quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Speakers' Corner 109

Dias de chumbo

Os últimos dias ficaram marcados por um punhado de acontecimentos que revelam, de forma particularmente impressiva, o estado sinistro a que chegou a Região e o país.

No continente prosseguem os protestos pela habitação, entre a surreal postura do governo, as bastonadas avulsas da PSP e uma sentença de um tribunal que fez de uma tenda um símbolo coletivo de resistência e de nós todos Renata Cambra.

Nas ilhas, o fim do verão IATA assinalou o início daquele que ameaça ser um dos piores invernos turísticos das últimas décadas. Com as ligações aéreas ao continente entregues ao arbítrio do duopólio SATA/TAP e passagens a rondar os 400 euros, mesmo para residentes, viajar de e para as ilhas tornou-se um luxo árabe, reservado a uns poucos privilegiados com folga no salário para esperar pelo reembolso.

Ainda na senda dos luxos, o início do mês trouxe novos aumentos dos combustíveis, com o gasóleo a atingir os 1,994 euros por litro, mais 52 cêntimos do que em janeiro. Um corriqueiro depósito de cinquenta litros, que no início do ano custava cerca de 74 euros, aproxima-se agora dos 100. Já o gás, numa terra de tantas botijas, aumentou uns astronómicos 39,1 cêntimos por quilo, apertando ainda mais o garrote ao orçamento das famílias.

Já o Governo, e os partidos que o sustentam, parece empenhado em fingir que nada se passa e que os responsáveis por este descalabro são todos, menos eles. Da guerra de Trump ao desquite com Montenegro, tudo o que de mal acontece aos Açores é, na narrativa de Bolieiro, culpa de inimigos externos. Curiosa posição para quem, nem há poucos meses, aceitou presidir à mesa do congresso nacional do PSD, a convite do mesmo primeiro-ministro que agora acusa de lhe apertar o “garrote financeiro”.

Bolieiro tornou-se refém da sua própria estratégia, encurralado entre os desmandos de uma coligação moribunda e a incompetência política dos seus secretários. Turismo e Finanças registam duas das maiores debacles governativas das últimas décadas. A primeira, com um setor turístico hipotecado e em queda que nem a promessa de mais milhões para a promoção conseguirá salvar; e o segundo, que, depois de prometer défice zero e ausência de endividamento, viu o défice regional atingir quase 300 milhões de euros em 2025 e a dívida ultrapassar os 3.900 milhões no segundo trimestre de 2026.

Também nesta viragem de mês, quais castanhas girando no assador, o PS Açores viu anunciada, quase em ato contínuo, a abstenção no orçamento e a continuação da sua liderança. Num processo de contornos vagamente soviéticos, com limitações kafkianas à apresentação de listas de delegados, o presumível líder da oposição regressou, na sua habitual ponte aérea de Lisboa, qual Jano de duas faces, para representar um incompreensível teatro político: de um lado, deixar passar um orçamento que considera péssimo e irrealizável; do outro, apresentar-se como candidato a governar a Região daqui a dois anos.

Cesar, tenta iludir as hostes com grupos de independentes que reúnem em segredo e estados gerais prometidos desde a derrota autárquica, mas que ninguém viu nem sabe exatamente o que são. Mais depressa se organizou um Congresso da Autonomia do que o PS Açores conseguiu apresentar uma alternativa para si próprio, quanto mais para o futuro da Região, num partido que infelizmente continua prisioneiro de um sobrenome.

Enquanto os dirigentes socialistas vão tratando das suas vidinhas, aguardando, quem sabe, que o poder lhes caia nas mãos de tão podre, os Açores vão definhando. Os preços sobem, as oportunidades diminuem e a resignação transforma-se lentamente em revolta, num inverno que ameaça ser bem mais longo do que o calendário anuncia. E por entre o peso do clima, o Chega, apesar da sua liderança histriónica, ou talvez por causa dela, vai espreitando pelas frestas, acumulando os votos da indignação e do protesto.

São de chumbo os dias que vamos vivendo.

