quarta-feira, 22 de abril de 2026

Speakers' Corner 81

A Ilha sem Deus

Olhar o mar enquanto escrevo é em si uma dupla metáfora. Para lá do horizonte de águas alisadas pelo vento, o céu cinzento, pincelado de chuva, responde-me com o mesmo vazio branco do papel no ecrã. A mesma silenciosa ausência. O mar, como toda a literatura, convida e acolhe com a mesma força com que expulsa e castiga. São as intermitências do tempo, os humores do clima que, na ilha, se multiplicam com a velocidade dos segundos, nesse cambiante popular das quatro estações num dia.

Abril passou com a promessa de um falso verão, dias limpos, com águas gélidas, mas transparentes. Mas os dias de sol são entrecortados por súbitas interrupções de frentes frias, que chegam com ventos castigadores e chuvadas desarmantes. Na ilha, esperamos pelo clima como quem aguarda um autocarro na paragem, nunca confiando nos horários, com uma dupla dose de enfado e resignação.

Olho por sobre o computador outra vez para o mar. Hesito, não sei sobre o que escrever. Todos os temas me parecem esgotados, gastos, velhos, cansados. Ou talvez seja eu que me canso deles. Como naqueles desconfortáveis silêncios das ocasiões sociais, quando não temos nada para dizer, falamos do clima. Das descontinuidades meteorológicas. O frio, a chuva, uma nesga de sol, são os desbloqueadores de conversa mais usados, logo depois do álcool. Eu, que já não bebo, fico calado. Chateia-me o clima. As pessoas aborrecem-me. Não por misantropia ou antipatia social aos conhecidos, mas por um enfado perturbado, feito de incompreensão natural e de um certo pudor proustiano.

Procuramos nos outros uma razão para nós próprios. Nas relações, um sentido para tudo isto. No amor, o Norte. Em alguém, a estrela polar que indique o caminho. Um sol que talvez ilumine as noites interiores e sós de ser. Da vida. De cada dia. O trabalho e os filhos. O preço da gasolina e os juros da banca. Esticar o dinheiro com a mesma ânsia com que se joga no Euromilhões que não sai, mas, se não jogares, também não sai. E nunca sai. Mas continuas a jogar, da mesma forma que continuas a tentar esticar o dinheiro que nunca estica.

Ao meu lado, na mesa de cabeceira, as mil e setenta e oito páginas, 750 gramas, de Infinite Jest, do David Foster Wallace, que não li há trinta anos, por sobranceria juvenil e clubismo. Naquela altura, éramos quase todos da equipa Bret Easton Ellis, que tinha sexo e drogas e o mesmo vazio, mas com menos antidepressivos. Um livro tão vasto e surpreendente como este mar em frente, onde o encrespado das ondas se esvai em espumas brancas levadas pelo vento que sopra na superfície prateada das águas. E, um pouco mais ao lado, ergue-se, tombado sobre o dorso, o Ilhéu. Como um cetáceo antigo e fossilizado, arrojado sem vida no areal. Uma memória de Deus para um ateu como eu.

Do outro lado da cama, na outra mesa de cabeceira, O Louco de Deus no Fim do Mundo, de Javier Cercas, que a Rita está a ler e me diz que vou gostar. Um livro sobre a busca de sentido, numa viagem com o Papa Francisco, para um ateu como eu.

Quem tem a ilha não precisa de Deus.

Viver na ilha é como ver a Terra do espaço. O mundo contempla-se a si próprio sem precisar de justificação. Ser é o seu próprio sentido. A perceção física do limite e da perene finitude das coisas. O deslumbramento imperfeito das manifestações naturais. O vapor das horas que se condensa nas montanhas. O verde das esperanças que se espraia nos olhos. A água que tropeça no entrecortado das ribeiras. A constância do mar. A sua infinita paciência para com todos os nossos sonhos. A ilha não nos fecha, a ilha abre-se ao horizonte e à promessa de uma folha em branco e muros de pedra.

A ilha. Estas nove ilhas, estes nove corpos de tempo, natureza e ambição, e essa décima ilha de tantas gentes espalhadas pelo mundo, em viagem de origem e destino, não se dizem nem se explicam, não carecem de razão, nem de Deus.

