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quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Speakers' Corner 55

Uma Capital sem ambição

A escassos três meses do seu início foi finalmente assinado o protocolo financeiro de Ponta Delgada Capital da Cultura 2026.

Indiferentes ao ridículo da sua própria situação, a assinatura de um compromisso financeiro para um evento que, a esta altura, já deveria estar praticamente todo programado, calendarizado e, em alguns aspetos, plenamente executado, a sessão solene contou com a presença de dois ministros, secretários de estado, presidentes de governo, secretários regionais e autarcas. Só faltou convidarem os proponentes originais da candidatura, uma pequena deselegância que, para alguns, não passou despercebida.

De facto, este arranque aos solavancos da Capital da Cultura tem sido pródigo em erros, omissões e falhas de comunicação, revelando uma ausência de projeto a todos os níveis preocupante. E, infelizmente, os sinais deixados nestes últimos dias não auguram, para já, nada de bom.

No âmbito da sessão de assinatura do protocolo, o comissariado da Capital da Cultura promoveu uma conferência sob o tema “Cultura, Educação e Território no Lugar do Amanhã”. Ora, o aspeto mais saliente desta iniciativa foi a inconspícua ausência de protagonistas locais. Os painéis foram exclusivamente compostos por especialistas “de fora”. E se a educação, na sua vertente de formação de públicos e de hábitos de consumo cultural, e o território, numa região arquipelágica como esta, se apresentam como eixos fundamentais de um projeto desta natureza, não se compreende como podem ser abordados sem a participação dos agentes locais. Por mais meritórias que sejam as experiências e perspetivas apresentadas, estas revelam-se inevitavelmente desfasadas de uma realidade dispersa e insular como é a nossa.

A questão que se impõe é que território é exatamente este que a Capital da Cultura se propõe abordar? Está esta iniciativa confinada ao eixo Mosteiros–Rosto de Cão? Ou a ilha, as ilhas e a projeção da região para o exterior fazem também parte do seu âmbito de ação?

Ao apartar-se da sua génese, a de uma capital cultural ampla, enraizada nos seus nove bairros, esta Capital da Cultura recusa aquilo que deveria ser uma das suas primeiras preocupações, a de uma Ponta Delgada central na vida do próprio arquipélago, não como imposição, mas como responsabilidade. E essa componente arquipelágica, que deveria estar no cerne do projeto, parece, ao que se sabe e até ver, posta de parte. Não se percebendo porquê.

Por outro lado, duas notas deixadas nestes primeiros momentos públicos causam alguma estupefação ao espectador mais atento.

Desde logo, o “monumento à vaca”. Uma parceria com o Grupo Bel para a construção de uma escultura de homenagem aos produtores de leite açorianos. Trata-se de uma subjugação clara ao marketing privado de uma multinacional dos lacticínios e de uma redução óbvia da imagem dos Açores a um dos seus mínimos denominadores comuns, hoje até dos mais polémicos, pelos impactos económicos e ambientais que acarreta.

Se juntarmos a isto as declarações da comissária, quando questionada sobre a programação já prevista, resumida a um retomar de tradições como os Assaltos de Carnaval e o Menino Mija, temos uma Capital da Cultura prisioneira de uma certa ideia nostálgica e infantil de uma Ponta Delgada dos anos oitenta do século passado, feita de clichés folclóricos e memórias pessoais.

A ideia de uma Capital da Cultura era um sonho bonito, que gerou enorme expectativa e vontade entre os agentes locais, na esperança de um evento capaz de projetar a criação artística açoriana para o mundo e trazer o mundo aos Açores, com rasgo, vanguarda e vontade de rutura. Uma capital que fosse de arte, pensamento e projeção.

