Órfãos da luz
A manhã levantou-se com a cor do ocaso. De uma luz tépida e
baça, como um vidro fosco, impenetrável ao olhar. Um nevoeiro espesso cobria o
horizonte, num prenúncio de chuva. Esse sinistro nevoeiro de Antero, essa
matéria informe onde as coisas parecem perder o contorno e os homens a vontade.
Um nevoeiro líquido e gotejante, ritmado pelo crepitar miúdo da chuva sobre os
vidros. Essa humidade constante que repreende a vocação dos olhos para indagar.
Tudo se confundia entre o mar, o céu e o horizonte, até na cor dos olhos de
quem insiste em encontrar alguma coisa para lá da bruma. O mundo inteiro
parecia reduzido a um único tom de branco acinzentado.
Agosto acordou espesso. Com qualquer coisa de viscoso, de
enlameado pelo chuvisco morno, um persistente chuvisco piolhento que abespinha
a pele e o humor. É um Agosto que faz as ilhas merecerem o seu velho epíteto de
bruma. Dias sucessivos debaixo dessa névoa quente que se prende ao corpo com a
fatalidade de um suor insistente. Procuramos o mar para nos refrescarmos, mas o
oceano está quente e o ar tão saturado de água que quase se faz vapor. Tudo
parece dissolver-se na mesma substância húmida. Os sentidos deixam de
reconhecer o lugar das coisas, os hábitos perdem o rumo e as estações parecem
divertir-se com a nossa necessidade de lhes dar um nome. O verão fez-se outono
que saltou o inverno e perdeu-se numa primavera que nunca chegou a existir.
Talvez sempre tenha sido assim. A memória é difusa e capaz
de esconder o passado na mesma névoa que cobre o horizonte. Guardo recordações
vagas dos verões da infância, em que o sol também se escondia por entre as
frinchas dos dias. Andávamos sempre com uma muda de roupa para remediar a chuva
que teimava em voltar. Abrigávamo-nos debaixo das árvores do jardim e
regressávamos a casa nas intermitências do tempo. Ficavam as tardes compridas
no recato das casas, o som abafado das janelas fechadas, o cheiro da roupa
húmida e a dor das otites. As tardes mornas e macilentas de Pedro da Silveira,
onde o tempo parecia desistir de passar e apenas permanecia, suspenso entre a
humidade das paredes e a impaciência das horas.
Quando éramos miúdos e chovia na praia escondíamos as
mochilas debaixo da areia para as proteger da chuva e mergulhávamos no mar,
como se a água fosse a forma mais simples de esperar que o tempo mudasse. Os
mais velhos pregavam-nos amonas na água escura e nós voltávamos à superfície golpeando
o ar, as lágrimas e o riso, sem imaginar que o verão pudesse alguma vez
falhar-nos. Naquele tempo o verão não precisava de ser luminoso. Bastava-lhe
ser nosso.
Ou talvez fôssemos nós que ainda não conhecíamos as
frustrações meteorológicas da idade adulta, nem confundíamos o estado do céu
com o estado da alma. A infância tem essa feliz capacidade de resistir aos
humores do tempo e da natureza.
Hoje, da minha janela, não se vê o Ilhéu. O horizonte é
branco-sujo, como um lençol antigo que os anos foram deixando encardir. O
nevoeiro faz-se mortalha das nossas aspirações de sol e cobre-nos com um calor
líquido, obstinado, quase irrespirável, com o peso de um cansaço que lentamente
se entranha no corpo.
Há um peso no ar. Um fardo invisível de gotas suspensas que
se cola às costas e ao pensamento. Uma gordura húmida que se deposita sobre as
coisas como um lodo transparente, tornando mais lentos os gestos, mais baça a
luz, mais pesado o ânimo. Somos órfãos da luz, náufragos à deriva neste
arquipélago de bruma.
Talvez por isso o verão na ilha permaneça sempre inacabado.
Não começa, nem acaba. Desenrola-se como a própria névoa, escondendo-se atrás
de manhãs como esta, até que um dia damos por nós a sentir saudades de um tempo
que talvez nunca tenha brilhado tanto quanto o recordamos. As estações vivem
menos no calendário do que na memória. E a memória, como o nevoeiro, nunca faz
desaparecer o tempo. Apenas o encobre até ao dia em que voltamos a ansiar por
ele.