A ilha é um navio onde cada um de nós navega a sua solidão.

 

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Speakers' Corner 80

O mundo está perigoso

Era com esta frase dramática que Vasco Pulido Valente, na sua cáustica ironia, costumava terminar os seus artigos. Os historiadores, essa velha profissão que Pulido Valente também praticava, dir-nos-ão que o mundo sempre foi perigoso, tal é a raiz da natureza humana. Já os praticantes da astrologia ou da cartomancia dirão, por sua vez, que a roda da fortuna é imparável, fazendo girar os espíritos numa alternância entre a bem-aventurança e a desgraça.

Hegel chamou-lhe a “espiral dialética da história”. Marx discerniu aí uma perturbadora dicotomia entre a tragédia e a farsa. Outros chamar-lhe-ão, simplesmente, o devir, onde nada é permanente, exceto a própria mudança, como bem ensinou o poeta. A verdade é que a vida nos arrasta nesta viagem inconstante entre dor e prazer, tristeza e alegria, num movimento pendular feito de agruras, conquistas e outras qualidades.

Nesse permanente acontecer de que é composto o mundo, Donald Trump, espécie de cruzamento entre um Mussolini sem farda e um Henry Ford do betão armado, estrangulado pelo Estreito de Ormuz, enviou o seu acólito principal, o vice-presidente J.D. Vance, para uma negociação relâmpago com líderes iranianos em Islamabad. Julgando ter uma mão de ases num jogo de póquer, Vance foi afinal confrontado com uma partida de xadrez, mais lenta, densa e imprevisível, recolocando as turbinas do mundo, sedentas do óleo desse velho Ormuz de Afonso de Albuquerque, num novo impasse.

Antes desse encontro no Paquistão, o polémico vice-presidente norte-americano fizera escala em Budapeste para apoiar Viktor Orbán, envolvido numa disputada campanha eleitoral que acabaria por perder. Numa espécie de “internacional nacionalista”, passe a contradição dos termos, os líderes do populismo demagógico mundial procuram proteger-se mutuamente, alheios à clara incoerência de querer internacionalizar um impulso que é, por definição, patrioteiro, identitário e hostil ao outro.

As eleições húngaras ilustram bem esta irracionalidade da política atual. A vitória de Péter Magyar foi saudada como um triunfo sobre o radicalismo, mas quem olhe com atenção para o percurso do vencedor não pode ficar satisfeito. Saído das fileiras do Fidesz, o partido de Orbán, Magyar construiu a sua oposição na sequência de um escândalo envolvendo a ex-mulher, Judit Varga, então ministra da Justiça. A divulgação de uma gravação privada, feita pelo próprio e tornada pública sem consentimento, expôs não apenas o caso, mas também um traço perturbador do seu carácter político.

O partido a que se associou, o Tisza, apresenta-se como uma força conservadora de centro-direita, alinhada com a União Europeia, mas sustentada num discurso de combate à corrupção e não esconde posições extremadas em matéria de imigração, nem certos tiques populistas na abordagem à justiça e ao sistema político. A diferença em relação ao projeto de Orbán parece ser mais de estilo do que de substância. Como já alguém observou de forma contundente, é como celebrar uma vitória de Nuno Melo sobre André Ventura.

No entretanto, por cá, também se assiste a sinais desta alucinação coletiva que atravessa a política global. O Presidente do Governo Regional dos Açores, José Manuel Bolieiro, tornou-se alvo de chacota pública pelas suas posições rocambolescas relativamente à Base das Lajes. No seu espaço de comentário político na TVI, Miguel Sousa Tavares sublinhou como, para Bolieiro, numa visão do mundo que faz tábua rasa dos princípios que deveriam reger a ordem internacional e o Estado de direito, pouco importa quem utiliza a base ou com que finalidade, desde que pague para o fazer. Tornando os Açores no equivalente a uma meretriz de casa de alterne barata ao serviço do freguês mais abonado.

