O estabelecimento de um cânone literário é uma questão sensível e polémica que agita permanentemente os meios culturais, em especial os académicos, dando azo a acesas discussões e, não raro, a diálogos inflamados e emotivas cisões entre contendores apaixonados. Um cânone não é um gesto neutro nem exclusivamente estético; resulta, antes, de um processo cumulativo de participações em que convergem o tempo, a crítica, as instituições e a persistência das obras, bem como — e não menos importante — a resiliência dos autores. Um cânone forma-se quando determinados textos deixam de ser apenas livros e passam a funcionar como referências simbólicas: obras que estruturam a leitura de uma tradição, resistem à erosão do tempo e são continuamente retomadas, discutidas, ensinadas e reeditadas. Este processo implica sempre escolhas e exclusões, revelando relações de poder cultural e disputas de legitimidade, sobretudo quando se trata de literaturas periféricas ou regionais, como é o caso particular dessa coisa em forma de bruma chamada Literatura Açoriana.
Ora, neste affair da literatura açoriana, a questão
central, hoje, não é a sua existência — longa, diversa e consistente — mas o
seu reconhecimento enquanto corpo literário específico, dotado de coerência
histórica, densidade temática e autonomia simbólica. Essa especificidade
constrói-se pela continuidade geracional, pela inscrição da insularidade, ou
açorianidade, se quisermos, como condição existencial (e não mero cenário ou
adereço), por marcas rítmicas e discursivas próprias e por uma consciência
crítica da identidade açoriana que recusa tanto o folclore como a
autocomplacência. Uma literatura afirma-se plenamente quando é capaz de se
pensar a si mesma, interrogando os seus mitos fundadores e a sua posição face
ao centro cultural e, no caso concreto de uma literatura de matriz insular
atlântica, face a uma dupla periferia: lusitana e europeia, mas também
anglo-saxónica e americana.
É neste contexto de uma dicotomia geoestratégica da língua e
da literatura que o papel do Professor Vamberto Freitas se torna decisivo, nos
últimos anos, na definição dos azimutes próprios da afirmação de uma literatura
açoriana e da sua autonomia face aos polos centralizadores da sua existência.
Mais do que como académico ou ensaísta isolado, a sua intervenção tem sido a de
um mediador persistente entre obras, autores, leitores e instituições. Através
de uma crítica literária contínua, exigente e publicamente visível, Vamberto
Freitas contribuiu para a legitimação da literatura açoriana como campo de
reflexão estética e não como simples variante regional da literatura
portuguesa. O seu trabalho ajudou a fixar autores, a estabelecer diálogos entre
gerações, e entre margens desse grande mar atlântico, a criar critérios de
leitura e a inscrever a literatura açoriana no debate crítico nacional e
internacional.
Ao exercer uma crítica regular, informada e assumidamente
situada, Vamberto Freitas não se limitou a comentar livros: ajudou a construir
uma narrativa de tradição, condição essencial para qualquer cânone. Num espaço
marcado pela dispersão geográfica e pela histórica marginalização cultural,
essa persistência crítica revelou-se fundamental para transformar produção
literária em património simbólico. Assim, o reconhecimento contemporâneo da
Literatura Açoriana como género de pleno direito deve-se, em larga medida, a
esse trabalho de longa duração, em que a crítica funciona não como ornamento,
mas como verdadeiro ato fundador.
No meu caso pessoal, o Professor Vamberto Freitas foi sempre
mais do que um leitor atento e um crítico culto, informado e supremamente
digno: foi, acima de tudo, um amigo que, através do seu estímulo permanente, me
permitiu a afirmação não apenas como cronista, mas como autor. Por tudo isto,
nesta data simbólica, o meu profundo e sentido agradecimento.
Vila Franca do Campo, 4 de fevereiro de 2026
in, Revista Filamentos

