quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Café Royal CLVI


O oportunismo…

Após um interregno provocado por coincidências de calendário, regresso ao Café, repondo uma regularidade que se manteve, ininterruptamente, durante três anos. Perdoar-me-á, no entanto, o leitor que regresse com temas políticos, mas tendo em conta que 2020 será um ano de eleições regionais e olhando o estado do país e do mundo, a política torna-se, infelizmente, fundamental. Amanhã saberemos se o primeiro orçamento da nova legislatura teve, ou não, aprovação parlamentar. Este orçamento transformou-se num verdadeiro epifenómeno, dele dependendo, não só a sobrevivência do governo, mas, e principalmente, os futuros equilíbrios políticos nacionais. “A política é a arte do compromisso”, é uma citação erradamente atribuída a Otton von Bismarck, que o que disse realmente foi que “a política é a arte do possível, do alcançável – a arte do melhor possível.” Ora, o que perpassa, quando nos detemos a reflectir sobre o fim da geringonça; a formação do governo em Espanha, refém da questão catalã; ou, essa coligação contranatura, de conservadores com verdes, na Áustria, é que a política hoje tornou-se numa verdadeira “arte do oportunismo”. O que falta saber é, para onde isso nos leva…


in Açoriano Oriental 

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Inquérito DA 01.01.2020


> 1 - Do que vivemos em 2019, sente que 2020 vai ser muito diferente nos Açores, no plano geral, em termos económicos e políticos?

Certamente que sim. Desde logo, e começando pela parte política, porque 2020 será um ano de eleições regionais, ao que acresce o facto de o PSD-Açores arrancar o ano com uma nova liderança e um congresso regional. Estes dois factores farão com que o ano político seja marcado, essencialmente, pelo esforço do PS-Açores em manter a sua maioria absoluta no parlamento e pela tentativa, por seu lado, do PSD-A de roubar essa maioria. Este confronto vai, certamente, mudar o cenário de quase estagnação a que assistimos, não só em 2019, mas nesta última legislatura. 
Quanto ao resto, sinceramente, não me parece que possam surgir grandes mudanças ou surpresas, tirando os casos em investigação judicial, mas já lá vamos. As grandes questões políticas, económicas e sociais dos Açores são crónicas e não creio que no quadro do actual modelo político da autonomia regional se consigam resolver: a ausência de um modelo de desenvolvimento económico sustentável, essa palavra tão na moda, mas tão vilipendiada pelos próprios políticos; as profundas desigualdades sociais; os índices de pobreza; os desequilíbrios e os ódios, principalmente os ódios, pequeninos e mesquinhos, entre as ilhas; o peso excessivo da administração pública no emprego, associado à ausência de alternância democrática. Tudo isto são problemas crónicos, que já vêm de décadas, que continuaram em 2019 e que se vão perpetuar em 2020. 
Agora, indo às questões mais concretas, há, obviamente, assuntos que forçosamente terão que ter alguma evolução em 2020. À cabeça, o dossier SATA. O governo não pode correr o risco de viver um ano eleitoral sem que o problema da SATA esteja resolvido ou, pelo menos, contido. Veremos se isso será possível e se sim com que consequências, para a empresa e para os Açores e os açorianos. No plano económico há também grandes incertezas quanto ao comportamento do sector do turismo, por exemplo, uma área altamente sensível e que neste governo tem sido confrangedoramente maltratado. O Turismo tem sido a alavanca da nossa economia e é um sector fortemente dependente de dois vectores: a qualificação da oferta do Destino, onde pouco ou nada foi feito, e a promoção externa do Destino. Ora, o actual governo entregou totalmente na mão dos privados o importantíssimo dossier da promoção, ao que acresce o facto de essa alteração ter demorado cerca de três anos e veremos se não vamos começar a sentir já os efeitos perniciosos desses três anos de total ausência de uma estratégia efectiva e eficiente de promoção turística. 
Quanto aos casos de justiça, esperamos que 2020 traga finalmente alguma conclusão aos incontáveis casos que assolaram a política regional nos últimos anos. O caso Gaudêncio, a operação Asclépio, a ATA, a SPRHI, e outros que possam ainda surgir, podem vir a ter um impacto imprevisível na política regional. Embora, o estado depauperado em que se encontra o Ministério Público na região nos leve a crer que dificilmente se poderão esperar grandes desenvolvimentos. Este é, aliás, um gravíssimo problema, que deveria provocar um profundo sobressalto social nos cidadãos e nos políticos em particular, são eles os maiores prejudicados com o eternizar de suspeitas e a indefinição destas acusações. Este é um problema que corrói a nossa democracia, que envenena a confiança dos cidadãos nos governantes e que devia, realmente, merecer a maior atenção de todos. E não é com promessas vãs de delações premiadas que se resolve o problema. É dotando o Ministério Público e as instituições judiciais com meios, técnicos e humanos, que estes casos podem ser resolvidos de forma célere e independente, doa a quem doer.

