidas, ou estratégias de marketing com slogans sensacionais. Nem de estatísticas, tantas vezes cegas, que acumulam visitantes, mas ignoram experiências, alicerçadas numa visão estanque do destino, em vez de numa abordagem integrada, até holística, do que um território turístico e habitado pode e deve ser.

Trata-se, acima de tudo, de reconhecer essa identidade heteronímica do lugar: sendo autêntico e verdadeiro, mas também múltiplo e contraditório. Entre a vivência do residente e a ânsia do visitante, emerge uma realidade híbrida, simultaneamente genuína e desejada, com tanto de real como de ficcional. É nesta tensão que se constroem os destinos turísticos duradouros: os que sabem equilibrar, em simultâneo, a qualidade de vida de quem os habita e a qualidade da experiência de quem os visita.

Esse é o verdadeiro desafio da sustentabilidade turística: reforçar e potenciar esses dois eixos paralelos e indissociáveis. Porque, sem equilíbrio entre quem vive e quem visita, o destino colapsa. Porque, sem identidade, pouco restará para conhecer além da banal artificialização de um lugar perdido entre pragas de infestantes, águas poluídas, acessibilidades deficientes, expetativas frustradas e uma crescente hostilidade dos locais perante os visitantes.

Os Açores ainda vão a tempo de evitar os erros de um desenvolvimento turístico guiado pelo desordenamento e pela cobiça. Mas, para isso, é necessário que todos encarem esta atividade como mais do que uma nova galinha dos ovos de ouro, ou um inimigo a abater. E sim como um verdadeiro pilar de desenvolvimento futuro, capaz não só de gerar riqueza, mas, acima de tudo, de a redistribuir.

 

quarta-feira, 23 de julho de 2025

Speakers' Corner 42

A Insustentável Leveza da Penúria Estival

Perdoem-me os leitores por trazer este pesadíssimo tema à baila num período já quase estival, embora ainda de pouca luz solar e ausente do tão necessitado calor balnear que tanta falta nos faz. Bem sei que discutir finanças públicas em tempo de churrascos pode causar fastio ou azia. Como aquele conhecido que não se cala com a mais recente fofoca da corrida eleitoral local, tema talvez mais em voga, mas igualmente soporífero na morrinha do verão, e que deixamos a falar sozinho à sombra do metrosídero enquanto procuramos o alívio fresco de uma pilsner gelada.

O estado pré-calamitoso das finanças regionais tem levado algumas vozes avisadas a trazer, de novo, para a praça pública o velho tema da revisão da célebre Lei de Finanças Regionais. Vasco Cordeiro, num extensíssimo artigo publicado recentemente neste jornal, e Mota Amaral, ainda ontem, com a gravitas que lhes advém da condição de ex-presidentes do Governo Regional, chamaram ambos a atenção para a suma importância do problema. Alertaram para a sua urgência, os dilemas que envolvem a sua elaboração errática, ou errónea, e, no caso do último, apelaram mesmo a uma espécie de sobressalto cívico regional. Quase um chamamento a uma sublevação de tipo 6 de Junho de 1975, agora em defesa dos interesses pecuniários dos Açores e dos açorianos, se bem entendi da leitura do seu artigo.

O caso é que, de uma forma genérica e muitas vezes generalizada, a ideia subjacente ao direito de autogoverno da Região parece resumir-se a uma espécie de pedinchice insular, como tantas vezes refere o atual Presidente do Governo, por aumento da mesada ao pai centralista, autoritário e castigador, instalado na penumbra faustosa dos salões do Terreiro do Paço. Andamos, como já foi dito, eternamente de mão estendida, agora ainda mais, quando o valor da dívida ameaça fazer colapsar todo o edifício autonómico.

Acumulam-se dívidas a fornecedores, agravam-se os atrasos nos pagamentos, os apoios, mesmo os do COVID, pasme-se, veem-se (ou não se veem) por um canudo escuro e, para cúmulo da desgraça, há já empresas públicas com salários em atraso. E não vale a pena vir dizer que não é bem assim, como ouvi num daqueles debates televisivos, porque até um modesto contabilista saberá que os subsídios de férias são parte integrante e indivisível do vencimento do trabalhador.

Regresso muitas vezes a uma célebre, embora esquecida, frase de Álvaro Monjardino que, confrontado com uma comissão parlamentar para a reforma da autonomia, respondeu com bonomia que o que os Açores precisavam não era de mais ou menos autonomia, mas de um projeto económico para a Região. Cito-a amiúde porque me parece que ali está dito, com clareza, aquilo que continua a ser o verdadeiro problema estrutural dos Açores.

De celeiro real a entreposto atlântico, de pomar de laranjas a abrigo de baleeiros, as ilhas têm-se debatido, ao longo da sua história, com a difícil tarefa de encontrar uma identidade económica que lhes permita criar riqueza e sustentar o seu desenvolvimento. Sem esse modelo, não somos mais do que, parafraseando o meu amigo Nuno Barata, "petchenos" a pedir dinheiro ao pai cada vez que querem apanhar uma bebedeira ou acampar, sem tino nem critério, num desses muitos (talvez até demais) festivais de verão que nos assomam como praga de conteiras.

