quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Café Royal XXXI

Agosto

É quente, melado, quase colante. É vagaroso. Líquido, como as águas. Agosto é o mar, de águas tépidas e banhos. Lentos banhos de mar em águas translucidas, marinhas. Os corpos flutuando na linha da maré, a pele salgada de um dia para o outro quando dormimos com as ondas no corpo, o balanço sincopado das ondas embalando os sonhos nas noites cálidas de Agosto. Os dias tépidos, transpirantes, de luz difusa e o sol incandescente brilhando na areia das praias, brilhando nas gotas de água gotejando da pele bronzeada. Os infinitos por-de-sol em horizontes espalhados de cor, cores ardentes de fogo celeste e da atmosfera da terra e do omnipotente sol de Verão. Agosto de vagar, de amigos, de copos, cervejas e mariscos. Garrafas geladas de vinhos brancos do Pico. Peixes frescos grelhados. A beleza do mar nos nossos paladares saciados, deleitados. Agosto de redes baloiçando no balanço da brisa abrigada na sombra do metrosidero e do som das ondas quebrando ritmadamente nas rochas esquecidas. Agosto de regressos e reencontros, de voltas e passeios. Retornos à primeira felicidade da infância, a memória iluminada das férias grandes em que trepávamos árvores gigantes e nos vestíamos em fatos de areia negra quente. Ah! Agosto. Esse querido mês de Agosto. Esse gosto de gostar de Agosto…

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Café Royal XXX

1

Bastava 1. Bastava uma morte. Não eram precisas 64, ou 65, ou qualquer outro número que lhe queiram dar. Bastava 1. Mas, no entanto, desprovidos da mais elementar decência, políticos e jornalistas entretêm-se numa obscena contabilidade da morte. Num sinistro espetáculo que é revelador, acima de tudo, da falência de todo um país. Pedrogão Grande é o marco, esperemos que definitivo, da morte de Portugal inteiro. Em 80 anos, 40 de ditadura e 40 de liberdade, Portugal falhou. O interior é deserto, envelhecido, acabrunhado. O litoral é desordenado, desequilibrado, desvairado… Este é o verdadeiro retrato do país que as chamas devastadoras de Pedrogão revelaram. Porém, na face da tragédia, o que fazemos enquanto comunidade é discutir o número de lápides quando deveríamos debater e agir em nome do futuro. Urge uma política de ordenamento do território, mas os nossos políticos estão entretidos a fazer ultimatos vácuos, passar de culpas e outras tantas declarações que seriam vãs, não fossem tenebrosas as causas que nos colocaram aqui. Urge equilibrar o país, no uso da terra, na criação de riqueza, na invenção de uma comunidade que seja tão solidária como produtiva. No entanto, o que fazemos é divagar tetricamente sobre as sombras dos mortos buscando tirar ganhos políticos e eleitorais da dor profunda que as labaredas criaram. Bastava um, bastava uma morte, porque esse um somos nós todos, essa morte é a nossa morte…

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Café Royal XXIX

Classismo

Quando se pensava que a estação tonta não iria chegar este ano, queimada pelas desgraças que assolaram o país, eis que ela chega pela boca de um tal de Sr. Ventura, de Loures e da CMTV… O Sr. Ventura, para alimentar a sua candidatura autárquica, decidiu lançar umas atoardas sobre os ciganos e pegou fogo sobre si próprio. Do que se tem dito sobre esta pueril polémica há uma coisa de que discordo. O Sr. Ventura não é racista, não é esse o preconceito que o mina. É o de classe. O que incomoda o Sr. Ventura não é a cor da pele ou do cabelo, o idioma, ou o salero. É a ideia da pobreza. O Sr. Ventura não gosta de pobres e para ele os ciganos representam essa classe baixa que lhe incomoda e que ele acredita ter que ser posta na ordem. Em boa verdade o povo português não é, nem nunca foi, racista. A maior dádiva de Portugal ao mundo não foi a pimenta, nem o planisfério. A maior criação da portugalidade foi a mulata. Algo que só um povo intrinsecamente não-racista poderia criar. Mas se há coisa que os portugueses têm de sobra, infelizmente, é o preconceito de classe. Só que o que os portugueses muitas vezes confundem é que os sinais exteriores de riqueza podem ser enganadores. Não é com piscinas e BM’s que se avalia a fortuna. Qualquer povo perseguido sabe que as piscinas não são facilmente transportáveis de um país para o outro. A cultura, como o ouro, são o bem mais precioso de um povo e isso os ciganos têm para dar e vender… quer uma, quer outra…

