quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Speakers' Corner 100

Calisto Elói e os seus clones

O verão de 2026 ficará na história como aquele que marcou o fim da silly season em Portugal. O habitual interregno estival da torrente informativa foi este ano interrompido por uma avalanche de casos e polémicas ao ponto de o próprio Luís Montenegro ter feito gala de não ir de férias, embora tenha sido visto pelo Algarve em gozo de banhos.

Agosto fez-se da debacle dos exames, dos sucessivos episódios envolvendo Luís Neves, da falsa licenciatura em Harvard de um deputado do Chega e de uma putativa invasão ao gabinete de André Ventura na Assembleia da República, da qual, estranhamente, nunca mais se ouviu falar. Enquanto isso, pelas ruas da capital, o crime violento ia dando lugar a alertas de tipo hollywoodiano nas televisões e a divertidos memes sobre o uso em comodato de viaturas e Rolex.

Por cá, o sempre presente bairrismo, a par das quedas inevitáveis do turismo, iam compondo o ciclo noticioso, enquanto no Facebook a Missão Açores 600 parece aquecer os ânimos das sempre efervescentes caixas de comentários.

Esta surpreendente animação estival do nosso ciclo político e noticioso, nesta era da pós-verdade em que os factos parecem valer menos do que a narrativa, revela algumas ligações subterrâneas que, sob o risco de serem tomadas por conspirações, dizem bastante sobre aquilo que verdadeiramente somos enquanto país.

Aquando da indigitação de Luís Neves, fui daqueles que expressaram alguma estupefação perante a perigosa porta giratória entre investigação policial e responsabilidade política, mesmo sem conhecer, à época, os episódios de facilitismo e amiguismo em que o ministro se viria a envolver.

O caso de Luís Neves demonstra esta tão portuguesa tendência para o desenrascanço que, se na vida privada pode ser um atributo, na vida pública é uma desgraça. Mas há outra dimensão do caso que nos deveria perturbar enquanto cidadãos. E já nem falo das sempre sussurradas ligações entre Maçonaria e poder, mas das delações e ajustes de contas internos na própria Polícia Judiciária e das suas ligações perniciosas à comunicação social e círculos de pressão e influência política cuja natureza permanece nebulosa.

Este caso Luís Neves, denunciado pela Media Capital através do Sol e da TVI/CNN, cujo principal acionista é o empresário Mário Ferreira, levanta a hipótese preocupante de um eventual “ajuste de contas” envolvendo o empresário, a braços com um processo judicial de fraude fiscal que remonta aos anais do nosso bem conhecido ferry Atlântida. Importa recordar que, à época dessas investigações, Luís Neves era diretor da PJ.

Outro episódio rocambolesco prende-se com o atual diretor da PJ, Carlos Cabreiro, envolvido numa denúncia criminal relacionada com alegadas escutas ilegais no processo do hacker Rui Pinto, o Football Leaks. Denúncia não anónima, mas apresentada ao Ministério Público por um colega da própria PJ, Davide Freitas, que estará também a ser investigado por alegado acesso ao sistema informático interno da Polícia Judiciária para obter informação sobre o célebre caso da galera com produtos químicos entregue aos cuidados da Construbarcelos. Lembram-se?

Num país que tem como primeiro-ministro Luís “Spinumviva” Montenegro, tudo isto poderia ser apenas fado, não fosse ficar exposto, à vista de todos, o nível de briga de porteiras em que parece ter mergulhado a nossa Polícia Judiciária, com conflitos internos transformados em matéria de horário nobre e aparentemente atravessados por interesses políticos cuja origem é, no mínimo, questionável.

Nunca o país se aproximou tanto de A Queda de um Anjo, de Camilo. Um país onde os protagonistas da vida pública parecem cada vez mais uma caricatura de si próprios, onde a intriga substitui a política, o expediente substitui a regra e as conveniências pessoais se sobrepõem demasiadas vezes ao interesse público.

