Duas vitórias e uma imagem
Contra todas as probabilidades, Lula venceu, no segundo turno,
as eleições presidenciais brasileiras. Numa disputa marcada por uma polarização
extrema da sociedade brasileira, o velho líder do PT, símbolo mundial da
esquerda que se estende do comunismo ao progressismo verde, passando pelo
socialismo democrático, conquistou, a custo, um quarto mandato à frente dos
destinos daquela que é hoje uma das dez maiores economias mundiais, numa
campanha que teve nas redes sociais um dos seus pontos chave de desbloqueio.
Independentemente do que vier a suceder neste seu mandato, a
eleição de Lula deixa, desde já, um sinal de aviso para os equilíbrios
políticos globais. Uma derrota tão expressiva quanto surpreendente do populismo
demagógico e, sobretudo, da direita trumpista, que ambiciona controlar o mundo
através de uma hegemonia global de governos ultraneoliberais e/ou autocráticos.
Na Sérvia, país com pouco mais de seis milhões de
habitantes, um movimento cívico denominado Lista Estudantil, nascido há menos
de dois anos de uma mobilização espontânea de estudantes contra a corrupção e a
degradação do Estado, conquistou, também, a maioria absoluta nas eleições
legislativas, derrotando Aleksandar Vučić, instalado no poder há catorze anos.
Sem uma liderança personalizada, organizado a partir de
assembleias populares e com uma forte preocupação com a justiça socia, a Lista
Estudantil conseguiu afirmar-se de forma pacífica e genuinamente popular, em
vez de populista, contrariando todas as expectativas num país de fortes
tendências autocráticas e numa região, os Balcãs, historicamente explosiva.
Um pouco por toda a Europa, movimentos espontâneos e
inorgânicos de jovens fazem-se ouvir nas ruas contra décadas de decadência
económica, política e social. O modelo de capitalismo global que vem afundando
as esperanças de sucessivas gerações, desde a crise financeira de 2008,
passando pela pandemia de Covid-19, até ao atual delírio belicista, que parece
querer arrastar a juventude europeia para uma guerra que esta não compreende
nem aceita como sua, encontra finalmente nestes movimentos uma oposição clara.
O mundo que construímos nestes últimos trinta anos virou-se
contra as populações. Desigualdades profundas, guerras permanentes, corrupção e
desesperança roubaram o futuro a gerações inteiras de europeus. Da Albânia ao
Rossio, da Bulgária a Madrid, passando por Paris e Milão, os jovens procuram,
seja pela via do protesto, seja organizando-se em movimentos políticos e
sociais, recuperar a esperança no futuro.
Procuram uma política que seja aspiracional, que ofereça
horizontes em vez de exigir apenas sacrifícios a quem passou toda a vida a
sacrificar-se. No trabalho, na economia, no simples acesso à habitação e às
condições mais elementares de uma vida digna. Uma geração inteira, que viu uma
parte significativa da sua infância e juventude roubada pelas crises
financeiras e pela ditadura sanitária da pandemia, procura agora recuperar a
voz e reclamar para si o direito mais universal de todos – o direito ao amanhã.
Não compreender estes movimentos, mesmo nas suas
manifestações mais extremas de violência, não entender estas aspirações e
anseios de uma geração inteira, é falhar em perceber o presente. Responder aos
apelos por uma casa, por justiça social e por um futuro digno com a força
insensível das bastonadas é negar o próprio fundamento da democracia.
Numa daquelas que certamente ficará na história como uma das
imagens mais marcantes dos protestos destes dias, a fotojornalista da LUSA, Estela
Silva, captou um manifestante sentado no chão, isolado na Praça D. João I, no
Porto, segurando na mão um cravo, rodeado por elementos da polícia de choque,
momentos antes de uma carga policial.
Há, na claridade noturna daquela imagem, uma síntese quase
perfeita das forças que hoje se confrontam: uma multidão de cidadãos isolados
que clamam contra as injustiças do Estado.