A ideia de uma suposta solidariedade nacional com esta periferia atlântica, por mais bem-intencionada que seja, padece de uma debilidade fundacional: a incapacidade dos Açores para garantirem a sua própria sustentabilidade económica. Uma Lei de Finanças Regionais deveria ser um mecanismo de compensação solidária pelos custos adicionais da insularidade e pela extensão marinha e geoestratégica que os Açores aportam para a República, e nunca a fonte principal de financiamento de um sistema político regional que há muito se habituou ao desgoverno, a gastar à tripa forra e a nem sequer se dar ao respeito. Ser autónomo exige, também, sabermos ser sérios.

quarta-feira, 16 de julho de 2025

Speakers' Corner 41

SOS Monte Verde (e não só…)

Na semana que passou, a praia do Monte Verde voltou a ser notícia e, de novo, pelas mesmas conspurcadas razões. Análises à qualidade da água obrigaram a Delegação de Saúde a ordenar a interdição a banhos naquela zona balnear. O tema é antigo, está identificado, existem até petições e manifestações sobre o assunto, mas, apesar de todos os alertas, e das sempre rápidas mas incumpridas promessas, o problema continua lá, recorrente e impassível, como uma fatalidade do destino. O tema é, aliás, tão gasto que chega a ser deprimente falar dele.

Já cansa apontar, uma e outra vez, esta atitude negligente com que os Açores e os açorianos olham o mar. A medo e castigo, caixote de lixo avulso e permanente, distante como um vizinho rabugento. Durante décadas, séculos até, ninguém queria saber do mar para mais do que porta de entrada de navios e saída de emigrantes, lugar de trauma ou de morte. A orla marítima era território de pobres e indigentes, deixado ao abandono e à incúria das autoridades. Para o mar escorria, literalmente, o pior de nós mesmos.

A reivindicação do litoral como espaço de vivência, lazer, saúde, fruição e desenvolvimento tem sido um processo estupendamente lento. Com sucessos, como a praia dos Areais de Santa Bárbara ou a onda de Santa Catarina. E com horríveis insucessos, como foi o caso da baía de Rabo de Peixe ou, como agora em evidência, o da praia do Monte Verde, que, qual vítima inocente de violência doméstica, continua a sofrer os abusos do que está a montante dela.

A poluição marinha é um problema humano, que começa na poluição em terra, escorre pelos rios, no caso açoriano, pelas ribeiras, e acaba no mar. A praia do Monte Verde é um exemplo clássico disso. Atualmente, mesmo com milhões gastos em saneamento básico, continuam a existir efluentes domésticos e agroindustriais a escorrer para os leitos das ribeiras e daí para o mar. Estão identificados e sinalizados, e ninguém, por inércia ou eleitoralismo, faz absolutamente nada. Existem mesmo casos de explorações agrícolas que fazem descargas diretas depois das cinco da tarde, ou aos domingos, porque sabem que não há vigilantes da natureza ou GNR para os apanhar em flagrante delito. O pior é que o mar, na sua enorme sapiência, acaba por nos devolver tudo o que nele depositamos, seja lixo ou, como é o caso, matéria fecal.

Coincidentemente, ou não, enquanto os níveis perigosos de E. coli surfavam sozinhos as ondas do Monte Verde, na cidade da Horta os deputados regionais discutiam o relatório da comissão de ambiente sobre a petição SOS Monte Verde e Levada da Condessa, promovida pelo Mário Moura, o Ricardo Cabral e por mim próprio. O aspeto mais triste desse debate inócuo é a forma como os deputados transformam este precioso instrumento de democracia direta, as petições, em simples armas de arremesso eleitoral e político: uns defendendo a situação, outros tentando tirar dividendos eleitorais imediatos de uma suposta oposição.

Neste caso concreto, apesar de um meritório esforço, que concedo e elogio, em ouvir os vários, senão todos, os intervenientes no problema, é incompreensível, e mesmo inaceitável, como a comissão, no seu relatório, se abstém de apresentar qualquer parecer digno desse nome ou proposta de resolução ao governo com vista à efetiva resolução do problema. Tudo não passou, para além de uma manifesta perda de tempo, de mais uma forma de afastar os cidadãos da participação cívica e, com isso, de dar cabo da nossa democracia.

Neste fechar de olhos governativo, justiça seja feita aos candidatos do PS à autarquia, que se disponibilizaram para nos ouvir e, oxalá, para cumprir o desígnio coletivo de salvar o Monte Verde. Até lá, os Enterococos intestinais haverão de continuar a banhar-se livremente um pouco por todas as nossas zonas balneares, seja no Monte Verde, no Porto Pim, na Prainha em Angra ou no Ilhéu da Vila. Resta saber até quando?