quinta-feira, 4 de junho de 2020

Café Royal CLXXVII

O mexilhão

Com a mesma febre com que confinaram, as autoridades correm agora a desconfinar. Só que, o desfechamento vem envolto na mesma indecisão e arbitrariedade do fechamento anterior. E, no meio dessa correria, entre o cerra e o descerra, quem se entala, como Martim Moniz na porta do castelo, somos nós, os cidadãos eleitores e contribuintes. O, proverbial, Zé Povinho. O desempregado, o trabalhador em layoff, o pequeno empresário, o precário do recibo verde, o preto, imigrante, repositor do centro de logística da Azambuja, morador no Bairro da Jamaica, a quem lhe fecham a tasca mas ao patrão não mandam fechar a fábrica e, o trabalhador por conta própria, que descobriu agora na pele, o significado exacto da “conta própria”. Mas, em nenhum momento, nem na monástica clausura do distanciamento, nem agora, no arraial mascarado do desconfinamento, a que chamam, sem sarcasmo, de “novo normal”, ninguém, nem político, nem enfermeiro, nos explicou, com exactidão e certeza, a necessidade ou a eficácia de cada decisão. Nem, tão pouco, nos oferecem uma justificação, ou, por caridade, um mea culpa. Como sempre, a culpa, morre solteira e quem se lixa é o mexilhão e o mexilhão, mais uma vez, somos todos nós…

in Açoriano Oriental

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