quarta-feira, 24 de junho de 2026

Speakers' Corner 90

O Excel da Vida

O esternocleidomastóideo é um músculo do pescoço que une o esterno e a clavícula ao mastoide do osso temporal, sendo a sua contratura muitas vezes responsável pelo vulgar torcicolo. O nome ganhou uma inusitada fama no contexto nacional através de uma célebre cena do clássico do cinema português A Canção de Lisboa, realizado em 1933 por Cotinelli Telmo, na qual Vasco Santana, no papel do boémio Vasquinho, o refere como resposta decisiva no seu exame oral de Anatomia.

O filme conta a história de Vasco Leitão, estudante de Medicina em Lisboa, sustentado pela mesada das tias de Trás-os-Montes que o julgam um aluno exemplar, ignorando a sua predileção pelo fado e pela bela Alice, interpretada por Beatriz Costa. Por detrás desta singela história de amor esconde-se uma narrativa sobre as expectativas sociais e sobre o papel do ensino enquanto mecanismo de validação individual. O exame de Medicina surge quase como um julgamento final sobre o carácter e o valor do protagonista.

Com efeito, as sociedades modernas transformaram o ensino e, em particular, a avaliação das aprendizagens numa obsessão avaliativa. Criámos uma cultura de números, métricas e rankings. As aulas tornaram-se fórmulas; os professores, aplicadores de critérios; e o ato de ensinar foi progressivamente substituído pela catalogação de desempenhos. Vidas inteiras são julgadas a partir de momentos fugazes que deveriam ser apenas uma pequena parte de um percurso muito mais vasto.

Ainda na semana passada, o Público noticiava como o novo sistema de correção dos exames nacionais mobilizou mais de cinco mil agentes da PSP e da GNR para a recolha e transporte das provas destinadas à digitalização na Casa da Moeda. A notícia é simbolicamente reveladora da forma como o ensino foi capturado por uma lógica de vigilância e controlo quase judiciária.

Mas o problema não reside apenas nos exames. A escola tornou-se o primeiro ensaio de uma cultura mais vasta de quantificação permanente. Habituamo-nos a traduzir o valor humano em classificações, médias e percentagens. Aprendemos que tudo deve ser medido, ordenado e compartimentado. Mais tarde, as notas dão lugar aos indicadores de produtividade, às avaliações de desempenho e aos índices de crescimento. Transformamos pessoas em números e percursos de vida em equações de folhas de cálculo.

A obsessão avaliativa que domina o ensino é apenas o reflexo de uma sociedade que desconfia de tudo aquilo que não consegue medir. A criatividade, a imaginação, a amizade, a curiosidade intelectual ou a felicidade são realidades difíceis de quantificar e, por isso mesmo, acabam frequentemente remetidas para segundo plano perante a tirania dos indicadores. Aquilo que deveria ser um processo contínuo de aprendizagem transforma-se, demasiadas vezes, num juízo final de contornos quase bíblicos.

Noutra cena do filme, o jovem Vasco percorre as ruas de Lisboa cantarolando o célebre Fado do Estudante, que tantas vezes cantei também, ao lado do meu amigo Rodrigo Carmona, pelas ruas da cidade a altas horas da madrugada. «Que negra sina ver-me assim, / que sorte vil degradante! / Oh, que saudade eu sinto em mim / do meu viver de estudante.» No final, é o fado que salva Vasco, conduzindo-o à conclusão do curso de Medicina. Não por acaso, a canção termina com o verso: «E eis a razão de eu ser Doutor e ser Fadista».

Essa idade de ouro das nossas vidas, tempo de formação, descoberta e construção da identidade, quando todas as possibilidades do mundo parecem caber na promessa de uma alvorada, vai soçobrando ao peso de uma existência crescentemente avaliada, medida e contabilizada. A liberdade dos sonhos dá lugar à disciplina dos indicadores; a aventura da descoberta, à obrigação do desempenho. E, de exame em exame, chegamos ao mundo adulto, onde tudo parece caber numa tabela de escolha múltipla, como se a riqueza da experiência humana, orgânica e contraditória, pudesse ser reduzida à contabilidade mecânica do Excel da vida.

 

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