Distopia insular
No meio da ebulição política regional, o cronista hesita.
De um lado, o espetáculo judiciário das investigações na
Secretaria do Turismo e Transportes. Sessenta e cinco elementos da Judiciária e
do Ministério Público, catorze mandados de busca entre Lisboa, Angra, Horta e
Ponta Delgada, e um desfile de suspeições de prevaricação administrativa com a,
hoje já saudosa, Ryanair. A novela habitual que se instala sempre que a justiça
se imiscui pelos meandros da política. Desta vez, com o caricato episódio da
interpretação legal sobre a putativa imunidade dos titulares de cargos
públicos, em que a burocracia legislativa partidária se sobrepõe, sem pudor, ao
primado ético da lisura. No ar, vários silêncios cúmplices pairam sobre a
estupefação indignada do cidadão.
Do outro lado, as pequenas tricas camarárias cá do burgo,
que, entre a ausência de turistas e a episódica agitação dos cruzeiros, vão
correndo ao sabor de acusações mútuas entre executivo e oposições, com direito,
até, a votos de protesto do Presidente da Câmara à atuação do Movimento PDL
Para Todos, numa inversão de papéis que oscila entre o insólito e o
involuntariamente cómico.
Pelo meio, os epifenómenos da PDL26, Capital Portuguesa da
Cultura, prosseguem de forma plácida, quase invisível. Uma espécie de
serenidade deslocada, como se tudo decorresse numa realidade alternativa, num
curioso contraste com o ambiente de sobressalto político, imune às inquietações
do quotidiano e a este bipolar clima de alvor primaveril açoriano.
Confesso que tinha prometido a mim mesmo não voltar a
escrever sobre a Capital da Cultura. Para desencanto, chegam as dores de um
turismo cada vez mais subjugado a invernos prolongados e taxas de ocupação
decadentes, num cenário dantesco de crise acelerada. Ainda assim, este fim de
semana, a PDL26 teve o seu primeiro momento literário, com uma pitada de
tempero gastronómico, num vasto programa de atividades que até o famoso e
idiossincrático Presidente da Câmara de Oeiras, reconhecido literato (na versão
pantagruélica do termo), prometia trazer a Ponta Delgada.
Infelizmente, ou talvez sarcasticamente, a organização do
evento, pouco habituada aos humores do nosso clima, teve direito a um curso
rápido de insularidade, confrontada com a velha realidade dos caprichos
meteorológicos atlânticos, uma sina a que somos reconhecidamente atreitos. Pelo
que pude acompanhar, dos cerca de quinze eventos programados, quatro deles
“jantares literários”, a maioria foi cancelada por impossibilidades
aeronáuticas devidas às inclemências do tempo, que nos fustigou sem piedade
durante cinco dias seguidos.
Talvez tenha sido pelo melhor, pois, no único evento a que
tive a possibilidade de assistir, um aliciante debate sobre “A Nova Poesia
Açoriana”, o público presente resumia-se a cerca de uma dúzia de pessoas, entre
curiosos, como eu, organizadores e uma mão de ilustradores, convidados,
suspeito, para compor a fotografia da sala. Deste ficou a revelação de que a)
não existe nova, nem b) poesia açoriana. O que daria toda uma outra crónica.
O que tudo isto evidencia é um desligamento quase total da PDL26,
pelo menos na sua vertente literária, com a sociedade local. Há uma sensação de
desencontro, como se a proposta cultural e a realidade insular habitassem
dimensões distintas. Uma espécie de distopia, feita de boas intenções e
resultados incertos, que apenas gera embaraço e uma inquietação difícil de
ignorar.
Em sentido inverso, no dia 21, um sábado cinzento, a
Livraria Solmar, um dos faróis da cultura insular, celebrou 35 anos com o
lançamento da reedição, pela Artes e Letras, de “caderno de mitos pessoais”,
do poeta leonardo, dono de uma voz poética tão acutilante quanto cintilante.
Com casa cheia e animada, o encontro foi prova limpa de que a literatura, nova
ou velha, açoriana ou do mundo, está viva na ilha e não precisa de utopias para
se afirmar ou para reunir em torno de si toda uma comunidade.