Pelo que é público até agora, temos apenas uma velha Ponta Delgada, presa nos seus próprios fantasmas e tradições folclóricas, sem mundo e sem imaginação. Sinceramente, o que espero é que esta Capital da Cultura possa vir a ser mais do que apenas mais uma oportunidade perdida.

quarta-feira, 4 de junho de 2025

Speakers' Corner 35

Crónica de um desastre anunciado

À hora em que escrevo, estes são os factos conhecidos: Sónia Nicolau, ex-militante socialista e candidata independente à Câmara Municipal de Ponta Delgada, terá sido contactada pela vice-presidente do Partido Socialista dos Açores e secretária-coordenadora do partido em São Miguel, Cristina Calisto, com uma proposta de coligação liderada pelo PS, na qual a candidata independente ocuparia o segundo lugar.

De acordo com um comunicado, Sónia Nicolau submeteu essa proposta à consideração dos seus apoiantes, que a rejeitaram por unanimidade.

Em declarações à Antena 1 Açores, Cristina Calisto assume o contacto, mas nega tratar-se de uma proposta formal de coligação, muito menos em nome do partido, afirmando que se tratou apenas de uma manobra exploratória, feita a título pessoal e individual, para aferir da sensibilidade de Sónia Nicolau perante a eventualidade de uma coligação.

Após um processo muito atabalhoado de escolha de candidatos, o PS parece incapaz de se alinhar numa estratégia coerente, ou sequer num rumo definido. Primeiro, geriu desastrosamente o dossier Sónia Nicolau, hostilizando e até vilipendiando uma militante e ex-deputada, de forma imprópria para um partido livre e democrático. Depois, Isabel Rodrigues, que no papel parecia ser uma escolha qualificada e aceitável, revelou-se um nado-morto, ausente, titubeante, dir-se-ia mesmo, desistente.

Depois da hecatombe eleitoral de maio último, o PS corre para apanhar os cacos de um partido em estado catatónico, sob ameaça de uma eutanásia eleitoral nas autárquicas que se aproximam. Mas nem o desespero de quem vê chegar o fim de uma era explica tantos erros, tanta incapacidade estratégica e tamanha inabilidade política.

Já o escrevi antes: Pedro Nascimento Cabral é um mau presidente. Errático, autoritário, sem visão. Bastaria a gestão do Mercado da Graça para lhe negar a reeleição. Mas há mais. A candidatura a Capital Europeia da Cultura, o seu triste desfecho, e a atual designação como Capital Nacional da Cultura 2026, mergulhada numa deriva populista, sem programa e à distância, a meros seis meses do início, são igualmente reveladores de um mandato vazio e desperdiçado.

Este era o momento ideal para o PS reconquistar a Câmara de Ponta Delgada, que não lidera desde 1989, quando a conquistou numa coligação encabeçada pelo centrista Mário Machado. Mas uma mistura de jactância com muita incompetência, desde os líderes da concelhia aos secretários de ilha, alguns dos quais optaram por paragens mais arejadas e pecuniosas, enquanto outros parecem agora enveredar por verdadeiras incursões kamikaze, feitas a título pessoal no campo adversário, até ao silêncio conspiratório do líder máximo, tudo contribui para que o PS se atire a um precipício eleitoral de difícil recuperação.

Sejamos claros: o líder do partido devia estar nos Açores a tempo inteiro e assumi-los como a sua prioridade. Devia, ele próprio, ser o candidato à principal câmara municipal da região.

Hostilizar Sónia Nicolau foi um erro. Oferecer-lhe o 2º lugar foi outro. Insistir em Isabel Rodrigues é um 3º erro. Não se compreende, aliás, como é que esta ainda se mantém na corrida, depois de ter sido publicamente menorizada pela sua própria secretária-coordenadora de ilha, que claramente não acredita nas hipóteses reais da sua candidata vencer esta eleição.

