O riaggiornamento da política nacional
A esmagadora vitória de António José Seguro nestas eleições
presidenciais representa um momento charneira da nossa história democrática.
Não apenas pelo resultado eleitoral em si, mas sobretudo pelo que ele enuncia
para o futuro do país. Num contexto marcado pelo crescimento acelerado da
extrema-direita populista e pela erosão prolongada dos partidos do centro
democrático, esta eleição surge como um sinal claro de que dois terços do
eleitorado recusa a lógica da polarização permanente e destrutiva.
Num país fatigado pelo ruído mediático, pela
política-espetáculo e pela exploração sistemática do medo, a vitória de Seguro
funciona como um balão de oxigénio democrático. Não porque traga soluções
milagrosas ou promessas redentoras, mas precisamente porque representa o
contrário desse discurso divisionista, apelando à moderação, à contenção e à
recusa consciente de uma política feita à base do conflito e da indignação. Num
tempo em que gritar parece ser confundido com liderar, esta escolha não é
irrelevante.
Despolarizado, relativamente despartidarizado e associado a
uma ética de compromisso, Seguro encarna uma ideia de presidência que procura
unir o país em torno de valores essenciais e do bem-comum. Depois de anos em
que o debate político foi progressivamente capturado por extremos ruidosos,
esta eleição revela uma vontade clara de recentrar a democracia no interesse
público.
É neste sentido que se pode falar de um verdadeiro riaggiornamento
da política nacional. Que me perdoem os meus camaradas pelo uso do termo, com
as suas inevitáveis conotações clericais, mas tal como o Concílio Vaticano II
procurou atualizar a Igreja ao mundo moderno, também a vitória de Seguro aponta
para uma renovação do centro democrático que não passa pela rutura, mas pela
atualização das formas de fazer política. Não se trata de negar o passado, mas
de o tornar novamente funcional num presente cada vez mais caótico e indefinido.
O que mais de três milhões de eleitores parecem ter afirmado
nestas eleições é que não querem ver o país entregue à lógica do martelo
pneumático de um populismo que promete “destruir o sistema” à força de murros
na mesa. Preferem, pelo contrário, preservar os fundamentos do regime
democrático, mesmo reconhecendo as suas falhas. E, esta escolha é, em si mesma,
um ato político profundamente relevante.
Se André Ventura se reivindica como líder de uma “nova
direita”, cabe agora aos partidos do centro agir em torno de uma nova
estratégia política. Como o próprio Seguro afirmou numa entrevista à TSF, em
2019, a melhor forma de combater os “exploradores do medo” não é imitá-los, mas
responder concretamente aos problemas das pessoas, uma orientação estratégica
básica que o centro democrático parece ter esquecido.
Vale também recordar um outro episódio recente, menos
conveniente para alguns. No debate de 2014 que opôs Seguro a António Costa na
disputa pela liderança do PS, Seguro denunciou a “promiscuidade entre a
política e os negócios” e acusou os seus adversários de transformarem o partido
num espaço de interesses. Não deixa de ser irónico ver hoje muitos dos
protagonistas dessa época, incluindo o próprio Costa, surgirem a apoiar Seguro,
num exercício triste de memória seletiva e de hipocrisia moral.
Ainda assim, o essencial permanece. O que esta vitória traz
é a possibilidade de uma política centrada na ética pública, no combate aos
compadrios e aos privilégios, sem recorrer à demagogia populista. Uma política
de princípios em vez de slogans, de interesse público em vez de interesses
privados, de cidadãos em vez de oligarquias. Talvez este seja, esperamos nós, o
início de um tempo verdadeiramente pós-populista em Portugal.
A questão que fica não é se Seguro pode mudar o sistema
sozinho, mas se os partidos do centro, em particular o PS, em que eu milito, saberão
estar à altura da esperança que esta eleição anuncia.

