quarta-feira, 8 de julho de 2026

Speakers' Corner 92

A ideia de América

No último sábado, os Estados Unidos da América celebraram o 250.º aniversário da Declaração de Independência. Mais do que um marco histórico ou uma celebração identitária, o 4th of July, particularmente num aniversário tão simbólico como este, é um convite a refletir sobre aquilo a que se usou chamar a ideia de América.

Desde tempos imemoriais, alimentado por lendas e mitos atlânticos, o Ocidente foi imaginado como a Terra Prometida. A chegada dos primeiros colonos à América consolidou essa visão de um território de oportunidades e abundância, uma narrativa renovada ao longo dos séculos nas lutas dos Founding Fathers, na conquista do Oeste, na corrida ao ouro e na land of opportunity de sucessivas gerações de emigrantes que ali encontraram a terra dos sonhos e, para alguns, da prosperidade. Poucas imagens traduzem melhor esse imaginário do que a voz de Frank Sinatra cantando If you can make it there, you'll make it anywhere, em New York, New York. A cidade que nunca dorme, juntamente com o grande Oeste americano, permanece, ainda hoje, como símbolo maior dessa promessa de liberdade e oportunidade para todos.

O historiador Daniel J. Boorstin descreveu a América como uma nação onde tudo parecia possível, uma terra do inesperado, da descoberta e da esperança. Talvez essa tenha sido a maior herança política dos EUA: a convicção de que a liberdade individual constitui a condição essencial para construir uma vida melhor e de que o papel da comunidade e do Estado é, antes de mais, protegê-la.

Os princípios inscritos na Declaração de Independência, na Constituição e, em particular, na Bill of Rights, três dos mais influentes documentos da tradição política ocidental, assentam na ideia de We the People. Limitam o poder do Estado, estabelecem o equilíbrio entre poderes e consagram liberdades fundamentais como a liberdade de expressão, de religião, de imprensa e de reunião, bem como o direito a um julgamento justo e à proteção contra os abusos da autoridade.

As palavras de Thomas Jefferson inscritas na Declaração de Independência permanecem entre as mais poderosas da história política moderna: "Consideramos estas verdades evidentes por si mesmas: que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo seu Criador de certos direitos inalienáveis, entre os quais a Vida, a Liberdade e a procura da Felicidade." Nelas afirma-se uma profunda mudança civilizacional face ao Antigo Regime, colocando a dignidade da pessoa humana no centro da organização política da comunidade, do Estado e da Lei.

Apesar das suas profundas contradições ao longo destes duzentos e cinquenta anos, marcadas pela escravatura, pelo genocídio dos povos nativos, pelas tentações imperialistas e pelas desigualdades de uma sociedade moldada pelas tensões do capitalismo, a América continua, mesmo num tempo de populismos e nacionalismos, a representar a land of the free. O American Dream, esse El Dorado possível, continua a alimentar a esperança e a ambição de milhões de pessoas em todo o mundo.

Para nós, açorianos, mais do que a décima ilha, a América representa uma existência repartida entre dois continentes, entre as margens de um oceano de esperança onde o Velho e o Novo Mundo se encontram. Dos irmãos Corte-Real ao novo ou velho emigrante açoriano de hoje, a América permanece não apenas como um lugar, mas como uma ideia: a de que existe sempre uma nova fronteira por descobrir e um futuro melhor para construir.

Talvez seja esse o seu maior legado. Recordar-nos que um povo só é verdadeiramente livre enquanto conservar essa capacidade de sonhar. Porque sonhar é desafiar os limites do presente e acreditar na possibilidade de um futuro melhor. Enquanto existir essa liberdade de sonhar, haverá sempre um caminho por abrir, um oceano por atravessar ou uma esperança por cumprir. No fim, são os sonhos que nos tornam livres. E talvez seja essa liberdade o que, de alguma forma, nos torna únicos e imortais.

 

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Speakers' Corner 91

A Outra Face da Autonomia

Na última sexta-feira, a Assembleia da República assinalou, numa sessão solene, o cinquentenário das primeiras eleições regionais e da instalação dos parlamentos dos Açores e da Madeira. Numa cerimónia marcada pela conspícua ausência do Primeiro-Ministro, os discursos oscilaram entre a exaltação das conquistas alcançadas e a já habitual reafirmação da necessidade de um maior apoio financeiro da República às ilhas.

Também António Vitorino, convidado a discursar no Salão Nobre da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, salientou a justiça dessa solidariedade nacional, reforçando a ideia, repetidamente evocada por José Manuel Bolieiro, de um devido "tributo da República" para com os arquipélagos.

Ao mesmo tempo, um episódio aparentemente secundário acabou por revelar muito sobre o atual momento político e sobre os seus protagonistas. Enquanto Miguel Albuquerque abandonou a presidência da Mesa do Congresso do PSD, alegando explicitamente o insuficiente compromisso da direção nacional com as autonomias, José Manuel Bolieiro aceitou, sem pejo, o convite de Montenegro para desempenhar esse cargo. O que, para um, constituiu uma questão de verticalidade autonómica, para o outro traduziu-se num exercício de maleabilidade política. Mais do que uma falha de lealdade de Bolieiro para com Albuquerque, para com a Madeira ou para com a defesa conjunta do projeto autonómico, o episódio demonstra como a causa da autonomia continua, demasiadas vezes, subordinada às conveniências pessoais e partidárias dos seus protagonistas.

Para lá dos discursos e das estratégias, há uma ideia de fundo que sobressai ao cabo de meio século de autonomia e das respetivas celebrações: a de que existe uma obrigação permanente da República de financiar o desenvolvimento das regiões autónomas, como se a solidariedade nacional fosse um direito adquirido, inesgotável e incondicional.

Por mais legítimas que sejam estas reivindicações, há uma outra face da autonomia de que ninguém parece querer falar: a da corresponsabilidade. Solidariedade nacional e responsabilidade insular são os dois pilares fundamentais do projeto autonómico. Uma reconhece os custos permanentes da insularidade; a outra exige que a Região governe os seus destinos com rigor, eficiência e visão estratégica.

O discurso político permanece excessivamente concentrado naquilo que a República deve aos Açores e muito menos naquilo que os Açores devem a si próprios. Continuamos a discutir transferências financeiras, mas evitamos debater a produtividade, a competitividade, a simplificação e modernização administrativa, a eficiência dos serviços públicos ou a sustentabilidade da dívida regional. É sempre mais fácil reclamar novos recursos do que reformar a forma como utilizamos os que já temos.

Celebramos estradas, portos, aeroportos e hospitais, mas raramente debatemos quem pagará a sua manutenção nas próximas décadas. Evitamos discutir o inverno demográfico, a reorganização inevitável dos serviços públicos, a complementaridade entre ilhas ou a necessidade de fazer escolhas difíceis num território com recursos limitados e persistentes bolsas de pobreza.

Passamos demasiado tempo enredados em bairrismos, olhando para os nossos umbigos, ou em reivindicações pecuniárias, em vez de olharmos para os Açores sem o conforto da retórica sobre uma alegada centralidade atlântica, que não passa de um acaso geográfico, enfrentando antes as nossas fragilidades na educação, na produtividade, na demografia, na coesão territorial e na criação de riqueza.

A autonomia nasceu para substituir a tutela política de Lisboa, não para institucionalizar uma dependência financeira permanente. Só uma Região que se governe com exigência, rigor e visão estratégica poderá reclamar, com inteira legitimidade, a solidariedade nacional e o respeito político da República.

Caso contrário, continuaremos a levantar a voz para reclamar mais autonomia, enquanto estendemos a mão para que alguém continue a pagar a conta.

 

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Speakers' Corner 90

O Excel da Vida

O esternocleidomastóideo é um músculo do pescoço que une o esterno e a clavícula ao mastoide do osso temporal, sendo a sua contratura muitas vezes responsável pelo vulgar torcicolo. O nome ganhou uma inusitada fama no contexto nacional através de uma célebre cena do clássico do cinema português A Canção de Lisboa, realizado em 1933 por Cotinelli Telmo, na qual Vasco Santana, no papel do boémio Vasquinho, o refere como resposta decisiva no seu exame oral de Anatomia.

O filme conta a história de Vasco Leitão, estudante de Medicina em Lisboa, sustentado pela mesada das tias de Trás-os-Montes que o julgam um aluno exemplar, ignorando a sua predileção pelo fado e pela bela Alice, interpretada por Beatriz Costa. Por detrás desta singela história de amor esconde-se uma narrativa sobre as expectativas sociais e sobre o papel do ensino enquanto mecanismo de validação individual. O exame de Medicina surge quase como um julgamento final sobre o carácter e o valor do protagonista.

Com efeito, as sociedades modernas transformaram o ensino e, em particular, a avaliação das aprendizagens numa obsessão avaliativa. Criámos uma cultura de números, métricas e rankings. As aulas tornaram-se fórmulas; os professores, aplicadores de critérios; e o ato de ensinar foi progressivamente substituído pela catalogação de desempenhos. Vidas inteiras são julgadas a partir de momentos fugazes que deveriam ser apenas uma pequena parte de um percurso muito mais vasto.

Ainda na semana passada, o Público noticiava como o novo sistema de correção dos exames nacionais mobilizou mais de cinco mil agentes da PSP e da GNR para a recolha e transporte das provas destinadas à digitalização na Casa da Moeda. A notícia é simbolicamente reveladora da forma como o ensino foi capturado por uma lógica de vigilância e controlo quase judiciária.

Mas o problema não reside apenas nos exames. A escola tornou-se o primeiro ensaio de uma cultura mais vasta de quantificação permanente. Habituamo-nos a traduzir o valor humano em classificações, médias e percentagens. Aprendemos que tudo deve ser medido, ordenado e compartimentado. Mais tarde, as notas dão lugar aos indicadores de produtividade, às avaliações de desempenho e aos índices de crescimento. Transformamos pessoas em números e percursos de vida em equações de folhas de cálculo.