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Speakers' Corner 108

Duas vitórias e uma imagem

Contra todas as probabilidades, Lula venceu, no segundo turno, as eleições presidenciais brasileiras. Numa disputa marcada por uma polarização extrema da sociedade brasileira, o velho líder do PT, símbolo mundial da esquerda que se estende do comunismo ao progressismo verde, passando pelo socialismo democrático, conquistou, a custo, um quarto mandato à frente dos destinos daquela que é hoje uma das dez maiores economias mundiais, numa campanha que teve nas redes sociais um dos seus pontos chave de desbloqueio.

Independentemente do que vier a suceder neste seu mandato, a eleição de Lula deixa, desde já, um sinal de aviso para os equilíbrios políticos globais. Uma derrota tão expressiva quanto surpreendente do populismo demagógico e, sobretudo, da direita trumpista, que ambiciona controlar o mundo através de uma hegemonia global de governos ultraneoliberais e/ou autocráticos.

Na Sérvia, país com pouco mais de seis milhões de habitantes, um movimento cívico denominado Lista Estudantil, nascido há menos de dois anos de uma mobilização espontânea de estudantes contra a corrupção e a degradação do Estado, conquistou, também, a maioria absoluta nas eleições legislativas, derrotando Aleksandar Vučić, instalado no poder há catorze anos.

Sem uma liderança personalizada, organizado a partir de assembleias populares e com uma forte preocupação com a justiça socia, a Lista Estudantil conseguiu afirmar-se de forma pacífica e genuinamente popular, em vez de populista, contrariando todas as expectativas num país de fortes tendências autocráticas e numa região, os Balcãs, historicamente explosiva.

Um pouco por toda a Europa, movimentos espontâneos e inorgânicos de jovens fazem-se ouvir nas ruas contra décadas de decadência económica, política e social. O modelo de capitalismo global que vem afundando as esperanças de sucessivas gerações, desde a crise financeira de 2008, passando pela pandemia de Covid-19, até ao atual delírio belicista, que parece querer arrastar a juventude europeia para uma guerra que esta não compreende nem aceita como sua, encontra finalmente nestes movimentos uma oposição clara.

O mundo que construímos nestes últimos trinta anos virou-se contra as populações. Desigualdades profundas, guerras permanentes, corrupção e desesperança roubaram o futuro a gerações inteiras de europeus. Da Albânia ao Rossio, da Bulgária a Madrid, passando por Paris e Milão, os jovens procuram, seja pela via do protesto, seja organizando-se em movimentos políticos e sociais, recuperar a esperança no futuro.

Procuram uma política que seja aspiracional, que ofereça horizontes em vez de exigir apenas sacrifícios a quem passou toda a vida a sacrificar-se. No trabalho, na economia, no simples acesso à habitação e às condições mais elementares de uma vida digna. Uma geração inteira, que viu uma parte significativa da sua infância e juventude roubada pelas crises financeiras e pela ditadura sanitária da pandemia, procura agora recuperar a voz e reclamar para si o direito mais universal de todos – o direito ao amanhã.

Não compreender estes movimentos, mesmo nas suas manifestações mais extremas de violência, não entender estas aspirações e anseios de uma geração inteira, é falhar em perceber o presente. Responder aos apelos por uma casa, por justiça social e por um futuro digno com a força insensível das bastonadas é negar o próprio fundamento da democracia.

Numa daquelas que certamente ficará na história como uma das imagens mais marcantes dos protestos destes dias, a fotojornalista da LUSA, Estela Silva, captou um manifestante sentado no chão, isolado na Praça D. João I, no Porto, segurando na mão um cravo, rodeado por elementos da polícia de choque, momentos antes de uma carga policial.

Há, na claridade noturna daquela imagem, uma síntese quase perfeita das forças que hoje se confrontam: uma multidão de cidadãos isolados que clamam contra as injustiças do Estado.

