quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Speakers' Corner 67

Seguro no meio do caos

Nos próximos dias, muitos de nós andarão por aí a ocupar o seu tempo mental com cogitações várias sobre o destino a dar ao seu voto presidencial. Depois de longos e enfastidiantes meses de uma campanha gasta e de um lote excessivamente alargado de candidatos, em que a quantidade não equivale à qualidade, aproxima-se finalmente o momento de colocar o voto na urna.

Estas são, de facto, eleições sui generis. Não apenas pela panóplia inusitada de escolhas, mas pelo momento específico em que se disputam, pela imprevisibilidade dos resultados e pelo que podem significar para o nosso futuro colectivo.

Há muitos anos que não tínhamos eleições presidenciais em Portugal com tantos candidatos. À direita e ao centro, à esquerda e nas extremas de cada meia-lua do arco político, num excesso que denuncia o estado pulverizado da nossa democracia e do nosso tempo político. O populismo alastra pela espuma do discurso público, corroendo a gravitas, o peso institucional e moral que deveria caracterizar quem se propõe à magistratura suprema do Estado. Os candidatos fazem-se e desfazem-se à velocidade do Facebook e do TikTok, como Cotrim demonstrou de forma dramática na sua súbita ascensão e na provável queda após um escândalo cirurgicamente colocado na recta final da campanha. Em contrapartida, o flop de Marques Mendes mostra como a televisão, por si só, já não faz nem desfaz candidatos num oceano de eleitores submersos nas águas agitadas das redes sociais.

As sondagens, ou melhor, a narrativa minuciosamente rendilhada da tracking poll da CNN, vão tentando moldar a opinião pública. Instiga-se um cenário de imprevisibilidade máxima que quase inviabiliza qualquer prognóstico firme. Se há poucos meses tudo parecia apontar para uma vitória folgada do Almirante das vacinas, hoje essa certeza dissipou-se como uma nuvem numa manhã de nevoeiro sobre a praia. O candidato esforça-se agora por fazer emergir o seu submarino eleitoral, já no limite de uma cada vez mais difícil passagem à segunda volta. Na dianteira, o único que parece confortável é, paradoxalmente, André Ventura, que se apresenta na contradição suprema de se candidatar a ser o garante de um sistema que o próprio diz querer destruir.

À esquerda, persiste uma espécie de suicídio colectivo, medrando teimosamente como erva daninha, marcado pela incapacidade de colocar os interesses do país e da própria esquerda acima dos interesses diminutos de cada partido. Arrisca-se mesmo a uma auto-implosão caso nenhum dos candidatos desse campo político consiga chegar à segunda volta, um cenário que não pode ser totalmente descartado.

No meio deste caos, o único gesto verdadeiramente importante, ainda que em tom provocatório, veio de Manuel João Vieira, ao propor a consagração constitucional do direito à felicidade. O que parece uma boutade encerra, afinal, uma verdade tão simples quanto profunda: a política deveria existir para melhorar a vida das pessoas. A felicidade, entendida como bem-estar, dignidade e esperança no futuro, deveria ser o horizonte último de qualquer Estado democrático. Infelizmente, o nosso tempo parece dominado por líderes mais interessados em dividir e destruir do que em unir e governar.

É precisamente neste contexto de vendaval político, com a democracia em risco, que o voto presidencial assume um peso acrescido. A eleição do Presidente da República não é um exercício de protesto, nem um espaço para experiências perigosas. É, acima de tudo, um acto de responsabilidade. Um momento em que importa reconstruir a confiança entre o povo e o poder, entre os cidadãos e o Estado, reafirmando os valores fundamentais da Constituição de Abril.

No meio do caos e da demagogia, o voto deve ser um gesto de serenidade, de compromisso democrático e de sentido de Estado. E, goste-se ou não, com todas as imperfeições que qualquer escolha comporta, esse voto responsável só encontra hoje expressão em António José Seguro.

 

Sem comentários: