Humpty Dumpty
Os resultados da primeira volta das eleições presidenciais
deixam Portugal perante uma escolha obrigatória. André Ventura, o
autoproclamado novo líder da “direita” portuguesa, vê reforçado o seu peso na
política nacional, ainda que, para já, não tenha crescido em número de votos.
Curioso é perceber que este título que Ventura se atribuiu a si próprio é tudo
menos verdadeiro. Ventura, lamento estragar-lhe a festa, não é de direita.
A origem da dicotomia política entre direita e esquerda
remonta à Revolução Francesa, quando os deputados da Assembleia Nacional se
sentavam à direita, monárquicos e conservadores, ou à esquerda, progressistas e
revolucionários. A direita nasce, assim, associada à preservação da ordem
existente, à defesa das instituições e à continuidade do regime. Ora, Ventura
não é conservador. Não lhe interessa manter o status quo, mas antes
dinamitar as bases do regime democrático.
Sob uma falsa capa de católico e homem de família, Ventura
revela-se um populista demagogo cuja proposta política assenta no divisionismo
e numa redefinição profunda do papel do Estado, não como garante de direitos,
mas como instrumento de punição. Por detrás do tão propalado “Limpar Portugal”
esconde-se uma visão do sistema judicial que corta garantias fundamentais e
alarga perigosamente os poderes discricionários do Estado. Prisão perpétua,
castração química, reforço dos poderes policiais, discurso xenófobo e um
objetivo assumido de revisão da Constituição, fazem do Chega não um partido
conservador ou de direita clássica, mas uma força nacionalista de
extrema-direita, com claras inspirações fascistas, à semelhança de vários
congéneres europeus.
Perante este cenário, a escolha já não se coloca entre
esquerda e direita. A escolha é entre a Constituição, a democracia e o Estado
de direito, por um lado, e os seus inimigos, por outro. É neste contexto que se
torna particularmente chocante o posicionamento dos líderes do PSD que, como
Humpty Dumpty em Alice do Outro Lado do Espelho, escolheram sentar-se
confortavelmente num muro, convencidos de que a queda só acontece aos outros.
Humpty Dumpty não é apenas a figura da indecisão ingénua. É
o símbolo da falsa neutralidade, da soberba de quem acredita poder dominar as
regras do jogo e redefinir o significado das palavras conforme a conveniência.
Sentado no muro, julga-se acima do conflito, mas o muro não é neutro, é
instável. E a queda não é um acidente, é a consequência inevitável dessa
equidistância.
Este lavar de mãos protagonizado por Luís Montenegro e José
Manuel Bolieiro, num contexto de crescimento particularmente preocupante do
Chega, sobretudo na ilha de São Miguel, não é prudência nem sentido de Estado.
É cumplicidade passiva. O PSD atual mostra-se disposto a arriscar a preservação
da democracia em troca de ganhos estratégicos de curto prazo e de mais alguns
meses no poder. Ao recusarem escolher, escolhem legitimar. E, como no livro,
quando a queda acontecer, não haverá exércitos suficientes para recompor o que
se partiu.
Por contraste, António José Seguro surge como o candidato da
razoabilidade e da defesa intransigente dos princípios essenciais do Estado de
direito democrático. Este é um momento em que não pode haver dúvidas,
ambiguidades ou distanciamentos táticos. É pela defesa dos valores da
liberdade, da igualdade e da democracia que se disputa esta segunda volta,
sabendo-se agora que uma parte significativa da direita democrática optou por
não fazer parte desta luta.
O Café Royal fez 100 anos.
Um século não apenas contado em datas, mas em permanência, resistência e
encontro, memória viva desta cidade. Como os cafés que ajudaram a pensar a
Europa, foi e continua a ser lugar de ideias, debates e comunidade. Por ali
passaram vozes diversas, do povo às elites, de artistas a autonomistas. Um
abraço grato ao Sr. José Maria e à sua equipa por manterem viva, todos os dias,
a identidade e a alma de Ponta Delgada.


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