Talvez, afinal, não seja o mundo que está perigoso. Talvez sejamos nós que, de Ormuz às Lajes, vamos aceitando que tudo tenha um preço, até aquilo que julgávamos não estar à venda.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Speakers' Corner 79

Um dia em Como e outro tiramisù

Estava um dia claro e luminoso, de luz penetrante, sob um céu azul desassombrado, numa frígida manhã de abril. Um vento gélido e incisivo, descendo imperturbado do cume dos Alpes, trespassou-nos o rosto quando descemos os degraus do comboio na quase inconspícua vila de Varenna, vindos, logo cedo, de Milão. Descendo pela Via Imbarcadero, abeirámo-nos do terminal do ferry, com o curioso Hotel Olivedo em frente, a sua forma retangular erguendo-se, impositiva, três andares acima da envolvente, sem outros edifícios a rodeá-lo, de onde partimos para Bellagio, já no coração do Lago de Como.

Rendilhadas ao longo das margens do lago, as pequenas vilas sobem pelas colinas como ramos de vinhas antigas e amadurecidas. Grandes palacetes de nobreza reservada debruçam-se, em colunatas de inspiração romana, sobre as águas transparentes, fazendo ecoar histórias milenares de um passado sem fim. Canteiros de flores cuidadosamente tratados ornamentam jardins pontuados de árvores, limoeiros carregados de frutos reluzentes anunciam a promessa de licores agridoces. Estátuas de deuses e heróis, de nomes já esquecidos, pontuam os caminhos por onde passeamos, lenta e maravilhadamente.

Do ferry, que nos leva numa curta e pachorrenta viagem de poucos minutos, avistamos a fachada imponente do Grand Hotel Villa Serbelloni. Construído em 1850 como prenda de aniversário do conde Frizzoni, de Bérgamo, para a sua mulher, foi mais tarde adquirido pela família Bucher, da Suíça. Também conhecido como Grand Hotel Bellagio, foi, ao longo das décadas, refúgio de grandes nomes da política, das finanças e do espetáculo, como Churchill, J. F. Kennedy, os Rothschild, Clark Gable ou Al Pacino. Já na outra margem do lago, em Laglio, fica a famosa Villa Oleandra, uma mansão do século XVIII mandada construir pela família Stoppani, de Milão, e que George Clooney terá adquirido por dez milhões de dólares aos herdeiros da fortuna da maionese Heinz.

Bellagio recebe-nos com esse encantador charme italiano de ruas serpenteantes que sobem em escadarias estreitas pelas colinas íngremes, esplanadas de mesas engalanadas com toalhas impecavelmente brancas a decorar os passeios, enquanto as clássicas lanchas Vaporina, de madeira envernizada, balançam ao sabor das águas que batem suavemente no cais. Depois de um breve passeio pelas lojas, entre sedas, peles e caxemiras, subimos até à Via Centrale para almoçar no La Fontana: scialatielli alle vongole in bianco con crema di porri profumato al basilico e, para sobremesa, tiramisù.

Nesta viagem fizemos uma prova de tiramisù. Em cada restaurante, pedíamos a famosa sobremesa italiana, inventada, diz a lenda, pela dona de um bordel de Treviso, para revigorar os seus clientes, daí o lânguido nome, “levanta-me”. Com os seus palitos de la reine embebidos em café, creme de ovo, mascarpone e cacau em pó, concluímos que existem infindáveis receitas de tiramisù, todas elas saborosamente magníficas. O debate sobre qual o melhor poderia prolongar-se indefinidamente, tal como gostaríamos que esta viagem também se tivesse prolongado.

No mundo, existem muitos lugares tão ou mais deslumbrantes, mas Bellagio e as suas vilas irmãs, nas margens do Lago de Como, compõem um quadro inigualável que rivaliza, para não dizer que ultrapassa, em beleza e encanto muitos outros lugares, merecendo, por isso, uma visita pelo menos uma vez na vida.

Um dos prazeres de sair dos Açores, aliás, para além do ato em si de deixar a bruma para trás, é perceber que, apesar de toda a sua beleza e encanto, e de toda a retórica que tantas vezes nos eleva a medida absoluta de comparação, os Açores não são, de facto, o melhor ou o mais belo lugar do mundo. E talvez seja precisamente essa compreensão que dá mais valor ao regresso. Não a ilusão falaciosa da nossa superioridade ou excecionalidade, mas a consciência mais justa do lugar que realmente ocupamos no vasto rol das maravilhas do mundo.

