A Travessia
Chegou segunda-feira à praia de Santo António, depois de
percorrer sensivelmente novecentos quilómetros ao longo da costa portuguesa,
desde a Praia do Moledo, em Caminha, até às margens do Guadiana. Mas José Maria
Pyrrait, o autor desta inusitada façanha, não vinha a pé, nem de qualquer forma
motorizado. Avançava lenta e humanamente, ritmado pela sua pagaia, em cima de
uma prancha de stand-up paddle.
Ao fim de cerca de quarenta dias de remada, o veterano
surfista português, já com 60 anos, concluiu assim uma travessia única pela
extensão do nosso litoral. Um desafio pessoal e uma viagem aspiracional sobre
resiliência, superação e a permanente capacidade de abraçar objetivos e ambições,
independentemente da idade ou da condição física.
Naquilo que o próprio apresentou como um manifesto pelo mar e pela saúde, chamando a atenção para a proteção do oceano, o envelhecimento saudável e a luta contra a diabetes tipo 2, completou uma viagem quase solitária e introspectiva, não apenas pela costa continental portuguesa, mas por uma certa forma de estar na vida.
O Pyrrait, como é conhecido no particular mundo do surf, é
um daqueles raros personagens cuja vida daria um filme. Nascido em Lisboa e
crescido no Brasil, foi repórter de guerra, fotógrafo profissional, surfista,
treinador, viajante e colecionador de histórias, quase açoriano, saltimbanco e
inspiração. Um desses heróis desconhecidos que, de repente, veem o seu nome
repetido nos principais noticiários pela originalidade, bravura e dimensão da
sua façanha.
Mas, para além de tudo o resto, a viagem de Pyrrait ficou
marcada por um momento trágico.
Na etapa entre a Zambujeira do Mar e o Monte Clérigo, o
jovem Arran Strong, que o acompanhava, desapareceu ao largo da Arrifana. Na sua
página do Instagram, Pyrrait descreveu assim o sucedido:
“Parámos ao largo da Arrifana para beber água e tirar
algumas fotografias. Estivemos à conversa e, quando retomámos a travessia,
deixei-o seguir à frente. Como o meu ritmo é mais rápido, fazia sempre isso.
Quando o alcançava e ganhava algum avanço, parava e esperava por ele. Desta vez
não foi diferente. No entanto, quando parei para o esperar, vi apenas a sua
prancha à deriva, a cerca de 100 metros de distância. Remei o mais depressa que
consegui até lá. Mergulhei vezes sem conta à sua procura, mas estávamos numa
zona muito profunda e com uma visibilidade muito reduzida. […] Infelizmente, o
Arran continua desaparecido e, neste momento, as possibilidades de ainda estar
vivo são praticamente nulas.”
Acredita-se que Strong, ele próprio um surfista de alta
competição, terá sucumbido a complicações da epilepsia de que sofria.
Após a sua chegada, Pyrrait afirmou a sua convicção de que a
morte não deve ser um tabu. “Todas as pessoas que nós amamos morrem um dia.
Umas vão antes, outras vão depois de nós”, disse, numa declaração de amor
por alguém que considerava como um filho e que morreu a fazer aquilo que amava.
Na Roma Antiga dizia-se que morriam cedo aqueles que os
deuses amavam. A nós, resta-nos pedir que a morte nos leve, quando chegar,
junto daqueles que amamos e rodeados daquilo que aprendemos a amar.
Depois de uma vida no mar e desta odisseia de 900
quilómetros pela costa portuguesa abaixo, e quando o país se prepara para
celebrar os seus 900 anos, a viagem de Pyrrait lembra-nos que ainda somos um
país de mar, de sal e de sonhos que se vivem na distância e na deambulação das
correntes e das ondas; de ventos e tempestades que se cruzam com possíveis
calmarias, num destino feito de milhas.
“O mar não é nosso”, disse também Pyrrait aos
jornalistas. “Mas há certas pessoas que são do mar, e eu tenho a sorte de
ser uma delas.”
Talvez seja essa verdade escondida desta viagem. A aceitação
de que, entre a terra de onde partimos e a terra onde chegamos, somos todos
passageiros de uma mesma corrente. Solitários remadores do oceano da vida. E
alguns têm a sorte de ser do mar.

