O Excel da Vida
O esternocleidomastóideo é um músculo do pescoço que une o
esterno e a clavícula ao mastoide do osso temporal, sendo a sua contratura
muitas vezes responsável pelo vulgar torcicolo. O nome ganhou uma inusitada
fama no contexto nacional através de uma célebre cena do clássico do cinema
português A Canção de Lisboa, realizado em 1933 por Cotinelli Telmo, na
qual Vasco Santana, no papel do boémio Vasquinho, o refere como resposta
decisiva no seu exame oral de Anatomia.
O filme conta a história de Vasco Leitão, estudante de
Medicina em Lisboa, sustentado pela mesada das tias de Trás-os-Montes que o
julgam um aluno exemplar, ignorando a sua predileção pelo fado e pela bela
Alice, interpretada por Beatriz Costa. Por detrás desta singela história de
amor esconde-se uma narrativa sobre as expectativas sociais e sobre o papel do
ensino enquanto mecanismo de validação individual. O exame de Medicina surge
quase como um julgamento final sobre o carácter e o valor do protagonista.
Com efeito, as sociedades modernas transformaram o ensino e,
em particular, a avaliação das aprendizagens numa obsessão avaliativa. Criámos
uma cultura de números, métricas e rankings. As aulas tornaram-se fórmulas; os
professores, aplicadores de critérios; e o ato de ensinar foi progressivamente
substituído pela catalogação de desempenhos. Vidas inteiras são julgadas a
partir de momentos fugazes que deveriam ser apenas uma pequena parte de um
percurso muito mais vasto.
Ainda na semana passada, o Público noticiava como o
novo sistema de correção dos exames nacionais mobilizou mais de cinco mil
agentes da PSP e da GNR para a recolha e transporte das provas destinadas à
digitalização na Casa da Moeda. A notícia é simbolicamente reveladora da forma
como o ensino foi capturado por uma lógica de vigilância e controlo quase
judiciária.
Mas o problema não reside apenas nos exames. A escola
tornou-se o primeiro ensaio de uma cultura mais vasta de quantificação
permanente. Habituamo-nos a traduzir o valor humano em classificações, médias e
percentagens. Aprendemos que tudo deve ser medido, ordenado e compartimentado.
Mais tarde, as notas dão lugar aos indicadores de produtividade, às avaliações
de desempenho e aos índices de crescimento. Transformamos pessoas em números e
percursos de vida em equações de folhas de cálculo.
A obsessão avaliativa que domina o ensino é apenas o reflexo
de uma sociedade que desconfia de tudo aquilo que não consegue medir. A
criatividade, a imaginação, a amizade, a curiosidade intelectual ou a
felicidade são realidades difíceis de quantificar e, por isso mesmo, acabam
frequentemente remetidas para segundo plano perante a tirania dos indicadores.
Aquilo que deveria ser um processo contínuo de aprendizagem transforma-se,
demasiadas vezes, num juízo final de contornos quase bíblicos.
Noutra cena do filme, o jovem Vasco percorre as ruas de
Lisboa cantarolando o célebre Fado do Estudante, que tantas vezes cantei
também, ao lado do meu amigo Rodrigo Carmona, pelas ruas da cidade a altas
horas da madrugada. «Que negra sina ver-me assim, / que sorte vil degradante! /
Oh, que saudade eu sinto em mim / do meu viver de estudante.» No final, é o
fado que salva Vasco, conduzindo-o à conclusão do curso de Medicina. Não por
acaso, a canção termina com o verso: «E eis a razão de eu ser Doutor e ser Fadista».
Essa idade de ouro das nossas vidas, tempo de formação,
descoberta e construção da identidade, quando todas as possibilidades do mundo
parecem caber na promessa de uma alvorada, vai soçobrando ao peso de uma
existência crescentemente avaliada, medida e contabilizada. A liberdade dos
sonhos dá lugar à disciplina dos indicadores; a aventura da descoberta, à
obrigação do desempenho. E, de exame em exame, chegamos ao mundo adulto, onde
tudo parece caber numa tabela de escolha múltipla, como se a riqueza da experiência
humana, orgânica e contraditória, pudesse ser reduzida à contabilidade mecânica
do Excel da vida.


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