A obsessão avaliativa que domina o ensino é apenas o reflexo de uma sociedade que desconfia de tudo aquilo que não consegue medir. A criatividade, a imaginação, a amizade, a curiosidade intelectual ou a felicidade são realidades difíceis de quantificar e, por isso mesmo, acabam frequentemente remetidas para segundo plano perante a tirania dos indicadores. Aquilo que deveria ser um processo contínuo de aprendizagem transforma-se, demasiadas vezes, num juízo final de contornos quase bíblicos.

Noutra cena do filme, o jovem Vasco percorre as ruas de Lisboa cantarolando o célebre Fado do Estudante, que tantas vezes cantei também, ao lado do meu amigo Rodrigo Carmona, pelas ruas da cidade a altas horas da madrugada. «Que negra sina ver-me assim, / que sorte vil degradante! / Oh, que saudade eu sinto em mim / do meu viver de estudante.» No final, é o fado que salva Vasco, conduzindo-o à conclusão do curso de Medicina. Não por acaso, a canção termina com o verso: «E eis a razão de eu ser Doutor e ser Fadista».

Essa idade de ouro das nossas vidas, tempo de formação, descoberta e construção da identidade, quando todas as possibilidades do mundo parecem caber na promessa de uma alvorada, vai soçobrando ao peso de uma existência crescentemente avaliada, medida e contabilizada. A liberdade dos sonhos dá lugar à disciplina dos indicadores; a aventura da descoberta, à obrigação do desempenho. E, de exame em exame, chegamos ao mundo adulto, onde tudo parece caber numa tabela de escolha múltipla, como se a riqueza da experiência humana, orgânica e contraditória, pudesse ser reduzida à contabilidade mecânica do Excel da vida.

 

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Speakers' Corner 89

A Autonomia do Deixa-Andar

Nestes 50 anos de Autonomia, a política regional tornou-se especialista na arte do deixa-andar. Durante décadas fomos construindo e aprimorando uma classe dirigente que se tornou mestre a apascentar-se na pastagem dos ciclos eleitorais, especializando-se sobretudo em gerir a sua própria continuidade no poder. Governa-se sem arriscar e sem a coragem de contrariar interesses instalados que possam comprometer o objetivo maior da reeleição. O resultado é uma região rica em recursos naturais e potencial económico, mas que continua incapaz de consensualizar um modelo de desenvolvimento integrado para o seu território.

Os Açores vivem num permanente exercício de fragmentação. A gestão do litoral raramente considera o que acontece nas bacias hidrográficas que lhe estão a montante ou nas zonas urbanas que o rodeiam. O turismo é planeado como se a agropecuária não existisse. A agropecuária impõe-se ignorando os impactos que pode exercer sobre os recursos naturais que a sustentam e a outras atividades. Os residentes observam o mar como cenário de postal ilustrado, enquanto milhares de visitantes o procuram como destino de recreio. Um mesmo território, várias realidades estanques. E já nem falo da doença do bairrismo agudo.

As zonas balneares são, talvez, o exemplo mais evidente desta falha estrutural. Criámos um destino que se promove à custa da sua imagem associada ao mar, às paisagens costeiras e à qualidade ambiental. No entanto, continuamos a assistir, verão após verão, ao encerramento de zonas balneares devido a contaminações microbiológicas ou outros problemas de qualidade da água. Como aconteceu ainda esta semana nos Mosteiros, mal iniciada a época balnear. Como se a costa fosse um cenário montado apenas para a época alta, com o hastear pomposo de bandeiras pagas, e não um ecossistema vivo, a carecer de planeamento e sustentado por decisões tomadas muito para além das ondas.

Quando uma linha de água transporta sedimentos, matéria orgânica ou contaminantes até ao oceano, o problema não está na água. Está na ocupação do território, na ausência de planeamento, na insuficiência das infraestruturas, na degradação das ribeiras ou na incapacidade de compatibilizar atividades económicas legítimas com a proteção dos recursos naturais. O mar apenas paga a fatura daquilo que acontece em terra, como a Praia do Monte Verde tem demonstrado repetidamente.

Da mesma forma, o Ilhéu de Vila Franca do Campo revela outra dimensão da mesma incapacidade: um recurso natural único, de enorme valor ecológico e turístico, permanentemente sujeito a debates sobre capacidade de carga, acessibilidade, conservação e exploração, sem que se assumam responsabilidades nem se apliquem soluções.

Quando a única prioridade é garantir a continuidade no poder, evitam-se decisões complexas, difíceis ou impopulares. E a governação transforma-se numa sucessão de remendos destinados apenas a esconder os males e sobreviver ao próximo ciclo eleitoral.

Sucedem-se governos, mudam-se secretários e diretores regionais, trocam-se autarcas, inauguram-se obras, anunciam-se planos e produzem-se relatórios, quase sempre embrulhados no papel colorido das promessas eleitorais. Mas continua a faltar aquilo que verdadeiramente importa: uma visão integrada do território, onde o mar, a agricultura, o ambiente, o turismo e as comunidades locais deixem de ser meros chavões para passarem a ser partes da mesma equação estratégica para o futuro da região.

Talvez o maior fracasso destes 50 anos de Autonomia não seja a falta de recursos financeiros nem a escassez de oportunidades. Mas termos permitido que a gestão do arquipélago se transformasse num permanente deixa-andar, onde o principal objetivo não é preparar o futuro nem melhorar a vida das pessoas, mas apenas garantir a próxima colheita de votos.

A autonomia que nasceu como forma de autogoverno tornou-se numa elaborada e dispendiosa forma de desgoverno.

 

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Speakers' Corner 88

Dia de Portugal e das suas Ilhas

Celebra-se hoje, nessa "mui nobre, leal e sempre constante" Angra do Heroísmo, o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. A data que já foi o Dia da Raça e, antes disso, bandeira republicana contra a monarquia pela mão do nosso muito ponta-delgadense Teófilo Braga, chega-nos agora envolta no manto da língua, da diáspora e de uma certa portugalidade consensual, suficientemente despojada de chavões identitários para não incomodar ninguém.

Este ano, as celebrações acontecem em Angra, mais precisamente no Cerrado do Bailão, vindas diretamente do Grão-Ducado do Luxemburgo, onde mais uma vez se homenageou essa diáspora portuguesa feita de sangue, suor e lágrimas, malas de cartão e magnatas da construção. A escolha foi justificada oficialmente pelos cinquenta anos das autonomias regionais. E creio tratar-se de uma escolha feliz. Não apenas pela beleza da cidade ou pela sua relevância histórica, mas porque oferece ao país uma oportunidade rara para refletir coletivamente sobre o que significam, afinal, cinco décadas de autogoverno democrático nas ilhas e sobre aquilo que estas acrescentam ao todo nacional.

Pondo de lado as pequenas polémicas protocolares e as inevitáveis suscetibilidades institucionais, que talvez se resolvessem com uma simples não comparência, tudo isso faz parte do folclore da ocasião e rapidamente será esquecido. Mais interessante será perguntar o que é efetivamente a Autonomia, como nos conduziu até aqui e que contributo trouxe à própria ideia de Portugal.

A Presidência da República justifica que a celebração nos Açores pretende sublinhar a "importância histórica, política e cultural das regiões autónomas na construção de um Portugal mais coeso, plural e solidário". Ora, se assim é, importa reconhecer que a Autonomia acrescentou horizonte e dimensão ao país. Tornou-o mais plural, mais democrático e mais capaz de assumir a sua intrínseca vocação atlântica.

Cinco décadas depois, os Açores já não são uma ameaça à unidade nacional, nem um problema político por resolver. São uma região que se governa democraticamente, administra uma parte significativa dos seus destinos e desenvolveu uma identidade política própria sem deixar de se reconhecer plenamente em Portugal.

As autonomias regionais constituem hoje uma das mais bem-sucedidas experiências, talvez a única verdadeiramente consequente, de descentralização política da democracia portuguesa. E, no entanto, persistem equívocos, de parte a parte, sobre o alcance desse autogoverno.

É precisamente por isso que importa colocar uma questão simples: se a Autonomia faz cinquenta anos e é amplamente reconhecida como uma conquista, porque continua o Estado português a comportar-se como se precisasse de manter um tutor constitucional nas ilhas?

A figura do Representante da República, independentemente de quem lhe envergue o título, permanece como uma relíquia de um tempo em que Lisboa olhava para as autonomias com a cautela e a desconfiança próprias de um vigilante de jardim-escola. Se as autonomias são suficientemente maduras para legislar, governar, administrar recursos públicos, representar os seus cidadãos e participar plenamente na vida democrática nacional, então talvez sejam também suficientemente maduras para dispensar tutelas simbólicas herdadas de uma longa tradição centralista e assumir maiores responsabilidades sobre os espaços que lhes dão razão de ser, nomeadamente o mar.

Celebrar o Dia de Portugal e os cinquenta anos da Autonomia deveria significar precisamente isso: reconhecer que o autogoverno regional fortaleceu a unidade nacional e que são também as ilhas que ampliam Portugal no mundo.

Porque, se é nobre uma nação que se celebra na figura de um poeta, maior ainda poderá ser aquela que se reconhece para além das fronteiras fixas do seu território continental, assume plenamente a sua dimensão atlântica e se abre ao mundo através do horizonte das suas ilhas e do mar que as une.

 

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Speakers' Corner 87

Entre Nevoeiros

Há semanas em que o cronista se depara com a angústia deserta da página em branco. Noutras, a torrente de factos é tal que a verdadeira dificuldade está em escolher por onde deixar cair a pena.

Na política regional, a novela prossegue excitante. Entrevistas e contraentrevistas alimentam parangonas. Esgrimem-se argumentos para todos os gostos, desde os que passam certidão de óbito à coligação aos que, marinando nela, ainda lhe auguram um futuro auspicioso. Na Roma antiga dizia-se que morrem novos aqueles que os deuses amam. Por cá, parece que os próprios protagonistas ainda não perceberam que são já cadáveres políticos, incapazes de regressar à vida por mais sopas do Espírito Santo que lhes sirvam.

