quarta-feira, 1 de julho de 2026

Speakers' Corner 91

A Outra Face da Autonomia

Na última sexta-feira, a Assembleia da República assinalou, numa sessão solene, o cinquentenário das primeiras eleições regionais e da instalação dos parlamentos dos Açores e da Madeira. Numa cerimónia marcada pela conspícua ausência do Primeiro-Ministro, os discursos oscilaram entre a exaltação das conquistas alcançadas e a já habitual reafirmação da necessidade de um maior apoio financeiro da República às ilhas.

Também António Vitorino, convidado a discursar no Salão Nobre da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, salientou a justiça dessa solidariedade nacional, reforçando a ideia, repetidamente evocada por José Manuel Bolieiro, de um devido "tributo da República" para com os arquipélagos.

Ao mesmo tempo, um episódio aparentemente secundário acabou por revelar muito sobre o atual momento político e sobre os seus protagonistas. Enquanto Miguel Albuquerque abandonou a presidência da Mesa do Congresso do PSD, alegando explicitamente o insuficiente compromisso da direção nacional com as autonomias, José Manuel Bolieiro aceitou, sem pejo, o convite de Montenegro para desempenhar esse cargo. O que, para um, constituiu uma questão de verticalidade autonómica, para o outro traduziu-se num exercício de maleabilidade política. Mais do que uma falha de lealdade de Bolieiro para com Albuquerque, para com a Madeira ou para com a defesa conjunta do projeto autonómico, o episódio demonstra como a causa da autonomia continua, demasiadas vezes, subordinada às conveniências pessoais e partidárias dos seus protagonistas.

Para lá dos discursos e das estratégias, há uma ideia de fundo que sobressai ao cabo de meio século de autonomia e das respetivas celebrações: a de que existe uma obrigação permanente da República de financiar o desenvolvimento das regiões autónomas, como se a solidariedade nacional fosse um direito adquirido, inesgotável e incondicional.

Por mais legítimas que sejam estas reivindicações, há uma outra face da autonomia de que ninguém parece querer falar: a da corresponsabilidade. Solidariedade nacional e responsabilidade insular são os dois pilares fundamentais do projeto autonómico. Uma reconhece os custos permanentes da insularidade; a outra exige que a Região governe os seus destinos com rigor, eficiência e visão estratégica.

O discurso político permanece excessivamente concentrado naquilo que a República deve aos Açores e muito menos naquilo que os Açores devem a si próprios. Continuamos a discutir transferências financeiras, mas evitamos debater a produtividade, a competitividade, a simplificação e modernização administrativa, a eficiência dos serviços públicos ou a sustentabilidade da dívida regional. É sempre mais fácil reclamar novos recursos do que reformar a forma como utilizamos os que já temos.

Celebramos estradas, portos, aeroportos e hospitais, mas raramente debatemos quem pagará a sua manutenção nas próximas décadas. Evitamos discutir o inverno demográfico, a reorganização inevitável dos serviços públicos, a complementaridade entre ilhas ou a necessidade de fazer escolhas difíceis num território com recursos limitados e persistentes bolsas de pobreza.

Passamos demasiado tempo enredados em bairrismos, olhando para os nossos umbigos, ou em reivindicações pecuniárias, em vez de olharmos para os Açores sem o conforto da retórica sobre uma alegada centralidade atlântica, que não passa de um acaso geográfico, enfrentando antes as nossas fragilidades na educação, na produtividade, na demografia, na coesão territorial e na criação de riqueza.

A autonomia nasceu para substituir a tutela política de Lisboa, não para institucionalizar uma dependência financeira permanente. Só uma Região que se governe com exigência, rigor e visão estratégica poderá reclamar, com inteira legitimidade, a solidariedade nacional e o respeito político da República.

Caso contrário, continuaremos a levantar a voz para reclamar mais autonomia, enquanto estendemos a mão para que alguém continue a pagar a conta.

 

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