A ideia de América
No último sábado, os Estados Unidos da América celebraram o
250.º aniversário da Declaração de Independência. Mais do que um marco
histórico ou uma celebração identitária, o 4th of July, particularmente
num aniversário tão simbólico como este, é um convite a refletir sobre aquilo a
que se usou chamar a ideia de América.
Desde tempos imemoriais, alimentado por lendas e mitos
atlânticos, o Ocidente foi imaginado como a Terra Prometida. A chegada dos
primeiros colonos à América consolidou essa visão de um território de
oportunidades e abundância, uma narrativa renovada ao longo dos séculos nas
lutas dos Founding Fathers, na conquista do Oeste, na corrida ao ouro e
na land of opportunity de sucessivas gerações de emigrantes que ali
encontraram a terra dos sonhos e, para alguns, da prosperidade. Poucas imagens traduzem melhor esse
imaginário do que a voz de Frank Sinatra cantando If you can make it there,
you'll make it anywhere, em New York, New York. A cidade que
nunca dorme, juntamente com o grande Oeste americano, permanece, ainda hoje,
como símbolo maior dessa promessa de liberdade e oportunidade para todos.
O historiador Daniel J. Boorstin descreveu a América como
uma nação onde tudo parecia possível, uma terra do inesperado, da descoberta e
da esperança. Talvez essa tenha sido a maior herança política dos EUA: a
convicção de que a liberdade individual constitui a condição essencial para
construir uma vida melhor e de que o papel da comunidade e do Estado é, antes
de mais, protegê-la.
Os princípios inscritos na Declaração de Independência, na
Constituição e, em particular, na Bill of Rights, três dos mais
influentes documentos da tradição política ocidental, assentam na ideia de We
the People. Limitam o poder do Estado, estabelecem o equilíbrio entre
poderes e consagram liberdades fundamentais como a liberdade de expressão, de
religião, de imprensa e de reunião, bem como o direito a um julgamento justo e
à proteção contra os abusos da autoridade.
As palavras de Thomas Jefferson inscritas na Declaração de
Independência permanecem entre as mais poderosas da história política moderna:
"Consideramos estas verdades evidentes por si mesmas: que todos os
homens são criados iguais, que são dotados pelo seu Criador de certos direitos
inalienáveis, entre os quais a Vida, a Liberdade e a procura da Felicidade."
Nelas afirma-se uma profunda mudança civilizacional face ao Antigo Regime,
colocando a dignidade da pessoa humana no centro da organização política da
comunidade, do Estado e da Lei.
Apesar das suas profundas contradições ao longo destes
duzentos e cinquenta anos, marcadas pela escravatura, pelo genocídio dos povos
nativos, pelas tentações imperialistas e pelas desigualdades de uma sociedade
moldada pelas tensões do capitalismo, a América continua, mesmo num tempo de
populismos e nacionalismos, a representar a land of the free. O American
Dream, esse El Dorado possível, continua a alimentar a esperança e a
ambição de milhões de pessoas em todo o mundo.
Para nós, açorianos, mais do que a décima ilha, a América
representa uma existência repartida entre dois continentes, entre as margens de
um oceano de esperança onde o Velho e o Novo Mundo se encontram. Dos irmãos
Corte-Real ao novo ou velho emigrante açoriano de hoje, a América permanece não
apenas como um lugar, mas como uma ideia: a de que existe sempre uma nova
fronteira por descobrir e um futuro melhor para construir.
Talvez seja esse o seu maior legado. Recordar-nos que um
povo só é verdadeiramente livre enquanto conservar essa capacidade de sonhar.
Porque sonhar é desafiar os limites do presente e acreditar na possibilidade de
um futuro melhor. Enquanto existir essa liberdade de sonhar, haverá sempre um
caminho por abrir, um oceano por atravessar ou uma esperança por cumprir. No
fim, são os sonhos que nos tornam livres. E talvez seja essa liberdade o que,
de alguma forma, nos torna únicos e imortais.