Por seu lado, o líder da oposição, sem afastar totalmente o namoro centrista, ensaia um argumento formalista para justificar o receio de eleições. Uma coisa é controlar o próprio partido; outra, bem mais complexa, é enfrentar a imprevisibilidade do voto popular. Invocam-se a Constituição, os avisos do Presidente da República e os da sua enviada local para defender uma espécie de entente parlamentar, em vez de devolver a palavra ao povo.

O que mais espanta neste juridiquês político falacioso é a incapacidade de perceber o dano que causa à própria democracia. O medo do CHEGA, ou o medo de perder o próprio lugar, parece sobrepor-se à evidência de que, num momento em que a desconfiança dos cidadãos em relação à política é tão profunda, recusar o voto popular para resolver uma crise política apenas agravaria esse descrédito. E quanto maior o descrédito, mais fértil o terreno para o populismo que dizem combater.

É como se o nevoeiro que se abateu sobre as ilhas tivesse também descido sobre o discernimento dos protagonistas do teatro político. Um manto espesso e opressivo, produzido tanto pelas condições atmosféricas como pelo excesso de tática e pela falta de sentido de serviço público.

A névoa prolonga-se, aliás, como metáfora viva da nossa condição coletiva. Aviões permanecem em terra ou sobrevoam as ilhas em círculos, incapazes de aterrar. Acumulam-se passageiros sem destino nem lugar onde dormir. Tudo se suspende. Uma espécie de cataclismo em forma de vapor que entorpece os corpos e obscurece a visão, até que tudo se torna baço, inclusive nós próprios.

Talvez essa lassidão ajude a explicar o editorial de sábado do Diário Insular, onde, com desarmante naturalidade, foi revelado que informação técnica relevante sobre o risco vulcânico de Santa Bárbara terá sido deliberadamente omitida às populações, não apenas por departamentos governamentais, mas também pelo próprio jornal. Se assim foi, estamos perante uma grave omissão e uma afronta aos princípios mais elementares da deontologia jornalística.

Mas, num país onde a democracia parece padecer de uma doença lenta e degenerativa, à autocensura jornalística, mais perigosa do que muitas falsas notícias, junta-se uma chaga judicial que ameaça corroer a confiança pública. Depois de uma carta dirigida ao Presidente da República, o juiz Ivo Rosa descreveu, em entrevista, situações de verdadeira perseguição por parte do Ministério Público que deveriam provocar um sobressalto cívico generalizado. Mas já nem isso parece capaz de romper o nevoeiro que nos entorpece.

Também no sábado, Ponta Delgada recebeu a célebre peça Catarina ou a Beleza de Matar Fascistas. O que mais impressiona não é o dilema do conhecido paradoxo da tolerância de Popper. É, antes, a forma como o dispositivo cénico transforma o público em ator. A certa altura, deixa de ser o palco o lugar da intolerância e passa a ser a plateia o seu espelho. Nessa desconfortável inversão, percebemos que a fronteira entre democracia e autoritarismo é, afinal, muito mais frágil do que gostamos de admitir.

Talvez seja esse o maior paradoxo. Enquanto discutimos quem ameaça a democracia, esquecemo-nos de que ela raramente morre de um tiro. Morre lentamente e sem estrondo, como um nevoeiro.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Speakers' Corner 86

Congresso da Autonomia

“Nadar sem braçadeiras.” A resposta, desarmante e com essa acutilância própria da infância, foi dada por um aluno da Escola Novas Rotas a Luís Banrezes, uma das caras do Festival Tremor, um dos mais significativos produtos de exportação não extrativa da região, à pergunta: “o que é a autonomia?”

E a resposta não podia ser mais certeira. Autonomia é o contrário da dependência, seja para pensar, sonhar, agir, escolher, nadar sem braçadeiras ou voar rumo a um futuro melhor. Autonomia é essa maturidade; é liberdade para decidir o rumo da própria vida ou, neste caso específico, o rumo de uma região que se diz autónoma.

No passado sábado, em vésperas do “Dia da Pombinha”, decorreu, na Biblioteca Pública de Ponta Delgada, o Congresso da Autonomia. Um encontro que tive o prazer e a honra de coorganizar com os meus camaradas Nuno Tomé e José San-Bento, no âmbito da iniciativa Compromisso com os Açores. Num intenso dia de reflexão e debate, um vasto conjunto de personalidades oriundas de diferentes ilhas, formações e experiências debateu, juntamente com um público interessado e participativo, os Açores e a sua condição geográfica, social e política, procurando alcançar a sua essência e, acima de tudo, lançar pontes para um futuro melhor para as próximas gerações.

O objetivo deste encontro foi agitar o tão típico marasmo insular, que tantas vezes cobre a opinião livre e o debate franco de ideias como um nevoeiro baixo e espesso que se cola à pele e ao espírito dos açorianos. Longe dos espartilhos institucionais ou ideológicos, e contra todo o tipo de bairrismos ou unanimismos, as opiniões e propostas expressas no Congresso revelaram que é possível pensar os Açores de forma audaciosa, com ambição e projeto e, ao mesmo tempo, de forma abnegada e altruísta.

Melhores salários, maior aposta na ciência e maior capacidade de intervenção nas esferas de decisão nacionais. Aposta na complementaridade e na valorização das potencialidades endógenas e especificidades de cada ilha. Infraestruturas capazes, funcionais, racionais e complementares no contexto arquipelágico. Correto aproveitamento dos fundos disponíveis e investimentos públicos reprodutivos, capazes de alavancar o dinamismo e o potencial exportador do setor privado, mesmo em áreas não imediatamente óbvias, como a cultura ou nichos específicos do setor primário com produtos de maior valor acrescentado, competindo na qualidade em vez da quantidade. Repensar a estrutura do poder, apostando mais no municipalismo e na especialização, potenciando o mercado interno. Promover a criatividade e a diversificação para reter talento, sem que isso signifique a “consanguinidade de ideias”. Ao mesmo tempo, capacitar a região com recursos humanos e inteligência prospetiva que permitam melhores investimentos. Revisão da lei eleitoral, redução do número de deputados e de cargos governativos e uma urgente reforma da Lei das Finanças Regionais.

Estas foram algumas das sugestões deixadas no Congresso da Autonomia pelos mais de 17 especialistas intervenientes, a quem publicamente gostaria de agradecer pela riqueza e pertinência dos seus contributos. Só com políticas públicas robustas, sustentadas no conhecimento e no planeamento, poderemos vencer os desafios do futuro, seja na fixação dos jovens, no combate ao inverno demográfico, na transformação digital ou na ameaça das alterações climáticas.

Não basta fazer discursos de mão estendida. É preciso pensamento, diálogo e ação para legar às novas gerações um futuro de prosperidade em todas as ilhas.

Por último, uma palavra de apreço para o Dr. Mota Amaral, Pedro Nascimento Cabral e Cláudio Almeida que, numa demonstração superior de fair play ideológico, nos honraram com a sua presença. Ao contrário, diga-se, de todas as outras entidades públicas e partidos que, de forma ostensiva e, em alguns casos, deliberada, se fizeram notar pela ausência. A “humildade democrática” prova-se nos gestos, e não nas palavras.

 

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Congresso da Autonomia - Discurso de Abertura


Congresso da Autonomia

Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada

23 de maio de 2026

Discurso de Abertura

Muito bom dia a todos. Senhoras e Senhores, entidades presentes, caros convidados. Quero começar por agradecer a presença de todos neste Congresso da Autonomia, neste dia cinzento, de bruma pesada, que nos faz sentir no corpo o verdadeiro sentido da vida insular atlântica.

Permitam-me primeiro uma palavra de agradecimento muito especial a todos os participantes nos diferentes painéis, pela vossa disponibilidade, colaboração e vontade de contribuir para esta reflexão coletiva.

À Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, por acolher graciosamente esta iniciativa.

À comunicação social aqui presente. E à não presente. Num tempo em que a informação é tantas vezes polarizada, fragmentada e dúbia, é essencial uma imprensa livre e corajosa, capaz de se afirmar sem tibiezas como testemunha crítica da sociedade e não apenas como amplificador de interesses instalados ou refém de contingências políticas e financeiras. É assim que se constroem comunidades mais conscientes, mais saudáveis e mais duradouras.

E, sobretudo, um agradecimento sentido, a todos os que, numa demonstração viva de participação democrática e cidadã, decidiram dedicar este sábado, ou uma parte dele, a ajudar-nos a pensar os Açores. Porque esse é, no fundo, o objetivo primordial deste encontro: pensar os Açores.

Mais do que uma celebração ou um simples assinalar de uma efeméride, este Congresso pretende ser um exercício de cidadania. Um espaço de participação cívica, de debate livre de ideias e de reflexão aberta e plural sobre o passado, o presente e o futuro da Região Autónoma dos Açores, no momento em que assinalamos o cinquentenário dessa grande conquista constitucional de Abril que foi a autonomia política e administrativa açoriana.

Pensar os Açores sem slogans fáceis nem ruído excessivo. Sem o imediatismo pueril que tantas vezes domina o debate público. Pensá-los com tempo, profundidade, espírito crítico e sentido de responsabilidade.

Os Açores não são uma entidade abstrata para uso burocrático, nem uma ideia romântica para uso poético. São a união de nove realidades distintas, que se encontram num mesmo ponto de origem, de destino e de pertença comum.

Celebramos este ano cinquenta anos da autonomia política e administrativa dos Açores. Cinquenta anos. E se me permitem uma nota pessoal, este cinquentenário coincide sensivelmente com a minha idade. Nasci nesse ano inaugural de mudança e esperança que foi 1974.

E, por si só, esta é uma data demasiado importante para se resumir a cerimónias protocolares, discursos de circunstância ou comemorações institucionais. Merece reflexão. Merece debate. Merece, acima de tudo, a participação dos açorianos.

Porque a autonomia não é apenas um modelo administrativo ou uma conquista constitucional. A autonomia é uma construção coletiva. É uma porta aberta para o futuro.

