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quarta-feira, 25 de março de 2026

Speakers' Corner 77

Distopia insular

No meio da ebulição política regional, o cronista hesita.

De um lado, o espetáculo judiciário das investigações na Secretaria do Turismo e Transportes. Sessenta e cinco elementos da Judiciária e do Ministério Público, catorze mandados de busca entre Lisboa, Angra, Horta e Ponta Delgada, e um desfile de suspeições de prevaricação administrativa com a, hoje já saudosa, Ryanair. A novela habitual que se instala sempre que a justiça se imiscui pelos meandros da política. Desta vez, com o caricato episódio da interpretação legal sobre a putativa imunidade dos titulares de cargos públicos, em que a burocracia legislativa partidária se sobrepõe, sem pudor, ao primado ético da lisura. No ar, vários silêncios cúmplices pairam sobre a estupefação indignada do cidadão.

Do outro lado, as pequenas tricas camarárias cá do burgo, que, entre a ausência de turistas e a episódica agitação dos cruzeiros, vão correndo ao sabor de acusações mútuas entre executivo e oposições, com direito, até, a votos de protesto do Presidente da Câmara à atuação do Movimento PDL Para Todos, numa inversão de papéis que oscila entre o insólito e o involuntariamente cómico.

Pelo meio, os epifenómenos da PDL26, Capital Portuguesa da Cultura, prosseguem de forma plácida, quase invisível. Uma espécie de serenidade deslocada, como se tudo decorresse numa realidade alternativa, num curioso contraste com o ambiente de sobressalto político, imune às inquietações do quotidiano e a este bipolar clima de alvor primaveril açoriano.

Confesso que tinha prometido a mim mesmo não voltar a escrever sobre a Capital da Cultura. Para desencanto, chegam as dores de um turismo cada vez mais subjugado a invernos prolongados e taxas de ocupação decadentes, num cenário dantesco de crise acelerada. Ainda assim, este fim de semana, a PDL26 teve o seu primeiro momento literário, com uma pitada de tempero gastronómico, num vasto programa de atividades que até o famoso e idiossincrático Presidente da Câmara de Oeiras, reconhecido literato (na versão pantagruélica do termo), prometia trazer a Ponta Delgada.

Infelizmente, ou talvez sarcasticamente, a organização do evento, pouco habituada aos humores do nosso clima, teve direito a um curso rápido de insularidade, confrontada com a velha realidade dos caprichos meteorológicos atlânticos, uma sina a que somos reconhecidamente atreitos. Pelo que pude acompanhar, dos cerca de quinze eventos programados, quatro deles “jantares literários”, a maioria foi cancelada por impossibilidades aeronáuticas devidas às inclemências do tempo, que nos fustigou sem piedade durante cinco dias seguidos.

Talvez tenha sido pelo melhor, pois, no único evento a que tive a possibilidade de assistir, um aliciante debate sobre “A Nova Poesia Açoriana”, o público presente resumia-se a cerca de uma dúzia de pessoas, entre curiosos, como eu, organizadores e uma mão de ilustradores, convidados, suspeito, para compor a fotografia da sala. Deste ficou a revelação de que a) não existe nova, nem b) poesia açoriana. O que daria toda uma outra crónica.

O que tudo isto evidencia é um desligamento quase total da PDL26, pelo menos na sua vertente literária, com a sociedade local. Há uma sensação de desencontro, como se a proposta cultural e a realidade insular habitassem dimensões distintas. Uma espécie de distopia, feita de boas intenções e resultados incertos, que apenas gera embaraço e uma inquietação difícil de ignorar.

Em sentido inverso, no dia 21, um sábado cinzento, a Livraria Solmar, um dos faróis da cultura insular, celebrou 35 anos com o lançamento da reedição, pela Artes e Letras, de “caderno de mitos pessoais”, do poeta leonardo, dono de uma voz poética tão acutilante quanto cintilante. Com casa cheia e animada, o encontro foi prova limpa de que a literatura, nova ou velha, açoriana ou do mundo, está viva na ilha e não precisa de utopias para se afirmar ou para reunir em torno de si toda uma comunidade.