> 2 - As eleições regionais são acontecimento incontornável neste 2020. Qual a sua percepção em termos de estratégias dos partidos e da mobilização dos eleitores?

No meu entender, as grandes questões que se vão colocar nas eleições regionais de 2020 são a maioria absoluta e a abstenção. O resto são minudencias. 
O principal objectivo do PS-Açores é manter a sua maioria absoluta e para isso vai usar todas as armas ao seu alcance, começando, obviamente, pela máquina governativa e, por essa autêntica fonte da eterna juventude, que é a gestão dos fundos europeus. Derramar o elixir dos euros sobre as ilhas é meio caminho andado para as vitórias eleitorais. Resta saber, se isso será suficiente para fazer esquecer o óbvio desgaste que o partido e a governação sofrem neste momento junto do eleitorado. A imagem política de Vasco Cordeiro, que é visto ainda como um homem-bom, sofre uma clara erosão com a arrogância, a prepotência e, em muitos casos, a incompetência dos quadros superiores e intermédios de que se rodeou no governo e no partido. Aliás, a própria mobilização do partido vai estar marcada pela percepção que for possível fazer, pelos militantes, sobre o pós-Vasco Cordeiro. E, não creio que a ideia que se parece estar a estabelecer de que o putativo sucessor de Vasco Cordeiro possa vir a ser Francisco César augure um grande futuro para o Partido Socialista açoriano. É nesse jogo de percepções que se vai apostar a possibilidade, ou não, de uma maioria absoluta para o PS-A. 
Do lado do PSD, o grande desafio é convencer os eleitores de que é, de facto, possível tirar a maioria ao PS, sem que com isso os Açores caiam em qualquer espécie de caos ou de pântano. O PSD-A tem que convencer um eleitorado tendencialmente conservador e atreito a grandes mudanças, atávico até, diria eu, de que é possível fazer essa mudança de uma forma ponderada e construtiva. É quase como se o verdadeiro adversário do PSD não fosse o Governo e o PS, mas antes esse excessivo conservadorismo do próprio eleitorado açoriano. Se Bolieiro conseguir fazer passar a mensagem de que, ganhando ele ou não, a era do PS já chegou ao fim, pelos próprios erros do PS, aliás, então sim poderemos ter uma surpresa lá para Outubro. Se não, basta ao PS-A agitar a figura imponente de Vasco Cordeiro para garantir uma vitória nas eleições. 
A segunda questão é, de facto, a abstenção. Os Açores, com os níveis repetidos de abstenção que tem tido, caminham, a passos largos, para não serem uma verdadeira democracia. Quando as eleições são ganhas com a manipulação de uns quantos votos, em meia dúzia de freguesias chave, quase ao jeito de sindicatos de votos, então não são realmente democráticas. E não podemos deixar que este cenário cresça ou, sequer, que continue. Na minha opinião, em todas as freguesias em que a taxa de abstenção seja superior a cinquenta porcento, as eleições deviam ser repetidas. Obrigando-se assim os partidos a um maior esforço de clarificação e mobilização dos eleitores e, por seu lado, os eleitores a um maior compromisso com a democracia e a governação. Para além, claro, da abertura da Assembleia Legislativa Regional à candidatura de listas de cidadãos, mas isso, na nossa presente partidocracia parece-me mais ou menos impossível, infelizmente. 
De qualquer modo, pelo menos para os comentadores, 2020 vai ser um ano rico em matéria prima.



quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Café Royal CLV


Pérolas…

Uma das maiores riquezas dos Açores é a sua História. Infelizmente, esse riquíssimo património tem sido ostensivamente negligenciado pelos próprios açorianos. A gesta do povoamento e dos descobrimentos; a resistência a Castela; a sanha dos corsários; o sonho Liberal; a época de ouro da Laranja; o 2 de Março de 1895; a baleação; os Clippers; os cabos submarinos; as duas grandes guerras; os jactos; a epopeia humana de séculos de emigração e, o seu oposto, a resiliência e prosperidade nas ilhas: são quase 600 anos de História que, salvo raríssimas excepções, são largamente desconhecidos da população e indesculpavelmente vilipendiados pelos poderes públicos. Não se valoriza a documentação, não se aposta na musealização e não se investe na promoção. Ao invés, betoniza-se, bunkeriza-se, marina-se e, de um modo geral, condena-se ao abandono e ao esquecimento toda uma incomensurável riqueza que abunda em cada uma das nove ilhas. O recente episódio do afundamento propositado de um navio ao largo de Santa Maria, quando por todos os Açores ou, em particular, ao largo da Terceira jaz esquecido, por exemplo, o HMS Revenge, é só mais uma triste demonstração de quão pequena é a ambição de tão rico povo.


quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Café Royal CLIV


Tudo normal,

Vivemos as semanas dos Planos e Orçamentos. Pela República, Centeno e Costa multiplicam-se no deve e haver das negociações e no toma-lá-dá-cá das reivindicações. Por cá, ao que sabemos, pelas notícias e pelos Facebook dos deputados, no meio das fotos narcísicas deles próprios, lá foi aprovado, na Horta, mais um Plano e Orçamento para a Região. Passam os anos e os planos e aquilo que devia ser um documento fundamental para a governação transformou-se numa praxe banal que enche o cidadão comum de tédio e enfado. Na verdade, qualquer um consegue intuir facilmente a vacuidade cada vez maior destes documentos, feitos em copy paste de um ano para o outro, agravados pela não execução e pelas cativações. Formatados os Words e os quadros de Excel, cheias as pens, pelos tarefeiros de serviço, o documento é depois salteado nas frigideiras dos parlamentos, acrescentando-se-lhe meia dúzia de temperos avulsos, à esquerda e à direita, ou ao estilo da Madeira ou da Terceira, até se apurar uma requentada roupa-velha. Já a seguir é Natal, o Centeno há de ir-se embora e por cá teremos mais umas eleições. Tudo normal, dentro da anormalidade…


quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Café Royal CLIII


(Des)planeamento

O Governo anunciou recentemente, sem pré-aviso ou consulta pública, um projecto de intervenção na cumeeira da Lagoa do Fogo. Acto contínuo, o PS fez gala em anunciar a introdução no Plano e Orçamento de uma verba de cem mil euros para uma “intervenção de ordenamento paisagístico na zona da mata da Lagoa do Congro”. O que é irónico é a falta de planeamento disto tudo. Olhando para as ilhas, é fácil constatar a imperiosa necessidade de planear e organizar o território para melhor o adaptar à evolução demográfica e ao crescimento do turismo. A Região precisa, urgentemente, de um plano estratégico integrado, que permita qualificar e, principalmente, aumentar e diversificar a oferta. O drama é que não há dados concretos sobre fluxos, sobre carga, sobre nada. Ora sem dados não pode haver planos, logo anunciam-se medidas avulsas em zonas que, se calhar, deveriam ser as últimas a ser intervencionadas. O que o governo devia estar a fazer era a promover os estudos que caracterizassem o estado actual do território e a promover acções que qualifiquem o existente para depois então poder pensar em intervir nos pontos da paisagem que ainda estão intactos, isso sim era sustentabilidade.


