quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Café Royal CXCII

Talibanização

Esta semana, depois de seis meses de clausura, crianças, jovens, professores, auxiliares e todos os outros intervenientes do universo escolar, regressaram ao ensino presencial. Este deveria ser um momento de regozijo e de reconquista de direitos fundamentais, como o direito à educação. Porém, a ditadura do medo, que teima em não nos abandonar, não permite tal alegria. Quem olhe, mesmo que de relance, para as circulares normativas, os planos de contingência e todos os outros documentos orientadores do regresso às aulas não pode deixar de lançar um suspiro de lamento pela imensa vaga de restrições, imposições e proibições que estão a ser forçadas à comunidade escolar. O regresso às aulas era, só por si, fundamental para minorar as profundas desigualdades expostas pelo ensino virtual dos últimos meses, mas é assustador perceber o rol de distanciamentos, de setas no chão, filas indianas, máscaras, mais toda a enorme panóplia de orientações, dignas de um manual da Mocidade Portuguesa, que tornam este início de ano escolar numa espécie de talibanização das escolas. A Escola deixou de ser um lugar de partilha, de convivência e de crescimento, para ser uma espécie de poço higienizado, regido sob a inclemente Sharia das autoridades sanitárias.

in Açoriano Oriental

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Café Royal CXCI

Ana Gomes

Estes 46 anos de evolução do nosso regime democrático trouxeram-nos a uma espécie de encruzilhada política. A democracia, que, na sua génese, é a governação pelo povo, foi capturada pelos partidos, transformando o país numa partidocracia e, em alguns casos extremos, como o nosso, numa oligarquia político-partidária com laivos antirrepublicanos e quási monárquicos. Esta captura do regime pelos directórios partidários, grande parte deles já de si capturados por uma miríade de interesses económicos, empresariais e outros aventais, permitiu a disseminação de vastas redes de compadrio e de corrupção, que contaminaram o sistema desde o mais pequeno Presidente de Junta ao mais popular Presidente da República. A hora é de que o mais alto magistrado da Nação seja alguém para quem a política não é um modo de vida, nem uma forma de ganhar a vida. Nem uma profecia de infância do tempo do outro marcelismo, de má memória. Nem, tão pouco, um jogo fétido de populismo basal protofascista ou de uma sucessão de cinismos, como o que leva a direcção do PS, num gesto desprezível, a declarar loas ao mais invertebrado Presidente que este país já viu. A hora é de quem veja a política com ética e valores. A hora é de apoiar Ana Gomes.

in Açoriano Oriental

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Café Royal CXC

Pandemia do medo

Em Setembro completamos seis meses desde que o mundo, tal como o conhecíamos, se desmoronou. Em Março mergulhamos no pântano pandémico. Atolados nesse lodo de fechamento, distanciamento, isolamento, máscaras irrespiráveis e de todos os outros tentáculos desse afogamento colectivo com que a Covid-19 destruiu as nossas vidas. Nos Açores tivemos 224 casos confirmados. Uma taxa de infecção de 0,09%, se tivermos em conta apenas a população residente, mas se incluirmos os passageiros chegados à região essa taxa será ainda significativamente menor. De acordo com os próprios comunicados da Autoridade de Saúde, de 1 de Agosto a 1 de Setembro foram feitos 41837 testes na região, 48 deram positivo (0,1%). Desses apenas 30 estão na região e nenhum, repito, nenhum está internado a necessitar de cuidados médicos. Em jeito de comparação, todos os anos são internadas cerca de 300 pessoas com AVC, só no HDES. Que em Março houvesse desconhecimento, impreparação e medo era natural e compreensível. Que em Setembro ainda se esteja a manipular esse medo e a clamar insistentemente por legislação para impor o fascismo sanitário é não só absurdo como intolerável. Pior, é utilizar esse medo como instrumento de campanha eleitoral e isso, então, é imperdoável…

in Açoriano Oriental

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Café Royal CLXXXIX

O Liberalismo

Celebrou-se por estes dias o duo centenário do pronunciamento liberal do Porto. A Revolução Liberal de 1820 marca o dealbar da afirmação das liberdades e dos direitos fundamentais na governação do país e, principalmente, na libertação dos cidadãos perante o Estado. A primeira Constituição Liberal é mais do que um mero documento legislativo, é um marco fundamental na asserção dos ideais progressistas – liberdade, igualdade e fraternidade – no Portugal de oitocentos e está, também, na génese de todos os ideários republicanos e socialistas, não marxistas, que se lhe seguiram. Nas cerca de duas décadas posteriores, o país viveria mergulhado em conflitos e na disputa fratricida entre absolutistas e liberais. Durante este período as ilhas permaneceriam um indomitável bastião liberal e foram palco de algumas das suas principais batalhas. E é, também, das mais profundas convicções liberais que nasceram as mais antigas aspirações autonomistas, não podendo estas últimas ser compreendidas sem a luz das primeiras. Para os Açores esta não é uma efeméride qualquer. Evocar o Liberalismo é celebrar os seus valores – a Liberdade e a Constituição. Talvez por isso os poderes políticos de hoje se tenham tão oportunisticamente abstido de os assinalar…