 

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Speakers' Corner 107

O lugar do outro

Em 1324, Mansa Musa, imperador do Mali, tido como um dos homens mais ricos da história, partiu em peregrinação a Meca com uma esplendorosa comitiva carregada de ouro. Dizem as crónicas que gastou e distribuiu tanto no Cairo que fez baixar o valor do metal precioso. A fama da sua fortuna chegou à Europa e ficou inscrita no Atlas Catalão de 1375, simbolizando as riquezas da África Ocidental e aliciando conquistas que haveriam de inebriar os portugueses.

Em 1846, o filósofo francês Proudhon, um dos inspiradores intelectuais de Antero, escrevia a Karl Marx, criticando o dogmatismo económico e a violência como instrumento de transformação social. Ironicamente, Proudhon é hoje considerado o pai do anarquismo, uma ideologia política tantas vezes reduzida, no imaginário comum, ao caos e à destruição.

Vêm estes dois pequenos apontamentos históricos a propósito das convulsões sociais a que temos assistido e daquilo que me parece ser o cerne dessas convulsões: a desigualdade.

Enquanto fortunas individuais atingem dimensões obscenas, gerações inteiras veem as suas esperanças destroçadas pelo custo de vida. Enquanto Elon Musk investe milhões em influência política e carros voadores, por toda a Europa há quem não consiga pagar uma casa, encontrar um emprego ou obter os meios para uma vida digna.

As grandes fortunas acumulam influência sobre a política, a informação e a tecnologia, enquanto quem trabalha se vê obrigado a sair à rua para reclamar o mais elementar: um teto e um salário que chegue ao fim do mês. Desde a crise financeira de 2008 e do célebre «too big to fail», tornou-se difícil ignorar esta invertida hierarquia das urgências. Há instituições demasiado grandes para falir e pessoas aparentemente demasiado pequenas para merecer ajuda. A classe média, essa promessa de estabilidade das democracias ocidentais, vai descobrindo que trabalha cada vez mais para poder viver cada vez menos.

Cada um olhará para os acontecimentos dos últimos dias com a luz dos seus próprios olhos. Uns verão apenas uma turba de vândalos destruidores, hordas bárbaras de imigrantes invasores e o fim da nossa civilização. Outros verão a luta justa de jovens e trabalhadores que se recusam a hipotecar o futuro a uma lógica subordinada aos interesses capitalistas e belicistas das corporações financeiras globais.

O Estado social europeu nasceu de lutas e compromissos que fizeram da saúde, da educação, da habitação e da proteção social responsabilidades coletivas. Hoje, o seu enfraquecimento é-nos apresentado como uma inevitabilidade. Mas essas são escolhas políticas. Os protestos nas ruas da Europa exprimem também o receio de perder essa segurança e a erosão desse capital de esperança que é a base do Estado social.

A violência é sempre condenável, venha de que lado vier. Mas condená-la não dispensa compreender as razões de quem protesta. Uma loja destruída merece toda a nossa atenção; uma vida sem horizonte também.

Neste tempo de todas as polarizações, o essencial não é chamar a nós a dor do outro, mas sair do nosso lugar de dor e colocarmo-nos no lugar do outro. De quem trabalha sem conseguir o mínimo para uma vida digna. E do pequeno comerciante que vê destruído o trabalho de uma vida. Um exercício de empatia que exige esforço, sobretudo perante aqueles que estão do outro lado da barricada.

Mas essa empatia também precisa de ação, de consequências nos impostos que aceitamos pagar, nos direitos que defendemos, nas instituições que construímos e, acima de tudo, nas desigualdades que combatemos. Enquanto contemplarmos os novos Mansa Musa com mais admiração do que inquietação perante a miséria que cresce à sua volta, continuaremos a confundir o esplendor de alguns com o progresso de todos.

Só desse reconhecimento do outro, dessa consciência de que o outro somos nós, pode nascer um mundo que seja solidário em vez de egoísta. E que saiba abraçar em lugar de apartar.

 

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Speakers' Corner 106

Passos Coelho, o presbítero

Portugal sempre foi pródigo em figuras redentoras e salvíficas. Desde Egas Moniz até Salazar, passando pelo símbolo maior desse destino eternamente adiado que foi D. Sebastião, a nossa História sempre se fez, em proporções significativas e semelhantes, de ambição, martírio e decadência.