E é, até hoje, para adaptar uma citação famosa, a pior forma que os açorianos encontraram para se governarem a si próprios, à exceção de todas as outras.

Foi através dela que os Açores conquistaram capacidade de decisão, afirmaram a sua identidade e passaram a poder definir, com maior liberdade, o seu caminho no contexto nacional, europeu e atlântico.

Mas sabemos também que nenhuma conquista política vive apenas do passado. A autonomia não pode ser apenas memória. Tem de ser capacidade de ação. Capacidade de responder aos desafios do presente e de preparar o futuro.

E os desafios que hoje se colocam aos Açores são exigentes.

Vivemos num mundo em rápida transformação: marcado pela instabilidade económica, pelas alterações climáticas, pelas mudanças tecnológicas, pelas pressões demográficas e pelo desgaste crescente das democracias, da vida política e, de certa maneira, da vida pública em geral, com as pessoas a distanciarem-se cada dia cada vez mais da coisa pública, do bem comum e da vida das comunidades.

Os Açores não estão isolados desse mundo. Nem estão à margem dessas mudanças. Sentimo-las na economia, nos transportes, na saúde, na habitação, na dificuldade em fixar os jovens, no envelhecimento da população e nas desigualdades sociais. E sentimo-las também, muitas vezes, na forma como nos relacionamos uns com os outros e como olhamos para o interesse coletivo. Presos em nove insularidades distintas, tantas vezes dezanove. Ou, como dizia um amigo meu, com um Espírito Santo que mal olha para o Espírito Santo do lado.

Por isso, este congresso não foi pensado para produzir consensos artificiais. Nem para alimentar bairrismos, trincheiras políticas ou ambições pessoais. Foi pensado para criar espaço para um debate sério, franco, aberto e plural sobre aquilo que somos e, sobretudo, sobre aquilo que queremos ser.

Ao longo do dia teremos cinco painéis dedicados a diferentes dimensões da autonomia — humana, competitiva, produtiva, sustentável e futura.

E escolhemos, para participar destes cinco painéis, deliberadamente pessoas com origens, percursos, experiências e sensibilidades diferentes. Porque acreditamos que uma autonomia forte não se constrói no pensamento único nem no unanimismo estéril.

Constrói-se na diversidade, na capacidade de ouvir e no confronto democrático de ideias. Constrói-se, também, na própria multiplicidade das nossas nove identidades insulares, que serão sempre mais fortes quanto maior for a sua união e o seu Compromisso com os Açores.

Também quisemos que este congresso fosse uma iniciativa da sociedade civil. Num tempo em que tantas vezes esperamos que tudo venha das instituições, pareceu-nos importante devolver este debate aos cidadãos. Porque a autonomia pertence a todos. Não pertence a um partido, a um governo, nem tampouco a uma geração.

Pertence aos açorianos. Aos de agora e, sobretudo, aos de amanhã, aqueles para quem devemos direcionar as nossas maiores ambições e esperanças.

Pertence aos que cá vivem. Aos que partiram. Aos que querem ficar e aos que sonham voltar. Aos que nasceram nestas ilhas e também aos que, vindos de outras geografias, escolheram os Açores para morar.

E pertence a todos os que continuam a acreditar que é possível construir um futuro melhor para esta terra e para quem nela faz, dia após dia, a sua vida.

Gostaria também de deixar uma nota importante.

Falar do futuro dos Açores exige ambição. Mas exige igualmente maturidade. Nem o pessimismo permanente, que tantas vezes nos consome, nem o triunfalismo acrítico nos ajudam.

Precisamos de olhar para os problemas e para os desafios que temos diante de nós com frontalidade e realismo, mas também com confiança na nossa capacidade coletiva para os resolver.

E isso implica, por vezes, saber dizer que não.

Implica fazer escolhas com critérios racionais, com equidade entre ilhas e com sentido de responsabilidade, pensando no futuro coletivo e não apenas em interesses parcelares, setoriais ou puramente individuais ou na mera contabilidade parlamentar do próximo ciclo eleitoral.

Os Açores têm recursos, talento, conhecimento, criatividade e uma posição estratégica única. Mas, acima de tudo, têm pessoas. E será sempre pelas pessoas que a autonomia terá de ser medida.

Pela capacidade de criar oportunidades. Pela capacidade de gerar justiça social. Pela capacidade de garantir dignidade, coesão e esperança.

E, sobretudo, pela capacidade de gerar verdadeira autonomia. Essa liberdade fundamental de cada pessoa poder ser aquilo que deseja ser.

Esperamos sinceramente que este congresso possa contribuir, ainda que modestamente, para elevar a qualidade do debate público regional. Combatendo os bairrismos, os unanimismos e a cultura resignada do “deixar andar”, bem como a demagogia fácil do populismo de café, com que tantas vezes se destroem sonhos, projetos e aspirações legítimas.

Que daqui saiam soluções efetivas, mas também perguntas importantes. Novas ideias. E, principalmente, novas pontes de diálogo entre as ilhas e as suas gentes. Entre gerações. Entre diferentes formas de olhar e imaginar a ideia de Açores.

E uma consciência mais clara de que o futuro destas ilhas depende, sobretudo, da nossa capacidade de pensar coletivamente um futuro comum para além do curto prazo ou dos interesses particulares de cada momento.

Pela nossa parte assumimos o compromisso de manter viva esta chama do debate livre de ideias, da propositura empenhada e capaz de gerar soluções para o futuro dos Açores. Esta sessão ficará gravada e disponível online no site do Compromisso com os Açores onde será possível acompanhar posteriormente mais informações sobre esta iniciativa. Bem como serão coligidas atas que colocaremos à disposição dos interessados, sejam das instituições públicas como da cidadania.

Obrigado a todos pela vossa presença.

Desejo-vos um excelente congresso e um dia de debate vivo, livre e participado.

Muito obrigado.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Speakers' Corner 85

A salto e a sonho

Na segunda-feira passada, um recluso da cadeia de Ponta Delgada, enquanto gozava o seu tempo de pátio, apoiou-se nas paredes do ginásio e, galgando o muro, saltou por entre os buracos da rede mal remediada que envolve o estabelecimento, evadindo-se da prisão que o encarcerava. Resvalando, apressado, pela estrada, alcançou os tetrápodes da avenida e lançou-se precipitadamente ao mar.

Fugido da prisão, logo se fechou a fronteira da ilha, numa metáfora brutal da existência insular. Viver numa ilha é tanto horizonte como limite. E aquilo que não se pode transpor a salto só se consegue alcançar à força de barco e de sonho, como escreveu Manuel Ferreira.

Pondo de lado a realidade concreta desta história, de pobreza, precariedade e desinvestimento crónico numa cadeia que já ultrapassou todos os limites do razoável, até do seu próprio tempo de vida (se bem que, nestes 50 anos de autonomia, talvez estes sejam exatamente os temas de que devêssemos falar), o que esta história caricata nos traz é uma metáfora viva da nossa identidade: um homem que fugiu da prisão para se lançar ao mar e descobrir que, afinal, era a ilha que o aprisionava.

Algures na primeira metade do século passado, numa altura em que esta ilha fervilhava de ambição e empreendedorismo privado, com as forças vivas da cidade de Ponta Delgada, e da ilha no seu todo, fortemente empenhadas no seu desenvolvimento, fosse na eletrificação, no comércio, no turismo ou em planos mais vastos, como a linha de caminho-de-ferro que circundaria a ilha ou, mais tarde, as ligações aéreas que a ligariam ao mundo, um grupo de empresários e beneméritos, aqueles que alguns hoje, presos nos baús do ressabiamento, chamam pejorativamente de terratenentes, pretendeu levar a cabo a construção de um sanatório para tratamento das doenças mentais, tendo para tal desiderato convidado o ilustre cirurgião Egas Moniz a visitar a ilha.

Reza a lenda que, após um jantar oferecido em sua honra no final dessa visita e quando questionado acerca da viabilidade de tal investimento, o famoso médico, não sem alguma ironia, terá respondido que o melhor seria construir um muro à volta da ilha, suprindo assim todas as suas necessidades em matéria de sanidade mental. Ou da falta dela, acrescentaria eu.

Esta história sempre me fez rir e, ainda hoje, olhando o estado da coisa pública, muitas vezes me questiono acerca da sua acutilante perspicácia.

O facto é que os Açores, ou as suas nove ilhas, de dimensões e singularidades distintas, são um território hostil e tantas vezes inclemente com as suas gentes. Há aqui uma rudeza própria, um enclausuramento natural das esperanças que tem tanto de físico como de mental. A vida faz-se aqui da força das suas contrariedades, numa luta constante entre os elementos e a própria natureza das pessoas.

Cinquenta anos depois da instituição da Autonomia consagrada pela Constituição de 1976, os Açores vivem talvez o período mais difícil da sua frágil e curta história arquipelágica. Os bairrismos, ou, se quisermos, a luta fratricida entre São Miguel e Terceira, atingem níveis de estridência como nunca se viu, num agigantar de ressentimento e violência que põe em causa a própria integridade do projeto autonómico, com consequências futuras que temo que os próprios intervenientes, as tão propaladas elites políticas, económicas e culturais de cada burgo, pareçam não querer enxergar convenientemente.

É neste cenário de dupla insularidade que vos convido a participar no Congresso da Autonomia, iniciativa cidadã que terá lugar neste sábado, na Biblioteca Pública de Ponta Delgada, que visa pensar os Açores para lá dos muros invisíveis que fomos erguendo entre ilhas e entre nós próprios.

Porque há cadeias feitas de pedra e cimento. Mas há outras, talvez mais duras, feitas de inveja, ressentimento e pequenez. E um povo que deixa de sonhar com o horizonte acaba inevitavelmente por transformar a ilha numa prisão.