Não foi a silly season que acabou. Foram os clones de Calisto Elói que tomaram conta do país.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Speakers' Corner 99

O lugar do repouso

Depois da Sagres, também o Amerigo Vespucci, tido por muitos como o mais belo navio do mundo, passou pelo horizonte da minha janela. Ancorado na ilharga do Ilhéu de Vila Franca do Campo, o imponente veleiro de três mastros, ao serviço da Marinha Militar Italiana, pousou sobre as águas, fazendo lembrar tempos idos de antigas e bravas navegações.

A passagem destes dois grandes navios, provenientes da Sail250, a celebração náutica dos 250 anos da independência dos Estados Unidos da América, faz lembrar as velhas rotas dos marinheiros dos Descobrimentos, rumando, como tantos antes deles, aos Açores e recuperando uma centralidade que as ilhas mantiveram pelo menos até ao advento da aviação a jato e que hoje parece, tantas vezes, apenas uma frase vazia na boca dos políticos em autocomplacência.

A verdade é que estas ilhas, colocadas na encruzilhada dos ventos e das correntes do Atlântico Norte, foram durante séculos ponto obrigatório de passagem para quem se aventurava a cruzar este grande e perigoso oceano. Colombo, Gama e tantos outros, como o próprio Amerigo Vespucci, em 1502, regressando de uma viagem ao Brasil ao serviço de Portugal, aportaram aos Açores para repouso dos homens e reparação das naves, nessa grande rota a que se usou chamar “volta do largo”.

Por aqui passaram piratas e navegadores, baleeiros e militares, comerciantes e emigrantes, galeões e hidroaviões. Por aqui se cruzaram as rotas das Índias, dos Brasis e das muitas Américas da abundância. Parte importante da História do mundo passou por estas ilhas. Mais do que ponto de partida ou de chegada, fomos lugar de trânsito. E, talvez por isso, um lugar de repouso na grande História dos outros.

Mas há uma outra história dentro dessa grande História que precisa de ser contada. Uma história que não é de passagem, mas de permanência. A história de um lugar onde se fixaram pessoas. Onde aportaram homens e mulheres que aqui fizeram vida, onde nasceram comunidades, se cultivou a terra, se levantaram igrejas e cidades, se construíram portos, se enfrentaram cataclismos, vulcões e tempestades. Onde se amou, sofreu e morreu. E onde, geração após geração, se construiu um lugar habitável no meio da fúria inclemente do Atlântico Norte, contra todas as expectativas e adversidades.

Porém, por destino ou fatalidade, os Açores vivem mais a história dos que partiram do que dos que ficaram. Até as agora anunciadas celebrações dos 600 anos parecem evocar mais a diáspora do que os que aqui foram vivendo ao longo de mais de seis séculos, ou, quem sabe, ainda mais.

Mais do que contar as grandezas desses outros Açores para lá do mar, precisamos, hoje mais do que nunca, de celebrar os Açores daqui. Dos agricultores e pescadores, dos comerciantes e artesãos, dos marinheiros e trabalhadores, das mulheres e das famílias, dos que, anónimos e sem constar dos livros de História, foram construindo estas ilhas contra a força dos ventos e a fúria das tempestades.

E há ainda a história dos muitos que por aqui passaram e deixaram alguma coisa de si. Os navegadores e tantos outros, viajantes, cientistas, militares, escritores, comerciantes e exploradores que encontraram nos Açores abrigo, conhecimento, alimento ou simplesmente descanso. Uns por meras horas, outros dias, outros uma vida inteira. Todos fazem parte da história deste lugar.

Talvez os 600 anos dos Açores devessem ser também uma oportunidade para contar essa outra história. Não apenas a dos que daqui partiram, mas a dos que aqui chegaram, dos que por aqui passaram e, sobretudo, dos que aqui se deixaram ficar.

Porque os Açores não foram apenas um porto de abrigo no mapa das grandes viagens. Foram lugar de passagem, mas também de permanência.

E, mais do que um lugar por onde passou a História dos outros, são um lugar onde a nossa própria História aconteceu e continua a acontecer.

Talvez seja essa a história que devêssemos celebrar hoje, antes que o passado se perca nas neblinas do futuro.

 

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Speakers' Corner 98

Crónica de um navio que passa

Ontem, ao final da manhã, debaixo de um céu tímido e de um sol envergonhado, coberto por um sudário de nuvens baixas e acinzentadas, a Sagres passou por aqui, no horizonte da minha janela. Lenta e altiva, na sua pose aristocrática, enquadrada pelo Ilhéu, permanente vulcão ancorado, como um galeão de antigamente, atraía-nos os olhos para o mar. Para uma memória nostálgica da mais romântica forma de viajar, de velas abertas ao sabor do vento pela mais líquida imensidão da Terra, que afinal é feita de mar.

Há no oceano uma atração uterina, uma recordação instintiva de um tempo inicial e primeiro. O mar que envolve e resguarda. O mar que expulsa e devolve. Que dá e tira o sopro da vida. Somos todos filhos do oceano, dessa maternidade líquida, desse ondulado embalo da génese da vida, dessa memória primordial de onde tudo parece ter começado. Talvez por isso seja no mar que recuperamos qualquer coisa dessa primeira centelha da existência. O mar recorda-nos o princípio de tudo, um tempo anterior às palavras.

E a Sagres, pela sua majestade simbólica, parece recordar-nos também essa raiz marítima da identidade portuguesa. Esse lugar de onde partimos. Esse destino de sal e lágrimas de que falava Fernando Pessoa. Temos os olhos fixos nos horizontes do mundo, os sonhos lançados dos promontórios da terra, em busca de futuros possíveis, das ilhas dos amores de Camões, de glórias e abundâncias, satisfações fugazes para uma constante sucessão de perigos e desilusões.

Ver agora a Sagres vagando no horizonte, aqui tão perto, é, de certa forma, contemplar o passado. Uma viagem no tempo a um lugar antigo, uma forma de regresso. Durante séculos, era em navios como aquele que se cruzavam os oceanos. Viagens que podiam durar meses ou anos, sulcando as ondas em busca de paragens longínquas, outros continentes, ilhas paradisíacas, outros hemisférios e longitudes distantes. Sob bons e maus ventos, entre perigos e bonanças, contra ou a favor das correntes, num tempo em que a distância tinha um nome que se pronunciava com a voz do mar.

A nossa natureza é feita de velas enfunadas, mastros inclinados, cabrestantes e gáveas, enxárcias esticadas contra o céu, das ondas lambendo as amuradas. Somos o odor e a agitação dos conveses, as tábuas dos cascos, o ranger dos cabos e as voltas das rodas do leme. Somos a proa apontada ao desconhecido e a popa deixando para trás uma esteira de espuma. Pescadores e marinheiros, meros passageiros e intrépidos viajantes. Conquistadores e escravos, mulheres abandonadas, piratas, fugitivos e arrenegados, escudeiros ambiciosos e filhos bastardos. Mouros, flamengos, árvores do reino e sementes de todas as origens. Somos brasis e américas, orientes para lá dos orientes. Temos no sangue a cegueira dos baleeiros e na alma o cântico das baleias.

O oceano é o nosso chão. E o mar a nossa morada.

Dentro de cada um de nós há um cemitério de naufrágios. Somos também a memória desses navios perdidos. Fomos construtores de mundos, disseminadores de línguas e ideias. Tanto destruímos como criámos. E desse encontro, tantas vezes violento, nasceram novas gentes, novas culturas, novas geografias humanas. Miscigenações encantadas e lúbricas, tanto de dor como de amor.

Os nossos ossos mergulham no mar, escreveu Nemésio. E até os nossos santos dão à costa, num recolhimento de basalto e conventos, numa fé feita de sal. Os nossos pulmões respiram ao ritmo das ondas, o coração bate ao compasso das vagas, entre homens que partem e mulheres que resistem ao tempo, à distância e à infinita sina da solidão.

Talvez seja por isso que cada navio que passa seja ainda uma vontade de partir. Mas toda a partida é também uma esperança de regressar. De ilha em ilha, com os olhos nas estrelas, continuamos a fitar a distância, indagando o rumo que a vida há de tomar.

E talvez não exista no universo distância maior do que a distância do mar.

