O Dissolvente
Esta semana
despedimo-nos do Presidente Marcelo. Não numa despedida absoluta e eterna, como
aquele luto que algum país literato guardou por António Lobo Antunes, mas numa
despedida formal e circunstancial do cargo de mais alto magistrado da nação.
Jovialmente
soturno, a pé pela calçada, Marcelo abandonou o Palácio de Belém e rumou ao
resto da sua vida. Já antes, de manhã, na cerimónia parlamentar, tinha mudado
de cadeira numa dessas praxes antiquadas e circenses que o regime teima em
preservar.
Talvez vá ao
Multibanco, podemos imaginar, ou ao Santini para um gelado, mas já sem
jornalistas correndo atrás das suas palavras nessa sofreguidão de sensações e
sangue, ou sem primeiros-ministros de guarda-chuva a cobrirem-lhe a cabeça.
Talvez, quem sabe, vá para o Brasil visitar os netos e fazer as pazes com o
filho. Ou para Cascais, que, afinal, são quase a mesma coisa.
O país talvez
lhe sinta saudades. O presidente dos afetos, num país que tantas vezes sofre de
uma crónica falta de autoestima e de amor próprio. Marcelo, pelo contrário,
quis fazer-nos felizes. Quis, mesmo que por vezes de forma infantil ou
exagerada, arrancar-nos um sorriso.
Foi o
presidente das câmaras e dos comentários, de encontros noturnos com
jornalistas, lançando piadas nos anfiteatros, vivendo num permanente frenesim
mediático. Uma espécie de catedrático das selfies, meio professor
universitário, meio concorrente permanente de reality show, como se a
política fosse uma versão ligeiramente mais engravatada da Casa dos Segredos. Foi-se.
Talvez deixe saudades, quem sabe.
Se os
presidentes da República tivessem cognomes, o de Marcelo seria: o Dissolvente.
Ou o Decapante de Governos. Poucos políticos exerceram com tanta frequência
esse poder de desgaste. Governos dissolvidos, maiorias fragilizadas, crises
políticas sucessivas. Uma presidência que muitas vezes se confundiu com o
comentário constante da vida pública, como se o país fosse um permanente direto
televisivo.
O que fará
agora que o palco se fechou, que os holofotes se apagam e que o pano cai sobre
si? Alguém que sempre viveu tão perto da ribalta e do frenesim das notícias. Será
que um dia o reconheceremos quando com ele nos cruzarmos na rua ou no corredor
de uma mercearia, como acontece com velhos concorrentes do Big Brother que o
tempo acabou por apagar das nossas memórias?
Essa vertigem
pela popularidade é talvez o legado mais duradouro de Marcelo. Capaz tanto de
um gesto sofisticado, como convidar o artista plástico Vhils para esculpir o
seu retrato para a galeria dos presidentes, feito de folhas de jornais velhos, como
do gesto oposto: a selfie final com o governo, numa espécie de cedência
derradeira ao efémero e ao vazio.
A António José
Seguro o que se pede não é tanto que se demarque de Marcelo, mas que consiga
marcar uma presidência própria. Que devolva, talvez, alguma dignidade a um
cargo que não existe para consolar o país, mas para defender e preservar os
valores da Constituição. Que consiga ir além do ruído da governação e valorizar
o que há de mais perene nos valores democráticos de uma sociedade humanista e
solidária.
Nestes tempos
de agrura e tempestade os abutres andam à espreita, planando sobre a democracia
com o chilrear persistente dos populismos e dos extremismos. Há um cansaço nas
gentes que queima mais do que mil incêndios. Há uma raiva no estômago que
destrói mais do que grandes cheias e inundações.
Vai Marcelo.
Entra Seguro. E o país pede apenas que o deixem seguir em frente. Um trabalho
digno. Um hospital que funcione. Uma escola que ensine. E um salário que, por
uma vez, chegue até ao fim do mês.
Pede que a
política se faça com menos flashes, menos corridas à notícia de última hora e
menos slogans estafados. Menos beijos, menos vídeos de TikTok e cabeleireiros.
Que a política
seja menos espetáculo e mais responsabilidade. Menos mentira e mais verdade. Que
seja, enfim, Política. E realidade.


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