Café Royal XXVIII

Decoro

Fiquemo-nos pelos 40 anos da nossa púbere democracia. Poderíamos ir mais atrás, talvez tão atrás como o começo da nação e a um país nascido da guerra entre um filho e uma mãe. Mas não, fiquemo-nos pela história da democracia nacional – esse libreto de ópera-bufa. Ao longo destes anos já tivemos anedotas de mau gosto, dedos em corninhos no cenáculo parlamentar, falsificação de licenciatura, suspeitas de corrupção, promessas de bengalada no Chiado no Facebook, tudo razões para ministros se demitirem, ou serem demitidos, e estes são só os que eu em lembro. O que espanta nisto não é tanto as razões pelas quais estas figuras do estado caíram, mas sim todos os outros que, por razões mais graves, se aguentaram nas cadeiras! Olhando as últimas notícias não podemos deixar de nos espantar com a falta de decoro que grassa em muitas das nossas figuras de estado. Secretários de estado apresentam demissão na véspera de se saber que são constituídos arguidos, quando o decoro exige que o tivessem feito mal foi tornado público a suspeita. Dois ministros alapam-se aos lugares quando o decoro exige que tomassem elações políticas das gravíssimas ocorrências havidas durante os seus mandatos. Um secretário-regional suspende funções meses depois de se assumir como candidato à maior autarquia da região, quando o decoro exige que o fizesse no exacto minuto desse anúncio. Mas, no país tudo vai bem. Tudo menos o decoro…

in Açoriano Oriental

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Café Royal XXVII

A não-crónica

Imitando rituais antigos, o Café veio a banhos para Vila Franca do Campo, passar a época estival. Sentado à varanda, seguindo o barulho do mar, observando o ilhéu imponente e, para lá, o horizonte, o cronista pondera, melancómico (abraço Nuno…), os temas da atualidade, os assuntos da semana, a espuma dos dias e suspira. Podia escrever sobre o roubo de armas em Tancos fazendo lembrar um filme ou, afinal, a triste realidade de um país a saque. Podia escrever sobre o grito de alma de Juncker dando nome à afronta de um Parlamento Europeu que não se dá ao respeito. Podia escrever sobre as férias do Primeiro-ministro, as dores da geringonça, a tragédia da oposição ou a falta dela. Podia, talvez, escrever sobre a euforia do Turismo, que acometeu a ilha como uma epidemia que ninguém sabe muito bem como tratar. Podia escrever sobre a Ibizificação de Ponta Delgada, onde barcos-discoteca poluem as marinas e magnos planos camarários nos misturam com tudo ofuscando a nossa identidade. Podia escrever sobre a agonia da SATA, que cambaleia se os aviões pudessem cambalear. Podia, enfim, escrever sobre o Verão, os cálidos banhos de mar, a dança das ondas e o bailado dos Garajaus-rosados sobre o penedo. Mas, pensando bem, talvez o melhor seja não escrever sobre nada e apenas, bebericando uma transpirante cerveja, viver o calor, o sol, o anseio das águas e a tranquilidade do amor…

in Açoriano Oriental

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Café Royal XXVI

O Limite.

Na política não há verdade. Bismarck, com ironia, colocou a questão de forma brilhante ao afirmar que nunca se deve acreditar em nada na política até ter sido oficialmente desmentido. Hoje em dia, até à pós-verdade nos fomos, indulgentemente, habituando. Com o passar do tempo, também, a narrativa política e partidária transformou-se num monstro autofágico, alimentando-se de si própria numa torrente infindável de mentira. Nada tem valor perante essa roldana trituradora, nem mesmo as pessoas, que são descartadas, para lá do seu bom nome, nas suas próprias vidas. E já nem a decência é limite para a voracidade dos políticos e dos seus (maus) conselheiros. Um político inventa suicídios para tirar ganho político e nós olhamos para o lado com descrença e asco. Quando nos munimos da tragédia e quando, inacreditavelmente, inventamos a tragédia para tirar ganhos no debate político descemos a um novo e dantesco patamar do inferno. Sem verdade e sem ética as nossas sociedades tornaram-se num fétido lamaçal, onde já nem a vida tem valor. Como comunidade, temos a obrigação de traçar aqui, nesta simbólica tragédia de Pedrogão Grande, o limite. O limite do que é aceitável no discurso político, não permitindo que o horror da morte seja utilizado como joguete. E, mais importante, o limite do que é tolerável na acção política e partidária que no seu jogo sujo e desavergonhado colocou o país neste estado. Basta!

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Café Royal XXV

Armad(ilha)dos…

No calor da tragédia disseram-nos que “tudo tinha sido feito”. Mas, esse “tudo” foi exatamente o que potenciou mais esta calamidade e todas as que se repetem, ano após ano. Em 40 anos, Portugal foi um país incapaz de se desenvolver de forma estruturalmente equilibrada. Emigração, deslocalização, desertificação, envelhecimento, abandono, avareza, corrupção… Estes são apenas alguns dos mecanismos da bomba-relógio em que se transformou o país. E a culpa é de todos nós! Cidadãos, porque nos alheamos progressivamente da responsabilidade que temos para com a terra e a comunidade. E políticos, porque, conscientemente, abdicam do futuro em prol da próxima eleição… Lá é o fogo, nas ilhas é a água. Chuva e mar, são os agentes recorrentes das tragédias que fustigam a região. E a atividade sísmica e vulcânica, mas que, elas próprias, podem, hoje em dia, com alguma segurança, ser monitorizadas. Porém, também nos Açores se fechou criminosamente os olhos aos riscos sinalizados e calculáveis. Esbanjámos dinheiro em obras faraónicas e festas fúteis, em vez de o usar em políticas corajosas de ordenamento do território, colocando, com isso, as nossas comunidades à mercê duma verdadeira armadilha, em contagem decrescente até à próxima tragédia. Nesse dia, algum político dirá que “tudo foi feito”, sabendo ele que, numa gaveta qualquer, jaz, escondido, um relatório técnico que avisava para o perigo…

in Açoriano Oriental