Na literatura, Alexandre Herculano desenhou-nos, Eurico, o Presbítero, figura marcante de sentimento trágico e visão épica, para refletir sobre a decadência política, o sacrifício individual e a identidade nacional.

No passado domingo, o ex-primeiro-ministro Pedro Passos Coelho (PPC), saiu por entre o nevoeiro, para uma extensa entrevista a Maria João Avillez. Qual presbítero do PSD, apresentou-se ao país como símbolo do sacrifício, da fé e do dever perante a pátria em crise, reclamando para si o velho ímpeto reformista de quem se julga investido de uma missão superior.

Afirmando não ser candidato a nada, não deixou de se apresentar como eventual alternativa, caso o seu partido não consiga responder às necessidades do país, ou àquilo que ele entende serem as necessidades do país. O que, vindo do homem que quis ir além da Troika, não deixa de ser uma perspetiva preocupante. Tudo para oferecer, nas suas próprias palavras, algo que «não seja mais do mesmo», numa crítica aberta a Luís Montenegro, que, num exercício de requintado cinismo, chegou a comparar a António Costa.

Mas a parte mais substantiva da entrevista de PPC, creio eu, foi a defesa de um entendimento alargado entre as direitas, assumindo abertamente a possibilidade de uma aproximação ao CHEGA!, acompanhada de elogios rasgados ao seu líder, André Ventura, a quem reconheceu «bastante mérito» e um «poder de iniciativa notável».

A verdade é que PPC tem uma responsabilidade na legitimação política de André Ventura, com a hoje quase esquecida candidatura de Ventura à Câmara de Loures, onde germinou a retórica anticigana que viria a ser uma das matrizes do seu discurso político. E da qual PPC nunca se distanciou.

Mas o problema, digo eu, está em compreender até que ponto as várias direitas portuguesas são verdadeiramente conciliáveis. Poderão Maria João Avillez e Rita Matias tomar chá na mesma mansão sem se incompatibilizarem estruturalmente ao primeiro dedo espetado na chávena ou ao primeiro pires deixado em cima da mesa?

Como explica Miguel Carvalho, no seu Por Dentro do Chega, o partido de André Ventura é uma amálgama de ressentimentos, frustrações e pulsões autoritárias, onde se cruzam as mais diversas formas de contestação social e política. Uma espécie de caixa de ressonância de todos os descontentamentos e ânsias de punição.

A base mais radical do CHEGA! não pretende propriamente reformar o país, mas destruir e castigar aquilo que identifica como o sistema. E PPC é um dos símbolos maiores desse sistema.

O antigo líder da JSD, com um percurso profissional anterior à política que nunca deixou de suscitar controvérsia, feito primeiro-ministro da Troika, protagonista de uma política de austeridade que sacrificou setores inteiros da economia nacional, reduziu direitos de trabalhadores e pensionistas e promoveu a privatização de empresas estratégicas do Estado, amigo do peito de Miguel Relvas, essa espécie de Conselheiro Acácio dos tempos modernos, por mais presbítero que agora se apresente, continua a representar muito daquilo que o eleitorado mais radical do CHEGA! diz querer combater.

PPC parece sentir-se traído pela História. Terminado o seu retiro conventual, regressa agora à praça pública como uma espécie de cavaleiro negro da grande massa conservadora nacional, investido da missão de restaurar uma ordem política que considera perdida e da qual se sente o salvador.

Resta saber se entre o criador e a criatura, as novas massas da direita populista e demagógica não acabarão por escolher o filho em lugar do pai, a destruição em vez da reforma e o ressentimento em vez da redenção.

 

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Speakers' Corner 105

O ópio do povo

Na última semana, uma miríade de acontecimentos políticos assolou a Europa e o mundo, agitando as águas da história com a turbulência imprevisível das massas.