in Açoriano Oriental

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Café Royal CLXXXVIII

A Tourada

Já ninguém aguenta o Covid, mas com a tourada em que se transformou a pandemia nos Açores, a piada é demasiado fácil para deixar passar. Tiago Lopes, que era um mero peão de brega, chegou a novilheiro e foi subindo na hierarquia a ponto de querer ser matador, cortando aqui e ali a eito, ao ritmo de passodobles e com verónicas de capote e passes de muleta. O problema é que ninguém lhe compreende a arte muito menos a justeza da estocada. Já o cavaleiro Vasco Cordeiro vai dando voltas ao touro, desacertando as bandarilhas ora de frente ora em violino e evitando a esquerda, mas sem música ou sorte na lide e correndo mesmo o risco de, no futuro, se ver ele próprio na pele do touro tal é a desgraça que se aproxima. Já nós, trabalhadores e empresários, somos os forcados amadores que damos o peito à besta na pega da catástrofe económica. Sendo que o mais certo é que a pega acabe de cernelha que pelo agigantar da braveza do animal não há quem se lhe agarre aos cornos. E, o mais provável é que no final não haja volta à arena e, todos, Matador, Cavaleiro e Forcados, manquejando e esfarrapados, sairão de cena sem glória nem aplauso ao som de uma triste e amargurada marcha fúnebre monumental.

in Açoriano Oriental

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Café Royal CLXXXVII

Da saúde pública

Há vários meses que São Miguel está a braços com uma gravíssima e continuada crise de saúde pública. Uma crise não só extremamente penalizadora para a saúde e o bem-estar das populações como, também, para a economia, o turismo e a imagem exterior da região no seu todo. Não me refiro à já omnipresente e insuportável Covid, mas aos elevadíssimos níveis de Escherichia coli e Enterococos intestinais que, desde Junho, têm sido detectados numa grande variedade de zonas balneares da ilha com particular, e atrevo-me a dizer vergonhosa, incidência nas do concelho com melhores praias da ilha, Vila Franca do Campo. Ao ponto do Ilhéu, esse ícone maior da nossa proximidade entre a terra e o mar, estar desde 22 de Junho com, intermitentemente, a água imprópria para banhos. Diga-se, que o nível considerado óptimo de e-coli é de menos de 15 e o Ilhéu chegou a ter níveis acima de 7000! A tudo isto, os responsáveis, em lugar de assegurarem os equipamentos imprescindíveis à garantia da saúde pública, respondem ora com um ominoso silêncio ora com cocó de gaivota. E, enquanto isso, a magnânima Autoridade de Saúde entretém-se a analisar troços de rally e o Presidente do Governo a fazer de constitucionalista e de director de colégio interno…

in Açoriano Oriental

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Café Royal CLXXXVI

A Retaguarda

Desde o início da pandemia que ouvimos os governantes a usar enfaticamente a metáfora da guerra para descrever esta crise e, principalmente, para justificar a maioria dos seus actos. O maléfico vírus é o inimigo. Profissões como varredores, empregados de supermercado, forças de segurança, enfermeiros e médicos, tantas vezes esquecidas, formam a linha da frente. Reuniões à porta-fechada como conselhos de guerra. E, as nossas vidas, como carne para canhão, à mercê das ordens de Autoridades Sanitárias. Sartre escreveu que “quando os ricos fazem a guerra são os pobres que morrem”. Esta semana vários dados estatísticos vieram dar razão ao filósofo existencialista francês. O precipício do PIB e a sua queda de 16% no semestre. A alta mortalidade do mês de Julho da qual apenas 1.5% foi por causa do Covid. Ou a hecatombe do turismo com variações negativas acima dos 90%. Ofuscados pela vã glória dessa luta que julgam travar, os decisores políticos lançaram-se cegamente nesse combate invisível deixando, à revelia da mais básica estratégia, totalmente desprotegida, a retaguarda onde as principais batalhas, contra um vírus com uma taxa de mortalidade de 5%, estão definitiva e desesperadamente a ser perdidas.

in Açoriano Oriental