quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Speakers' Corner 68

Humpty Dumpty

Os resultados da primeira volta das eleições presidenciais deixam Portugal perante uma escolha obrigatória. André Ventura, o autoproclamado novo líder da “direita” portuguesa, vê reforçado o seu peso na política nacional, ainda que, para já, não tenha crescido em número de votos. Curioso é perceber que este título que Ventura se atribuiu a si próprio é tudo menos verdadeiro. Ventura, lamento estragar-lhe a festa, não é de direita.

A origem da dicotomia política entre direita e esquerda remonta à Revolução Francesa, quando os deputados da Assembleia Nacional se sentavam à direita, monárquicos e conservadores, ou à esquerda, progressistas e revolucionários. A direita nasce, assim, associada à preservação da ordem existente, à defesa das instituições e à continuidade do regime. Ora, Ventura não é conservador. Não lhe interessa manter o status quo, mas antes dinamitar as bases do regime democrático.

Sob uma falsa capa de católico e homem de família, Ventura revela-se um populista demagogo cuja proposta política assenta no divisionismo e numa redefinição profunda do papel do Estado, não como garante de direitos, mas como instrumento de punição. Por detrás do tão propalado “Limpar Portugal” esconde-se uma visão do sistema judicial que corta garantias fundamentais e alarga perigosamente os poderes discricionários do Estado. Prisão perpétua, castração química, reforço dos poderes policiais, discurso xenófobo e um objetivo assumido de revisão da Constituição, fazem do Chega não um partido conservador ou de direita clássica, mas uma força nacionalista de extrema-direita, com claras inspirações fascistas, à semelhança de vários congéneres europeus.

Perante este cenário, a escolha já não se coloca entre esquerda e direita. A escolha é entre a Constituição, a democracia e o Estado de direito, por um lado, e os seus inimigos, por outro. É neste contexto que se torna particularmente chocante o posicionamento dos líderes do PSD que, como Humpty Dumpty em Alice do Outro Lado do Espelho, escolheram sentar-se confortavelmente num muro, convencidos de que a queda só acontece aos outros.

Humpty Dumpty não é apenas a figura da indecisão ingénua. É o símbolo da falsa neutralidade, da soberba de quem acredita poder dominar as regras do jogo e redefinir o significado das palavras conforme a conveniência. Sentado no muro, julga-se acima do conflito, mas o muro não é neutro, é instável. E a queda não é um acidente, é a consequência inevitável dessa equidistância.

Este lavar de mãos protagonizado por Luís Montenegro e José Manuel Bolieiro, num contexto de crescimento particularmente preocupante do Chega, sobretudo na ilha de São Miguel, não é prudência nem sentido de Estado. É cumplicidade passiva. O PSD atual mostra-se disposto a arriscar a preservação da democracia em troca de ganhos estratégicos de curto prazo e de mais alguns meses no poder. Ao recusarem escolher, escolhem legitimar. E, como no livro, quando a queda acontecer, não haverá exércitos suficientes para recompor o que se partiu.

Por contraste, António José Seguro surge como o candidato da razoabilidade e da defesa intransigente dos princípios essenciais do Estado de direito democrático. Este é um momento em que não pode haver dúvidas, ambiguidades ou distanciamentos táticos. É pela defesa dos valores da liberdade, da igualdade e da democracia que se disputa esta segunda volta, sabendo-se agora que uma parte significativa da direita democrática optou por não fazer parte desta luta.

O Café Royal fez 100 anos.

Um século não apenas contado em datas, mas em permanência, resistência e encontro, memória viva desta cidade. Como os cafés que ajudaram a pensar a Europa, foi e continua a ser lugar de ideias, debates e comunidade. Por ali passaram vozes diversas, do povo às elites, de artistas a autonomistas. Um abraço grato ao Sr. José Maria e à sua equipa por manterem viva, todos os dias, a identidade e a alma de Ponta Delgada.

 

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