Seguro no meio do caos
Nos próximos dias, muitos de nós andarão por aí a ocupar o
seu tempo mental com cogitações várias sobre o destino a dar ao seu voto
presidencial. Depois de longos e enfastidiantes meses de uma campanha gasta e
de um lote excessivamente alargado de candidatos, em que a quantidade não
equivale à qualidade, aproxima-se finalmente o momento de colocar o voto na
urna.
Estas são, de facto, eleições sui generis. Não apenas
pela panóplia inusitada de escolhas, mas pelo momento específico em que se
disputam, pela imprevisibilidade dos resultados e pelo que podem significar
para o nosso futuro colectivo.
Há muitos anos que não tínhamos eleições presidenciais em
Portugal com tantos candidatos. À direita e ao centro, à esquerda e nas
extremas de cada meia-lua do arco político, num excesso que denuncia o estado
pulverizado da nossa democracia e do nosso tempo político. O populismo alastra
pela espuma do discurso público, corroendo a gravitas, o peso
institucional e moral que deveria caracterizar quem se propõe à magistratura
suprema do Estado. Os candidatos fazem-se e desfazem-se à velocidade do
Facebook e do TikTok, como Cotrim demonstrou de forma dramática na sua súbita
ascensão e na provável queda após um escândalo cirurgicamente colocado na recta
final da campanha. Em contrapartida, o flop de Marques Mendes mostra
como a televisão, por si só, já não faz nem desfaz candidatos num oceano de
eleitores submersos nas águas agitadas das redes sociais.
As sondagens, ou melhor, a narrativa minuciosamente
rendilhada da tracking poll da CNN, vão tentando moldar a opinião
pública. Instiga-se um cenário de imprevisibilidade máxima que quase
inviabiliza qualquer prognóstico firme. Se há poucos meses tudo parecia apontar
para uma vitória folgada do Almirante das vacinas, hoje essa certeza
dissipou-se como uma nuvem numa manhã de nevoeiro sobre a praia. O candidato
esforça-se agora por fazer emergir o seu submarino eleitoral, já no limite de
uma cada vez mais difícil passagem à segunda volta. Na dianteira, o único que
parece confortável é, paradoxalmente, André Ventura, que se apresenta na
contradição suprema de se candidatar a ser o garante de um sistema que o
próprio diz querer destruir.
À esquerda, persiste uma espécie de suicídio colectivo,
medrando teimosamente como erva daninha, marcado pela incapacidade de colocar
os interesses do país e da própria esquerda acima dos interesses diminutos de
cada partido. Arrisca-se mesmo a uma auto-implosão caso nenhum dos candidatos
desse campo político consiga chegar à segunda volta, um cenário que não pode
ser totalmente descartado.
No meio deste caos, o único gesto verdadeiramente
importante, ainda que em tom provocatório, veio de Manuel João Vieira, ao
propor a consagração constitucional do direito à felicidade. O que parece uma boutade
encerra, afinal, uma verdade tão simples quanto profunda: a política deveria
existir para melhorar a vida das pessoas. A felicidade, entendida como
bem-estar, dignidade e esperança no futuro, deveria ser o horizonte último de
qualquer Estado democrático. Infelizmente, o nosso tempo parece dominado por
líderes mais interessados em dividir e destruir do que em unir e governar.
É precisamente neste contexto de vendaval político, com a
democracia em risco, que o voto presidencial assume um peso acrescido. A
eleição do Presidente da República não é um exercício de protesto, nem um
espaço para experiências perigosas. É, acima de tudo, um acto de
responsabilidade. Um momento em que importa reconstruir a confiança entre o
povo e o poder, entre os cidadãos e o Estado, reafirmando os valores
fundamentais da Constituição de Abril.
No meio do caos e da demagogia, o voto deve ser um gesto de
serenidade, de compromisso democrático e de sentido de Estado. E, goste-se ou
não, com todas as imperfeições que qualquer escolha comporta, esse voto
responsável só encontra hoje expressão em António José Seguro.


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