Neste momento, a única solução com dignidade para o PS-Açores é: (1) apoiar Sónia Nicolau. Esse, aliás, devia ser o caminho em todas as freguesias e concelhos das nove ilhas. Abrir o partido aos eleitores com humildade, proximidade e com candidatos reais, com efetiva presença e capacidade de trabalho no terreno; ou (2) sair da corrida, apelando aos seus militantes e simpatizantes para que colaborem num amplo movimento de cidadãos capaz de derrotar Pedro Nascimento Cabral que, enquanto isso, sorrindo impávido no conforto do seu gabinete aveludado, vai-se fazendo de morto como melhor forma de garantir a sua reeleição.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Speakers' Corner 21

Batendo aos portões de Santana

Ponta Delgada, que foge ao PS desde 1989, tem sido uma pedra no sapato político das sucessivas direções socialistas. Por um lado, é alvo apetecido, a principal autarquia do arquipélago e feudo social-democrata de longa data, por outro representa uma ameaça tácita ao status quo diretivo do partido. Ser presidente da câmara de Ponta Delgada representa uma espécie de pole position para a conquista do Palácio de Santana, como se os portões de Santana se abrissem ali junto às Portas da Cidade, pela importância e visibilidade que o cargo confere. Por isso, as direções do PS sempre olharam com desconfiança para essa disputa eleitoral. Não podem deixar de concorrer, apresentando candidatos suficientemente relevantes para não serem acusados de falta de comparência, mas sempre secretamente conspiraram para que o partido não saísse vencedor dessa particular eleição. Nos últimos anos, os líderes do PS optaram sempre por não se empenhar totalmente nessa corrida, percebendo que qualquer presidente da câmara de Ponta Delgada se tornaria instantaneamente na segunda figura do partido e opositor interno inevitável. Na lógica do controlo do poder convêm que as sucessões, ou as putativas ameaças à liderança, sejam geridas pelos próprios e sem radicais livres a correr por fora nas suas próprias pistas.

Este ano, a corrida a Ponta Delgada reveste-se de um interessante conjunto de pormenores aliciantes. Desde logo, são as primeiras eleições autárquicas desta direção do PS, e com a condicionante de este estar na oposição a nível regional, o que torna o resultado conjunto destas eleições autárquicas determinante para o seu futuro político. Por outro lado, há um notório e palpável desgaste do atual executivo camarário, corporizado na altivez e autoritarismo do seu presidente, que criaram enormes anticorpos junto de diversos sectores da sociedade civil, das empresas e do eleitorado em geral. Já para não falar no surgimento de uma candidatura independente, saída precisamente das fileiras do PS e largamente criada pela inabilidade das direções do partido, concelhia e regional, em dialogar com os seus críticos e gerar consensos dentro do próprio partido.

No passado fim-de-semana os órgãos dirigentes do PS aprovaram, finalmente, os seus cabeças de lista às próximas eleições autárquicas. De entre uma mais ou menos anódina e pouco surpreendente lista de nomes o destaque maior recaiu, obviamente, sobre o nome anunciado à câmara de Ponta Delgada que, ao fim de um longo e conturbado processo, que ao que consta até sondagens envolveu, naquilo que o líder do partido classificou, eufemisticamente, de “rapidez possível”, calhou a Isabel Almeida Rodrigues, alguém com um inegável currículo político e capacidades, mas que se encontra ausente da política local há vários anos. Na atual conjuntura, as primeiras ações da candidata agora anunciada serão determinantes para se perceber se esta é uma candidatura ganhadora ou se, mais uma vez, o PS apenas pretende não perder por muitos, iniciando desde já o spin dos resultados para as análises de contexto e outras desculpabilizações.

Caberia objetivamente ao PS afirmar-se como líder de uma grande coligação de oposição ao trabalho do atual executivo camarário, chamando a si, não só os dissidentes, começando pela própria candidata independente, figuras da sociedade civil e até outros partidos para, tal como em 1989, consubstanciar uma candidatura que fosse agregadora, abrangente e plural, concretizando-se em propostas concretas e inovadoras aos problemas que o concelho, nas suas múltiplas assimetrias, enfrenta e merece ver solucionados. Caberá à candidata do PS dizer ao que vem, embora sabendo que já vem tarde. Quanto ao resto, o resultado dirá se os dirigentes do PS queriam de facto ganhar Ponta Delgada ou se, afinal, e como tem sido habitual, esta foi apenas e só uma candidatura para cumprir calendário.