 

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Speakers' Corner 97

A Travessia

Chegou segunda-feira à praia de Santo António, depois de percorrer sensivelmente novecentos quilómetros ao longo da costa portuguesa, desde a Praia do Moledo, em Caminha, até às margens do Guadiana. Mas José Maria Pyrrait, o autor desta inusitada façanha, não vinha a pé, nem de qualquer forma motorizado. Avançava lenta e humanamente, ritmado pela sua pagaia, em cima de uma prancha de stand-up paddle.

Ao fim de cerca de quarenta dias de remada, o veterano surfista português, já com 60 anos, concluiu assim uma travessia única pela extensão do nosso litoral. Um desafio pessoal e uma viagem aspiracional sobre resiliência, superação e a permanente capacidade de abraçar objetivos e ambições, independentemente da idade ou da condição física.

Naquilo que o próprio apresentou como um manifesto pelo mar e pela saúde, chamando a atenção para a proteção do oceano, o envelhecimento saudável e a luta contra a diabetes tipo 2, completou uma viagem quase solitária e introspectiva, não apenas pela costa continental portuguesa, mas por uma certa forma de estar na vida.

O Pyrrait, como é conhecido no particular mundo do surf, é um daqueles raros personagens cuja vida daria um filme. Nascido em Lisboa e crescido no Brasil, foi repórter de guerra, fotógrafo profissional, surfista, treinador, viajante e colecionador de histórias, quase açoriano, saltimbanco e inspiração. Um desses heróis desconhecidos que, de repente, veem o seu nome repetido nos principais noticiários pela originalidade, bravura e dimensão da sua façanha.

Mas, para além de tudo o resto, a viagem de Pyrrait ficou marcada por um momento trágico.

Na etapa entre a Zambujeira do Mar e o Monte Clérigo, o jovem Arran Strong, que o acompanhava, desapareceu ao largo da Arrifana. Na sua página do Instagram, Pyrrait descreveu assim o sucedido:

Parámos ao largo da Arrifana para beber água e tirar algumas fotografias. Estivemos à conversa e, quando retomámos a travessia, deixei-o seguir à frente. Como o meu ritmo é mais rápido, fazia sempre isso. Quando o alcançava e ganhava algum avanço, parava e esperava por ele. Desta vez não foi diferente. No entanto, quando parei para o esperar, vi apenas a sua prancha à deriva, a cerca de 100 metros de distância. Remei o mais depressa que consegui até lá. Mergulhei vezes sem conta à sua procura, mas estávamos numa zona muito profunda e com uma visibilidade muito reduzida. […] Infelizmente, o Arran continua desaparecido e, neste momento, as possibilidades de ainda estar vivo são praticamente nulas.

Acredita-se que Strong, ele próprio um surfista de alta competição, terá sucumbido a complicações da epilepsia de que sofria.

Após a sua chegada, Pyrrait afirmou a sua convicção de que a morte não deve ser um tabu. “Todas as pessoas que nós amamos morrem um dia. Umas vão antes, outras vão depois de nós”, disse, numa declaração de amor por alguém que considerava como um filho e que morreu a fazer aquilo que amava.

Na Roma Antiga dizia-se que morriam cedo aqueles que os deuses amavam. A nós, resta-nos pedir que a morte nos leve, quando chegar, junto daqueles que amamos e rodeados daquilo que aprendemos a amar.

Depois de uma vida no mar e desta odisseia de 900 quilómetros pela costa portuguesa abaixo, e quando o país se prepara para celebrar os seus 900 anos, a viagem de Pyrrait lembra-nos que ainda somos um país de mar, de sal e de sonhos que se vivem na distância e na deambulação das correntes e das ondas; de ventos e tempestades que se cruzam com possíveis calmarias, num destino feito de milhas.

O mar não é nosso”, disse também Pyrrait aos jornalistas. “Mas há certas pessoas que são do mar, e eu tenho a sorte de ser uma delas.”

Talvez seja essa verdade escondida desta viagem. A aceitação de que, entre a terra de onde partimos e a terra onde chegamos, somos todos passageiros de uma mesma corrente. Solitários remadores do oceano da vida. E alguns têm a sorte de ser do mar.