  

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Speakers' Corner 84

Fé na Humanidade

Esta terá sido a semana mais religiosa da vida portuguesa contemporânea. Num curto intervalo de dias coincidiram, mais uma vez, as duas maiores manifestações de fé popular do país: o Senhor Santo Cristo dos Milagres e Fátima. Num Estado que se proclama laico, a extraordinária capacidade de mobilização coletiva destas celebrações revela um país que, afinal, continua profundamente marcado pela sua génese cristã. Seja através do culto mariano de Fátima, seja, em versão insular, pela devoção ao Senhor Santo Cristo, tal como foi difundida por Madre Teresa da Anunciada, permanece viva uma espécie de memória espiritual que resiste à modernidade e à erosão da própria fé.

O fenómeno de Fátima não pode ser dissociado da sua circunstância histórica. As aparições de 1917 emergem num Portugal dilacerado pelas convulsões anticlericais da Primeira República e de um mundo devastado pela Primeira Guerra Mundial. Na Cova da Iria, três crianças pobres e analfabetas surgem quase como símbolo de uma inocência primordial, escolhidas pelo divino para advertir a humanidade acerca das suas fragilidades morais e espirituais. Não surpreende, por isso, que a reação inicial do poder republicano tenha oscilado entre a hostilidade e a repressão, interpretando o fenómeno como uma potencial conspiração clerical e monárquica contra a República. Também não é indiferente o facto de Portugal se encontrar então mergulhado no horror da guerra europeia e africana. Fátima nasce desse cruzamento entre medo, esperança e necessidade de transcendência. Mais tarde, a oficialização do culto pela Igreja, em 1930, e a apropriação simbólica feita pelo Estado Novo acabariam por sedimentar Fátima como um dos grandes pilares identitários do século XX português.

O culto do Senhor Santo Cristo dos Milagres, profundamente enraizado em São Miguel e em todo o imaginário açoriano, possui igualmente uma origem inseparável do seu tempo histórico. Surge na esteira da Contrarreforma católica e do reforço do culto da Paixão de Cristo como resposta doutrinária aos avanços do protestantismo europeu. O Ecce Homo, o Jesus humilhado, ensanguentado e sofredor, torna-se uma das imagens centrais da espiritualidade barroca saída do Concílio de Trento.

Entre os finais do século XVII e o início do XVIII, os Açores eram um território de pobreza, isolamento e permanente vulnerabilidade. À ameaça constante de catástrofes e tempestades somavam-se os ataques de piratas e a tragédia da emigração. Foi nesse ambiente religioso e político, num império português alimentado pelo ouro do Brasil, que viveu Madre Teresa da Anunciada. A procissão promovida por Madre Teresa, em 1698, nasce precisamente dessa necessidade coletiva de proteção, redenção e esperança perante a permanente precariedade da vida.

Talvez por isso o Senhor Santo Cristo permaneça tão profundamente inscrito não só no espírito micaelense como na alma açoriana. Não apenas enquanto devoção religiosa, mas enquanto linguagem emocional de um povo habituado à imponderabilidade da existência. A imagem do Cristo sofredor funciona não como triunfo da transcendência, mas como reconhecimento íntimo da inerente fragilidade da condição humana.

Para alguém sem fé, como eu, o fenómeno coletivo da peregrinação, da promessa ou da simples crença é, antes de tudo, uma manifestação pura de humanidade. A devoção mariana ou a sacralização da imagem do Cristo da Paixão representam, acima de tudo, a expressão não do divino, mas daquilo que existe de mais sublime em nós: a infinita capacidade do ser humano para resistir e para amar, mesmo em face do Inferno.

Maria, a mãe, ou o Jesus torturado e sofredor apresentado à multidão simplesmente como “o Homem”, acabam por ser espelhos simbólicos da própria Humanidade. São representações da nossa vulnerabilidade, mas também da nossa permanente possibilidade de redenção e dessa extraordinária capacidade que temos, apesar de tudo, para criar o bem.

 

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Speakers' Corner 83

Sem rumo nem destino

O Presidente do Governo Regional e do PSD local, José Manuel Bolieiro, deu, na semana passada, nesse seu estilo pós-barroco de inspiração naïf, rendilhado e decorativo, uma extensa entrevista ao podcast “Política com Assinatura”, da jornalista da Antena 1, Natália Carvalho. De entre os vários temas abordados, o que sobressaiu no spin noticioso do dia foi uma pergunta estrategicamente colocada sobre o fim do prazo de validade da sua coligação de governo.

Num tom anticlimático, como quem revela um segredo de polichinelo, Bolieiro acabou por confirmar aquilo que já todos suspeitávamos e que, aliás, cada um à sua maneira, Artur Lima e Paulo Estevão já tinham, há muito, anunciado: o termo dessa ménage à trois de conveniência política entre centristas, monárquicos e sociais-democratas. A novidade foi tão pouco surpreendente que o tema acabou arrastado pela enxurrada do aumento dos combustíveis que o próprio governo de Bolieiro anunciou no dia seguinte, para exasperação dos especialistas de marketing político, enorme preocupação do próprio e desespero da carteira de todos nós.

O que surpreende neste epifenómeno político não é a sua confirmação, mas o timing. A meio de um mandato, quando todos clamam por uma remodelação que dê novo alento a uma governação caótica e destrutiva, Bolieiro opta, ao invés, por dar uma machadada final na já ínfima coesão do seu executivo. Se antes já era difícil discernir um rumo, agora teremos secretários em roda-viva, cavalgando sem rédea (literalmente, no caso do secretário da Agricultura), agindo sem nexo, cada um em função do seu próprio ganho político, em prejuízo de todos nós e dos destinos da região.

Vários comentadores já explicaram a matemática do cálculo político do presidente do Governo. Aproximando-se o fim do PRR, com uma dívida galopante, sem fim à vista para a privatização da SATA ou para as guerras na Saúde, e com a mais do que previsível continuação da curva descendente dos números do turismo ao longo do verão, culminando num orçamento praticamente impossível em outubro, José Manuel Bolieiro lança no xadrez político a hipótese de dissolução, na expectativa de ver quem cai na armadilha. Dizem os corredores que o faz para apaziguar alguns barões locais do seu partido. Outros veem nesse divórcio a esperança de uma vitória eleitoral robustecida e amplificada pela fraca implantação popular da atual oposição socialista.

O que parece é que Bolieiro, que nunca se imaginou Presidente, já se vê, neste momento, a partir para outros voos, quem sabe, num qualquer Ministério do Mar ou do Espaço, nesse Terreiro do Paço de metropolitanas mordomias. Ou, em último recurso, a chamar para junto de si o Chega, para governar sem altercação nem vergonha por mais um mandato. Algo que, suspeito, para ele, entre o que está e o que há de vir, seja mais ou menos a mesma coisa.

O que fica por revelar, para além do momento e do modo exato da queda do Governo, é como vai reagir o eleitorado a mais este cenário de caos eleitoral. Que já está toda a gente esgotada com os desvarios deste trio de incompetência, bairrismo e desnorte é um facto; mas quem vai capitalizar com isso permanece uma incógnita. Terá o PS capacidade para se impor como alternativa? Capitalizará o PSD, com o afastamento do CDS e do PPM, conseguindo uma maioria absoluta, alavancada não só na desconfiança do eleitorado na liderança dos socialistas, como também no receio dos neo-popular-fascistas do Chega? Conseguirá o CDS manter-se à custa da bandeira do bairrismo que o seu líder tanto gosta de agitar? Terá o PPM a esperança vã de preservar uma réstia de relevância? E para onde irão os votos de BE e PAN, em pleno eclipse de significância?

Não fosse tudo isto uma parte importante das nossas vidas, e até seria um jogo interessante de acompanhar. Assim, é apenas triste constatar como, sem rumo nem destino, nos vamos lenta e perigosamente aproximando do precipício final.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Speakers' Corner 82

A retro-autonomia

Há dias, um amigo convidou-me para estar presente num evento em Carcavelos. Entusiasmado, lancei-me nos sites das duas companhias aéreas em busca de preços. A iridescência do online devolve-me valores na ordem dos 400€ e 500€, ida e volta, de um dia para o outro. Para tarifas mais em conta, ainda assim a rondar os 300€, e com viagem de regresso a ocupar um dia inteiro, com escalas na Horta ou em Angra, ambas as companhias obrigam a uma estadia de pelo menos três dias na capital. Já muito foi dito sobre este novo espaço aéreo regional, devolvido ao cartel das companhias de bandeira, ou sobre os dramas do Subsídio Social de Mobilidade e da sua plataforma de desesperança, que obrigam o residente a hipotecar vencimentos para uma ida à metrópole. Mas a verdade, nua e crua, é que este novo modelo resulta num enorme retrocesso na mobilidade da região.

Este fim de semana, o ar aqui em casa foi presenteado com os aromas fétidos de um entupimento no saneamento básico da rua, o que provocou um transvase de águas residuais para uma conduta pluvial que descarrega diretamente no mar. A princípio, julgámos tratar-se da maré ou da famigerada alga que infestou as ilhas, mas cedo percebemos que o problema era, afinal, de origem intestinal humana. O problema, esperamos nós, ficou resolvido na segunda-feira de manhã, com um telefonema para os serviços da Câmara ou, talvez, pelo burburinho que, entretanto, já se tinha instalado nos fóruns do Facebook, que são, hoje em dia, o que faz os políticos mexer. A verdade é que ficámos a perceber que o sistema de saneamento básico da Vila funciona com redundâncias do século passado, à mercê da sorte e da falta de investimento e manutenção. Algo que já nem é um retrocesso, mas um enquistamento crónico do nosso poder autárquico. Entretanto, os dejetos e remanescentes da higiene pessoal continuam ali, no calhau, à espera da maré de lua cheia ou de uma chuvada forte que os leve para o mar. Consta também que o Ilhéu abrirá nesta época balnear, também ele ao sabor da sorte e da maré.