 

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Speakers' Corner 78

A Boneca

A cada Quaresma, as vozes ritmadas dos romeiros invadem os caminhos da ilha. Uma peregrinação sem destino, movida a preces e cansaços, quase tão antiga como o povoamento.

Este ano, porém, as Romarias de São Miguel foram tomadas por uma protagonista incomum. A cadela Boneca, que, de forma misteriosa, seguiu dia após dia o rancho dos Fenais da Luz. Sem razão aparente, a Boneca apegou-se ao grupo, caminhando com ele, partilhando-lhe os passos, entrando nas igrejas, dormindo entre os homens. Mais tarde soube-se que tinha dona, que não era vadia, e que aquela não era a primeira vez que o fazia, já por duas ocasiões anteriores fugira para se fazer romeira, regressando depois à quietude da sua vida doméstica.

Há dias, em conversa com um romeiro, comentávamos a dificuldade de traduzir em palavras a experiência das Romarias. Não apenas de a descrever, mas verdadeiramente dizê-la. De como essa vivência, íntima e particular, resiste à linguagem e se ilude à literatura. Mesmo a fotografia, que fixa a estética singular dos ranchos, permanece à superfície e a realidade concreta, espiritual, da romaria continua, de alguma forma, por dizer.

Não há, ou ainda não houve, uma tradução artística que seja fiel às Romarias. Talvez porque não tenha surgido ainda um autor que se embrenhe nelas, que verdadeiramente caminhe nelas. Não alguém que observe de fora, num gesto de distância, mas que participe na comunhão do rancho, que aceite o cansaço e a fé, que se torne, de facto, irmão na jornada. Que caminhe não para ver, mas para ser atravessado pelo caminho, abraçando essa lógica transitória onde o tempo, o corpo e a oração se fazem um.

Mas há, creio, uma razão mais funda para essa ininteligibilidade. A romaria resiste a ser dita porque, no essencial, não se orienta para um fim, não converge para um ponto de consumação.

As romarias de São Miguel são romarias sem chegada. Não porque falhem o destino, mas porque o recusam. A sua verdade não está no final, mas na duração. Não na meta, mas no percurso. São estrada em vez de chegada. Ao contrário de outras peregrinações, onde o culminar se dá no fim e o caminho se orienta para um ponto de revelação, aqui o sentido dispersa-se ao longo do percurso, dilui-se na repetição dos passos, na cadência das orações, na circularidade do trajeto em torno da ilha e de si mesmo.

Os romeiros caminham numa espécie de paradoxo, avançam em direção ao regresso, desenhando uma geografia interior, sempre com o mar a bombordo. De sol a sol, de igreja em igreja, de ave-maria em ave-maria.

Essa imaterialidade, essa geografia da transcendência, torna os romeiros um fenómeno singular, difícil de fixar em palavras. O seu destino é o próprio ato de caminhar. O seu sentido, a experiência partilhada do tempo que levam a fazê-lo.

E é aí que surge, como uma parábola, a história da Boneca. Sem discurso, sem intenção aparente, sem qualquer pertença reconhecida à ordem simbólica que sustenta a romaria, ela integra-se no seu movimento como se sempre lhe tivesse pertencido. Segue o rancho, dia após dia, em silêncio, partilhando o cansaço, não como intrusa, mas como presença natural. Num franciscanismo puro, numa intuição de fraternidade universal onde todas as criaturas participam do mesmo mistério.

E é precisamente aí que a sua presença ilumina o sentido mais íntimo da romaria. Não apenas como metáfora, mas como revelação de uma verdade mais pura, de uma dimensão da experiência espiritual que não passa pela palavra, nem pela consciência. Uma espiritualidade muda, orgânica, onde o humano e o animal, o sagrado e o natural, coexistem em comunhão.

A Boneca, que caminha sem dizer, acaba por nos falar mais alto. O seu percurso fala com uma clareza que não passa pela razão, mas pelo reconhecimento íntimo da transcendência. E nessa ausência de voz acaba por expressar algo essencial: a perene necessidade dessa união entre a natureza, o homem e o Divino.