 

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Speakers' Corner 96

Órfãos da luz

A manhã levantou-se com a cor do ocaso. De uma luz tépida e baça, como um vidro fosco, impenetrável ao olhar. Um nevoeiro espesso cobria o horizonte, num prenúncio de chuva. Esse sinistro nevoeiro de Antero, essa matéria informe onde as coisas parecem perder o contorno e os homens a vontade. Um nevoeiro líquido e gotejante, ritmado pelo crepitar miúdo da chuva sobre os vidros. Essa humidade constante que repreende a vocação dos olhos para indagar. Tudo se confundia entre o mar, o céu e o horizonte, até na cor dos olhos de quem insiste em encontrar alguma coisa para lá da bruma. O mundo inteiro parecia reduzido a um único tom de branco acinzentado.

Agosto acordou espesso. Com qualquer coisa de viscoso, de enlameado pelo chuvisco morno, um persistente chuvisco piolhento que abespinha a pele e o humor. É um Agosto que faz as ilhas merecerem o seu velho epíteto de bruma. Dias sucessivos debaixo dessa névoa quente que se prende ao corpo com a fatalidade de um suor insistente. Procuramos o mar para nos refrescarmos, mas o oceano está quente e o ar tão saturado de água que quase se faz vapor. Tudo parece dissolver-se na mesma substância húmida. Os sentidos deixam de reconhecer o lugar das coisas, os hábitos perdem o rumo e as estações parecem divertir-se com a nossa necessidade de lhes dar um nome. O verão fez-se outono que saltou o inverno e perdeu-se numa primavera que nunca chegou a existir.

Talvez sempre tenha sido assim. A memória é difusa e capaz de esconder o passado na mesma névoa que cobre o horizonte. Guardo recordações vagas dos verões da infância, em que o sol também se escondia por entre as frinchas dos dias. Andávamos sempre com uma muda de roupa para remediar a chuva que teimava em voltar. Abrigávamo-nos debaixo das árvores do jardim e regressávamos a casa nas intermitências do tempo. Ficavam as tardes compridas no recato das casas, o som abafado das janelas fechadas, o cheiro da roupa húmida e a dor das otites. As tardes mornas e macilentas de Pedro da Silveira, onde o tempo parecia desistir de passar e apenas permanecia, suspenso entre a humidade das paredes e a impaciência das horas.

Quando éramos miúdos e chovia na praia escondíamos as mochilas debaixo da areia para as proteger da chuva e mergulhávamos no mar, como se a água fosse a forma mais simples de esperar que o tempo mudasse. Os mais velhos pregavam-nos amonas na água escura e nós voltávamos à superfície golpeando o ar, as lágrimas e o riso, sem imaginar que o verão pudesse alguma vez falhar-nos. Naquele tempo o verão não precisava de ser luminoso. Bastava-lhe ser nosso.

Ou talvez fôssemos nós que ainda não conhecíamos as frustrações meteorológicas da idade adulta, nem confundíamos o estado do céu com o estado da alma. A infância tem essa feliz capacidade de resistir aos humores do tempo e da natureza.

Hoje, da minha janela, não se vê o Ilhéu. O horizonte é branco-sujo, como um lençol antigo que os anos foram deixando encardir. O nevoeiro faz-se mortalha das nossas aspirações de sol e cobre-nos com um calor líquido, obstinado, quase irrespirável, com o peso de um cansaço que lentamente se entranha no corpo.

Há um peso no ar. Um fardo invisível de gotas suspensas que se cola às costas e ao pensamento. Uma gordura húmida que se deposita sobre as coisas como um lodo transparente, tornando mais lentos os gestos, mais baça a luz, mais pesado o ânimo. Somos órfãos da luz, náufragos à deriva neste arquipélago de bruma.

Talvez por isso o verão na ilha permaneça sempre inacabado. Não começa, nem acaba. Desenrola-se como a própria névoa, escondendo-se atrás de manhãs como esta, até que um dia damos por nós a sentir saudades de um tempo que talvez nunca tenha brilhado tanto quanto o recordamos. As estações vivem menos no calendário do que na memória. E a memória, como o nevoeiro, nunca faz desaparecer o tempo. Apenas o encobre até ao dia em que voltamos a ansiar por ele.

