Levantados do chão
Na semana que passou, o país continental foi assolado pelos
ventos ciclónicos da tempestade Kristin que, na habitual inclemência do clima,
causaram uma destruição nunca vista em vastas zonas do litoral centro do país,
naquilo a que a Ministra da Administração Interna, com inacreditável frieza,
chamou uma “permanente aprendizagem”, sem nunca esclarecer sobre que matéria
concreta essa aprendizagem incidia. Poucos dias depois, a libertação de mais de
três milhões de páginas dos chamados Epstein Files, entre documentos,
fotografias e emails, devastou igualmente o mundo político-mediático global,
adensando a nuvem de pó de um sórdido esquema de tráfico de influências e
crimes sexuais envolvendo um vasto rol de altas personalidades políticas e
financeiras internacionais. Ao mesmo tempo, e quem sabe se por causa disso,
Donald Trump prossegue a sua senda de destruição da velha ordem mundial,
enquanto a Europa, sem rei nem rumo, se vangloria de celebrar “importantes”
acordos comerciais com uma democracia iliberal liderada pelo regime
nacional-populista hindu de Narendra Modi, na Índia. Para onde quer que
olhemos, há um eco de colapso que parece preencher o ar do tempo com a sua
desesperança.
Não imunes a este zeitgeist sombrio, os Açores
parecem também sucumbir a uma devastação que já não precisa de comboios
atmosféricos para se impor. A privatização da SATA caiu; o turismo entra em
recessão; a Ryanair vai-se embora; tetos de escolas desabam; as finanças
públicas estão em colapso; até Vasco Matos, treinador celebrado do Santa Clara,
é afastado por falta de resultados. Pelo meio, sem protocolo nem pudor, o
governo faz-se ver na inauguração de uma capital da cultura para a qual ainda
nem sequer garantiu a sua parte do financiamento e, segundo um pedido de
esclarecimento do grupo parlamentar do PS, circula por aí um diretor de uma
agência de promoção que assina contratos consigo próprio. O que falta, afinal,
para isto bater no fundo?
Die bleierne Zeit, literalmente traduzido como “os
tempos de chumbo”, é um filme de 1981, realizado por Margarethe von Trotta, que
acompanha o percurso de duas irmãs na Alemanha Ocidental dos anos 1970 que
respondem de forma radicalmente diferente a um mundo em crise. Uma escolhe o
jornalismo e a militância feminista; a outra envereda pela luta armada de
extrema-esquerda, acabando presa e morta em circunstâncias que o Estado
classifica como suicídio. Mais do que um retrato do terrorismo e da repressão
desses anos, o filme é uma reflexão dura sobre consciência, responsabilidade e
a recusa de aceitar versões oficiais quando estas servem apenas para encerrar o
incómodo da verdade.
Aclamado pela crítica, o filme foi considerado por Ingmar
Bergman um dos mais importantes da história. O conceito de “anos de chumbo”
ganhou depois vida própria, tornando-se metáfora recorrente para épocas
marcadas pela violência e a opressão, pelo medo e pela degradação moral das
sociedades.
Olhando o estado do mundo, o horror que avassala o país ou,
mais perto de nós, a pré-desgraça que parece contaminar a Região, propagando-se
como um vírus, é difícil escapar a esse peso de chumbo, essa bruma espessa que
nos cai sobre os ombros, curva a espinha e nos empurra para o chão, como o
telhado que voa, a árvore que parte, o teto que desaba. Perante isto, a
pergunta já não é apenas o que falhou, mas o que faremos nós quando tudo parece
querer derrubar-nos. O que falta para nos levantarmos do chão, como João
Mau-Tempo, em Levantado do Chão, um dos romances mais esquecidos de
Saramago? Porque, diante da ignomínia que corre à nossa volta, talvez a última
forma de humanidade que nos reste, nestes tempos de chumbo, seja reaprender a
levantar-nos com a força da dignidade, frente a um mundo que insiste, como uma
rajada de vento sem piedade, em atirar-nos para o chão.

