O fim da ideia europeia
A pandemia de Covid-19 foi, provavelmente, o acontecimento
mais impactante da nossa história recente e as suas consequências estão ainda
longe de ser totalmente compreendidas. Mas são inquestionáveis as profundas
cicatrizes que deixou no nosso tecido social.
Para combater os efeitos da pandemia, diziam-nos os
governos, a União Europeia concebeu um gigantesco plano de recuperação
económica. António Costa, então xerife do passaporte digital, chamou-lhe
primeiro "vitamina" e depois "bazuca", talvez já antevendo a economia de guerra
em que a Europa está hoje mergulhada.
Assim nasceu o PRR, apresentado como o grande instrumento
para recuperar e tornar resiliente uma economia em frangalhos. Transição
climática, transição digital e infraestruturas constituíram os seus três
grandes eixos.
Agora que celebram a sua execução com números cada vez mais
triunfais, talvez valha a pena olhar para aquilo de que ninguém fala.
Segundo um estudo da McKinsey, os setores mais atingidos
pelas medidas de combate à pandemia em Portugal foram precisamente os mais
dependentes do contacto pessoal e da mobilidade: alojamento e restauração,
cultura e entretenimento, comércio e transportes.
Turismo e Cultura são, em larga medida, um universo de
micro, pequenas e médias empresas, empresários em nome individual e associações
culturais. Gente que vive do seu trabalho e que, durante a pandemia, foi
impedida de o fazer.
Apesar disso, os investimentos destinados à Cultura e ao
Turismo representaram menos de 2% do total do PRR. E, em muitos casos, a sua
execução concentrou-se no investimento público, na recuperação de museus,
bibliotecas e outros equipamentos, enquanto os pequenos negócios, os artistas,
os restaurantes, os alojamentos e as empresas de animação turística ficaram
muito mais longe da bazuca prometida.
Dos 22,2 mil milhões de euros do envelope financeiro revisto
do PRR, estes dois setores não receberam mais de 360 milhões, aproximadamente,
sendo que a maioria desse dinheiro foi canalizada para as Escolas de Hotelaria
e Turismo ou para a modernização digital de bibliotecas e museus do Estado.
Talvez seja precisamente esta distância abissal entre o
dinheiro investido e a vida concreta das pessoas que ajude a explicar, de forma
particularmente transparente, o estado atual da UE. Uma distância que se
consubstanciou recentemente em dois acontecimentos aparentemente separados, mas
paradigmáticos.
Na Islândia, mais de metade dos eleitores rejeitou a adesão
à UE. Na Alemanha, a AfD, defendendo abertamente a saída da UE, venceu as
eleições na Saxónia-Anhalt com cerca de 45% dos votos, conquistando também uma
parcela expressiva do eleitorado jovem.
Perante estes resultados, os partidos tradicionais e boa
parte da comunicação social recorrem ao catálogo habitual de palavras de
choque: fascismo, xenofobia, populismo, antidemocratismo. Ninguém contesta a
realidade desses perigos. Mas a questão que nos devia preocupar é porque estão
tantos europeus a deixar de acreditar no projeto europeu?
Talvez porque a Europa se tornou extraordinariamente eficaz
a falar de grandes transições, metas, fundos e guerras, mas cada vez menos
capaz de responder às necessidades básicas da vida de cada um de nós.
Quando a política deixa de ser percebida como instrumento
para melhorar a vida dos cidadãos e passa a ser uma máquina de impor
prioridades e exigir sacrifícios, a democracia perde o seu chão.
O problema não é apenas a extrema-direita. É antes uma
Europa que, ao afastar-se dos seus cidadãos, se afasta da sua própria razão de
existir e acaba por fabricar o ressentimento que alimenta aqueles que a
procuram destruir. E são os próprios líderes europeus que, paradoxalmente, se
transformam nos seus principais coveiros.
De nada serve derramar dinheiro sobre os problemas. Porque,
para um europeísta como eu, se esse dinheiro não chega a tocar na vida das
pessoas é a própria ideia de Europa que morre.

