Fé na Humanidade
Esta terá sido a semana mais religiosa da vida portuguesa
contemporânea. Num curto intervalo de dias coincidiram, mais uma vez, as duas
maiores manifestações de fé popular do país: o Senhor Santo Cristo dos Milagres
e Fátima. Num Estado que se proclama laico, a extraordinária capacidade de
mobilização coletiva destas celebrações revela um país que, afinal, continua
profundamente marcado pela sua génese cristã. Seja através do culto mariano de
Fátima, seja, em versão insular, pela devoção ao Senhor Santo Cristo, tal como
foi difundida por Madre Teresa da Anunciada, permanece viva uma espécie de
memória espiritual que resiste à modernidade e à erosão da própria fé.
O fenómeno de Fátima não pode ser dissociado da sua
circunstância histórica. As aparições de 1917 emergem num Portugal dilacerado
pelas convulsões anticlericais da Primeira República e de um mundo devastado
pela Primeira Guerra Mundial. Na Cova da Iria, três crianças pobres e
analfabetas surgem quase como símbolo de uma inocência primordial, escolhidas
pelo divino para advertir a humanidade acerca das suas fragilidades morais e
espirituais. Não surpreende, por isso, que a reação inicial do poder
republicano tenha oscilado entre a hostilidade e a repressão, interpretando o
fenómeno como uma potencial conspiração clerical e monárquica contra a
República. Também não é indiferente o facto de Portugal se encontrar então
mergulhado no horror da guerra europeia e africana. Fátima nasce desse
cruzamento entre medo, esperança e necessidade de transcendência. Mais tarde, a
oficialização do culto pela Igreja, em 1930, e a apropriação simbólica feita
pelo Estado Novo acabariam por sedimentar Fátima como um dos grandes pilares
identitários do século XX português.
O culto do Senhor Santo Cristo dos Milagres, profundamente
enraizado em São Miguel e em todo o imaginário açoriano, possui igualmente uma
origem inseparável do seu tempo histórico. Surge na esteira da Contrarreforma
católica e do reforço do culto da Paixão de Cristo como resposta doutrinária
aos avanços do protestantismo europeu. O Ecce Homo, o Jesus humilhado,
ensanguentado e sofredor, torna-se uma das imagens centrais da espiritualidade
barroca saída do Concílio de Trento.
Entre os finais do século XVII e o início do XVIII, os
Açores eram um território de pobreza, isolamento e permanente vulnerabilidade.
À ameaça constante de catástrofes e tempestades somavam-se os ataques de
piratas e a tragédia da emigração. Foi nesse ambiente religioso e político, num
império português alimentado pelo ouro do Brasil, que viveu Madre Teresa da
Anunciada. A procissão promovida por Madre Teresa, em 1698, nasce precisamente
dessa necessidade coletiva de proteção, redenção e esperança perante a
permanente precariedade da vida.
Talvez por isso o Senhor Santo Cristo permaneça tão
profundamente inscrito não só no espírito micaelense como na alma açoriana. Não
apenas enquanto devoção religiosa, mas enquanto linguagem emocional de um povo
habituado à imponderabilidade da existência. A imagem do Cristo sofredor
funciona não como triunfo da transcendência, mas como reconhecimento íntimo da
inerente fragilidade da condição humana.
Para alguém sem fé, como eu, o fenómeno coletivo da
peregrinação, da promessa ou da simples crença é, antes de tudo, uma
manifestação pura de humanidade. A devoção mariana ou a sacralização da imagem
do Cristo da Paixão representam, acima de tudo, a expressão não do divino, mas
daquilo que existe de mais sublime em nós: a infinita capacidade do ser humano
para resistir e para amar, mesmo em face do Inferno.
Maria, a mãe, ou o Jesus torturado e sofredor apresentado à
multidão simplesmente como “o Homem”, acabam por ser espelhos simbólicos da
própria Humanidade. São representações da nossa vulnerabilidade, mas também da
nossa permanente possibilidade de redenção e dessa extraordinária capacidade
que temos, apesar de tudo, para criar o bem.

