A Boneca
A cada Quaresma, as vozes ritmadas dos romeiros invadem os
caminhos da ilha. Uma peregrinação sem destino, movida a preces e cansaços,
quase tão antiga como o povoamento.
Este ano, porém, as Romarias de São Miguel foram tomadas por
uma protagonista incomum. A cadela Boneca, que, de forma misteriosa, seguiu dia
após dia o rancho dos Fenais da Luz. Sem razão aparente, a Boneca apegou-se ao
grupo, caminhando com ele, partilhando-lhe os passos, entrando nas igrejas,
dormindo entre os homens. Mais tarde soube-se que tinha dona, que não era vadia,
e que aquela não era a primeira vez que o fazia, já por duas ocasiões
anteriores fugira para se fazer romeira, regressando depois à quietude da sua
vida doméstica.
Há dias, em conversa com um romeiro, comentávamos a
dificuldade de traduzir em palavras a experiência das Romarias. Não apenas de a
descrever, mas verdadeiramente dizê-la. De como essa vivência, íntima e particular,
resiste à linguagem e se ilude à literatura. Mesmo a fotografia, que fixa a
estética singular dos ranchos, permanece à superfície e a realidade concreta,
espiritual, da romaria continua, de alguma forma, por dizer.
Não há, ou ainda não houve, uma tradução artística que seja
fiel às Romarias. Talvez porque não tenha surgido ainda um autor que se
embrenhe nelas, que verdadeiramente caminhe nelas. Não alguém que observe de
fora, num gesto de distância, mas que participe na comunhão do rancho, que
aceite o cansaço e a fé, que se torne, de facto, irmão na jornada. Que caminhe
não para ver, mas para ser atravessado pelo caminho, abraçando essa lógica
transitória onde o tempo, o corpo e a oração se fazem um.
Mas há, creio, uma razão mais funda para essa
ininteligibilidade. A romaria resiste a ser dita porque, no essencial, não se
orienta para um fim, não converge para um ponto de consumação.
As romarias de São Miguel são romarias sem chegada. Não
porque falhem o destino, mas porque o recusam. A sua verdade não está no final,
mas na duração. Não na meta, mas no percurso. São estrada em vez de chegada. Ao
contrário de outras peregrinações, onde o culminar se dá no fim e o caminho se
orienta para um ponto de revelação, aqui o sentido dispersa-se ao longo do
percurso, dilui-se na repetição dos passos, na cadência das orações, na
circularidade do trajeto em torno da ilha e de si mesmo.
Os romeiros caminham numa espécie de paradoxo, avançam em
direção ao regresso, desenhando uma geografia interior, sempre com o mar a
bombordo. De sol a sol, de igreja em igreja, de ave-maria em ave-maria.
Essa imaterialidade, essa geografia da transcendência, torna
os romeiros um fenómeno singular, difícil de fixar em palavras. O seu destino é
o próprio ato de caminhar. O seu sentido, a experiência partilhada do tempo que
levam a fazê-lo.
E é aí que surge, como uma parábola, a história da Boneca.
Sem discurso, sem intenção aparente, sem qualquer pertença reconhecida à ordem
simbólica que sustenta a romaria, ela integra-se no seu movimento como se
sempre lhe tivesse pertencido. Segue o rancho, dia após dia, em silêncio,
partilhando o cansaço, não como intrusa, mas como presença natural. Num
franciscanismo puro, numa intuição de fraternidade universal onde todas as
criaturas participam do mesmo mistério.
E é precisamente aí que a sua presença ilumina o sentido
mais íntimo da romaria. Não apenas como metáfora, mas como revelação de uma
verdade mais pura, de uma dimensão da experiência espiritual que não passa pela
palavra, nem pela consciência. Uma espiritualidade muda, orgânica, onde o
humano e o animal, o sagrado e o natural, coexistem em comunhão.
A Boneca, que caminha sem dizer, acaba por nos falar mais
alto. O seu percurso fala com uma clareza que não passa pela razão, mas pelo
reconhecimento íntimo da transcendência. E nessa ausência de voz acaba por expressar
algo essencial: a perene necessidade dessa união entre a natureza, o homem e o
Divino.