Em Espanha, na sequência das manifestações provocadas pelo caso Maricarmen, Sánchez convocou eleições antecipadas, depois de ver chumbadas as suas propostas para enfrentar a crise da habitação.

Em França, estudantes do ensino secundário, num movimento espontâneo que se espalhou por centenas de escolas, protestam contra a falta de professores, as turmas sobrelotadas, a degradação dos edifícios escolares e a falência do sistema de ensino. A eles juntaram-se sindicatos de professores, associações de pais e outros sectores da sociedade. A poucos meses das eleições presidenciais, Macron vê Le Pen e Mélenchon ganharem avanço nas sondagens.

Em Inglaterra, o novo primeiro-ministro Andy Burnham fez, na conferência anual do Labour, um discurso onde prometeu maior controlo público da água, da energia e da habitação, alterações ao sistema de pensões, reforma eleitoral e uma reaproximação à União Europeia.

Na Ucrânia, Putin continua a bombardear Kiev enquanto o chanceler alemão Merz passeia pelos escombros, prometendo mais meios e financiamento para o apoio a Zelensky.

Em Ormuz, a guerra bíblica de Trump ameaça transformar-se numa nova Guerra dos Cem Anos, perante o impasse com o Governo de Teerão.

Enquanto isso, as principais companhias americanas de IA assinam acordos sobre superinteligência, procurando estabelecer mecanismos de autocontrolo, vigilância e boas práticas de segurança. Ao mesmo tempo, os agentes de IA tornam-se cada vez mais autónomos, abandonando as suas “caixas de areia” e aprendendo a pedalar sozinhos, sem rodinhas, até à singularidade.

No Brasil, Lula disputará a segunda volta das presidenciais com Flávio Bolsonaro, que ganhou o primeiro turno, com 47% dos votos.

Em Portugal, o primeiro-ministro Luís “Spinumviva” Montenegro deu uma aula na sua antiga escola secundária, em Espinho, sobre ética, integridade e prevenção da corrupção. A piada faz-se sozinha.

Marco Rubio visita Portugal, enquanto o Ministério Público lança averiguações para apurar se houve ilegalidades na utilização americana da Base das Lajes nos ataques ao Irão.

Já na nossa pequena intimidade insular, José Manuel Bolieiro, depois de ter declarado na Madeira que considerava pouco éticas algumas práticas comerciais das transportadoras aéreas, alegou, no entanto, que não se imiscui nos assuntos internos da companhia da qual o Governo Regional ainda é, até ver, o principal acionista.

O mundo parece aproximar-se de uma nova encruzilhada, onde passado e futuro convergem como dois comboios desgovernados. Um mundo onde o humano parece ter passado a ser um dano colateral, um acessório dos grandes movimentos globais, dos líderes desgovernados, dos algoritmos acelerados e de um capitalismo cada vez mais selvagem e decadente.

A crise energética junta-se ao aumento dos juros, da inflação e do custo de vida, num clima que alguns economistas descrevem como pré-2008, numa referência clara à maior crise financeira do nosso tempo.

No meio deste turbilhão, o cidadão atento vacila, suspenso entre a estupefação e o medo. Haverá esperança na condição humana? Poderemos ainda recuperar o rumo da história para uma era de paz e progresso? Ou o que nos espera é a hecatombe global, feita de extinção e domínio da máquina? Um tecnofeudalismo distópico, inteiramente algorítmico e superinteligente?

Estamos a assistir, em directo, à detonação de uma bomba atómica à escala global. Só que sem bunker para onde fugir. O mundo divide-se entre doomers apocalípticos e tecno-otimistas utópicos.

Entretanto, em Portugal, o país divide-se entre os de Ronaldo e os de Jesus, num interminável drama de balneário transformado em fofoca televisiva e discussões de café.

Para Portugal o futebol será sempre o ópio mágico para adormecer o povo e obnubilar as massas.

