Crónica de um navio que passa
Ontem, ao final da manhã, debaixo de um céu tímido e de um
sol envergonhado, coberto por um sudário de nuvens baixas e acinzentadas, a
Sagres passou por aqui, no horizonte da minha janela. Lenta e altiva, na sua
pose aristocrática, enquadrada pelo Ilhéu, permanente vulcão ancorado, como um
galeão de antigamente, atraía-nos os olhos para o mar. Para uma memória
nostálgica da mais romântica forma de viajar, de velas abertas ao sabor do
vento pela mais líquida imensidão da Terra, que afinal é feita de mar.
Há no oceano uma atração uterina, uma recordação instintiva
de um tempo inicial e primeiro. O mar que envolve e resguarda. O mar que
expulsa e devolve. Que dá e tira o sopro da vida. Somos todos filhos do oceano,
dessa maternidade líquida, desse ondulado embalo da génese da vida, dessa
memória primordial de onde tudo parece ter começado. Talvez por isso seja no
mar que recuperamos qualquer coisa dessa primeira centelha da existência. O mar
recorda-nos o princípio de tudo, um tempo anterior às palavras.
E a Sagres, pela sua majestade simbólica, parece
recordar-nos também essa raiz marítima da identidade portuguesa. Esse lugar de
onde partimos. Esse destino de sal e lágrimas de que falava Fernando Pessoa.
Temos os olhos fixos nos horizontes do mundo, os sonhos lançados dos
promontórios da terra, em busca de futuros possíveis, das ilhas dos amores de
Camões, de glórias e abundâncias, satisfações fugazes para uma constante
sucessão de perigos e desilusões.
Ver agora a Sagres vagando no horizonte, aqui tão perto, é,
de certa forma, contemplar o passado. Uma viagem no tempo a um lugar antigo,
uma forma de regresso. Durante séculos, era em navios como aquele que se
cruzavam os oceanos. Viagens que podiam durar meses ou anos, sulcando as ondas
em busca de paragens longínquas, outros continentes, ilhas paradisíacas, outros
hemisférios e longitudes distantes. Sob bons e maus ventos, entre perigos e
bonanças, contra ou a favor das correntes, num tempo em que a distância tinha
um nome que se pronunciava com a voz do mar.
A nossa natureza é feita de velas enfunadas, mastros
inclinados, cabrestantes e gáveas, enxárcias esticadas contra o céu, das ondas
lambendo as amuradas. Somos o odor e a agitação dos conveses, as tábuas dos
cascos, o ranger dos cabos e as voltas das rodas do leme. Somos a proa apontada
ao desconhecido e a popa deixando para trás uma esteira de espuma. Pescadores e
marinheiros, meros passageiros e intrépidos viajantes. Conquistadores e
escravos, mulheres abandonadas, piratas, fugitivos e arrenegados, escudeiros
ambiciosos e filhos bastardos. Mouros, flamengos, árvores do reino e sementes
de todas as origens. Somos brasis e américas, orientes para lá dos orientes.
Temos no sangue a cegueira dos baleeiros e na alma o cântico das baleias.
O oceano é o nosso chão. E o mar a nossa morada.
Dentro de cada um de nós há um cemitério de naufrágios.
Somos também a memória desses navios perdidos. Fomos construtores de mundos,
disseminadores de línguas e ideias. Tanto destruímos como criámos. E desse
encontro, tantas vezes violento, nasceram novas gentes, novas culturas, novas
geografias humanas. Miscigenações encantadas e lúbricas, tanto de dor como de
amor.
Os nossos ossos mergulham no mar, escreveu Nemésio. E até os
nossos santos dão à costa, num recolhimento de basalto e conventos, numa fé
feita de sal. Os nossos pulmões respiram ao ritmo das ondas, o coração bate ao
compasso das vagas, entre homens que partem e mulheres que resistem ao tempo, à
distância e à infinita sina da solidão.
Talvez seja por isso que cada navio que passa seja ainda uma
vontade de partir. Mas toda a partida é também uma esperança de regressar. De
ilha em ilha, com os olhos nas estrelas, continuamos a fitar a distância,
indagando o rumo que a vida há de tomar.
E talvez não exista no universo distância maior do que a
distância do mar.