 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Speakers' Corner 95

Um verão sem fim

"Foi sem mais nem menos / Que um dia selei a 125 azul", eram os versos iniciais de 125 Azul, tema dos Trovante, escrito por Luís Represas, que, juntamente com o inesquecível "tu-tu-ru-ru" da melodia, tornou-se um hino de uma geração, num país que se abria ao mundo como se vivesse um verão sem fim, livre, despreocupado e luminoso.

Depois dos anos do PREC, da adesão à CEE, do segundo resgate do FMI, já com o "Soares é Fixe" na Presidência e Cavaco a iniciar uma década de maiorias absolutas, a segunda metade dos anos oitenta, "a década prodigiosa", como lhe chamou Pedro Boucherie Mendes, foi um tempo de extraordinária confiança e esperança. Para a minha geração, aqueles foram os anos em que tudo parecia possível e o futuro aparentava, finalmente, ter abraçado o país.

Após o boom do rock português, com Rui Veloso, UHF, Já Fumega ou Táxi, a segunda metade dos anos oitenta deu-nos uma nova maturidade musical. Dunas, dos GNR, Anzol, dos Rádio Macau, Baía de Cascais, dos Delfins, Surrealizar, dos BAN ou, para os mais alternativos, Zuvi Zeva Novi!, dos Mler Ife Dada, todos lançados entre 1985 e 1988, vestiram aquele tempo com uma banda sonora de múltiplos matizes e uma criatividade invulgar. Foi nesse ambiente que os Trovante editaram, em 1987, Terra Firme, um disco que abria precisamente com 125 Azul e fechava com Perdidamente, uma memorável adaptação de Ser Poeta, de Florbela Espanca.

1987 foi também o ano da campanha do MEC para a primeira eleição portuguesa para o Parlamento Europeu, do inesquecível golo de calcanhar de Madjer que deu ao Futebol Clube do Porto a sua primeira Taça dos Clubes Campeões Europeus e de uma sensação quase coletiva de que Portugal tinha finalmente deixado de viver de costas voltadas para o mundo.

Vestidos de blusão Duffy e sonhando com uma Yamaha 125, azul ou de uma outra cor qualquer, ser jovem nos anos oitenta em Portugal era acreditar que o mundo não tinha limites. Antes do Frágil e da explosão do Bairro Alto, a noite lisboeta fazia-se num circuito que passava pelo Bananas, Plateau, Alcântara-Mar e Xafarix, o popular bar de Luís Represas. A "betalhada" da cidade, viesse do Restelo ou de São Domingos de Benfica, desfilava por ali convencida de que Lisboa estava finalmente a descobrir a modernidade. E nós éramos os porta-estandartes desse futuro que julgávamos durar para sempre, como um verão sem fim.

Olhando para trás, talvez seja precisamente essa tonalidade de esperança o que mais impressiona. Havia uma confiança quase ilimitada no amanhã, uma convicção, ainda que ingénua, de que a vida seria sempre maior do que os seus obstáculos. A morte de Luís Represas representa, para muitos da minha geração, mais do que a perda de um ícone cultural, o encerramento simbólico de uma época e de uma certa ideia de juventude que julgávamos infindável.

Hoje, os jovens dançam funk brega e ouvem kizomba. A PGA parece um exame banal perante a catástrofe digital dos exames do ensino secundário. O equivalente mais próximo da pop chique dos Trovante talvez sejam os talentosos, mas incrivelmente repetitivos, Capitão Fausto. Em comparação, apesar da heroína, dos polos Lacoste comprados na Feira de Carcavelos, de Carlos Cruz antes da Casa Pia ou das Amoreiras antes do caso Taveira, os anos oitenta conservam, na memória de quem os viveu, uma inesperada e doce inocência.