 

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Speakers' Corner 104

Um inverno que já está aí

Estes são os factos:

Em setembro de 2023, a Ryanair reduziu a sua operação de inverno nos Açores. Em novembro de 2025, naquele seu habitual estilo rufião, o CEO da companhia anunciou a retirada de todas as operações de e para os Açores a partir de março de 2026, apontando o dedo às taxas aeroportuárias e à alegada inação do Governo.

Nos primeiros sete meses de 2026, os Açores perderam 3,7% das dormidas e 3,5% dos hóspedes. Em agosto, os passageiros desembarcados nos aeroportos regionais caíram mais 6,2% em termos homólogos, mantendo uma tendência de descida que já leva dez meses consecutivos.

A Câmara do Comércio estima que a saída da Ryanair represente um impacto económico negativo entre 140 e 160 milhões de euros, com uma redução do PIB regional próxima dos 1,7%.

Depois de uma reunião de emergência da Associação do Alojamento Local dos Açores, na semana passada, finalmente vários responsáveis políticos parecem ter acordado para a realidade. A Secretária Regional do Turismo anunciou uma “campanha de inverno no mercado nacional” e o líder da oposição marcou uma reunião em Lisboa com responsáveis da Ryanair e da easyJet.

Ouvindo as declarações da Secretária Regional, parecia evidente o seu embaraço. A campanha seria lançada nos “próximos dias... meses”. Não explicou como, quando, com que meios, nem que objetivos.

Podemos continuar a discutir durante meses quem teve razão e quem não fez o que devia ter feito. Seria, aliás, interessante esclarecer os meandros da saída da Ryanair e a eventual ineficácia da resposta das entidades públicas responsáveis. Talvez seja boa matéria para uma comissão parlamentar.

Mas não é isso que o turismo precisa neste momento. O que o setor precisa é de aviões, passageiros e medidas.

A primeira prioridade deveria ser a conectividade aérea, com foco particular no preço. Apesar da capacidade prevista para o próximo inverno ter crescido, uma consulta aos principais agregadores mostra que com a saída da Ryanair o preço de um voo entre Lisboa e Ponta Delgada no inverno aumentou cerca de 90%.

Se querem fazer alguma coisa, comecem por aqui:

Uma campanha conjunta de promoção e estímulo à procura, envolvendo SATA e TAP, com o objetivo concreto de garantir uma oferta significativa de lugares entre Lisboa e Ponta Delgada a preços abaixo do teto simbólico dos 100 euros, ida e volta.

Campanhas digitais e nos aeroportos dos principais mercados emissores europeus, Reino Unido, Alemanha, Países Baixos, França e Espanha, e outros países do norte da europa, com férias no inverno e poder de compra, destinadas a manter a notoriedade do destino e, sobretudo, a estimular reservas para a época baixa.

Aliás, nem seria preciso inventar muito. Enquanto boa parte da Europa entra no inverno com temperaturas negativas, os Açores continuam a oferecer um clima oceânico extraordinariamente ameno.

Até deixo aqui, gratuitamente, um slogan: Azores - Real feel: mild and peaceful.

Com um pequeno número cintilante por baixo: 15ºC.

Depois, medidas imediatas de apoio às empresas, manutenção dos postos de trabalho, mecanismos de lay-off e medidas temporárias de compensação dos aumentos dos custos de contexto, energia e outros custos fixos.

Por outro lado, e com especial relevância, é urgente restabelecer a concorrência nas ligações aéreas com Ponta Delgada. As associações empresariais do setor, em articulação com a ANA/Vinci e a AMISM, deveriam iniciar imediatamente contactos com companhias low cost para restabelecer uma ligação com São Miguel. Se o Governo, e quem este tutela, não sabe, não consegue ou não quer fazer, outros podem e devem fazer por ele.

Porque o turismo, hoje, já não é uma brincadeira, é um pilar fundamental da economia açoriana. Representa cerca de 20% do VAB, 17% do PIB e 17% do emprego.

Deixá-lo cair, seja por incúria ou incompetência, não é apenas deixar cair uma indústria. É afundar ainda mais a Região num horizonte de desigualdade e de pobreza.

E o inverno já está aí.