in Açoriano Oriental

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Café Royal CLII


Ir devagar

Vivemos num tempo cada dia mais acelerado. Tudo passa à velocidade do curto instante, da voracidade do consumo, do flash da selfie. A sociedade de consumo tornou-se autofágica, consumindo tudo, como Gargântua, até, quem sabe, um dia, se consumir a si própria. No mundo capitalista então, esta tendência é ainda mais expressiva. Empresas e consumidores vivem na ânsia do novo modelo, do novo produto, da nova grande ideia que irá revolucionar o mundo e fazer chover cifrões e notas de euros sobre as contas bancárias do próximo “unicórnio” digital. Também na política, o rolo compressor do momento mediático arrasa o pensamento, a análise e a estratégia. Os partidos e os governos atropelam-se a si próprios, como estafetas bêbados, tropeçando nos seus próprios pés. Citando o inimitável personagem dos anos 80 Ferris Bueller “a vida passa demasiado depressa, se não pararmos e olharmos em volta de vez em quando, acabamos por perdê-la.” Às vezes o mais importante a fazer na vida é ir devagar, parar para pensar. Olhar o que nos rodeia e perceber que o mais inovador é precisamente preservar o passado, manter uma tradição, cuidar do que nos é dado para que possa, um dia, ser, também, da próxima geração.


quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Café Royal CLI


É só uma ideia

Pressionado pela aparição de Bolieiro no seu retrovisor, o PS resolveu acelerar o seu calendário político e deu à luz, prematuramente diria eu, um fórum denominado “Todos Contam! Açores Primeiro”, convidando-nos a ter uma ideia para a região. Pensar os Açores é, certamente, uma tarefa nobre e, quem sabe até, necessária, só que é chão que já deu uvas. O próprio PS anda nisso há décadas, desde o Fórum Açoriano e o SOS Lagoas até ao “A Força da Autonomia somos todos nós” de há quatro anos atrás, lembram-se? O melhor que o PS podia fazer neste momento, para além de governar, e governar bem, já agora, era pegar nos seus 6 programas de governo e verificar, um a um, tudo o que foi feito e o, provavelmente muito, que ficou por fazer. Mas, se o que se pretende são ideias, deixo desde já aqui uma: Acabar com a triste sina de nove ilhas de costas voltadas umas para as outras e unir definitivamente os açorianos em torno de um projecto comum de desenvolvimento económico, social e cultural. O grande desafio por cumprir da autonomia é a concretização plena de uma verdadeira noção de identidade arquipelágica açoriana, é a materialização da açorianidade.


quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Café Royal CL


Interstellar

É Novembro e é Verão. Dias longos de sol quente e águas lisas e fins-de-tarde de horizontes infinitos e alaranjados, espécie de recompensa para o Verão que não existiu. A lentidão deste Novembro contagiou-nos a todos, até aos políticos, que assam presidentes de conselhos de administração de companhias aéreas como se assassem castanhas. A quietude dos dias ensolarados só contrasta com a movimentação subterrânea das placas tectónicas que se faz sentir na emergência dos sismos. Mas, não há urgências este Novembro. O governo continua a trabalhar, a oposição a pensar, o parlamento a protelar e os prazos para a conclusão da Casa da Autonomia a prorrogar. Como vai doce este Novembro. Lá por Lisboa igual. Continuamos imunes à tragédia de um recém-nascido deitado ao lixo por um sem-abrigo a quem toda a sociedade trata como lixo. Na assembleia pretendia-se calar quem acabou de ganhar voz para falar. No governo, o salário mínimo sobe 5% enquanto a produtividade estima-se que só consiga subir 3%. Lá por fora, Espanha voltou a votar, a América a Impeachmentar, a Voyager 2 chegou ao espaço interestelar, mas por aqui e por enquanto o sol de Novembro continua a brilhar.


quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Café Royal CXLIX


CTRL+ALT+DEL

A menos de um ano de eleições, a região vive dias conturbados. O PSD está em estado catatónico. Suspenso na indefinição sebastiânica de Bolieiro que, num acto de incompreensível cobardia política, não foi ainda capaz de dizer se aceita ou não ser presidente do partido. Cada dia que passa nessa letargia, o estado comatoso do PSD agrava-se. Mas, ao mesmo tempo, PS e Governo vêem-se confrontados com crises e erros, numa sucessão de calamidades, que mais parece um colorido e electrizante efeito dominó. O Governo, refém da Vice-presidência, transformou-se numa rede de jeitos aos amigos e de represálias àqueles que, por delito de opinião, se julga serem os inimigos. Falta desígnio e estratégia para a Região. Antigamente, quando os computadores bloqueavam o truque era recorrer às teclas CRTL+ALT+DEL para reiniciar a máquina. Resta saber se Vasco Cordeiro, que é, ainda, o verdadeiro capital político do PS, conseguirá sair da sua imensa mansidão e crónica indecisão para dar esse choque no sistema. Os riscos de deixar tudo como está, esteja ou não Bolieiro no leme da Nau Catrineta que se tornou o PSD, são ver escapar a maioria absoluta e, debalde, entregar o PS aos carreiristas.


quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Café Royal CXLVIII


Protestos

Nos últimos tempos, um pouco por todo o mundo, os cidadãos, ou, como se diz em ciência política, o Povo, saíram à rua: os independentistas na Catalunha, os “coletes amarelos” em França, os democratas em Hong Kong, os reformistas no Chile, os confundidos, de um lado e do outro, do Brexit, e os órfãos das alterações climáticas à escala global. Numa Era de indignações digitais, de petições à lá minute, de revoltas de Twitter, perceber que as sociedades, as comunidades, ainda são capazes de se organizar e dar a cara em protestos públicos vivos e corajosos é um motivo de satisfação para qualquer democrata. O protesto e a sua manifestação pública são uma forma de expressão da vontade popular e, não é preciso saber de filosofia, para compreender que a vontade popular é a raiz fundamental de toda e qualquer Democracia. Num mundo com cada vez mais desigualdades, entre ricos e pobres, entre geografias e continentes, entre eleitos e eleitores, até mesmo entre gerações, a Voz do Povo, esteja ela em ruído na rua ou no falso silêncio da abstenção, assume cada vez maior importância e não vale a pena fazer de conta que não se está a ouvir ou, pior, reagir com despeito e arrogância àquilo que não se gosta de ouvir…


quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Café Royal CXLVII


Cataclismo

O crescimento recente do Turismo deveu-se, em larga medida, a dois factores fundamentais: marketing e aviões. Ryanair, Easyjet e Delta permitiram um incremento crucial nas acessibilidades que, em Turismo, como sabemos, para um destino arquipelágico como o nosso, é tão vital como o oxigénio é para os pulmões. Em paralelo, a promoção nos mercados e o aumento da notoriedade tornou os Açores atractivos para os potenciais turistas. Porém, nos últimos anos, o Governo e a Secretaria do Ambiente, Energia e Turismo (só a hierarquia do nome diz tudo…), entretidos a brincar à sustentabilidadesinha, conseguiram, não só destruir por completo a promoção turística do destino, entregando esse dossier decisivo na mão de meia dúzia de empresários como, também, deixar que a Delta abandonasse o destino, tornando-nos reféns da Ryanair, da TAP e da moribunda da SATA. Não havendo uma explicação, ou responsabilização ou, até, uma alternativa para este autêntico cataclismo não resta, lamento, outra saída à Sra. Secretária, e à direcção da ATA, já agora, que não seja a demissão.


quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Café Royal CXLVI


Harold Bloom

Faleceu, esta semana, aos 89 anos, o mais importante crítico literário da contemporaneidade. Harold Bloom foi o inventor do chamado “Cânone Ocidental” – um corpo literário autónomo e robusto que, desde a antiguidade clássica aos nossos dias, com Shakespeare como vértice, representa o legado cultural da nossa civilização. Esta teoria, muitas vezes mal interpretada, levou a que fosse atacado pelos membros daquilo a que Bloom classificou como as “escolas do ressentimento”. Muitos dos que o atacaram, com base em revisionismos ideológicos e identitários, esqueciam a importância dos seus muitos contributos para a cultura, nomeadamente a tese, apresentada em “The Book of J”, de que os primeiros escritos hebraicos, que compõem o Antigo Testamento, teriam sido escritos por uma mulher. Ou, a sua teoria da “Angústia da Influência”. Numa época em que com 280 caracteres se consegue governar o mundo, Bloom merece, mais do que nunca, ser lembrado, pela sua defesa intransigente do prazer da leitura, e da importância maior que a literatura tem na expressão da condição humana ou, como o próprio referiu com relação a Shakespeare, a “invenção do humano”.


quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Café Royal CXLV


Do alheamento

Uma semana depois da passagem implacável do furacão Lorenzo pelos Açores, o Porto das Lajes, que foi arrasado pela força bruta do mar, deverá em breve retomar, parcialmente, a sua operação. Este facto deve-se à resiliência da população das Flores e, ao esforço conjunto das autoridades regionais, da Portos dos Açores e, principalmente, da Marinha Portuguesa. Não fosse a imediata prontidão, a capacidade técnica, logística e humana da Marinha e a Autonomia, per si, não teria a capacidade de tão rapidamente minimizar os danos causados pela tempestade. Este é um exemplo básico de “solidariedade nacional” e daquilo que o Estado faz pela população. No entanto, no passado Domingo, os Açorianos, pareceram alhear-se deste facto e brindaram o País com a maior taxa de abstenção de sempre. O Presidente do PS fez questão de dizer, na noite das eleições, que a abstenção, hoje, nos Açores, é inaceitável. Mas, quando a população parece desrespeitar por completo aquilo que o País faz por si e culpa os políticos por esse alheamento, como explicou um estudo que foi engavetado no parlamento regional, e os próprios políticos estão narcisicamente enleados nas suas fotos no Facebook, a esperança de que se possa mudar esta realidade é quase nula…


quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Café Royal CXLIV


Votar

Ao contrário do que seria de esperar, a campanha eleitoral, afinal, foi tudo menos sensaborona. Tivemos um António Costa titubeante entre a ganância da maioria absoluta e as sonsices habituais de quem lhe dói as costas. Um Rui Rio sempre a crescer e uma Assunção a perder a crista. Depois, tivemos essa novela pifara de Tancos: umas forças armadas relapsas, ladrões de pacotilha que se lixam por 34 mil euros, polícias e magistraturas em guerrinhas de manjerona, ministros idiotas que trocam sms inenarráveis com políticos jovens, mas que tresandam a velhas formas de fazer política. Enfim, um retrato exacto do Portugal de hoje. E, não esquecer, a melhor alcunha desde o famigerado “Cherne”, o “papagaio-mor do reino”. Não se pode dizer que não foi divertida, infelizmente é rir para não chorar. A acreditar nas últimas sondagens, Domingo, os portugueses vão indicar a António Costa uma Geringonça 2.0. Até os eleitores do PS não querem uma maioria absoluta e isso devia servir de lição para a direcção do partido. As incógnitas são os novos partidos e o peso do PC. Quanto à direita, mesmo que Rio se aguente, os próximos 4 anos serão de total e completa refundação. Mas, para já, é preciso votar.


quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Café Royal CXLIII


A letra da lei

No último mês de Julho veio a público o rocambolesco episódio das golas antifumo. O que estava em causa, entre outras coisas, era o envolvimento de um Secretário de Estado na contratação de uma empresa detida por familiares de um adjunto. Ao melhor jeito da saloiice nacional, o PS e o Governo ensaiaram uma fuga para a frente, reclamando que “seria um absurdo a interpretação literal” de uma lei de 1993, que até hoje nunca fora contestada por nenhum governo ou partido. Vai dai, é pedido um parecer, pelo Primeiro-ministro, ao Conselho Consultivo da Procuradoria Geral da República, para o “completo esclarecimento”, sobre a letra da lei, da já famosa Lei das Incompatibilidades dos Titulares de Cargos Públicos. Ora, o que torna tudo isto ridículo não é as golas pegarem fogo, ou a tentativa de interpretação a gosto das leis, nem sequer a ostensiva e inescrupulosa falta de ética dos nossos governantes, o que torna tudo isto verdadeiramente absurdo é o esquizofrénico facto de, na mesma semana, o mesmo Ministério Publico, constituir como arguido o Secretario de Estado, enquanto o seu Conselho Consultivo acha que a lei não pode, afinal, ser lida literalmente.


quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Café Royal CXLII


Partidocracia

O meu pendor romântico levou-me sempre a acreditar que, numa democracia, os partidos são o garante da pluralidade democrática e do debate ideológico, condições fundamentais para a sobrevivência desse regime que “é a pior de todas as formas de governo, à excepção de todas as outras”. Mas, as nossas democracias estão hoje feridas de morte. E o problema não é a abstenção e o alheamento dos cidadãos da vida política, nem é, tão pouco, a esquizofrenia ideológica que faz do PSD um partido de esquerda e do BE um partido social-democrata, nem sequer é a ameaça do populismo. Antes de tudo isto, o verdadeiro cancro das nossas democracias, é que os partidos políticos, que são o seu centro nevrálgico, não são, eles próprios, instituições democráticas. Nos partidos não há liberdade de pensamento, nem de opinião, nem, sobretudo, democracia interna. Há dias, no calor de uma discussão entre amigos, defendi que o objectivo dos partidos devia ser o bem comum, ao que alguém cínica, mas realisticamente retorquiu que não, que o objectivo dos partidos políticos é ganhar eleições. Enquanto assim for, o regime em que vivemos é uma partidocracia e esse é que é o verdadeiro problema.


quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Café Royal CXLI


Sanguessugas

No meio do ruído da campanha eleitoral e das suas retóricas “linhas vermelhas” uma notícia extremamente importante passou mais ou menos despercebida ao cidadão comum. Ao fim de sete anos de investigação e litigância, a Autoridade da Concorrência, um organismo que se julgava inexistente em Portugal, multou em 225 milhões de euros 14 instituições bancárias, por práticas susceptíveis de constituir cartelização. De acordo com a Autoridade da Concorrência, durante cerca de 11 anos, entre 2002 e 2013, no auge da crise financeira, os Bancos entretiveram-se a partilhar entre si informação sensível sobre condições de crédito, valor dos spreads, volume de investimentos, etc., eliminando deste modo a sã e livre concorrência e prejudicando objectivamente os consumidores. Se juntarmos a isto os perto de 25 Mil Milhões de euros de todos nós que já foram injectados no sistema financeiro, ficamos com uma melhor percepção de como os bancos se transformaram em verdadeiras sanguessugas do sistema, vivendo, como parasitas, à custa do sangue, do suor e das lágrimas de todos nós. Talvez, mais importante do que pensar na reforma do nosso sistema político, seja pensarmos na higienização do nosso sistema financeiro, a bem da Democracia.


quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Café Royal CXL


Maiorias

A viagem do Partido Socialista, pelos atribulados caminhos da nossa entradota democracia, nem sempre foi fácil. Entre 75 e 85 Soares viu-se encurralado entre uma extrema esquerda altiva e um centro-direita envergonhado. Em 6 eleições legislativas o PS ganhou 3, sempre abaixo dos 40% dos votos, passou pelo embaraço das expressivas vitorias da AD em 79 e 80 e culminou com o trauma cavaquista de 85 e de 87, em que o PSD obteve mais de 50%. Soares rumaria a Belém e Portugal sofreria Cavaco durante os próximos 10 anos. Depois veio o pântano de Guterres, a tanga de Durão Barroso e o desmaio de Santana Lopes, até culminarmos nos 45% de Sócrates, uma bancarrota e a PàF que, como todos os amantes de banda desenhada sabem, significa uma brutal estalada na cara. Durante estes 45 anos, dois grandes dogmas imperaram sobre o xadrez político nacional – a Direita, quando precisa, une-se e as Esquerdas não. As eleições de 2015 e consequente Geringonça marcaram, esperávamos nós, o fim deste “nó górdio”. Mas, e pelo que temos visto desta campanha eleitoral, o PS, infelizmente, não aprendeu nada nestes 4 anos e prefere a ganância de uma putativa maioria-absoluta à continuidade de uma maioria de esquerda. É pena.


quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Café Royal CXXXIX


Regressos

O Verão é o tempo dos regressos. Do regresso à casa dos avós e aos nossos lugares de conforto. Do regresso uterino ao mar. Do regresso, por essa indolência própria que só o Verão tem, à infância. O Verão é o tempo em que os homens regressam a vestir calções e as mulheres à luminosidade dos corpos despidos inocentemente. O Verão é o regresso ao mais puro dos descomprometimentos, à verdadeira isenção de horários, à liberdade de não ter o que fazer e ao seu prazer. E do regresso, muitas vezes, a nós próprios e ao obrigatório dever de ter tempo para nós. O Verão é, também, o regresso a uma ideia imaginada de felicidade. Como se só pelo calor do sol e dos balanços do mar fossemos verdadeira e permanentemente felizes, com a felicidade única de quando éramos crianças. Um regresso aos milhentos tons de azul do mar de águas translucidas e do céu infinito e iniciador de tudo. Um regresso, místico, à pureza inicial da luz e da mente livre. O Verão é, enfim, o regresso ao sonho e ao sentimento de que o futuro se abre à nossa frente, pleno de hipóteses, encantadoramente indefinido. Resta-nos fazer permanecer o Verão, em cada dia…  


quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Café Royal CXXXVIII


Deste Verão

Há um adágio popular, recorrente nestes nublados e chuvosos dias de Agosto, que diz que o Verão nos Açores é tão bom que até o Inverno vem cá passar o Verão. Os ecrãs das redes sociais estão pilhados de lamentações por este Verão que nunca foi. E, vemo-los por aí, como zombies, cambaleando pesarosos pelas ruas molhadas, protegendo-se da chuva com olhos tristes, órfãos do sol, os veraneantes de Agosto, a quem o clima roubou o Verão. Lá longe, presos nos seus cubículos, em prédios altos, levaram o ano todo a sonhar com os preciosos 22 dias de férias de Agosto e saiu-lhes isto. Ilhas de bruma. Quem quiser as monotonias algarvias que poupe nos bilhetes de avião. Aqui não há dias ensolarados de céus espantosamente azuis. Aqui não há trinta graus de temperatura, areias finas e brancas e bolas de Berlim. Aqui há o ciclo da água. Estas são ilhas de cinzas, dos vulcões, que as criaram, e das nuvens, que as alimentam. E não há prazeres fáceis. O verão nos Açores é um trabalho árduo, não é para veraneantes. Este Verão não cumpre calendários. É um Verão com humores. É cínico e irónico e, por vezes, um pouco sádico.  Se quiserem dizer que passaram o Verão nos Açores tirem férias em Outubro.