Hoje, o tempo rasteirou-nos pelas canelas. Vieram os impostos e as análises clínicas. O álcool deu lugar à metformina; as drogas leves aos suplementos de ferro e vitaminas. A aspiração deixou de ser a velocidade de uma Yamaha 125 e passou a ser o controlo do colesterol ou da hemoglobina glicada. Já não seguimos pela ponte aberta da vida ao som de 125 Azul. Seguimos ao ritmo das recomendações médicas e das contas para pagar. Mas talvez, afinal, não tenha sido a vida que se tornou mais amarga. Foi apenas aquele verão sem fim que terminou. O açúcar que tratou de vir cobrar a fatura.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Speakers' Corner 94

A vitória dos trabalhadores

E, no fim, ganhou a Espanha. Talvez a equipa que melhor encarnou a ideia de trabalho coletivo ao longo de todo o Mundial. A Espanha demonstrou que o futebol continua a ser um jogo de onze contra onze, e não o desfile deste ou daquele astro, dessas estrelas fabricadas pelo marketing e a venda de camisolas. Apesar de tudo, o futebol continua a ser o passe, a finta, a organização e a força, física e mental, de um grupo de trabalhadores que, juntos, alcançam a glória.

Para lá de Messi ou de Lamine Yamal, a Espanha mostrou que o futebol é a visão e a coragem de um treinador, a resistência defensiva de uma equipa que sofreu apenas um golo em oito jogos, a consistência de um meio-campo que sabe trocar a bola no seu famoso tiki-taka, desesperando os adversários, e um ataque cínico e letal, feito até (sim, Roberto Martínez) de jogadores saídos do banco.

A Espanha de Simón, Cubarsí, Rodri, Cucurella, Oyarzabal, Merino e Torres é a Espanha das antiestrelas, da força e da união de um grupo que, envergando as cores das suas cidades e regiões, representam um país feito de múltiplas identidades. É também a Espanha dessa Hispanidad de Unamuno que inspirou Nemésio a criar a nossa Açorianidade e que nos recorda que é da união das diferenças que nascem os grandes futuros.

Entretanto, por Portugal, o Governo de Montenegro, campeão das viagens para assistir aos jogos do Mundial, ardia em lume alto com os escândalos do caos dos exames nacionais e da amizade polémica entre o ministro da Administração Interna, Luís Neves, e um empreiteiro de Barcelos.

Mais do que episódios isolados, ambos revelam uma preocupante húbris de quem exerce o poder convencido de que está acima das regras comuns. Embora em planos distintos, um perdido na arrogância do grande reformador, outro na sobranceria de quem parece confundir amizade com interesse público, ambos ilustram um país onde demasiadas vezes o Estado é capturado por pequenos esquemas, amizades, lóbis e redes de influência.

No fim, sobra sempre o cidadão comum. O estudante e a sua família, confrontados com a total incompetência do Estado; os professores e as escolas, que, apesar de tudo, mantiveram o sistema de pé enquanto tudo desmoronava; ou o contribuinte, perseguido pelo fisco por meia dúzia de euros e obrigado a assistir, impotente, ao espetáculo dos doutores que tudo parecem poder fazer: da piscina construída onde era um tanque à obra sem licença, do empreiteiro sem fatura ao inacreditável atrelado carregado de reagentes para o processamento de estupefacientes, enviado numa espécie de leasing improvisado do Seixal para o armazém do amigo.

E por aqui, nas ilhas, onde a dívida pública continua a crescer numa espiral sem travão, o presidente do Governo anuncia agora um investimento faraónico de trezentos milhões de euros num hospital que já deixou de ser apenas novo e universitário para se transformar num monumento político cuja construção parece importar mais do que a capacidade futura para o manter.

Sem explicar se os Açores dispõem da dimensão e da sustentabilidade financeira para suportar este verdadeiro Palácio de Versalhes das varizes e das overdoses, Bolieiro compromete a Região com centenas de milhões de euros sem esclarecer de onde virá o dinheiro e qual o plano para assegurar a sua viabilidade. Pior ainda, insiste na narrativa de que a República suportará 85% do investimento, quando a própria resolução do Conselho do Governo esclarece que esse financiamento respeita apenas à reposição das condições de prestação de cuidados de saúde existentes antes do incêndio.

Num tempo de heróis de pés de barro e de governantes enlameados, resta-nos a esperança que vem dos trabalhadores. Sejam os professores que, contra tudo, salvaram a época de exames. Ou aqueles onze operários espanhóis que em campo nos lembraram que a glória não é um direito, mas uma conquista da união, do trabalho e da humildade.