quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Café Royal CLXXXVI

A Retaguarda

Desde o início da pandemia que ouvimos os governantes a usar enfaticamente a metáfora da guerra para descrever esta crise e, principalmente, para justificar a maioria dos seus actos. O maléfico vírus é o inimigo. Profissões como varredores, empregados de supermercado, forças de segurança, enfermeiros e médicos, tantas vezes esquecidas, formam a linha da frente. Reuniões à porta-fechada como conselhos de guerra. E, as nossas vidas, como carne para canhão, à mercê das ordens de Autoridades Sanitárias. Sartre escreveu que “quando os ricos fazem a guerra são os pobres que morrem”. Esta semana vários dados estatísticos vieram dar razão ao filósofo existencialista francês. O precipício do PIB e a sua queda de 16% no semestre. A alta mortalidade do mês de Julho da qual apenas 1.5% foi por causa do Covid. Ou a hecatombe do turismo com variações negativas acima dos 90%. Ofuscados pela vã glória dessa luta que julgam travar, os decisores políticos lançaram-se cegamente nesse combate invisível deixando, à revelia da mais básica estratégia, totalmente desprotegida, a retaguarda onde as principais batalhas, contra um vírus com uma taxa de mortalidade de 5%, estão definitiva e desesperadamente a ser perdidas.

in Açoriano Oriental


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