Nas notícias, ontem fez manchete o encerramento definitivo das Termas da Ferraria, dezasseis anos após a sua reabertura, depois de um investimento público de mais de quatro milhões de euros e após seis meses de espera por uma solução para a reabertura da estrada de acesso, encerrada na sequência de uma derrocada. Mais um prego no caixão da falta de dinheiro e estratégia da Secretaria do Turismo e das Obras Públicas. Algo, aliás, amplificado pela notícia do desinvestimento no Torneio de Futebol Pauleta que, por via da redução de verbas, viu a sua dimensão e prestígio seriamente comprometidos. Se o Pauleta se queixa, quem somos nós para chorar o fim dos apoios da DRT à Cultura e ao Desporto? É só mais um retrocesso, como tantos outros.

Mas talvez o maior recuo de todos seja o ressurgir e o alastrar dos incompreensíveis bairrismos entre as ilhas, especialmente entre a Terceira e São Miguel, agora a propósito do malfadado e, diria, assombrado Hospital do Divino Espírito Santo. É difícil compreender a sanha com que certa intelectualidade terceirense se arregimenta contra uma suposta “elite terratenente micaelense” (expressão deles, não minha), que, dizem, pretende prejudicar as oito ilhas com um investimento centralizado numa estrutura hospitalar em Ponta Delgada. Ao ponto de sugerirem, como alternativa, pasme-se, numa espécie de psicologia invertida, a construção de dois hospitais na ilha de São Miguel, a menos de vinte quilómetros um do outro. Este bairrismo cego e desvairado, assente em argumentos arcaicos de um pseudo-feudalismo marxista-leninista, das elites de São Miguel contra o povo dos Açores, é mais do que um recuo. É uma autêntica regressão ao passado mais escuro e opressivo de uma região sem união, cultura e noção de geografia humana.

De recuo em recuo, passamos de uma autonomia progressiva para um novo paradigma – o da retro-autonomia.

 

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Speakers' Corner 81

A Ilha sem Deus

Olhar o mar enquanto escrevo é em si uma dupla metáfora. Para lá do horizonte de águas alisadas pelo vento, o céu cinzento, pincelado de chuva, responde-me com o mesmo vazio branco do papel no ecrã. A mesma silenciosa ausência. O mar, como toda a literatura, convida e acolhe com a mesma força com que expulsa e castiga. São as intermitências do tempo, os humores do clima que, na ilha, se multiplicam com a velocidade dos segundos, nesse cambiante popular das quatro estações num dia.

Abril passou com a promessa de um falso verão, dias limpos, com águas gélidas, mas transparentes. Mas os dias de sol são entrecortados por súbitas interrupções de frentes frias, que chegam com ventos castigadores e chuvadas desarmantes. Na ilha, esperamos pelo clima como quem aguarda um autocarro na paragem, nunca confiando nos horários, com uma dupla dose de enfado e resignação.

Olho por sobre o computador outra vez para o mar. Hesito, não sei sobre o que escrever. Todos os temas me parecem esgotados, gastos, velhos, cansados. Ou talvez seja eu que me canso deles. Como naqueles desconfortáveis silêncios das ocasiões sociais, quando não temos nada para dizer, falamos do clima. Das descontinuidades meteorológicas. O frio, a chuva, uma nesga de sol, são os desbloqueadores de conversa mais usados, logo depois do álcool. Eu, que já não bebo, fico calado. Chateia-me o clima. As pessoas aborrecem-me. Não por misantropia ou antipatia social aos conhecidos, mas por um enfado perturbado, feito de incompreensão natural e de um certo pudor proustiano.

Procuramos nos outros uma razão para nós próprios. Nas relações, um sentido para tudo isto. No amor, o Norte. Em alguém, a estrela polar que indique o caminho. Um sol que talvez ilumine as noites interiores e sós de ser. Da vida. De cada dia. O trabalho e os filhos. O preço da gasolina e os juros da banca. Esticar o dinheiro com a mesma ânsia com que se joga no Euromilhões que não sai, mas, se não jogares, também não sai. E nunca sai. Mas continuas a jogar, da mesma forma que continuas a tentar esticar o dinheiro que nunca estica.

Ao meu lado, na mesa de cabeceira, as mil e setenta e oito páginas, 750 gramas, de Infinite Jest, do David Foster Wallace, que não li há trinta anos, por sobranceria juvenil e clubismo. Naquela altura, éramos quase todos da equipa Bret Easton Ellis, que tinha sexo e drogas e o mesmo vazio, mas com menos antidepressivos. Um livro tão vasto e surpreendente como este mar em frente, onde o encrespado das ondas se esvai em espumas brancas levadas pelo vento que sopra na superfície prateada das águas. E, um pouco mais ao lado, ergue-se, tombado sobre o dorso, o Ilhéu. Como um cetáceo antigo e fossilizado, arrojado sem vida no areal. Uma memória de Deus para um ateu como eu.

Do outro lado da cama, na outra mesa de cabeceira, O Louco de Deus no Fim do Mundo, de Javier Cercas, que a Rita está a ler e me diz que vou gostar. Um livro sobre a busca de sentido, numa viagem com o Papa Francisco, para um ateu como eu.

Quem tem a ilha não precisa de Deus.

Viver na ilha é como ver a Terra do espaço. O mundo contempla-se a si próprio sem precisar de justificação. Ser é o seu próprio sentido. A perceção física do limite e da perene finitude das coisas. O deslumbramento imperfeito das manifestações naturais. O vapor das horas que se condensa nas montanhas. O verde das esperanças que se espraia nos olhos. A água que tropeça no entrecortado das ribeiras. A constância do mar. A sua infinita paciência para com todos os nossos sonhos. A ilha não nos fecha, a ilha abre-se ao horizonte e à promessa de uma folha em branco e muros de pedra.

A ilha. Estas nove ilhas, estes nove corpos de tempo, natureza e ambição, e essa décima ilha de tantas gentes espalhadas pelo mundo, em viagem de origem e destino, não se dizem nem se explicam, não carecem de razão, nem de Deus.

A ilha é um navio onde cada um de nós navega a sua solidão.

 

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Speakers' Corner 80

O mundo está perigoso

Era com esta frase dramática que Vasco Pulido Valente, na sua cáustica ironia, costumava terminar os seus artigos. Os historiadores, essa velha profissão que Pulido Valente também praticava, dir-nos-ão que o mundo sempre foi perigoso, tal é a raiz da natureza humana. Já os praticantes da astrologia ou da cartomancia dirão, por sua vez, que a roda da fortuna é imparável, fazendo girar os espíritos numa alternância entre a bem-aventurança e a desgraça.

Hegel chamou-lhe a “espiral dialética da história”. Marx discerniu aí uma perturbadora dicotomia entre a tragédia e a farsa. Outros chamar-lhe-ão, simplesmente, o devir, onde nada é permanente, exceto a própria mudança, como bem ensinou o poeta. A verdade é que a vida nos arrasta nesta viagem inconstante entre dor e prazer, tristeza e alegria, num movimento pendular feito de agruras, conquistas e outras qualidades.

Nesse permanente acontecer de que é composto o mundo, Donald Trump, espécie de cruzamento entre um Mussolini sem farda e um Henry Ford do betão armado, estrangulado pelo Estreito de Ormuz, enviou o seu acólito principal, o vice-presidente J.D. Vance, para uma negociação relâmpago com líderes iranianos em Islamabad. Julgando ter uma mão de ases num jogo de póquer, Vance foi afinal confrontado com uma partida de xadrez, mais lenta, densa e imprevisível, recolocando as turbinas do mundo, sedentas do óleo desse velho Ormuz de Afonso de Albuquerque, num novo impasse.

Antes desse encontro no Paquistão, o polémico vice-presidente norte-americano fizera escala em Budapeste para apoiar Viktor Orbán, envolvido numa disputada campanha eleitoral que acabaria por perder. Numa espécie de “internacional nacionalista”, passe a contradição dos termos, os líderes do populismo demagógico mundial procuram proteger-se mutuamente, alheios à clara incoerência de querer internacionalizar um impulso que é, por definição, patrioteiro, identitário e hostil ao outro.

As eleições húngaras ilustram bem esta irracionalidade da política atual. A vitória de Péter Magyar foi saudada como um triunfo sobre o radicalismo, mas quem olhe com atenção para o percurso do vencedor não pode ficar satisfeito. Saído das fileiras do Fidesz, o partido de Orbán, Magyar construiu a sua oposição na sequência de um escândalo envolvendo a ex-mulher, Judit Varga, então ministra da Justiça. A divulgação de uma gravação privada, feita pelo próprio e tornada pública sem consentimento, expôs não apenas o caso, mas também um traço perturbador do seu carácter político.

O partido a que se associou, o Tisza, apresenta-se como uma força conservadora de centro-direita, alinhada com a União Europeia, mas sustentada num discurso de combate à corrupção e não esconde posições extremadas em matéria de imigração, nem certos tiques populistas na abordagem à justiça e ao sistema político. A diferença em relação ao projeto de Orbán parece ser mais de estilo do que de substância. Como já alguém observou de forma contundente, é como celebrar uma vitória de Nuno Melo sobre André Ventura.

No entretanto, por cá, também se assiste a sinais desta alucinação coletiva que atravessa a política global. O Presidente do Governo Regional dos Açores, José Manuel Bolieiro, tornou-se alvo de chacota pública pelas suas posições rocambolescas relativamente à Base das Lajes. No seu espaço de comentário político na TVI, Miguel Sousa Tavares sublinhou como, para Bolieiro, numa visão do mundo que faz tábua rasa dos princípios que deveriam reger a ordem internacional e o Estado de direito, pouco importa quem utiliza a base ou com que finalidade, desde que pague para o fazer. Tornando os Açores no equivalente a uma meretriz de casa de alterne barata ao serviço do freguês mais abonado.