 


terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Obrigado, Vamberto Freitas

O estabelecimento de um cânone literário é uma questão sensível e polémica que agita permanentemente os meios culturais, em especial os académicos, dando azo a acesas discussões e, não raro, a diálogos inflamados e emotivas cisões entre contendores apaixonados. Um cânone não é um gesto neutro nem exclusivamente estético; resulta, antes, de um processo cumulativo de participações em que convergem o tempo, a crítica, as instituições e a persistência das obras, bem como — e não menos importante — a resiliência dos autores. Um cânone forma-se quando determinados textos deixam de ser apenas livros e passam a funcionar como referências simbólicas: obras que estruturam a leitura de uma tradição, resistem à erosão do tempo e são continuamente retomadas, discutidas, ensinadas e reeditadas. Este processo implica sempre escolhas e exclusões, revelando relações de poder cultural e disputas de legitimidade, sobretudo quando se trata de literaturas periféricas ou regionais, como é o caso particular dessa coisa em forma de bruma chamada Literatura Açoriana.

Ora, neste affair da literatura açoriana, a questão central, hoje, não é a sua existência — longa, diversa e consistente — mas o seu reconhecimento enquanto corpo literário específico, dotado de coerência histórica, densidade temática e autonomia simbólica. Essa especificidade constrói-se pela continuidade geracional, pela inscrição da insularidade, ou açorianidade, se quisermos, como condição existencial (e não mero cenário ou adereço), por marcas rítmicas e discursivas próprias e por uma consciência crítica da identidade açoriana que recusa tanto o folclore como a autocomplacência. Uma literatura afirma-se plenamente quando é capaz de se pensar a si mesma, interrogando os seus mitos fundadores e a sua posição face ao centro cultural e, no caso concreto de uma literatura de matriz insular atlântica, face a uma dupla periferia: lusitana e europeia, mas também anglo-saxónica e americana.

É neste contexto de uma dicotomia geoestratégica da língua e da literatura que o papel do Professor Vamberto Freitas se torna decisivo, nos últimos anos, na definição dos azimutes próprios da afirmação de uma literatura açoriana e da sua autonomia face aos polos centralizadores da sua existência. Mais do que como académico ou ensaísta isolado, a sua intervenção tem sido a de um mediador persistente entre obras, autores, leitores e instituições. Através de uma crítica literária contínua, exigente e publicamente visível, Vamberto Freitas contribuiu para a legitimação da literatura açoriana como campo de reflexão estética e não como simples variante regional da literatura portuguesa. O seu trabalho ajudou a fixar autores, a estabelecer diálogos entre gerações, e entre margens desse grande mar atlântico, a criar critérios de leitura e a inscrever a literatura açoriana no debate crítico nacional e internacional.

Ao exercer uma crítica regular, informada e assumidamente situada, Vamberto Freitas não se limitou a comentar livros: ajudou a construir uma narrativa de tradição, condição essencial para qualquer cânone. Num espaço marcado pela dispersão geográfica e pela histórica marginalização cultural, essa persistência crítica revelou-se fundamental para transformar produção literária em património simbólico. Assim, o reconhecimento contemporâneo da Literatura Açoriana como género de pleno direito deve-se, em larga medida, a esse trabalho de longa duração, em que a crítica funciona não como ornamento, mas como verdadeiro ato fundador.

No meu caso pessoal, o Professor Vamberto Freitas foi sempre mais do que um leitor atento e um crítico culto, informado e supremamente digno: foi, acima de tudo, um amigo que, através do seu estímulo permanente, me permitiu a afirmação não apenas como cronista, mas como autor. Por tudo isto, nesta data simbólica, o meu profundo e sentido agradecimento.

Vila Franca do Campo, 4 de fevereiro de 2026

in, Revista Filamentos