 

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Speakers' Corner 103

Da invisibilidade

Subiu ao palco, no passado sábado, no Teatro Micaelense, a peça Filhos de Alguém, escrita a duas mãos por Nuno Costa Santos e João Pedro Porto, com encenação de Miguel Damião. A peça versa sobre dois irmãos gémeos, sem-abrigo e toxicodependentes, interpretados superiormente por Emanuel Arada e Rui Silva, que fixam residência no célebre “banco de Antero”, ali ao Campo de São Francisco, debaixo da icónica Esperança.

De entre os vários temas abordados, da pertença à identidade, a perda e o infortúnio, mas também de uma sociedade insular em mudança, onde se cruzam turismo, bairrismo, estratificação social, emigração e, sobretudo, uma crescente desestruturação social e familiar, há, contudo, uma questão que atravessa tudo isto e que me parece, paradoxalmente, ser o verdadeiro centro da peça: a invisibilidade.

Ponta Delgada vive hoje um problema grave de indigência, em grande medida amplificado pelo consumo descontrolado de novas drogas sintéticas, que se espalham pelas ruas da cidade como uma pandemia, à mesma velocidade com que as nossas respostas parecem ficar para trás. E, perante esta realidade, a nossa reação coletiva é muitas vezes a indiferença. Passamos por ela todos os dias, atravessamos o quotidiano alheados da sua presença, entre a manhã e a noite, e aprendemos a não olhar, de casa para o trabalho e do trabalho para o esquecimento coletivo. Quase como as térmitas, de que só nos lembramos quando elas entram furtivamente em nossa casa.

É aqui que Filhos de Alguém introduz uma ironia particularmente mordaz na nossa condição de observadores. Nós, espectadores, escolhemos sentar-nos confortavelmente num teatro para assistir a uma história sobre aquilo que, cá fora, fazemos precisamente por não ver. Pagamos um bilhete para que nos mostrem, sob a proteção da ficção e dentro da respeitabilidade burguesa e da luz coada de uma sala de espetáculos, uma realidade que se nos projeta na rua e que existe dia-a-dia à nossa porta. E a peça sabe disso.

Logo no início, quase imperceptivelmente, vemos desenrolar no ecrã dois sem-abrigo rebolando no “banco de Antero”. Durante alguns minutos observamo-los como quem observa um pano de fundo, até que os atores entram pela lateral da plateia quebrando de forma estridente a chamada “quarta parede”. Nesse instante, aquilo que parecia estar confinado ao palco deixa de estar. Está ali, no meio de nós.

Este artifício cénico é retomado ao longo da peça, com os atores a interpelarem diretamente o público e transforma-se numa espécie de acusação silenciosa ao próprio espectador. Em Filhos de Alguém não estamos apenas perante uma ficção, uma simples metáfora ou uma história sobre algo que suspeitamos ser real. Estamos perante uma verdade que reconhecemos, que sabemos existir e que, fora dali, tantas vezes, escolhemos não ver.

Essa é, talvez, a sua maior ironia, precisamos de ir ao teatro para que alguém nos mostre aquilo que está à nossa frente todos os dias.

A riqueza do texto destes dois nomes maiores da literatura açoriana contemporânea, está também nessa capacidade de nos colocar perante a nossa própria dualidade moral face ao infortúnio alheio. Mas é a encenação e a força, ao mesmo tempo, poética e física dos atores que transforma essa reflexão numa experiência corpórea, quase visceralmente incómoda.

Filhos de Alguém, mais do que uma peça sobre a toxicodependência (aliás um dos momentos mais cenicamente belos da peça), ou sobre o abandono social e familiar ou, mais especificamente, sobre a dificuldade intrínseca da relação filial, é sobre esta invisibilidade perturbadora em que nos transformamos enquanto comunidade e sobre essa existência marginal que escolhemos não ver. É sobre essa diferença primordial entre saber que uma coisa existe e ser obrigado a olhar para ela e agir.

No silêncio protegido do teatro, por breves momentos, escolhemos ver. Cá fora, talvez devêssemos começar a fazer o mesmo.