A vitória dos trabalhadores
E, no fim, ganhou a Espanha. Talvez a equipa que melhor
encarnou a ideia de trabalho coletivo ao longo de todo o Mundial. A Espanha
demonstrou que o futebol continua a ser um jogo de onze contra onze, e não o
desfile deste ou daquele astro, dessas estrelas fabricadas pelo marketing e a
venda de camisolas. Apesar de tudo, o futebol continua a ser o passe, a finta,
a organização e a força, física e mental, de um grupo de trabalhadores que,
juntos, alcançam a glória.
Para lá de Messi ou de Lamine Yamal, a Espanha mostrou que o
futebol é a visão e a coragem de um treinador, a resistência defensiva de uma
equipa que sofreu apenas um golo em oito jogos, a consistência de um meio-campo
que sabe trocar a bola no seu famoso tiki-taka, desesperando os
adversários, e um ataque cínico e letal, feito até (sim, Roberto Martínez) de
jogadores saídos do banco.
A Espanha de Simón, Cubarsí, Rodri, Cucurella, Oyarzabal,
Merino e Torres é a Espanha das antiestrelas, da força e da união de um grupo
que, envergando as cores das suas cidades e regiões, representam um país feito
de múltiplas identidades. É também a Espanha dessa Hispanidad de Unamuno
que inspirou Nemésio a criar a nossa Açorianidade e que nos recorda que é da
união das diferenças que nascem os grandes futuros.
Entretanto, por Portugal, o Governo de Montenegro, campeão
das viagens para assistir aos jogos do Mundial, ardia em lume alto com os
escândalos do caos dos exames nacionais e da amizade polémica entre o ministro
da Administração Interna, Luís Neves, e um empreiteiro de Barcelos.
Mais do que episódios isolados, ambos revelam uma
preocupante húbris de quem exerce o poder convencido de que está acima das
regras comuns. Embora em planos distintos, um perdido na arrogância do grande
reformador, outro na sobranceria de quem parece confundir amizade com interesse
público, ambos ilustram um país onde demasiadas vezes o Estado é capturado por
pequenos esquemas, amizades, lóbis e redes de influência.
No fim, sobra sempre o cidadão comum. O estudante e a sua
família, confrontados com a total incompetência do Estado; os professores e as
escolas, que, apesar de tudo, mantiveram o sistema de pé enquanto tudo
desmoronava; ou o contribuinte, perseguido pelo fisco por meia dúzia de euros e
obrigado a assistir, impotente, ao espetáculo dos doutores que tudo parecem
poder fazer: da piscina construída onde era um tanque à obra sem licença, do
empreiteiro sem fatura ao inacreditável atrelado carregado de reagentes para o
processamento de estupefacientes, enviado numa espécie de leasing
improvisado do Seixal para o armazém do amigo.
E por aqui, nas ilhas, onde a dívida pública continua a
crescer numa espiral sem travão, o presidente do Governo anuncia agora um
investimento faraónico de trezentos milhões de euros num hospital que já deixou
de ser apenas novo e universitário para se transformar num monumento político
cuja construção parece importar mais do que a capacidade futura para o manter.
Sem explicar se os Açores dispõem da dimensão e da
sustentabilidade financeira para suportar este verdadeiro Palácio de Versalhes
das varizes e das overdoses, Bolieiro compromete a Região com centenas de
milhões de euros sem esclarecer de onde virá o dinheiro e qual o plano para
assegurar a sua viabilidade. Pior ainda, insiste na narrativa de que a
República suportará 85% do investimento, quando a própria resolução do Conselho
do Governo esclarece que esse financiamento respeita apenas à reposição das condições
de prestação de cuidados de saúde existentes antes do incêndio.
Num tempo de heróis de pés de barro e de governantes
enlameados, resta-nos a esperança que vem dos trabalhadores. Sejam os
professores que, contra tudo, salvaram a época de exames. Ou aqueles onze
operários espanhóis que em campo nos lembraram que a glória não é um direito,
mas uma conquista da união, do trabalho e da humildade.

