quinta-feira, 16 de julho de 2020

Café Royal CLXXXIII

Toda a diferença

A minha geração será a última que poderá afirmar, sem receio de erro, que viveu efectivamente a sua juventude. Nos últimos cinquenta anos, só duas gerações, a dos meus pais, nos frios e libertinos anos 50/60, e a minha, nos glamorosos e eletrificados anos 80/90, viveram plenamente essa idade que Proust classificou como “a única em que sempre se aprende alguma coisa”. Dai para cá, neste dealbar caótico do séc. XXI, aos jovens foi-lhes roubada a liberdade e a angústia da verdadeira adolescência. E se, nas primeiras décadas do século, esse furto foi imposto por razões económicas, hoje, na Era do Covid, é por imposição administrativa do crime de sociabilização que toda uma geração se vê privada dos seus anos mais ricos. De todas as devastadoras consequências desta crise talvez essa seja a mais amargurada e aquela que, na longa maratona da vida, venha a ter consequências mais profundas. Para quem já cruzou o meridiano da existência, um Verão é nada, mas para os jovens, que vivem exultantes entre o céu e o inferno, um dia de praia, uma noite de luar, um olhar ou um toque de mão na pele bronzeada, toda essa agridoce efervescência do Verão, é tudo! E perder isso, nem que seja só um ano, fará sempre toda a diferença.

in Açoriano Oriental


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