Talvez, afinal, não seja o mundo que está perigoso. Talvez sejamos nós que, de Ormuz às Lajes, vamos aceitando que tudo tenha um preço, até aquilo que julgávamos não estar à venda.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Speakers' Corner 79

Um dia em Como e outro tiramisù

Estava um dia claro e luminoso, de luz penetrante, sob um céu azul desassombrado, numa frígida manhã de abril. Um vento gélido e incisivo, descendo imperturbado do cume dos Alpes, trespassou-nos o rosto quando descemos os degraus do comboio na quase inconspícua vila de Varenna, vindos, logo cedo, de Milão. Descendo pela Via Imbarcadero, abeirámo-nos do terminal do ferry, com o curioso Hotel Olivedo em frente, a sua forma retangular erguendo-se, impositiva, três andares acima da envolvente, sem outros edifícios a rodeá-lo, de onde partimos para Bellagio, já no coração do Lago de Como.

Rendilhadas ao longo das margens do lago, as pequenas vilas sobem pelas colinas como ramos de vinhas antigas e amadurecidas. Grandes palacetes de nobreza reservada debruçam-se, em colunatas de inspiração romana, sobre as águas transparentes, fazendo ecoar histórias milenares de um passado sem fim. Canteiros de flores cuidadosamente tratados ornamentam jardins pontuados de árvores, limoeiros carregados de frutos reluzentes anunciam a promessa de licores agridoces. Estátuas de deuses e heróis, de nomes já esquecidos, pontuam os caminhos por onde passeamos, lenta e maravilhadamente.

Do ferry, que nos leva numa curta e pachorrenta viagem de poucos minutos, avistamos a fachada imponente do Grand Hotel Villa Serbelloni. Construído em 1850 como prenda de aniversário do conde Frizzoni, de Bérgamo, para a sua mulher, foi mais tarde adquirido pela família Bucher, da Suíça. Também conhecido como Grand Hotel Bellagio, foi, ao longo das décadas, refúgio de grandes nomes da política, das finanças e do espetáculo, como Churchill, J. F. Kennedy, os Rothschild, Clark Gable ou Al Pacino. Já na outra margem do lago, em Laglio, fica a famosa Villa Oleandra, uma mansão do século XVIII mandada construir pela família Stoppani, de Milão, e que George Clooney terá adquirido por dez milhões de dólares aos herdeiros da fortuna da maionese Heinz.

Bellagio recebe-nos com esse encantador charme italiano de ruas serpenteantes que sobem em escadarias estreitas pelas colinas íngremes, esplanadas de mesas engalanadas com toalhas impecavelmente brancas a decorar os passeios, enquanto as clássicas lanchas Vaporina, de madeira envernizada, balançam ao sabor das águas que batem suavemente no cais. Depois de um breve passeio pelas lojas, entre sedas, peles e caxemiras, subimos até à Via Centrale para almoçar no La Fontana: scialatielli alle vongole in bianco con crema di porri profumato al basilico e, para sobremesa, tiramisù.

Nesta viagem fizemos uma prova de tiramisù. Em cada restaurante, pedíamos a famosa sobremesa italiana, inventada, diz a lenda, pela dona de um bordel de Treviso, para revigorar os seus clientes, daí o lânguido nome, “levanta-me”. Com os seus palitos de la reine embebidos em café, creme de ovo, mascarpone e cacau em pó, concluímos que existem infindáveis receitas de tiramisù, todas elas saborosamente magníficas. O debate sobre qual o melhor poderia prolongar-se indefinidamente, tal como gostaríamos que esta viagem também se tivesse prolongado.

No mundo, existem muitos lugares tão ou mais deslumbrantes, mas Bellagio e as suas vilas irmãs, nas margens do Lago de Como, compõem um quadro inigualável que rivaliza, para não dizer que ultrapassa, em beleza e encanto muitos outros lugares, merecendo, por isso, uma visita pelo menos uma vez na vida.

Um dos prazeres de sair dos Açores, aliás, para além do ato em si de deixar a bruma para trás, é perceber que, apesar de toda a sua beleza e encanto, e de toda a retórica que tantas vezes nos eleva a medida absoluta de comparação, os Açores não são, de facto, o melhor ou o mais belo lugar do mundo. E talvez seja precisamente essa compreensão que dá mais valor ao regresso. Não a ilusão falaciosa da nossa superioridade ou excecionalidade, mas a consciência mais justa do lugar que realmente ocupamos no vasto rol das maravilhas do mundo.

 

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Speakers' Corner 78

A Boneca

A cada Quaresma, as vozes ritmadas dos romeiros invadem os caminhos da ilha. Uma peregrinação sem destino, movida a preces e cansaços, quase tão antiga como o povoamento.

Este ano, porém, as Romarias de São Miguel foram tomadas por uma protagonista incomum. A cadela Boneca, que, de forma misteriosa, seguiu dia após dia o rancho dos Fenais da Luz. Sem razão aparente, a Boneca apegou-se ao grupo, caminhando com ele, partilhando-lhe os passos, entrando nas igrejas, dormindo entre os homens. Mais tarde soube-se que tinha dona, que não era vadia, e que aquela não era a primeira vez que o fazia, já por duas ocasiões anteriores fugira para se fazer romeira, regressando depois à quietude da sua vida doméstica.

Há dias, em conversa com um romeiro, comentávamos a dificuldade de traduzir em palavras a experiência das Romarias. Não apenas de a descrever, mas verdadeiramente dizê-la. De como essa vivência, íntima e particular, resiste à linguagem e se ilude à literatura. Mesmo a fotografia, que fixa a estética singular dos ranchos, permanece à superfície e a realidade concreta, espiritual, da romaria continua, de alguma forma, por dizer.

Não há, ou ainda não houve, uma tradução artística que seja fiel às Romarias. Talvez porque não tenha surgido ainda um autor que se embrenhe nelas, que verdadeiramente caminhe nelas. Não alguém que observe de fora, num gesto de distância, mas que participe na comunhão do rancho, que aceite o cansaço e a fé, que se torne, de facto, irmão na jornada. Que caminhe não para ver, mas para ser atravessado pelo caminho, abraçando essa lógica transitória onde o tempo, o corpo e a oração se fazem um.

Mas há, creio, uma razão mais funda para essa ininteligibilidade. A romaria resiste a ser dita porque, no essencial, não se orienta para um fim, não converge para um ponto de consumação.

As romarias de São Miguel são romarias sem chegada. Não porque falhem o destino, mas porque o recusam. A sua verdade não está no final, mas na duração. Não na meta, mas no percurso. São estrada em vez de chegada. Ao contrário de outras peregrinações, onde o culminar se dá no fim e o caminho se orienta para um ponto de revelação, aqui o sentido dispersa-se ao longo do percurso, dilui-se na repetição dos passos, na cadência das orações, na circularidade do trajeto em torno da ilha e de si mesmo.

Os romeiros caminham numa espécie de paradoxo, avançam em direção ao regresso, desenhando uma geografia interior, sempre com o mar a bombordo. De sol a sol, de igreja em igreja, de ave-maria em ave-maria.

Essa imaterialidade, essa geografia da transcendência, torna os romeiros um fenómeno singular, difícil de fixar em palavras. O seu destino é o próprio ato de caminhar. O seu sentido, a experiência partilhada do tempo que levam a fazê-lo.

E é aí que surge, como uma parábola, a história da Boneca. Sem discurso, sem intenção aparente, sem qualquer pertença reconhecida à ordem simbólica que sustenta a romaria, ela integra-se no seu movimento como se sempre lhe tivesse pertencido. Segue o rancho, dia após dia, em silêncio, partilhando o cansaço, não como intrusa, mas como presença natural. Num franciscanismo puro, numa intuição de fraternidade universal onde todas as criaturas participam do mesmo mistério.

E é precisamente aí que a sua presença ilumina o sentido mais íntimo da romaria. Não apenas como metáfora, mas como revelação de uma verdade mais pura, de uma dimensão da experiência espiritual que não passa pela palavra, nem pela consciência. Uma espiritualidade muda, orgânica, onde o humano e o animal, o sagrado e o natural, coexistem em comunhão.

A Boneca, que caminha sem dizer, acaba por nos falar mais alto. O seu percurso fala com uma clareza que não passa pela razão, mas pelo reconhecimento íntimo da transcendência. E nessa ausência de voz acaba por expressar algo essencial: a perene necessidade dessa união entre a natureza, o homem e o Divino.

 

 

quarta-feira, 25 de março de 2026

Speakers' Corner 77

Distopia insular

No meio da ebulição política regional, o cronista hesita.

De um lado, o espetáculo judiciário das investigações na Secretaria do Turismo e Transportes. Sessenta e cinco elementos da Judiciária e do Ministério Público, catorze mandados de busca entre Lisboa, Angra, Horta e Ponta Delgada, e um desfile de suspeições de prevaricação administrativa com a, hoje já saudosa, Ryanair. A novela habitual que se instala sempre que a justiça se imiscui pelos meandros da política. Desta vez, com o caricato episódio da interpretação legal sobre a putativa imunidade dos titulares de cargos públicos, em que a burocracia legislativa partidária se sobrepõe, sem pudor, ao primado ético da lisura. No ar, vários silêncios cúmplices pairam sobre a estupefação indignada do cidadão.

Do outro lado, as pequenas tricas camarárias cá do burgo, que, entre a ausência de turistas e a episódica agitação dos cruzeiros, vão correndo ao sabor de acusações mútuas entre executivo e oposições, com direito, até, a votos de protesto do Presidente da Câmara à atuação do Movimento PDL Para Todos, numa inversão de papéis que oscila entre o insólito e o involuntariamente cómico.

Pelo meio, os epifenómenos da PDL26, Capital Portuguesa da Cultura, prosseguem de forma plácida, quase invisível. Uma espécie de serenidade deslocada, como se tudo decorresse numa realidade alternativa, num curioso contraste com o ambiente de sobressalto político, imune às inquietações do quotidiano e a este bipolar clima de alvor primaveril açoriano.

Confesso que tinha prometido a mim mesmo não voltar a escrever sobre a Capital da Cultura. Para desencanto, chegam as dores de um turismo cada vez mais subjugado a invernos prolongados e taxas de ocupação decadentes, num cenário dantesco de crise acelerada. Ainda assim, este fim de semana, a PDL26 teve o seu primeiro momento literário, com uma pitada de tempero gastronómico, num vasto programa de atividades que até o famoso e idiossincrático Presidente da Câmara de Oeiras, reconhecido literato (na versão pantagruélica do termo), prometia trazer a Ponta Delgada.

