Réquiem por um Ilhéu
Se tivéssemos de elaborar uma checklist de meia dúzia de
postais turísticos dos Açores, certamente o Ilhéu de Vila Franca seria um deles.
Preso, como uma lua, à gravidade da ilha, o Ilhéu da Vila completa a paisagem e
o horizonte da costa sul de São Miguel, encantando-nos com a sua majestade
vulcânica.
E se, para quem nos visita, o Ilhéu é fonte de atração e
curiosidade, para quem aqui vive ou cresceu, o Ilhéu é memória e parte intrínseca
de uma identidade. Os banhos, as viagens no Cruzeiro do Ilhéu, o velho mestre
Mané Cafua, os dias inteiros passados em bronzeada placidez, encontrando a
melhor curva da rocha para nos deitarmos, os saltos das pedras para os mais
afoitos, os caminhos, os picnics, as melancias, explorar as golas, passar
debaixo do pontão na maré vazia, a viagem em torno do Ilhéu no último barco do
dia na luz cálida do entardecer. O Ilhéu é, para locais e visitantes, uma parte
fundamental da experiência micaelense, tal como o pôr-do-sol dos Mosteiros ou as
águas quentes das Furnas.
Um verão sem Ilhéu é como a Terceira sem Angra, o Faial sem
o Pico, São Jorge sem Fajãs, ou as Flores sem o Poço da Ribeira do Ferreiro,
como tão mediaticamente se discutiu nos últimos tempos. É por isso que a
notícia da interdição de banhos no Ilhéu na próxima época balnear merecia um
verdadeiro sobressalto cívico da população micaelense e açoriana, tanto pelo
que o Ilhéu representa para a vivência da ilha, como pelo que significa para a
imagem do arquipélago, tão hipocritamente enlaçado no embrulho falso da
sustentabilidadezinha, mas, acima de tudo, pelo que demonstra de incúria, inépcia
e irresponsabilidade das políticas públicas e dos seus executores.
O problema está identificado, a Lei é do conhecimento de
todos, tiveram anos para estudar e atacar a situação, juntos, autarquia e
governo, porém, deixaram-no chegar a este ponto, privando-nos de um património público,
jogando agora ao passa culpas costumeiro da responsabilidade do outro e da
interpretação legal, num cinismo sem-vergonha e que envergonha. Desde 2016 que
o Ilhéu recebeu as primeiras notas negativas sobre a qualidade da água, de novo
em 2018, com classificação de Aceitável, o penúltimo numa escala de 4 níveis
entre o Mau e o Excelente, e sucessivamente desde 2020, incluído 24, a
classificação do Ilhéu foi, sempre, Má. Com a singular nota de ridículo, por
parte dos responsáveis, de culpar as gaivotas pelo acumular de níveis perigosos
de E. Coli. no interior das águas da piscina natural do Ilhéu.
É sabido que as obras invisíveis são aquelas que os políticos mais detestam, então se feitas debaixo do chão são ainda mais odiosas. Não há nada como uma boa rotunda, um pavilhão multiusos que ninguém use, ou um bom metro cúbico de betão na orla marítima para fazer a alegria de um autarca ou de um governante. O bom e útil saneamento básico é coisa para ingénuos. Não dá votos, dizem eles, quando agora, perante os impactos negativos, a crítica legítima e o poder a fugir-lhes pelas palmas das mãos, se contorcem em desculpas esfarrapadas e cambalhotas legais. Tiveram anos para construir uma ETAR e, pelo menos 5 anos, para resolver o problema do emissário submarino, impedindo este desfecho. Construíram restaurantes, fizeram festivais e betonaram praias pitorescas com obras monumentais. Por seu lado, o governo, entretido a comprar certificados e selos ambientais, fez comissões que assistiram, impávidas e serenas, sem fiscalizar, multar, ou até apoiar financeiramente a solução do problema. Citando Joni Mitchell, pavimentaram o paraíso para construir um parque de estacionamento. Aqui foi pior, transformaram o paraíso numa fossa a céu aberto. Agora todos sacodem a água do capote, quando na verdade estavam a ver se o mar levava o que não souberam, ou não quiseram, resolver. Mas, numa terra onde tudo vai parar à ribeira e da ribeira para o mar, o mar, na sua sabedoria, tudo devolve, para os desmascarar.