A Ilha sem Deus
Olhar o mar enquanto escrevo é em si uma dupla metáfora.
Para lá do horizonte de águas alisadas pelo vento, o céu cinzento, pincelado de
chuva, responde-me com o mesmo vazio branco do papel no ecrã. A mesma
silenciosa ausência. O mar, como toda a literatura, convida e acolhe com a
mesma força com que expulsa e castiga. São as intermitências do tempo, os
humores do clima que, na ilha, se multiplicam com a velocidade dos segundos,
nesse cambiante popular das quatro estações num dia.
Abril passou com a promessa de um falso verão, dias limpos, com
águas gélidas, mas transparentes. Mas os dias de sol são entrecortados por
súbitas interrupções de frentes frias, que chegam com ventos castigadores e
chuvadas desarmantes. Na ilha, esperamos pelo clima como quem aguarda um
autocarro na paragem, nunca confiando nos horários, com uma dupla dose de
enfado e resignação.
Olho por sobre o computador outra vez para o mar. Hesito,
não sei sobre o que escrever. Todos os temas me parecem esgotados, gastos,
velhos, cansados. Ou talvez seja eu que me canso deles. Como naqueles
desconfortáveis silêncios das ocasiões sociais, quando não temos nada para
dizer, falamos do clima. Das descontinuidades meteorológicas. O frio, a chuva,
uma nesga de sol, são os desbloqueadores de conversa mais usados, logo depois
do álcool. Eu, que já não bebo, fico calado. Chateia-me o clima. As pessoas aborrecem-me.
Não por misantropia ou antipatia social aos conhecidos, mas por um enfado
perturbado, feito de incompreensão natural e de um certo pudor proustiano.
Procuramos nos outros uma razão para nós próprios. Nas
relações, um sentido para tudo isto. No amor, o Norte. Em alguém, a estrela
polar que indique o caminho. Um sol que talvez ilumine as noites interiores e
sós de ser. Da vida. De cada dia. O trabalho e os filhos. O preço da gasolina e
os juros da banca. Esticar o dinheiro com a mesma ânsia com que se joga no
Euromilhões que não sai, mas, se não jogares, também não sai. E nunca sai. Mas
continuas a jogar, da mesma forma que continuas a tentar esticar o dinheiro que
nunca estica.
Ao meu lado, na mesa de cabeceira, as mil e setenta e oito
páginas, 750 gramas, de Infinite Jest, do David Foster Wallace, que não
li há trinta anos, por sobranceria juvenil e clubismo. Naquela altura, éramos
quase todos da equipa Bret Easton Ellis, que tinha sexo e drogas e o mesmo
vazio, mas com menos antidepressivos. Um livro tão vasto e surpreendente como
este mar em frente, onde o encrespado das ondas se esvai em espumas brancas
levadas pelo vento que sopra na superfície prateada das águas. E, um pouco mais
ao lado, ergue-se, tombado sobre o dorso, o Ilhéu. Como um cetáceo antigo e
fossilizado, arrojado sem vida no areal. Uma memória de Deus para um ateu como
eu.
Do outro lado da cama, na outra mesa de cabeceira, O
Louco de Deus no Fim do Mundo, de Javier Cercas, que a Rita está a ler e me
diz que vou gostar. Um livro sobre a busca de sentido, numa viagem com o Papa
Francisco, para um ateu como eu.
Quem tem a ilha não precisa de Deus.
Viver na ilha é como ver a Terra do espaço. O mundo
contempla-se a si próprio sem precisar de justificação. Ser é o seu próprio
sentido. A perceção física do limite e da perene finitude das coisas. O
deslumbramento imperfeito das manifestações naturais. O vapor das horas que se
condensa nas montanhas. O verde das esperanças que se espraia nos olhos. A água
que tropeça no entrecortado das ribeiras. A constância do mar. A sua infinita
paciência para com todos os nossos sonhos. A ilha não nos fecha, a ilha abre-se
ao horizonte e à promessa de uma folha em branco e muros de pedra.
A ilha. Estas nove ilhas, estes nove corpos de tempo,
natureza e ambição, e essa décima ilha de tantas gentes espalhadas pelo mundo,
em viagem de origem e destino, não se dizem nem se explicam, não carecem de
razão, nem de Deus.
A ilha é um navio onde cada um de nós navega a sua solidão.