Infelizmente, ou talvez sarcasticamente, a organização do evento, pouco habituada aos humores do nosso clima, teve direito a um curso rápido de insularidade, confrontada com a velha realidade dos caprichos meteorológicos atlânticos, uma sina a que somos reconhecidamente atreitos. Pelo que pude acompanhar, dos cerca de quinze eventos programados, quatro deles “jantares literários”, a maioria foi cancelada por impossibilidades aeronáuticas devidas às inclemências do tempo, que nos fustigou sem piedade durante cinco dias seguidos.

Talvez tenha sido pelo melhor, pois, no único evento a que tive a possibilidade de assistir, um aliciante debate sobre “A Nova Poesia Açoriana”, o público presente resumia-se a cerca de uma dúzia de pessoas, entre curiosos, como eu, organizadores e uma mão de ilustradores, convidados, suspeito, para compor a fotografia da sala. Deste ficou a revelação de que a) não existe nova, nem b) poesia açoriana. O que daria toda uma outra crónica.

O que tudo isto evidencia é um desligamento quase total da PDL26, pelo menos na sua vertente literária, com a sociedade local. Há uma sensação de desencontro, como se a proposta cultural e a realidade insular habitassem dimensões distintas. Uma espécie de distopia, feita de boas intenções e resultados incertos, que apenas gera embaraço e uma inquietação difícil de ignorar.

Em sentido inverso, no dia 21, um sábado cinzento, a Livraria Solmar, um dos faróis da cultura insular, celebrou 35 anos com o lançamento da reedição, pela Artes e Letras, de “caderno de mitos pessoais”, do poeta leonardo, dono de uma voz poética tão acutilante quanto cintilante. Com casa cheia e animada, o encontro foi prova limpa de que a literatura, nova ou velha, açoriana ou do mundo, está viva na ilha e não precisa de utopias para se afirmar ou para reunir em torno de si toda uma comunidade.

 


quinta-feira, 19 de março de 2026

Speakers' Corner 76

Memória e futuro

At Flores, in the Azores Sir Richard Grenville lay,” este é o primeiro verso de The Revenge: A Ballad of the Fleet, de Alfred Lord Tennyson. O poema relata os acontecimentos da célebre batalha de 1591, travada ao largo da ilha das Flores, na qual o galeão The Revenge enfrentou, isolado, uma numerosa armada espanhola, acabando por se afundar após um combate longo e desigual.

Tennyson, poeta laureado da Inglaterra vitoriana, celebra nesse poema a bravura estoica perante probabilidades esmagadoras e imortaliza não apenas a coragem, mas também a aura mítica daquele galeão, que fora anteriormente comandado pelo lendário Sir Francis Drake. Durante décadas, o poema foi leitura obrigatória nas escolas inglesas, ajudando a fixar no imaginário britânico uma certa ideia dos Açores.

Este introito poético surge a propósito de uma petição apresentada ao Parlamento Regional que propõe a criação, nos Açores, de um Museu Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática. A iniciativa cidadã procura afirmar, de forma institucional, a relevância do arquipélago na história global da navegação e, mais concretamente, na história da arqueologia subaquática. Com efeito, poucas regiões do mundo concentram um número tão significativo de naufrágios históricos e, simultaneamente, um percurso tão marcante nas campanhas arqueológicas dedicadas ao seu estudo. O mar dos Açores é um verdadeiro arquivo submerso da expansão marítima e das rotas atlânticas.

Curiosamente, também por estes dias foi notícia a intenção do autarca da Ribeira Grande de recuperar um antigo projeto de criação de um Museu da Aviação dos Açores, a erguer nas ruínas do histórico Campo de Santana, popularmente conhecido como “aerovacas”. Efetivamente, também na história da aviação nacional e internacional os Açores tiveram um papel determinante, desde os primeiros voos de travessia atlântica, passando pelas operações associadas às duas Guerras Mundiais, pelos famosos clippers da Pan Am, até à criação da SATA. A isto soma-se o papel estratégico do Aeroporto de Santa Maria e, mais recentemente, as ambições ligadas ao setor aeroespacial, que reforçam o significado da posição geoestratégica do arquipélago.

Mais do que simples lugares de memória, os museus são espaços de construção de identidade. São centros de produção de conhecimento e veículos de disseminação cultural e pedagógica que ajudam a sustentar a vitalidade intelectual de uma sociedade e a sua consciência histórica.

Nos Açores, infelizmente, a cultura e a preservação da memória coletiva têm sido, demasiadas vezes, secundarizadas, quando não mesmo remetidas para um plano de abandono e insuficiência de recursos. O resultado é que o passado vai-se dissipando lentamente na erosão do tempo e na fragilidade das intenções.

Falta-nos um compromisso consistente com o conhecimento e com a valorização plena do que fomos ao longo dos séculos. Em vésperas de assinalar os seiscentos anos do povoamento, seria oportuno que a região e, em boa verdade, o próprio país, assumisse uma aposta clara na valorização do seu património histórico. Criar novas valências museológicas, investir em programação cultural consistente e apoiar a investigação não é mera despesa, mas passos essenciais para dignificar o passado e projetar a região no futuro.

Ao contrário do que por vezes se supõe, a História não é um mero adorno que se convoca para decorar efemérides ou celebrações. É a argamassa invisível que mantém coesa a identidade de um povo. Quando devidamente instituídos e apoiados, os museus contribuem para consolidar o sentimento de pertença e são instrumentos fulcrais de afirmação cultural, social e até económica.

Num território arquipelágico como os Açores, onde a distância se faz fronteira e limite, preservar e interpretar a História é uma forma de afirmar quem somos e o lugar que ocupamos no mundo.

Valorizar a memória não é um custo, é um investimento no futuro.

 


quarta-feira, 11 de março de 2026

Speakers' Corner 75

O Dissolvente

Esta semana despedimo-nos do Presidente Marcelo. Não numa despedida absoluta e eterna, como aquele luto que algum país literato guardou por António Lobo Antunes, mas numa despedida formal e circunstancial do cargo de mais alto magistrado da nação.

Jovialmente soturno, a pé pela calçada, Marcelo abandonou o Palácio de Belém e rumou ao resto da sua vida. Já antes, de manhã, na cerimónia parlamentar, tinha mudado de cadeira numa dessas praxes antiquadas e circenses que o regime teima em preservar.

Talvez vá ao Multibanco, podemos imaginar, ou ao Santini para um gelado, mas já sem jornalistas correndo atrás das suas palavras nessa sofreguidão de sensações e sangue, ou sem primeiros-ministros de guarda-chuva a cobrirem-lhe a cabeça. Talvez, quem sabe, vá para o Brasil visitar os netos e fazer as pazes com o filho. Ou para Cascais, que, afinal, são quase a mesma coisa.

O país talvez lhe sinta saudades. O presidente dos afetos, num país que tantas vezes sofre de uma crónica falta de autoestima e de amor próprio. Marcelo, pelo contrário, quis fazer-nos felizes. Quis, mesmo que por vezes de forma infantil ou exagerada, arrancar-nos um sorriso.

Foi o presidente das câmaras e dos comentários, de encontros noturnos com jornalistas, lançando piadas nos anfiteatros, vivendo num permanente frenesim mediático. Uma espécie de catedrático das selfies, meio professor universitário, meio concorrente permanente de reality show, como se a política fosse uma versão ligeiramente mais engravatada da Casa dos Segredos. Foi-se. Talvez deixe saudades, quem sabe.

Se os presidentes da República tivessem cognomes, o de Marcelo seria: o Dissolvente. Ou o Decapante de Governos. Poucos políticos exerceram com tanta frequência esse poder de desgaste. Governos dissolvidos, maiorias fragilizadas, crises políticas sucessivas. Uma presidência que muitas vezes se confundiu com o comentário constante da vida pública, como se o país fosse um permanente direto televisivo.

O que fará agora que o palco se fechou, que os holofotes se apagam e que o pano cai sobre si? Alguém que sempre viveu tão perto da ribalta e do frenesim das notícias. Será que um dia o reconheceremos quando com ele nos cruzarmos na rua ou no corredor de uma mercearia, como acontece com velhos concorrentes do Big Brother que o tempo acabou por apagar das nossas memórias?

Essa vertigem pela popularidade é talvez o legado mais duradouro de Marcelo. Capaz tanto de um gesto sofisticado, como convidar o artista plástico Vhils para esculpir o seu retrato para a galeria dos presidentes, feito de folhas de jornais velhos, como do gesto oposto: a selfie final com o governo, numa espécie de cedência derradeira ao efémero e ao vazio.

A António José Seguro o que se pede não é tanto que se demarque de Marcelo, mas que consiga marcar uma presidência própria. Que devolva, talvez, alguma dignidade a um cargo que não existe para consolar o país, mas para defender e preservar os valores da Constituição. Que consiga ir além do ruído da governação e valorizar o que há de mais perene nos valores democráticos de uma sociedade humanista e solidária.

Nestes tempos de agrura e tempestade os abutres andam à espreita, planando sobre a democracia com o chilrear persistente dos populismos e dos extremismos. Há um cansaço nas gentes que queima mais do que mil incêndios. Há uma raiva no estômago que destrói mais do que grandes cheias e inundações.

Vai Marcelo. Entra Seguro. E o país pede apenas que o deixem seguir em frente. Um trabalho digno. Um hospital que funcione. Uma escola que ensine. E um salário que, por uma vez, chegue até ao fim do mês.

Pede que a política se faça com menos flashes, menos corridas à notícia de última hora e menos slogans estafados. Menos beijos, menos vídeos de TikTok e cabeleireiros.

Que a política seja menos espetáculo e mais responsabilidade. Menos mentira e mais verdade. Que seja, enfim, Política. E realidade.